Esse poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário foi inspirado num cartaz de uma pessoa numa das sinaleiras de Vitória da Conquista, pedindo ajude para se alimentar. É a fome que fala mais alto.

“AJUDE, TÔ COM FOME”

Pelas avenidas coloridas da noite,

Nas sinaleiras vermelhas do açoite,

Entre os selvagens beijos dos amantes,

Na viola companheira dos viajantes,

Vejo bares, festas e restaurantes,

Mesas cheias de comidas e bebidas,

Comemorando a vida de idas e saídas;

Lá fora ao vento vagam retirantes,

Perdidos sem rumo, sem nome,

E toda essa gente que mal come,

Sem lição a rogar com cartaz na mão:

“AJUDE, TÔ COM FOME”.

 

“AJUDE, TÔ COM FOME”

“Uma esmola envergonha o cidadão”,

Como dizia o cancioneiro rei do baião,

Pra ela não existe tempo de espera.

No estômago faz abrir uma cratera.

“AJUDE, TÔ COM FOME”

 

“AJUDE, TÔ COM FOME”

O governo não nos deu educação,

O capital nos excluiu do mercado;

Vivemos o agora do bota fora,

Como manadas no estouro do gado,

Como os milhões de desempregados,

Somos filhos de uma sociedade,

Que criou a fome e a violência,

Num país que roubou a cidadania,

Como se leva a poeira a ventania,

E há dias que o nosso irmão não come:

“AJUDE, Tô COM FOME”