:: ‘Na Rota da Poesia’
SEM ESSA DE NOVO
Amigo mano, sem essa de ano novo
Mesmo assim te desejo um novo ano
Na Sofia nada se cria, tudo se copia.
As luzes se apagaram, o show acabou
Você continua sendo escravo do patrão
O sinal indica não entrar na contramão
E o pássaro astronauta levanta seu voo.
O pobre continua sendo um estorvo
Meu camarada, não existe ano novo
No castelo assombrado pia o corvo
E o ano conta os meses e os santos dias
No calendário freguês das companhias.
Nas noites vagam as tristezas e alegrias
Os amores começam e se vão pelas vias
Ninguém mais aprecia noite de lua cheia
Preferem mesas suculentas da santa ceia
No sertão só vingam cacto e o mandacaru
E o homem labuta na terra o ano inteiro
Ronda no céu pela carniça o tenaz urubu
E nas cidades, só se vê retirante estradeiro.
Mano véio, sem essa de ano novo
Mesmo assim te desejo um novo ano
Seja bonito, corcunda ou como for
Siga o mais velho, amando a sua flor.
NA ESTRADA
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, inserido no livro “ANDANÇAS”
que pode ser encontrado na Livraria Nobel e na Banca Central
Na estrada cigana galante
Anavalhada, livre e longa
De uma vida curta e pouca
Sou sereno, frio e vento
Sol a pino de cara ardente
Poeira lá do horizonte
E ando com tanta gente
De senso santo e louca
Que comove e engana
Na procura daquela fonte
Que mata sede do andante.
É uma via do mal e do bem
De sina divina e satânica
Em toda extensão da pista
Com aviso em cada esquina
Riscos da liberdade proibida
Esculpidos por um artista
Com entrada, meio e saída.
Gira e muda como enigma
O sentido finito da vida
Com face suave e tirânica
Sem decifrar o rosto do além.
OH TEMPO, TEMPO, TEMPO!
Tempo, tempo, tempo!
Sempre me pedem um momento;
Do sofrimento, sou curandeiro,
Risco e rugas da sua lisa face;
Dos deuses suprema criatura;
Tempo da criança que nasce;
Procura na corrida do dinheiro;
Dono senhor de seus sinais;
Amor e ódio na jura dos casais.
Tempo, tempo, tempo!
Desse povo a me decifrar,
Que louco quer só me devorar;
Sou o vento que chega e vai;
Mandamentos do Monte Sinai.
Tempo, tempo, tempo!
Dos reis filhos dos sumérios;
Carrasco dos gregos e romanos;
Das lendas, mitos e mistérios;
Cruel dos sanguinários tiranos;
Inspiração dos poetas cantadores;
Chibata nas costas do escravo!
Tempo do tinteiro dos escritores;
Coragem libertária do bravo.
Tempo, tempo dos escândalos!
Roda sideral que nunca para!
Cadê o tempo do viver e amar?
Cadê o tempo do sentido do existir?
Tão levando o meu ar de respirar!
Não deixe o “Velho Chico” sumir!
Degole as cabeças desses vândalos;
Enterre na Vala dos Desconhecidos
Essa gente de tanta cara e tanta tara.
TERRA TERROR
Escurece o tempo que grassa,
uma cuca tragada pela massa.
Pombas cruzam o espaço;
o sangue jorra no asfalto;
derretem as idéias e o aço,
e a vida se torna uma pasta.
Destila a raiva dos alienistas,
com sede de vingança selvagem;
matam até por uma imagem,
os religiosos segregacionistas.
Nas cavernas de Tora-Bora,
lançam chamas de agonia,
em terras que foram travessia,
de tribos de reis de outrora.
Do império esmagador,
tanques cospem nos desertos,
e foguetes certos e incertos,
espalham inferno e terror.
Só tem perfume sua flor,
a outra é o cheiro do mal,
que tem veneno de coral,
e cresce como um tumor.
Da terra brota o terror,
de terno gravata e turbantes,
da verdade uns figurantes,
que dizem ser seu Senhor.
Por todo canto terroristas,
ameaçando tragédia nuclear;
contaminam todo o nosso ar,
disseminando idéias fascistas.
Sodoma e Gamorra de consumistas,
que alimentam a pança dos sofistas.
CULTURA DO CORPO
Alta serotonina…
Ficar como uma menina;
bunda dura, cintura fina;
só a plástica que anima;
silicone, química e faxina.
Revolução hormonal;
é o corpo da era do dopado;
deixou de ser morada divina,
para ser uma gata felina.
