:: 25/set/2026 . 0:18
AS SECAS SECULARES NORDESTINAS
Historiadores, antropólogos, sociológicos, pesquisadores, geólogos, jornalistas e escritores em geral se debruçaram sobre os efeitos das secas seculares nordestinas, muitas das quais ficaram na memória como “massacres de guerras” diante dos milhares de mortes em consequência da cruel fome.
O solo entorroado da caatinga jugulado pela estiagem deixa na imensidão uma paisagem cinzenta de garranchos estorricados onde a fauna e a flora passam uma imagem de deserto, pontuado por algumas plantas e árvores resistentes, como cactos, mandacarus, umbuzeiros e juazeiros.
Em muitas partes predominam os pedregulhos e em outras a terra desertificada e salinizada pelo tempo. Aqui mesmo na Bahia temos o Raso da Catarina, em Paulo Afonso, uma grande área inóspita de moitas espinhentas e areões infestados de cascavéis que somente os cangaceiros se atreveram a penetrar como local de esconderijos.
Os mais fortes ainda conseguiam prolongar suas vidas se servindo de raízes de umbuzeiros, da água dos cactos, do cipó seco de mucunã e outros meios que somente os nordestinos do sertão profundo tinham o conhecimento dessa natureza. Aprenderam com os índios dizimados pelos colonizadores a partir dos séculos XVI e XVII.
A história dá conta das secas mais mortíferas desde a invasão dos portugueses em solo brasileiro, como as de 1559, 1592, 1690/92, 1774/76, 1790/93, 1802/04, 1825/26, 1877/79/80 (a mais inclemente ao ponto do imperador propor oferecer suas joias), 1902/04, 1915, relatada por Raquel de Queiroz em “O Quinze|” onde fala do período dos “currais humanos” ou campos de concentração, no Ceará (iguais a de 1877/80), bem como por Rodolfo Teófilo no livro documental “A Seca de 1915”, as de 1930/32 e dez anos depois, em 1942.
O alagoano e escritor, considerado regionalista, Graciliano Ramos foi o que mais penetrou nesta questão com profundidade e linguagem realística socialista através das suas obras, com destaque para “Vidas Secas” e “São Bernardo”. Ele mostrou por dentro e de forma objetiva toda dureza das secas.
Séculos e séculos se passaram e elas permanecem como flagelos dos nordestinos, embora menos sofridas em relação àqueles tempos porque depois de muito clamor e mortandades de retirantes maltrapilhos tombados nas estradas, os governantes resolveram construir alguns açudes, aguadas e tanques, até utilizando trabalhos forçados. As cisternas também entraram em ação, mas a “indústria da seca” ainda serve como instrumento de voto.
Mais recentemente resolveram transportar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, cansado de “guerras” para alguns estados através da abertura de canais que não chegam a atender às populações de todos os rincões nordestinos porque ainda ficam restritos aos poderosos plantadores de frutas exportáveis.
Depois de 500 anos de sofrimento, em pleno século XXI, ainda se cruza com carros-pipas pelas estradas poeirentas, com cargas de carotes de jumentos (quase extintos pelas matanças dos frigoríficos), mulheres com latas d´água na cabeça e as lágrimas nos olhos pela perda das plantações e dos animais de criação.
Como repórter profissional em coberturas jornalísticas entre os anos 70 e início dos anos 2000, fui testemunho de muitas cenas chocantes de sertanejos castigados pelas secas que deixaram rastros de miséria, fome, separação de famílias, gente se alimentando de raízes tóxicas e as tais “viúvas das secas”, de crianças desnutridas em seus colos porque seus maridos partiram para o Sul (São Paulo, Rio, Paraná) e não mais voltaram e nem deram notícias.
Quando ainda menino em meu torrão sertanejo, fui vítima delas e nos valíamos do coco do Ouricuri e até do maracujá brabo caipira. Com o aquecimento global, ou mudanças climáticas, como queiram, numa temperatura que só aumenta onde o sol faísca suas escamas prateadas, as secas nordestinas estão aí mostrando suas garras e caras cavernosas de foice na mão.
