:: ‘Na Rota da Poesia’
DOR DA SAUDADE
Esta dor que a ti dilacera,
é uma dor que rasga e corta;
vem na forma de quimera;
entra como uma desvalida,
sem ao menos bater na porta.
A depressão corre pela veia;
a hora para e turva o ser;
o passado vem e não passa;
o futuro curto não clareia,
e o presente só faz sofrer.
É uma dor que amolece,
e não tem cura de doutor;
nem o tempo desaparece,
com este nó da saudade,
quando se pensa no amor.
É uma dor doída varada,
que te impede de comer;
suga a alma desamparada;
deixa a boca seca e amarga;
e só faz lembrar de você.
Parece não ter mais fim,
esta tal tirana da saudade,
que não escolhe a idade;
entope qualquer coronária,
e se espalha como cupim.
É uma vilã, esta ordinária,
de véu e traje existencialista,
que consome toda nossa diária;
rouba sorrateira a nossa alma;
e ainda diz que é uma altruísta.
EXISTE E NÃO EXISTE
EXISTE E NÃO EXISTE
Ainda existe
processo sem prisão,
a tortura sem história,
corrupção com vitória,
o crime que compensa,
a manipulação da imprensa,
o sonho feito de cristais,
como promessas sagradas
dos amantes e dos casais.
Ainda existe
a vergonha da esmola,
a escola sem lição,
país sem educação,
criança sem livro,
rei fajuto de camisola,
a justiça da pistola,
o cruel capital,
o empreiteiro pardal,
o ladrão de gravata
o coronel da chibata,
o amolador de navalha,
o ferreiro do fole
e o político canalha.
Não existe
relógio sem hora,
piora sem melhora,
cordel sem rima,
cantador sem viola,
presente sem passado,
chato que não amola,
sandália sem poeira,
cavalo sem crina,
cidade sem feira
país sem hino,
nem vida sem sina,
romaria sem peregrino,
e criatura sem destino.
POEIRA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
POEIRA
Andei por aí,
comendo poeira
por todo lugar,
no sol da zonzeira,
de a pele rachar.
Andei por aí,
longe das catedrais,
nas capelas de cruzes,
marcadas por sinais,
sem o foco das luzes.
A pé, ou de carro,
a poeira a subir,
nas casas de barro,
na estrada da vida,
não tem mais Juriti.
Menino descalço,
andando por aí,
com a barriga vazia,
parecendo o Zumbi,
na poeira do dia.
Caminhei por ai,
nas minhas andanças,
vendo a fome,
severa o seu nome,
de tristes lembranças.
A poeira nas curvas,
nas rodas veloz a girar;
tapa tudo ao redor;
vira nuvens no ar,
e em nós fica só o pó.
Perambulei por aí,
comendo o sal,
misturado à poeira,
do bem e do mal,
das viagens daqui.
SUA IMAGEM
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Fui fluir a saudade no vento
(do campo).
Nas flores perfumadas do sertão
(em cores),
vi sua imagem toda colorida
(do verde verão).
Fui buscar o sentido da vida
(nos espinhos).
Os pássaros em festa voaram
(de seus ninhos),
e lá na barragem estava sentada
(na mesa de sempre).
Mirei a paisagem para encontrar
(a paz).
Meu pensamento voou até as nuvens
(de cera),
e sua imagem esculpida na pedra
(faceira).
As árvores viçosas brotaram
(da seca).
Quero consumir todo o seu amor
(por inteira).
Não consigo descolar sua imagem
(dessa minha viagem).
CÍRCULOS CINZENTOS
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário que fala do suicídio de Getúlio Vargas, dos abutres pelo poder e dos golpistas que sempre aproveitaram dos momentos mais difíceis do país.
Corvos agouram os céus do palacete;
um tiro vara o peito do destino fatal,
vergando o corpo no cobiçado Catete,
naquele agonizante agosto nacional.
Um abutre vigiava o seu aposento,
voando em círculos no céu cinzento,
mas um estrelado conteve o tropel,
para não quebrar o verso do cordel.
Nasceu no planalto um traçado raro,
das mãos de um jovem visionário,
que sonhou com o grande pássaro,
e morreu depois como um solitário
Povo galopado no galope da vassoura,
de um lunático que se armou de tesoura;
tomou um uísque e fi-lo só porque quis,
que de lá saiu da ressaca rumo a Paris.
O gaúcho lá dos pampas tomou um susto;
o chimarrão espatifou-se nas terras de Mao;
os quartéis se armaram para o quebra-pau,
cada caudilho queria arrematar o seu busto.
Depois de muita peleja pela Legalidade,
Brizola pontuou bem sua viola em Cadeia;
os sargentos armados cercaram toda cidade,
e o homem entrou pelo sul com praça cheia.
Concordou parlamentar com os generais,
e ficar uns tempos até poder presidenciar,
mas a panela começa ferver lá nos Gerais,
e Lacerda lacera e rouba o gordo Adhemar.