O que vale é ter boa imagem;
é a cultura do individual,
do corpo sarado e venal.
Sociedade dos patéticos,
dos deuses cosméticos;
são os ingredientes fanáticos,
do mundo dos galácticos,
sem os valores éticos;
vale tudo para a cura;
é a loucura dos estéticos.
Obsessão pela aparência,
da adoração do deus-ciência,
dopada de ansiedade e depressão.
Tem que ter o corpo legal,
no lugar da mente racional.
Ingere laxantes e diuréticos;
vai de dose de anabolizantes,
tanto faz pra cavalos e elefantes.
Prefere ficar cega a ser gordinha;
mato quem me chamar fofinha.
Não existe lugar para enrugado;
quero o corpo todo torneado,
para excitar e deixar tarado;
flacidez é o maior pecado.
É proibido se alimentar;
passa o tempo a contar calorias;
são obscenas minhas estrias.
É a paranoia da lipofobia,
e a dieta é a deusa guia.
Não transgrida os setes pecados:
não comerás frituras;
evitarás gorduras saturadas;
não beberás guaranás;
não experimentarás doces e manjas;
não fraquejarás com os bolos;
não deixarás seduzir pelo chocolate;
e nada de cervejas ou malte.
Nefropatia, vigorexia, anorexia, bulimia:
moda da mente fraca e doentia.
Prefere a cegueira da razão,
que separar de sua única paixão.
Narciso tem de ser liso ou lisa:
diet – light – botox – lifting.
É o apelo da cultura cretina,
que banalizou e virou rotina,
numa mistura masculina e feminina:
consumo e consumismo banal,
na moda do mundo superficial.
VISÃO VARIADA
Poema de Jeremias Macário
Vi a magia dos faraós
conservar seus mortais,
com óleo de fino linho,
nas tubas de labirintos nós,
de seus imortais funerais.
Vi a mão divina de Deus,
descendo sobre as águas,
como luz rasgando o breu,
abrindo livre passagem,
para o seu povo Hebreu.
Vi no lenho da cruz,
um senhor a sangrar,
como o rei de Judá,
para salvar os homens,
e obedecer seu pai Alá.
Vi romanos no Coleseu,
com espadas a gladiar;
vi o deus Prometeu,
e a figura de Iemanjá,
nas profundezas do mar.
Vi e ouvi os pássaros,
cantando no meu quintal;
vi o gato nas telhas,
fazendo o miau, miau…
e o político cara-de-pau,
roubando nosso mingau.
Vi os poetas no sarau,
e jornalistas enchendo
as páginas de calhau;
e os periquitos famintos,
comendo meu milharal.
Vi os cafajestes de terno,
em pleno verão e inverno,
na pele de um lobo mau,
fazendo daqui um inferno,
como se tudo fosse eterno.
Vi soldadinhos de chumbo,
nos morros fazendo escambo,
nas praças todos marchando,
com caras pintadas de Rambo,
virando direita e esquerda,
na ordem do seu general.
Vi fotógrafos clicando,
para expor no varal,
e os carros velozes,
invadindo o sinal;
do além ouvi vozes,
do julgamento final.
BALANÇA PRA LÁ…
Olha o balanço das árvores,
que o vento dá,
balança pra lá, balança pra cá,
depois começa tudo,
como nas ondas do mar.
Olha o tempo passando,
ligeiro e devagar;
olha a morte chegando,
com a sentença de Alá.
Parte rasgando o avião,
lotado de gente zumbi;
criaturas saem da terra,
e aparecem como saci.
Olha a dança das folhas,
girando pra lá e pra cá,
levando saudades no ar.
Na avenida zunem os tiros;
balas voam perdidas;
criança tomba no asfalto,
no ataque dos vampiros.
Carnaval de sunga suada;
empurra pra lá e pra cá;
pula, pula a pipocada,
no axé de arrocha cambada.
Vadia a bela, ou a feia,
na orgia da bundada;
balança pra lá e pra cá,
pra gringo e nativo
namorar sua sereia.
No sol do meu sertão,
balança o pau-de-arara,
cortando o cinzento chão
de espinho, fogo e vara,
na poeira da estrada.
Virgulino, meu capitão,
que diz dessa nossa vida,
e da traiçoeira morte,
sem aviso e sem razão;
que diz da canção,
de Vandré que chora,
mandando fazer a hora.