No momento atual, todo sertão já está sofrendo, como o município de Vitória da Conquista (sua maior parte está no semiárido) e região (Anagé, Aracatu, Caetanos, Tanhaçu, Belo Campo, Tremedal, Piripá e outros), com pedidos de emergência pelos prefeitos. O cenário pouco muda, mesmo com mais recursos públicos.
Em trânsito semana passada, entre o distrito de Inhobim até Encruzilhada, pude observar a sequidão que sempre serviu de manchetes de jornais e matéria-prima para jornalistas, escritores, cronistas, estudiosos, poetas e cordelistas.
As secas vão sempre fazer parte da vida dos nordestinos, um povo com muitas histórias para contar, de religiosidades, esperanças, fé, messianismo, lutas, cangaço e rico em suas culturas populares. Possui ainda seu bioma chamado caatinga, sem igual no mundo.
O PULÔVER CHEIRAVA A NAFTALINA
(Chico Ribeiro Neto)
As tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina não impedia a reunião da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. “Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas são um caso sério”.
Chove na rua da minha infância e toda essa água descendo a Ladeira dos Aflitos vai parar na velha “Praia de Doutor Barros”, vizinha à Praia da Preguiça.
De manhã, saía o sol e o brilho dos paralelepípedos lavados doía um pouco nos olhos. Empurrados para a beira da boca-de-lobo, montinhos que tinham de um tudo: folha, barbante, caixinha de chiclete e pedaços de bola de gude.
A pequena enxurrada junto ao meio-fio me traz barquinhos e lembranças.
Pulôver. Só de pronunciar essa palavra já me sentia um pouco mais aquecido. Tinha que usá-lo por cima de alguma blusa senão espinhava muito.
Era hora de pegar alguma revista, pois lá fora está chovendo muito. Mas era só passar um pouquinho que lá ia todo mundo correndo pro murinho do Edifício Tuiuti justamente na esquina com a Ladeira dos Aflitos, pois dava pra se ver tudo: as meninas que saíam de lambreta e as que não saíam, apenas rodavam as saias e jogavam sorrisos pra cá.
Encontro “Gel Beleza” no Shopping Iguatemi, e os chopes vão puxando mais lembranças. Temos conversa pra noite toda, pois da infância quanto mais lembrança se tira, mais se tem. Desfiá-las é um prazer insubstituível.
Se a chuva passa mais, a gente pode jogar gude. Caso contrário, só resta o Banco Imobiliário. Não dá pra picula, pois tá escorregando muito.
Quem sabe um baba daqui a pouco? Jogar botão também era bom em dia de chuva. Cada um com sua caixinha de jogadores embaixo do braço e pesados goleiros em caixas de fósforos cheias de chumbo. Goleiro leve caía logo. Bonito era goleiro bem forrado, com o escudo do time bem no meio do peito e o nome logo abaixo.
A chuva interrompia nossa rotina de sol, de toda tarde na Praia do Unhão, cabelo quase vermelho e as costas quase sempre despelando.
A chuva nos devolvia um pouco a nós mesmos, mas como criança não gosta de ficar sozinha, ao primeiro estio estava cheio o muro do Edifício Tuiuti.
A roupa de frio sempre tinha um cheirinho de guardado que invariavelmente me fazia espirrar. Adorava um pulôver em que uma mão entrava pela outra. Achava um grande charme amarrá-lo em volta do pescoço, se bem que ele só resolvia cair no chão quando passava uma menina perto.
O baba na chuva era bom, até pela molequeira de chutar a poça em vez da bola, e molhar o adversário todo. Tinha hora que esquecíamos completamente da bola e lá estavam os dois times a se molharem. O paralelepípedo ficava um verdadeiro quiabo, e perto de fazer o gol era uma queda só, ralando metade da bunda.
Como até hoje, a Ladeira dos Aflitos era cheia de casas em cujas bicas o banho era renovador. Um toró constante na cara, sem precisar fechar a torneira. Depois, era caminhar e tirar os pedacinhos de ferrugem da bica que ficavam na cabeça.
Perto de dormir, levantar o colchão e pegar aquela revista que mamãe Cleonice não podia ver. A chuva ajudava.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 8/8/1990).
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