:: ‘Na Rota da Poesia’
VOA MENTE!
Quero ser livre como o Condor;
Não seja dor e ódio, seja amor;
Seja semente com a sua mente.
Voa, voa mente inteligente!
Voa como no rasgo do falcão,
Cortando a linha do horizonte
Entre o céu azul daquele monte;
Voa mente dessa sofrida gente,
Do nascente ao vermelho poente;
Clareia toda a nossa imaginação.
Voa minha mente peregrina,
No meu intrincado pensamento;
Nas asas do gavião e do carcará,
Desta terra guerreira nordestina,
Onde lá vou eu plantando vento,
Para soprar as velas desse tempo,
De volta às raízes do meu luar.
Voa, voa mente em seus fragmentos;
Faz-me meditar como aquele monge;
Leva bem pra longe meus tormentos,
Pra o Olimpo da antiga sábia Grécia,
Onde possa desvendar a controvérsia;
Me tira desse caminho curvo escuro,
E ilumina meu presente para o futuro
FLOR E DOR
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
FLOR E DOR
Vou contar pra você, seu moço!
Quando ainda ginasiano,
No declinar do verbo latino
Ouvia falar e ainda ouço
Que toda poesia
Como piano, a flauta e o violino
Que comandam a sinfonia
Tinha que ter flor, luar e amor.
O poeta tinha que saber imitar
O canto do sabiá e da cotovia;
Tinha que ser melancólico,
Pálido, alcoólico e doente;
Ser o pôr-do-sol poente
Pra falar da angústia,
Dor e sofrimento da gente;
Viver como um bem-te-vi;
Andar como cigano;
Ser boêmio e até insano;
Passar noites sem dormir,
Como um penado zumbi;
Ser bem íntimo da morte;
Isalar o cheiro da depressão;
Abalar todo coração
Das mulheres românticas,
Doces, sensuais e platônicas;
Ser a cápsula do tempo;
Comer dos manjares dos deuses;
Ser irmão do ar e do vento;
Renegar todo sacramento;
Ser orvalho do amanhã sereno;
Conversar com Zeus;
Provar de todo veneno;
Entender os fariseus,
E pelo menos ter
Uma musa inspiradora,
Não importando,
Se obtusa, confusa ou pecadora.
NO MEU EU SOLITÁRIO
Poema mais novo do jornalista Jeremias Macário, nas asas da inspiração.
Estava eu em minha solitária cabana;
Lá fora, como coiote o vento uivava;
E trava o diálogo entre o Pai e o Filho,
Sobre esta humanidade tirana e sacana.
Corri brenhas do Nordeste cangaceiro;
Na sina assassina do jumento tropeiro,
E vaguei pelo mundo do mano cigano,
Perambulando errante de norte ao sul,
Como nas mensagens do poeta Raul.
No meu eu solitário, com meu ideário,
Encarei que já estamos no juízo final
Da terra revolta no aquecimento global
Pela insana ganância da perversa criatura,
Que sempre tentou devorar a sua natura.
Vaguei no imaginário do meu solitário;
Das flores que um dia cobriam a colina,
E entrou a bela morena na minha retina;
Encarnada em mim como um relicário,
Numa doce mistura de apego e chamego.
Nas contas do meu eu solitário rosário,
Contei moinhos de tristezas e alegrias,
Umas de marcas e outras vivas sangrias,
Tempo, vida e morte correndo estações,
Fumaças malucas em noites de visões.
Cada um faz sua passageira travessia,
No seu eu, traçando a sua própria via,
Não importa qual o seu tipo de oração,
Se tem medo da chuva, ou da solidão.
APRENDER A VIVER
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Por trás de um sorriso,
de uma doce Monaliza,
tem também o choro,
de uma triste sacerdotisa,
que sonha com o paraíso,
mas quer viver seu namoro
para aprender como amar;
fazer sentir seu sofrer,
para aprender como vencer,
nos passos curtos do viver,
de tantas perdas e ganhos;
tentar ver e compreender,
que o encanto do pôr-do-sol,
é poente de outro amanhecer.
O ter sem o manjar do ser,
é um alimento de ilusões;
faz você esquecer de viver,
esquecer de cuidar de si,
do início, do meio e do fim;
de escutar tantas composições;
faz deixar de aprender a morrer,
e nem o perfume sentir,
da flor com gosto de jasmim.
Nunca se esqueça de curtir;
sair por aí e sentar no jardim;
ouvir o canto do bem-te-vi,
e tomar umas num botequim,
para jogar a conversa fora;
contar causos de história,
de gente que sabe fazer a hora,
e faz da sua curta trajetória
uma minação que só jorra:
conhecer, aprender e viver;
ser da terra o verdadeiro sal;
ser o fogo que arde e queima;
ser a água que vem do ar,
para conviver com o bem e o mal.
VIOLAÇÃO
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário, publicado em seu livro “Andanças”
Mesmo o mais contrito do santo,
tem no seu lamento o seu pranto,
com a revolta varando o seu peito
pela violação sagrada do direito.
A alma em secura não mais chora;
tortura do pau-de- arara e choque;
abafa os gritos, a censura lá fora,
calando canção suingada do Rock.
Nos porões desaparecem os mortos,
na selva sepultam quebrados corpos,
sem punição, sangrados como porcos.
A justiça cheira como um coliforme,
e nas cadeias simulam os suicídios,
com mentiras impostas pelo unifor
QUEM ESTÁ NU?
