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:: 24/set/2026 . 23:51

UM CEMITÉRIO PERDIDO

  Por este Nordeste a fora não é difícil encontrar cemitérios abandonados, perdidos dentro da caatinga, muitos à beira de estradas e veredas, em povoados, antigas fazendas de coronéis e arraiais. Pelo aspecto, percebe-se que são de pessoas pobres, muitas enterradas até em redes ou cobertas na falta de um caixão. A grande maioria de crianças e idosos mortos por doenças várias, pela fome das secas implacáveis e até mesmo vítimas do cangaço e das forças policiais brutais dos chefes políticos e detentores do poder. Lembra até do poema “Morte e Vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que fala do sertanejo retirante que morre na miséria no meio do caminho. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo, próximo ao povoado da Tapera, município de Encruzilhada, nossas lentes flagraram um cemitério nestas condições de abandono dentro do matagal seco, se bem que muitas covas ainda conservam carneiras destruídas pelo tempo e por dentro do capinzal muitas cruzes. Os moradores calculam que o cemitério deva ter cerca de 100 anos de existência ou até mais que isso quando ainda não havia um local reservado aos mortos no surgimento do povoado. Como respeito aos que se foram, respeitando as tradições culturais religiosas populares, o local poderia ser limpo e cercado como forma de preservação da memória daqueles que partiram para outro além.

 

OS DOZES MESES

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Janeiro matreiro chegou,

Com uma ressaca de lascar,

Nem reguei minha flor,

Só contas a pagar:

Logo vem aí o IPTU,

Material escolar e o IPVA.

 

Lá vem fevereiro,

No arrastão do carnaval,

O mês mais curto ligeiro,

No calendário do varal,

Místico, profano-religioso,

E o tempo segue tinhoso.

 

Março é como começo de ano,

Dos estudantes às aulas,

Muita gente dando o cano,

No desarrumar das malas,

Só faturas e boletos vencendo,

E cobranças na porta chegando.

 

Geralmente abril abre comportas,

Para penitência e a paixão,

As nuvens parecem tristes e mortas,

No agreste só se ver sequidão,

O índio espanta as tragédias,

E os números superam as médias.

 

Maio surge com sorriso de amor,

Celebra-se o Dia das Mães,

Umas felizes, outras com sua dor,

Sente-se o som dos forrozões,

Anunciando o nosso festão,

E o comércio fatura seu milhão.

 

Junho é dos santos juninos,

Santo Antônio, Pedro e João,

Salve, salve os nordestinos!

Que têm o Rei do Baião,

É o mês das crendices e da fé,

Das quadrilhas e do arrasta-pé.

Julho é o mês do imperador,

De Júlio César, o romano,

Da Gália, o grande conquistador,

Com a força de um espartano,

No meio do frio invernoso

Na divisa do caminho espinhoso.

 

Chamam de agosto, o agourento,

Da sexta-feira treze, o terror,

Sempre grande acontecimento,

Mês do rei Augustus, o vencedor,

Getúlio nele se suicidou

E Jânio do Governo renunciou.

 

Setembro é bagaceira e lamento

Da primavera que pouco flora

Por causa do desmatamento,

Com tanto fogo e a natura chora,

Comemora-se a independência,

Que ainda não saiu da indigência.

 

Outubro é dedicado às crianças,

Também da Senhora Aparecida,

Romeiros cheios de fé e esperanças,

Crenças que refletem nossa vida,

De virtudes, vitórias e lasqueiras,

Uns subindo, outros descendo ladeiras.

 

Vem finados em novembro,

Ainda tinha o dois de todos os santos,

Dos meus pais sempre lembro,

Os anúncios entram com seus encantos,

Que comovem incautos passageiros,

Neste trem de estrangeiros.

 

Dezembro é o Natal sem Fome,

Mais o fim de uma estrada de andança,

A felicidade entra e depois some,

O rico no banquete enchendo a pança,

Boas festas, luzes e foguetórios,

E poucos com Cristo em seus oratórios.

 

Assim caminha o nosso povo,

Todo mês com suas cores,

Achando que tudo é novo,

Na mistura de alegrias e dores,

Embarca na mesma estação,

E repete na viola a velha canção.

 





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