As idéias cruzam os sessenta vermelhos;
as esquerdas se apressam para revolucionar;
Grupo dos Onze rende mais que coelhos;
todos pedem reformas ao senhor Goulart
Estouram as marchas sociais e marxistas;
foi o mesmo que bulir na casa de vespeiros;
uns excomungando os velhos comunistas,
e outros pontuando nos levantes marinheiros.
Ventos e raios partem das altas montanhas,
derramando ódios até a Central do Brasil,
e no Automóvel Clube assanha as aranhas;
da serra desce Vaca Fardada de vazio fuzil.
Um Castelo de peças começa a ser montado,
na ponta de uma mortífera estrela de espada,
com Atos até de um desatino cruel malvado,
de um Costa morto de isquemia emparedado.
Nos porões trevas de sussurros agonizantes;
açoite de choques ditando o proibido pensar;
elétricas cadeiras onde padecem os amantes;
guerreiros perdidos da selva de algum lugar.
No inferno dos dragões treme a carne e arde;
algozes fazem dos corpos montes de trapos;
perde-se o domínio do existir para o covarde,
e o torturador desseca o espírito aos sopapos.
Nos estádios vibra o vilão com cara de ferro;
celebrações de vitórias do mundo campeão;
gemidos nos cárceres abafados pelo o berro,
e o fogo da bala abate mais uma organização
BERRO DE FERRO
Poema do jornalista Jeremias Macário
Meu grito explode e berra
como as bombas na guerra;
queima como brasa de ferro
nas fornalhas dos algozes,
que calam as nossas vozes.
Treme no úmido porão,
a carne do meu doído berro,
que tine na lâmina do ferro,
perfurando a minha mente,
nas mãos de um delinquente.
Meu gemido sussurra no berro
nos telefones de pau-de-arara;
choques e cusparadas na cara;
no ânus enfiam uma vassoura,
e pela garganta uma tesoura.
São os passageiros da agonia
por quem minha alma berra,
que ousaram sonhar um dia
com uma socialista-ideologia,
na terra dividida em igual fatia.
Minha alma vaga dilacera
no nevoeiro do mar negreiro,
nas entranhas da selva fera,
que testemunhou o horror
da besta de dente carniceiro.
Meu berro das torturas letais,
da suástica sádica seca a saliva,
na sede suada dos golpes fatais,
que no sabre sequestra até criança
e ainda manda ter fé e esperança.
Tem o berro ferido e calado,
que marca gente como boiada,
e ainda nos contam uma piada,
com enredo de dor existencial,
onde a vítima se torna animal.
Na base aliada do troca-troca,
cada rato cuida bem da sua loca,
fazendo da desgraça um negócio
e deixando o resto como esmola,
do tamanho de um pedaço de sola.
Sou aquele cabrito que berra,
da América do Sul até a África,
desde toda a matança trágica,
da peste do vírus que virou aço,
até os foguetes voando ao espaço.
Não quero ser mera quimera,
que só berra sem ser uma fera;
quero ser como ferro da terra,
que sai bruto e se torna metal,
para fazer sua história imortal.
O PONTEIRO E A MORTE
Poema do jornalista Jeremias Macário
macariojeremias@yahoo.com.br
No seu solitário espaço,
o ponteiro do relógio
avança como um arqueiro,
marcando todo nosso passo
nesse percurso traiçoeiro
do caminhar passageiro.
O ponteiro roda, roda…
e o tempo passa tic-tac, tic-tac…
pacientemente, sem correr,
e o tempo mais uma vez roda,
sem a pressa do apressado ser.
A distância vai reduzindo
da saída ao lugar de destino,
fazendo sua parada na tenda,
cada um faz seu rito peregrino,
ora chorando, triste ou rindo,
na procura da sua comenda.
Nas tempestades e bonanças,
nos abrigos para descansar,
das fatigantes andanças;
nas curvas, retas e cruzadas,
o ponteiro vai continuar lá,
para marcar tic-tac, tic-tac…
e depois em silêncio avisar,
que a sua hora vai chegar.
Não adianta tentar enrolar;
viver como um sideral;
se esconder na China ou Bagdá;
desprezar que existe um final,
o ponteiro vai girar incansável,
no ritmo do tic-tac, tic-tac…
alertando saque, saque,
não compre tick de embarque
nessa onda do insaciável,
de mais ouro e mais capital,
nesse mercado de vendaval.
As cordas podem até arrebentar;
os ponteiros pararem de rodar,
mas o tempo não larga seu cajado,
e o homem escravo vai até lá
acertar o ponteiro atrasado,
para servir a vontade do seu Alá.
À meia-noite para para badalar,
com toda força do seu pulmão,
nas catedrais monumentais,
ou no velho casarão do lar,
assustando o sono do ancião,
para recomeçar tic-tac, tic-tac…
no templo da vida do Deus dará.
Um ponteiro conta o segundo,
na marcha do tic-tac, tic-tac…
como alma imortal do mundo;
o outro troca de minuto,
fazendo sua ritual travessia;
e o terceiro aponta a hora,
no visceral da lida de todo dia,
e assim o tempo vai embora.