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O ministro é mais um sinistro,
político tem o seu aplicativo,
o povo pede socorro a Cristo,
e tudo fica na base do relativo.
Pra gente fica o osso sem o angu,
ou uma nesga do recheado bolo,
uma esmola serve como consolo,
e acusam o rei Zulu de estar nu.
Nu está o jornalismo brasileiro,
a educação sem eira nem beira,
onde o errado se tornou o certo,
como a ética política do esperto.
Criaram um negócio da China;
a paranóia virou uma coisa real,
da sociedade que é geléia geral,
que confunde ouro com platina.
Nu está o cabra pobre mortal,
do sistema que carimba sua cor,
se você provar ser nobre castor,
ou consumidor de nível social.
Nu vai ficar o rio São Francisco,
cada um tirou dele o seu petisco,
ainda chamaram o frei de alienado,
e apontaram Corisco como culpado.
Só conta quem tem poder e tutu,
pra financiar o estouro da boiada,
manipular e fazer muita cachorrada,
e deixar o povo espiar a praia do nu.
Sindicato é plataforma de pelego
pra quem não gosta fica com o sal,
se esbalda no futebol e no carnaval,
e vive em cavernas como morcego.
SEM ESSA DE NOVO
Amigo mano, sem essa de ano novo
Mesmo assim te desejo um novo ano
Na Sofia nada se cria, tudo se copia.
As luzes se apagaram, o show acabou
Você continua sendo escravo do patrão
O sinal indica não entrar na contramão
E o pássaro astronauta levanta seu voo.
O pobre continua sendo um estorvo
Meu camarada, não existe ano novo
No castelo assombrado pia o corvo
E o ano conta os meses e os santos dias
No calendário freguês das companhias.
Nas noites vagam as tristezas e alegrias
Os amores começam e se vão pelas vias
Ninguém mais aprecia noite de lua cheia
Preferem mesas suculentas da santa ceia
No sertão só vingam cacto e o mandacaru
E o homem labuta na terra o ano inteiro
Ronda no céu pela carniça o tenaz urubu
E nas cidades, só se vê retirante estradeiro.
Mano véio, sem essa de ano novo
Mesmo assim te desejo um novo ano
Seja bonito, corcunda ou como for
Siga o mais velho, amando a sua flor.
NA ESTRADA
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, inserido no livro “ANDANÇAS”
que pode ser encontrado na Livraria Nobel e na Banca Central
Na estrada cigana galante
Anavalhada, livre e longa
De uma vida curta e pouca
Sou sereno, frio e vento
Sol a pino de cara ardente
Poeira lá do horizonte
E ando com tanta gente
De senso santo e louca
Que comove e engana
Na procura daquela fonte
Que mata sede do andante.
É uma via do mal e do bem
De sina divina e satânica
Em toda extensão da pista
Com aviso em cada esquina
Riscos da liberdade proibida
Esculpidos por um artista
Com entrada, meio e saída.
Gira e muda como enigma
O sentido finito da vida
Com face suave e tirânica
Sem decifrar o rosto do além.
OH TEMPO, TEMPO, TEMPO!
Tempo, tempo, tempo!
Sempre me pedem um momento;
Do sofrimento, sou curandeiro,
Risco e rugas da sua lisa face;
Dos deuses suprema criatura;
Tempo da criança que nasce;
Procura na corrida do dinheiro;
Dono senhor de seus sinais;
Amor e ódio na jura dos casais.
Tempo, tempo, tempo!
Desse povo a me decifrar,
Que louco quer só me devorar;
Sou o vento que chega e vai;
Mandamentos do Monte Sinai.
Tempo, tempo, tempo!
Dos reis filhos dos sumérios;
Carrasco dos gregos e romanos;
Das lendas, mitos e mistérios;
Cruel dos sanguinários tiranos;
Inspiração dos poetas cantadores;
Chibata nas costas do escravo!
Tempo do tinteiro dos escritores;
Coragem libertária do bravo.
Tempo, tempo dos escândalos!
Roda sideral que nunca para!
Cadê o tempo do viver e amar?
Cadê o tempo do sentido do existir?
Tão levando o meu ar de respirar!
Não deixe o “Velho Chico” sumir!
Degole as cabeças desses vândalos;
Enterre na Vala dos Desconhecidos
Essa gente de tanta cara e tanta tara.
TERRA TERROR
Escurece o tempo que grassa,
uma cuca tragada pela massa.
Pombas cruzam o espaço;
o sangue jorra no asfalto;
derretem as idéias e o aço,
e a vida se torna uma pasta.
Destila a raiva dos alienistas,
com sede de vingança selvagem;
matam até por uma imagem,
os religiosos segregacionistas.
Nas cavernas de Tora-Bora,
lançam chamas de agonia,
em terras que foram travessia,
de tribos de reis de outrora.
Do império esmagador,
tanques cospem nos desertos,
e foguetes certos e incertos,
espalham inferno e terror.
Só tem perfume sua flor,
a outra é o cheiro do mal,
que tem veneno de coral,
e cresce como um tumor.
Da terra brota o terror,
de terno gravata e turbantes,
da verdade uns figurantes,
que dizem ser seu Senhor.
Por todo canto terroristas,
ameaçando tragédia nuclear;
contaminam todo o nosso ar,
disseminando idéias fascistas.
Sodoma e Gamorra de consumistas,
que alimentam a pança dos sofistas.