SERPENTES QUE NUNCA MORREM
Poema de autoria de Jeremias Macário
Palavras perseguem, desencantam, encantam;
grudam no canto do cérebro e martelam na melodia;
cantam em prosa e verso no compasso da filosofia.
Aparecem frescas na madrugada de borrões fortes;
roubam o espaço do amor com pincéis de sangue;
brotam como raízes exuberantes soltas em mangue,
no barco veloz das folhas, cortando como os serrotes.
Surgem como condes nobres, ou tabaréus lá do norte;
uma cambaleia em fome, balbucia como tísico pobre;
outra se reparte em fatias e monta o enredo do caixote.
São serpentes de dentes afiados, ou como mastodôntico;
podem ser centopéias, ou até mesmo um deus platônico,
que sempre querem indicar as veredas da nossa andança;
ferram nossa pele e nos trançam com a dor da lembrança.
Pedem mil perdões e aparecem na forma de um isotônico,
nos açoitam e nos transportam para um mundo catatônico;
por vezes nos faz bailar no salão de espelhos da real dança.
Chicoteiam nosso espírito, ora tranquilas, ora raivosas;
cheiram como as rosas, pela terra germinam e dormem;
duras como as rochas nas histórias de versos e de prosas;
as palavras são serpentes devastadoras que nunca morrem.
Em poemas de vários temas, nos filmes e nos teoremas,
viram feiticeiras e lendas como as pirâmides faraônicas;
são as românticas e as semânticas das línguas românicas.
Trovas tiradas tiranas da viola do repente do cantador;
no coco, nas emboladas como as trovoadas de sertão;
no cordel como fel, falando do Satanás e do Senhor;
as palavras revivem o cangaço do nordestino Lampião.
Nos folclores dos agrestes e nos causos dos coronéis,
que compram suas patentes e molestam suas meninas,
as palavras cospem brasas nos gatilhos das carabinas,
São como serpentes traiçoeiras das florestas escuras;
escondidas como sacis e disfarçadas de índio curupira;
são os escombros das guerras e as canções de ternuras;
são os eruditos, clássicos escritos e do humilde caipira.
Percorrem os séculos, impregnadas no ditado popular,
vagando de geração em geração em nossos pensamentos;
no politicamente correto caem bem no vernáculo vulgar.
O SOL ESTÁ CAINDO
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Vê lá no pé da serra, moço!
No infinito do horizonte,
No rasante cor de sangue,
Duelo bang-bang de gigante
Onde uma morte cai na terra,
No beijo da noite com o dia,
Vadia o sol dourado na penedia.
O sol está caindo na flora,
Bailando ao som da viola,
Sem o barulho infernal da cidade,
Viola que chora a dor da saudade.
O sol está caindo despedaçado,
E a escuridão abrindo seu portal,
Para entrar os anjos e os fantasmas
Dos filósofos andantes e poetas
Nessa lida de tantos nós pra desatar,
De tantos profetas a nos avisar
Que o nascer traz a morada mortal.
O pôr-do-sol está caindo
Para quem fez a sua jornada,
Na poeira dessa longa estrada
Entre canções, açoites chicotadas,
Na aurora traz raios de luz a clarear
As veredas das intrincadas ciladas
Que as estações chamam de amor
No espiar do tempo, nosso senhor.
SENHORA PARTEIRA
Poema do jornalista Jeremias Macário. Promete ser musicado.
Está praticamente no ponto.
Pelas mãos com cheiro de chão,
Da dona senhora nossa parteira,
Naquele rancho no pé da serra,
No aboio lamentoso do sertão,
Mirrado nasci de mãe roceira,
De um pai a lavrar a seca terra;
Sou filho do ventre nordestino,
E também destino certo da morte
Que ronda a vida e sempre vem.
Minha senhora mãe parteira
De muitos compadres rezadeira
Que já pegou na vida mais de mil
Sem do pobre cobrar o metal vil.
Vixe mãe Santa Nossa Senhora!
Geme a mulher na cama de dor!
Vai homem chamar dona parteira!
Que meu filho não morra de sete dias
Da fome tirana levar Josés e Marias;
Vai homem buscar nossa parteira
Que já viu cabra crescer trabalhador
E muita gente que virou até doutor.
Ave! mãe senhora parteira
De todos caminhos estradeira
De espinhos, veredas e poeiras;
Dia e noite das cancelas e porteiras;
Boa de prosa que ora rir, ora chora,
Pra no bom parto a mulher parir
Abençoar mais a luz desse existir;
E também reza uma reza penosa,
Na rasa cova angelical que partiu.










