Historiadores, antropólogos, sociológicos, pesquisadores, geólogos, jornalistas e escritores em geral se debruçaram sobre os efeitos das secas seculares nordestinas, muitas das quais ficaram na memória como “massacres de guerras” diante dos milhares de mortes em consequência da cruel fome.

  O solo entorroado da caatinga jugulado pela estiagem deixa na imensidão uma paisagem cinzenta de garranchos estorricados onde a fauna e a flora passam uma imagem de deserto, pontuado por algumas plantas e árvores resistentes, como cactos, mandacarus, umbuzeiros e juazeiros.

  Em muitas partes predominam os pedregulhos e em outras a terra desertificada e salinizada pelo tempo. Aqui mesmo na Bahia temos o Raso da Catarina, em Paulo Afonso, uma grande área inóspita de moitas espinhentas e areões infestados de cascavéis que somente os cangaceiros se atreveram a penetrar como local de esconderijos.

   Os mais fortes ainda conseguiam prolongar suas vidas se servindo de raízes de umbuzeiros, da água dos cactos, do cipó seco de mucunã e outros meios que somente os nordestinos do sertão profundo tinham o conhecimento dessa natureza. Aprenderam com os índios dizimados pelos colonizadores a partir dos séculos XVI e XVII.

   A história dá conta das secas mais mortíferas desde a invasão dos portugueses em solo brasileiro, como as de 1559, 1592, 1690/92, 1774/76, 1790/93, 1802/04, 1825/26, 1877/79/80 (a mais inclemente ao ponto do imperador propor oferecer suas joias), 1902/04, 1915, relatada por Raquel de Queiroz em “O Quinze|” onde fala do período dos “currais humanos” ou campos de concentração, no Ceará (iguais a de 1877/80), bem como por Rodolfo Teófilo no livro documental “A Seca de 1915”, as de 1930/32 e dez anos depois, em 1942.

   O alagoano e escritor, considerado regionalista, Graciliano Ramos foi o que mais penetrou nesta questão com profundidade e linguagem realística socialista através das suas obras, com destaque para “Vidas Secas” e “São Bernardo”. Ele mostrou por dentro e de forma objetiva toda dureza das secas.

Séculos e séculos se passaram e elas permanecem como flagelos dos nordestinos, embora menos sofridas em relação àqueles tempos porque depois de muito clamor e mortandades de retirantes maltrapilhos tombados nas estradas, os governantes resolveram construir alguns açudes, aguadas e tanques, até utilizando trabalhos forçados. As cisternas também entraram em ação, mas a “indústria da seca” ainda serve como instrumento de voto.

   Mais recentemente resolveram transportar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, cansado de “guerras” para alguns estados através da abertura de canais que não chegam a atender às populações de todos os rincões nordestinos porque ainda ficam restritos aos poderosos plantadores de frutas exportáveis.

   Depois de 500 anos de sofrimento, em pleno século XXI, ainda se cruza com carros-pipas pelas estradas poeirentas, com cargas de carotes de jumentos (quase extintos pelas matanças dos frigoríficos), mulheres com latas d´água na cabeça e as lágrimas nos olhos pela perda das plantações e dos animais de criação.

  Como repórter profissional em coberturas jornalísticas entre os anos 70 e início dos anos 2000, fui testemunho de muitas cenas chocantes de sertanejos castigados pelas secas que deixaram rastros de miséria, fome, separação de famílias, gente se alimentando de raízes tóxicas e as tais “viúvas das secas”, de crianças desnutridas em seus colos porque seus maridos partiram para o Sul (São Paulo, Rio, Paraná) e não mais voltaram e nem deram notícias.

 Quando ainda menino em meu torrão sertanejo, fui vítima delas e nos valíamos do coco do Ouricuri e até do maracujá brabo caipira.  Com o aquecimento global, ou mudanças climáticas, como queiram, numa temperatura que só aumenta onde o sol faísca suas escamas prateadas, as secas nordestinas estão aí mostrando suas garras e caras cavernosas de foice na mão.

  No momento atual, todo sertão já está sofrendo, como o município de Vitória da Conquista (sua maior parte está no semiárido) e região (Anagé, Aracatu, Caetanos, Tanhaçu, Belo Campo, Tremedal, Piripá e outros), com pedidos de emergência pelos prefeitos. O cenário pouco muda, mesmo com mais recursos públicos.

Em trânsito semana passada, entre o distrito de Inhobim até Encruzilhada, pude observar a sequidão que sempre serviu de manchetes de jornais e matéria-prima para jornalistas, escritores, cronistas, estudiosos, poetas e cordelistas.

As secas vão sempre fazer parte da vida dos nordestinos, um povo com muitas histórias para contar, de religiosidades, esperanças, fé, messianismo, lutas, cangaço e rico em suas culturas populares. Possui ainda seu bioma chamado caatinga, sem igual no mundo.