:: 5/fev/2021 . 0:56
A FOME TEM A CARA DA MORTE
Foi no clique de suas lentes, na sinaleira da Avenida Luis Eduardo Magalhães, em frente do Estádio Lomanto Júnior, em Vitória da Conquista, que o jornalista Jeremias Macário registrou a cara da danada fome que deixa milhões de brasileiros subnutridos, levando-os até à morte.
A imagem do cartaz “AJUDE, TÔ COM FOME” contém muito mais que mil palavras. É inesgotável, e cada um procura descrever de acordo com seus sentimentos, suas emoções, racionalidades e revoltas. Por si só já é uma imagem de protesto e de denúncia. Sua face é séria e sisuda.
Tem o ditado que diz que ela tem pressa, e essa pessoa com o cartaz na mão, na sinaleira, comprova muito bem isso pelo seu semblante triste de quem pede socorro e misericórdia. Ela estava ali representando milhões de brasileiros que ainda passam fome em pleno século XXI.
Ela (a fome que tem a cara da morte) tem várias origens, desde os desmandos, as más gestões dos governantes e políticos até a corrupção que rouba o pão da boca dos pobres miseráveis. São cenas tristes que, infelizmente, ainda temos que registrar em nossas cidades e em todo Brasil.
Quando ela bate no estômago, a dor se alastra por todo o corpo e vai até o espírito. Digo isso porque já fui vítima dela pelas ruas de Salvador no começo dos anos 70 quando estava iniciando meu curso de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia.
Lembro muito bem de tudo quando sempre passava pelas avenidas Carlos Gomes e a Sete de Setembro nos horários de almoço e jantar em frente de bares e restaurantes. Via aquelas pessoas lá dentro se alimentando, e a dor ficava ainda mais doída, mais latente. Ela causa zonzeira na mente e na alma.
Infelizmente, ela está cada vez mais se alastrando pelo país a fora, principalmente agora com os mais de 14 milhões de desempregados e tantos outros milhões que não ganham nem um salário mínimo. É sim, uma vergonha, e não dá para ter orgulho do seu país assim, convivendo com ela lado a lado.
SEU VIGÁRIO!
Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Seu vigário, a sua benção,
Vim aqui me confessar,
Contra o Senhor Deus blasfemei,
Pensei muitas vezes em me matar,
Nesse solo do meu sertão,
Só tenho levado pancada e reio,
Confesso, seu vigário,
Que nem Nele mais creio.
Seu vigário, sou da terra lavrador,
A minha mulher perdi no parto,
Nem o menino mirrado vingou,
Sempre roguei pela chuva da vez,
Carreguei cruz e pedra em procissão,
Com toda fé, como ensina a religião,
E nesse ano, seu vigário,
Perdi tudo e a minha última rez,
Toda noite choro em meu quarto,
Nunca a ninguém desejei mal,
Dessa vida miserável, estou farto,
Seu doutor me prometeu água,
E só me mandou mais castigo e sal.
Seu vigário, no confessionário,
Ouviu todo seu triste lamento,
Viu em sua velhice o seu tempo,
Lá fora só batia o seco vento,
E disse, filho você não pecou,
Quem pecou foi o vosso patrão,
Que nos rouba e nos engana,
Como lobo e a hiena da savana,
De todos nós fez pano de chão,
E da sua velha surrada batina,
De tanta teologia e língua latina,
Da filosofia extraiu todo senso,
Dela tirou o amarrotado lenço,
E suas lágrimas caindo enxugou,
Abençoou o penado nordestino,
Aquele homem sofrido e franzino.
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