:: ‘Na Rota da Poesia’
VIAJANTE
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário, que faz parte do livro “ANDANÇAS”
Vou tocando meu caminhão,
cortando o asfalto desse chão,
seguindo sem mais ninguém,
vou levando a minha carga,
para outro lugar do além.
Essa estrada maluca,
queima a nossa cuca,
e vou assim nas retas,
sumindo nas curvas,
ouvindo as ondas longas,
e deixando as turvas.
Vou por aí tocando,
minhas duras lutas,
nas frenéticas disputas,
namorando prostitutas,
conhecendo cidades,
valentes e covardes.
Meu abrigo é a boléia,
meu canto é da solidão,
onde guardo a amada,
levando minha carga,
de química e de feijão.
Pra bem longe vou levando,
sem saber quem eu sou,
e assim rodo sem destino,
rezando pro meu divino,
com meu jeito de latino,
sem rimar amor e dor.
MEDOS E SEGREDOS
Meu espírito como ondas,
se bate nos rochedos
dos medos e da procura,
do infinito mistério,
que nos leva à tortura.
Anda em estranhas veredas,
baixadas, cumes e ladeiras,
e até em largas alamedas,
por entre belas palmeiras.
Tenho pavor do escuro,
que assombra com a sombra,
do passado de olho no futuro.
Tenho receio do segredo,
que insiste em esquecer,
seu roteiro de raiva e medo.
Não quero ser outra vez,
devorado pela insensatez
dessa gente sem enredo.
Vivo a engolir mensagens
e a usar mil blindagens
pra fugir do fogo cruzado.
Sou como ferro ferrado,
vagando como manadas,
fugindo do fio das espadas.
Queria sair livre por aí,
perambular pelo universo
até não ter mais pra onde ir.
Queria que meu verso,
só fosse canto e encanto,
e nada de dor e pranto.
MEMÓRIA
De algum lugar da selva,
de gente pobre submissa,
o guerrilheiro firme resiste
redigindo sua carta,
para sua adorada Marta,
acreditando na vitória,
de construir uma justiça,
para mudar nossa história.
De algum lugar da selva,
vive uma senhora lenhadora,
onde as réstias da luz do sol,
disputam espaços nas folhas,
revigorando o social ideário,
de um guerrilheiro solitário,
que foi crivado de balas
pela traiçoeira metralhadora.
Veio a fúria do vento forte,
cuspindo fogo pelas ventas,
no disfarce de uma chicória,
que com seu cutelo da morte,
devorou a nossa memória.
Sem o direito de nem pensar,
quanto mais de se expressar,
os contras foram torturados
e levados ao sacrifício do altar.
Os sobreviventes dos horrores,
ainda temem seus algozes,
como os cães mais raivosos
que ainda causam as dores,
ultrajando a nossa memória.
De uma noite para o dia,
a lua cheia ficou vazia;
foi-se embora toda ternura,
porque o carrasco teve anistia,
e a família do desaparecido
ficou sem fazer sua sepultura.
Pior ainda é perdurar as trevas,
sem a punição dos assassinos,
que executaram os meninos,
e agora querem outra vez voltar,
para massacrar e humilhar
quem já foi arrastado do seu lar.
Está entalado em nossa garganta,
o grito proibido da verdade
dessa memória ultrajada,
que ainda não saiu do porão,
para punir toda brutalidade,
dos generais de plantão.
VOU ASSIM…
Poema de autoria do jornalista e escritor
Jeremias Macário
O sol no dia de fim,
descamba rajado de se ver,
com raios de fogo no ar,
e leva minha vida de viver,
como escrito na profecia,
grudado vai ficar,
o seu cheiro de alecrim.
Por aqui ainda em lidas,
as folhas são sacudidas,
como caniços ao vento,
no vai-vem do arrebento,
e a água no quebra-mar,
serena a se acalmar.
Vou assim na vida,
lambendo a minha ferida,
tratado como genérico,
de povo africano escravo,
português de rosto ibérico,
lutando como um bravo,
nesta sociedade indiferente,
que engana e se alimenta,
do sistema desta gente.
