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:: 1/maio/2026 . 23:14

UM LAMPIÃO MULTIFACETADO

   Em seu livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, o escritor Billy Jaynes Chandler, diplomado em bacharel na Austin University, com mestrado em Texas e doutorado na University of Flórida, com base em matérias de jornais nordestinos da época, documentos de arquivos públicos e entrevistas, descreve um Lampião multifacetado, cruel, perverso, estrategista, tocador de sanfona, letrista, com sede de vingança, às vezes contestado pelos companheiros e até generoso em algumas ocasiões.

  Às vezes, Lampião era como um raio, em outras, como uma nuvem passageira de chuva fina, com seu jeito matreiro de espião vasculhando sorrateiramente o terreno para depois dar o bote fatal. Em paz, com gestos humanitários, se sentindo como um governador do sertão, era recebido como um rei, uma celebridade famosa que arrastava multidões por onde passava.

  Um exemplo dessa sua arte foi sua visita à cidade sergipana de Carira, digna de nota, isto no início de 1929. Lampião e seu bando de sete chegaram montados em mulas. Dos seis soldados, quatro fugiram. Foi recebido pelo chefe de polícia em sua casa, que, ao seu pedido, serviu um jantar.

   Lampião mandou cerveja e cigarros para os dois soldados que ficaram na delegacia. Elogiou-os pela coragem e disse que só estava ali para conhecer o estado. Beberam e cantaram. Para onde os cangaceiros iam, uma multidão os acompanhava.  Lampião era alvo de atenção e admiração de todos. Sua cartucheira tinha dois palmos de largura e continham quatro fileiras de cartuchos, e duas mais de botões de ouro e prata.

 Falou da sua vida e indagou sobre as cidades dos arredores e quantos soldados possuíam. Como não tinha sanfoneiro para tocar e fazer uma festa, horas depois pegaram suas mulas e partiram.

“GOVERNADOR DO SERTÃO”    

  Em suas andanças pelos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia, o cangaceiro que mais estados transitou no Nordeste, foi alvo de grandes façanhas e até chamado pela imprensa de “Governador do Sertão”, mas também sofreu fracassos e decepções.

   Seu maior erro foi ter tentado invadir Mossoró, no Rio Grande do Norte, e sua maior glória foi sua visita triunfal ao padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, em Juazeiro do Norte, em março de 1926, quando de lá saiu cheio de munições do exército e com uma patente de capitão (não oficial), integrado aos “Batalhões Patrióticos”, para combater a marcha de Luis Carlos Prestes, cujos soldados eram chamados de revoltosos.

   Depois de uns aconselhamentos do padre, Lampião saiu de lá, passando por Barbalha, no encalço de Prestes, até pensando em se regenerar e deixar de vez o cangaço, mas quis o destino que mudasse de ideia depois de sofrer perseguições das volantes de Pernambuco.

  Sua ira voltou à tona com mais força, e entre 1926/27 foi o período em que Lampião mais se mostrou facínora, vingativo, violento, com vários ataques a vilas, povoados e deixando para trás um rastro de mortes, com requintes de perversidades.

 O governador de Pernambuco, na época, Estácio Coimbra, resolveu realizar uma perseguição implacável ao “rei do cangaço” a partir das prisões dos coiteiros, aqueles que não tinham muita influência e força no cenário político da região, como os grandes fazendeiros, coronéis de prestígio e chefes políticos.       

   Lampião enfrentou várias batalhas com até 100 homens contra forças compostas de 400 e 500 soldados, mas no final dos anos 27 e início de 1928, foi se enfraquecendo, dividiu seu bando em várias partes para confundir a polícia até se decidir atravessar o Rio São Francisco e se internar na Bahia.

  Quando estava com força e incensado pela imprensa, teve a ousadia de propor ao governador de Pernambuco uma divisão do estado onde ele se tornaria governo a partir da cidade de Arcoverde. Claro que o governador não o levou a sério e botou mais soldados em seu encalço.

  Com seus momentos de bondade e crueldade, enfrentou os espinhos cruentos da caatinga, fez festa, passou fome e sede, mas teve seus momentos de fartura quando se banqueteava com grandes fazendeiros e coronéis aliados. Esperto, subornou oficiais que fizeram vistas grosas e compunham sua rede no tráfico de armas e munições que sustentavam suas lutas e embates.

  Em sua obra, Billy Chandler escreve sobre O banditismo no Sertão, Virgulino, Lampião, Capitão Lampião e o Padre Cícero, Serra Grande, Mossoró, Queimadas (Bahia), Maria Bonita, A Campanha e os Coiteiros, Em Sergipe com o Governador Eronides, A Grandeza de um Homem, Angicos e um Bandido Social?

SERRA GRANDE

  Entre suas invasões, mortes, queimadas de casas e currais, extorsões, sequestros de reféns, fugas e batalhas, vamos falar um pouco sobre “Serra Grande”, uma terrível carnificina, relatada pelo autor do livro, lançado pela editora Paz e Terra, em 1981. 

   Durante os meses de abril e maio de 1926, Lampião e seu bando, como relata Billy, limitaram seu campo de ação à fronteira entre Pernambuco e a Paraíba, com assaltos a vilas. O pior ataque foi em Algodões, um lugarejo perto da estrada de rodagem de Recife. O bando saqueou as pessoas, casas comerciais e estupraram mocinhas e senhoras.

  O mais bárbaro e sangrento foi perto de Serra Grande em final de novembro de 1926. O major Teófanes Tores, o mesmo que prendeu o cangaceiro Antônio Silvino, e era suspeito de traficar armas e fazer corpo mole, preparou um ataque com 295 soldados contra cerca de 100 de Lampião.

   Contam que foi a maior batalha daquele tempo. Como estavam sendo perseguidos, os cangaceiros atravessaram a serra íngreme e armaram uma emboscada em condições de acabar com a tropa. Foi difícil quebrar a resistência do “terrível general do cangaço”.

    O combate começou por volta de nove horas da manhã e só terminou na escuridão, deixando 10 soldados e seis cangaceiros mortos, além de dezenas de feridos. O major não estava presente e quando resolveu chegar com mais reforços, a luta já havia terminado com a fuga dos cangaceiros.     

      





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