O PULÔVER CHEIRAVA A NAFTALINA
(Chico Ribeiro Neto)
As tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina não impedia a reunião da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. “Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas são um caso sério”.
Chove na rua da minha infância e toda essa água descendo a Ladeira dos Aflitos vai parar na velha “Praia de Doutor Barros”, vizinha à Praia da Preguiça.
De manhã, saía o sol e o brilho dos paralelepípedos lavados doía um pouco nos olhos. Empurrados para a beira da boca-de-lobo, montinhos que tinham de um tudo: folha, barbante, caixinha de chiclete e pedaços de bola de gude.
A pequena enxurrada junto ao meio-fio me traz barquinhos e lembranças.
Pulôver. Só de pronunciar essa palavra já me sentia um pouco mais aquecido. Tinha que usá-lo por cima de alguma blusa senão espinhava muito.
Era hora de pegar alguma revista, pois lá fora está chovendo muito. Mas era só passar um pouquinho que lá ia todo mundo correndo pro murinho do Edifício Tuiuti justamente na esquina com a Ladeira dos Aflitos, pois dava pra se ver tudo: as meninas que saíam de lambreta e as que não saíam, apenas rodavam as saias e jogavam sorrisos pra cá.
Encontro “Gel Beleza” no Shopping Iguatemi, e os chopes vão puxando mais lembranças. Temos conversa pra noite toda, pois da infância quanto mais lembrança se tira, mais se tem. Desfiá-las é um prazer insubstituível.
Se a chuva passa mais, a gente pode jogar gude. Caso contrário, só resta o Banco Imobiliário. Não dá pra picula, pois tá escorregando muito.
Quem sabe um baba daqui a pouco? Jogar botão também era bom em dia de chuva. Cada um com sua caixinha de jogadores embaixo do braço e pesados goleiros em caixas de fósforos cheias de chumbo. Goleiro leve caía logo. Bonito era goleiro bem forrado, com o escudo do time bem no meio do peito e o nome logo abaixo.
A chuva interrompia nossa rotina de sol, de toda tarde na Praia do Unhão, cabelo quase vermelho e as costas quase sempre despelando.
A chuva nos devolvia um pouco a nós mesmos, mas como criança não gosta de ficar sozinha, ao primeiro estio estava cheio o muro do Edifício Tuiuti.
A roupa de frio sempre tinha um cheirinho de guardado que invariavelmente me fazia espirrar. Adorava um pulôver em que uma mão entrava pela outra. Achava um grande charme amarrá-lo em volta do pescoço, se bem que ele só resolvia cair no chão quando passava uma menina perto.
O baba na chuva era bom, até pela molequeira de chutar a poça em vez da bola, e molhar o adversário todo. Tinha hora que esquecíamos completamente da bola e lá estavam os dois times a se molharem. O paralelepípedo ficava um verdadeiro quiabo, e perto de fazer o gol era uma queda só, ralando metade da bunda.
Como até hoje, a Ladeira dos Aflitos era cheia de casas em cujas bicas o banho era renovador. Um toró constante na cara, sem precisar fechar a torneira. Depois, era caminhar e tirar os pedacinhos de ferrugem da bica que ficavam na cabeça.
Perto de dormir, levantar o colchão e pegar aquela revista que mamãe Cleonice não podia ver. A chuva ajudava.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 8/8/1990).