Vou indo assim devagar,
com meu feijão com arroz,
no desvio dos malfeitores,
às vezes o ontem e o hoje,
o amanhã e o depois,
ora cheio de raiva,
ora tomado de amores.
Vou no meu devaneio,
de quem nunca teve lar,
sem carta e sem e-mail,
como perdido das ruas,
com a cara na janela,
caçador e caça da vez ,
criado numa gamela,
de um mercado tarado,
que todo fim de mês,
enche de contas a pagar,
toda caixa de correio.
Na inversão do normal,
na viagem do galopeio,
vou assim no meu trote,
firme no meu arreio,
brandindo meu chicote,
contra esta trama imoral,
que do açúcar fez sal,
fez do errado o correto,
dizendo que sou inseto.
SONHO DO DEVENIR
Senti a pílula do dormir
No apagar dos sentidos.
Sonhei que estava sonhando
No devenir do tempo.
No sono pensei
Que estava pensando.
Conheci feiticeiros da noite
Gentes gritos de dor do açoite.
Falei com meu ego
Percebi que estava cego.
Na agonia vi um raio do dia
Que caia do rochedo do medo.
Não tinha mais céticos
Porque os políticos eram éticos.
Todos nas aulas aprendiam a lição
Pra viver como cidadão.
Não havia mais filas dos SUS/ INSS
Nem engarrafamentos e estresse.
Os soldados estavam desarmados
Porque todos viviam irmanados.
Depois morri no sonho
Do meu eterno devenir.
O CARA DO MAL
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Esquartejei em pedaços o Cristo;
deixei morrer de fome africanos,
nas atrocidades sempre persisto,
e até joguei bombas em ciganos.
Estuprei a natureza e não gozei;
queimei mendigo, índio e gay;
fui exterminador dos pantanais,
e grelhei vivo muitos animais.
Com o lema da usura e avareza,
fui um cara-de-pau com certeza;
carrasco nos tempos romanos,
me juntei com todos os tiranos.
Bebi o sangue do bode preto,
na encruzilhada dos canaviais;
pratiquei o ritual dos canibais;
e do satanás divulgue panfleto.
Num macabro canto do mal,
como uma besta fera do astral,
fui um sanguinário cruzado,
banhando de sangue o condado.
Pratiquei todo tipo de sujeira;
acabei com uma aldeia inteira;
roubei os cobertores do inverno;
e mandei todo mundo pro inferno.
Tirei doce da boca de criança;
com os malfeitores fiz aliança;
tinha aparência de um carneiro,
para ser mesmo um carniceiro.
Torturei muita gente nos porões;
incinerei corpos em ricos casarões;
degolei muitas cabeças do bem,
e hoje ouço gritos e vozes do além.
NA ESTRADA
Na estrada cigana galante
Anavalhada, livre e longa
De uma vida curta e pouca
Sou sereno, frio e vento
Sol a pino de cara ardente
Poeira lá do horizonte
E ando com tanta gente
De senso santo e louca
Que comove e engana
Na procura daquela fonte
Que mata sede do andante.
É uma via do mal e do bem
De sina divina e satânica
Em toda extensão da pista
Com aviso em cada esquina
Riscos da liberdade proibida
Esculpidos por um artista
Com entrada, meio e saída.
Gira e muda como enigma
O sentido finito da vida
Com face suave e tirânica
Sem decifrar o rosto do além.
MENTE BRASILEIRA
Letra de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A mente moura ibérica, negra e índia,
Essa mistura mestiça brasileira mente,
Mente feio o eleitor na urna ao ir votar,
Depois o eleito só quer tirar seu proveito,
Promete pão e escola e dá circo e esmola;
Enganam o governo e o caro parlamentar,
E a avenida histérica se divide pra xingar.