Para quem rir ou até chora,
da conversa do caçador,
ou do pescador e vendedor;
do vigor ou do coma terminal,
o tic-tac repete a sua sonora,
mas faz-se de mouco o imoral.
Quando o dinheiro é religião,
quando sua força é a espora,
quando se fomenta a mentira,
e do pobre se rouba o tostão,
em nome do céu e do inferno,
e só se pensa no aqui e agora,
a vida fica sem sul e sem norte,
na cegueira de que tudo é eterno,
e se esquece que existe a morte.
LEMBRANÇAS DO TREM
Poema do jornalista Jeremias Macário
Foi-se o tempo de menino,
espiando o telegrafista,
com batidas de artista,
mandar tocar o sino,
como se fosse um hino,
pra lembrar aos viajantes,
que em poucos instantes,
vai ter máquina na pista.
Lá vem o trem a se arrastar,
nas serras diamantinas,
como cobra a deslizar,
por entre as colinas.
Lá vem o trem roncando,
com suas patas de ferro,
levando usinas de sonhos,
nas cabeças dessa gente,
soltando o seu berro,
e avançando imponente.
Lá vem o trem groteiro,
pelas esquinas do sertão,
no seu traço rotineiro,
picado lento e ligeiro,
parando nas estações,
como fazia o tropeiro.
Lá vem o trem das matinas,
de janelas sem cortinas,
no seu balanço manso,
apitando pra avisar,
que logo vai parar,
na Estação de Paiaiá.
Lá vem o trem penitente,
puxando a sua corrente,
nos trilhos do dormente,
como um rezador,
que vai curando a dor
da alma do doente.
Lá vem o trem lembrança,
dos dias que era criança,
matando minha saudade,
de no embalo a pongar,
e mais adiante se soltar,
pra na linha caminhar,
vendo o meu trem sumir
no horizonte de lá,
e noutra cidade chegar.
Em sua última viagem,
o trem partiu para o além,
e levou a minha bagagem,
ficando só na mente,
a marca daquela fumaça,
na minha cinzenta vidraça
Lembrança da valente,
Piritiba de toda gente;
do sábado de feirante;
do poema cortante;
do poeta Aragão,
que mistura pavio,
mandioca com feijão,
e ainda nos dá razão,
pra xingar de delinquente,
o governo indecente,
que deixou esse vazio,
do nascente ao poente.
ESTAMIRA DO ALÉM
Poema do jornalista Jeremias Macário
Lá no além do além,
da energia que gira,
jamais intimista
do físico cientista,
está o espaço paralelo
do metafísico elo,
mundo de Estamira.
No além do além,
da súbita imaginação,
numa repentina fração,
Estamira rasga sua dor,
doída e sofrida,
de lucidez e loucura,
entorpecente secura.
A fala de Estamira,
transborda toda ira,
em seus restos de carne;
treme, contorce e morde,
para amaldiçoar
a perversidade humana,
de mente suja insana.
De dentes cravados,
vampiros do sistema,
fazem do sangue o tema,
e neles Estamira mira,
suas palavras de fogo,
com suas fibras de aço
contra todo o jogo,
dos homens malvados,
que invadiram seu espaço.
Estamira vive,
viajando pelos astros,
luminosos de gás,
de corpos verminosos,
falando de guerra e paz,
com mágicas de agonia
em toda noite e todo dia.
Lá se vai Estamira,
ao som da sua lira,
no seu ritmo acusatório,
perfurando o além,
nesse mundo sanatório,
onde não existe futuro,
no paredão de escuro.
Estamira não tem Deus,
no seu filosófico além,
e nem diz mais amém,
essa bruxa do lixo,
que fuça como bicho,
vendo sair o demônio
da camada de ozônio.
Das asas dos urubus,
do além da história,
Estamira divaga e delira,
na sujeira da escória,
dos canibais animais.
Estamira é lógica utópica,
sem sentido, sem ótica,
complexo do universo,
do além de ninguém,
que enfrenta o perverso,
e faz pouco do desdém
ESSA GENTE SÓ QUER PASSAR
Poema de autoria de Jeremias Macário
Nesse mundo de loucura,
A vida é muito dura
No deserto das serpentes,
Frio ranger dos dentes,
No vazio vagão do trem,
A pé, de barco ou de boia,
Muito longe da sua aldeia,
Essa gente deixou sua teia
E só pede para passar,
Pra viver e trabalhar.
Tem compaixão, Senhor!
Da luta aguerrida e triste,
Desse povo sofrido,
Da fome que a tudo resiste,
Da violência, da guerra,
E deixe essa gente passar
Para o outro lado de lá.
Nas noites traiçoeiras
Dos assaltos bandidos,
Na terra dos excluídos,
Onde gente não é gente,
São escravos vendidos,
Esse cordão desesperado
Da sua terra refugiado,
Marcha firme pra passar,
Seguir caminho em frente,
Na esperança de melhorar.