Gente falsa compra sapato em Nova York;
Só quer falar I love “very good, nok, nok”;
Rouba meu cofre e sempre se diz inocente,
O demente mente que a ditadura não existiu,
Mente na TV que não tem feito preconceito,
Faz de conta que lê e só vê as redes sociais,
Avança os sinais e se diz humano solidário,
Apoia os fascistas e o corrupto salafrário.
Mente vil brasileira tão incoerente mente,
Onde o forró lambada virou coisa imoral,
A puta finge amor na cama que já gozou,
A igreja prega que a inquisição já passou,
O malandro se gaba de esperto inteligente;
Todos só querem em tudo levar vantagem;
O Nordeste não tem mais cabra da peste,
Como Suassuna com sua viagem armorial;
Mente brasileira de cultura ainda colonial.
NOS BARES DA VIDA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
A inspiração aflora e o casal ao lado só namora
O papo rola com a turma do jogar conversa fora
Uns caras da saideira falam de política e fofocas
O poeta rabisca no guardanapo seu fiapo da letra
Canta uma canção de amor a viola cigana menina
Moucos das redes sociais navegam em suas locas
Num bar de Minas bateu asas o Clube da Esquina.
Nos bares da vida sempre tem freguês
Uns vão comemorar feliz suas glórias
Outros vão até lá suas mágoas consolar
Se está numa boa se diverte nas histórias
Se bate a crise toma pra esquecer a danada
Escutar o cancioneiro falar da mulher amada
Mesmo sabendo que a conta chega todo mês
Nos bares da vida discutem escritores e cordelistas
Olhares indiscretos trocam bilhetes com o garçom
Em Munique sentou num bar o corvo cruel da morte
O comuna Marx brigou com o anarquista Proudhon
Nas tabernas, bárbaros juraram derrubar os romanos
Num bar de Gori, Stalin tirano tramou a queda do czar
Hemingway tomava a santa cana na Bodeguita cubana.
Saiu o manifesto Bola-Bola Cinema Novo no Alcazar
No Vermelhinho cruzaram militantes contra a ditadura
O surrealismo francês ternura nasceu no Cyrano de Paris
Artistas baianos curtiram noites no Anjo Azul e Tabaris
Nas etílicas tintas das matérias escolheram seus pincéis
Naquele bar atiraram pistoleiros e jagunços dos coronéis
Nos bares da vida, sempre existiu aquele histórico bar.
NO MEU EMBORNAL
Nasci no espinhaço do sertão,
No profundo agreste nordestino,
Com rapadura, farinha e carne seca,
Ouvindo o estrondo do trovão,
No sol escaldante de matar,
Que até inseto morre no ar,
E carrego no meu embornal,
A faca, a foice e o martelo,
E da minha primeira lição,
Estudei o latim no Seminário,
O grego, o francês e o português;
Labutei duro e fiz histórias no jornal.
As angústias e a vida em vendaval,
As coisas boas e ruis do passado,
Todas as alegrias e o choro calado,
Até o soro que tomei lá no hospital,
A solidão das vagas madrugadas,
Os acordes da mulher doce amada,
As cores do meu país maltratado,
Onde o roubo é tratado como normal,
Está tudo no meu velho embornal.
O conhecimento, as intrigas e brigas,
Os momentos de tantas fadigas,
As certezas e a vida de incertezas,
O sonho de ver irmão igual irmão,
Viver num país de igualdade social,
Sem o preconceito religioso racial,
O saber de saber que nada sei,
Que sou simples ser e não um ter,
Tudo está no meu surrado embornal.
Carrego tudo no meu embornal,
Muita coisa boa nesta sacola,
Coisas que não se aprendem na escola,
Como as noites etílicas sagradas,
Os segredos dos frios dos invernos,
E as floridas cores das primaveras,
Muita gente de caras mascaradas,
Nas eras das ditaduras severas,
Tudo está lá guardado no embornal.
O clarear do verão seco e quente,
Batendo nos rostos de tanta gente,
Indo e vindo nas bancas de jornais,
De corpos sofridos e espíritos fatais,
Em linhas tortas arrombando portas,
Tudo está lá no meu velho embornal.










