:: 12/fev/2021 . 1:00
TEMPO DE SOBRA PARA MEDITAR
Carlos Albán González – jornalista
Prefeito Herzem Gusmão, nesses quase 50 dias de internamento, o senhor deve ter aproveitado a atmosfera silenciosa de um hospital de primeiro mundo para pensar e repensar sobre os seus próximos 46 meses à frente da Prefeitura de Vitória da Conquista. Com uma vitória contestada, com fortes argumentos, no 2º turno, por uma oposição indolente, devem ter passado por sua cabeça os erros cometidos por sua administração, com maior repercussão na área de saúde, ao deixar de combater, como era sua obrigação, o avanço da covid-19. Preferiu trabalhar pela reeleição.
Sob os cuidados de uma qualificada equipe médica, onde se destacam o infectologista David Uip e o cardiologista Roberto Kalil Filho, o senhor certamente vai se redimir perante seus conterrâneos, priorizando a saúde, a partir do momento em que reassumir o cargo.
Teimoso, como é visto pelos correligionários, o senhor promoveu uma série de questiúnculas com o governo do Estado, recusando-se, inclusive, a receber a Policlínica, por motivos políticos; não adotou as medidas necessárias para aparelhar o SUS e a rede hospitalar, mesmo tendo conhecimento de que o coronavírus já havia se espalhado por toda a região; não montou um hospital de campanha para atender os pacientes de mais de 35 municípios; permitiu a entrada de ônibus clandestinos vindos de São Paulo; emitiu decretos nos fins de semana, reabrindo todos os serviços não-essenciais, como se Conquista estivesse passando por um período de normalidade, indiferente à pandemia.
Prefeito, o senhor imaginou, num dos muitos momentos de meditação, com a cabeça sobre o travesseiro, se os mais de 250 conquistenses vítimas do coronavírus pudessem ter acesso ao tratamento oferecido pelo Hospital Sírio-Libanês, quantos estariam vivos hoje?. É um sonho. Nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é semelhante ao de muitos países africanos. A desigualdade entre ricos e pobres no Brasil é uma das mais altas do mundo. Mas, na condição de alcaide de Vitória da Conquista (o segundo município mais agradável do Nordeste para se morar), faça alguma coisa, na saúde e na educação, para reduzir essa diferença social.
Pelo amor de Deus, não se trata de uma crítica ao complexo hospitalar de Vitória da Conquista. Pelo contrário, os profissionais de saúde daqui e de todos os municípios brasileiros estão há um ano lutando, em condições adversas (instalações, aparelhamento, salários baixos e horas extras de trabalho), convivendo com o sofrimento humano e chorando a morte de colegas. Por trás dessa frágil estrutura, que vem sendo corroída há séculos – é inimaginável que em toda a imensa área do Amazonas, com exceção da Manaus, não exista um só leito de UTI – pelos políticos, há um capitão punido pelo Exército, acusado de crime de responsabilidade, por ter colocado um freio no combate ao covid 19 e retardado a compra de vacinas.
Os profissionais de saúde e o pessoal de suporte nos hospitais particulares e do SUS (o ministro Eduardo Pazzuelo admitiu que não conhecia o aplaudido trabalho da rede) são os verdadeiros heróis deste país. Passada essa pandemia sugiro que cada município brasileiro erga um monumento a esses super-homens e super-mulheres, para que sejam lembrados pelas futuras gerações. Responsável pela erradicação em 1904 da febre amarela e da peste bubônica, doenças altamente mortais na época, o cientista Oswaldo Cruz (1832 – 1917), com o apoio do presidente Rodrigues Alves, enfrentou e venceu os inimigos da vacina, punidos com a deportação para o longínquo Acre.
“Não se faz uma Copa do Mundo com hospitais”. Essa estúpida declaração foi feita pelo ex-jogador Ronaldo, que a imprensa chama de Fenômeno, ao defender, em 2011, a construção de 12 estádios – a FIFA exige no máximo oito – para a Copa do Mundo de 2014, todos superfaturados, a um custo que beirou os 10 bilhões de reais.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queria mostrar ao mundo que o país podia promover, no intervalo de dois anos, um Mundial e uma Olimpíada. Muitos desses equipamentos esportivos estão sendo destruídos por falta de uso pela ação do tempo. Membro do comitê organizador do Mundial, Ronaldo se tornou um próspero empresário, dono do Rayo Vallecano, clube da 1ª divisão do futebol espanhol. Sua imbecil afirmativa foi lembrada há poucos dias diante do agravamento da crise sanitária em Manaus, A responsabilidade atribuída a Bolsonaro e ao ministro da Saúde foi transferida para o governo petista.
Elixis
Prefeito, o senhor deve ter admitido, em “conversa” com os aparelhos do seu quarto, a ineficiência da cloroquina e de outros medicamentos na prevenção da covid-19. Ex-cliente dos “consultores” Geddel Vieira Lima e Roberto Jefferson, o senhor abraçou desde as primeiras horas a cloroquina, a hidroxiclina e a ivermectina, propagandeadas pelo seu mais recente “mito”, Jair Bolsonaro. Com um documento assinado por cerca de 100 médicos conquistenses, Herzem viajou em abril para Brasília. onde recebeu os elixis, que hoje abarrotam o almoxarifado da Secretaria de Saúde.
O Planalto mobilizou cinco ministérios, uma estatal, dois conselhos da área econômica, o Exército e a Aeronáutica, para levar milhões de comprimidos, sem eficácia comprovada, atestada por instituições científicas, a todas as regiões do país, principalmente ao Norte e Nordeste. A Merck, fabricante da ivermectina, alertou para os efeitos adversos do uso do medicamento. ”Pelo menos eu não matei ninguém”, diz Bolsonaro, procurando se livrar do cumprimento do dever.
Segundo o Lowy Institute, da Austrália, o Brasil está em último lugar no quesito gerenciamento da crise causada pela covid-19, resultado que tem preocupado governadores e prefeitos não-alinhados com o gabinete do ódio, cuja produção – cadê a CPI dos fake news, cuja relatora é a senadora baiana Lídice da Mata – cresceu nas últimas semanas. A mais nova campanha tem como objetivo desacreditar a vacina contra a covid-19.
Prefeito, as notícias ruins de sua terra não chegam ao seu conhecimento para não dificultar sua recuperação. Sua vice, a lojista Sheila Lemos, nesse contexto, age como a população estivesse dentro de uma bolha totalmente desinfetada. Em Brasília, onde se encontra, deve ter recebido a notícia de que a Região Sudoeste, especialmente Conquista, é a que mais preocupa as autoridades de saúde do estado. O número de leitos de UTI ocupados é de 93%, sendo que 60% são de pacientes de outros municípios, que não param de dar entrada nos três hospitais conveniados com o SUS; o número de óbitos (dois a três por dia) é de quase 300, somente de moradores locais.
A vacinação, na verdade, sofre interrupções, porque as doses são insuficientes. Para um observador atento os fura-filas aproveitaram os dois primeiros dias da campanha, mas somente três foram flagrados e vão responder inquérito. Torna-se urgente a divulgação de um cronograma da campanha de vacinação. Herzem nunca esteve bem afinado com a comunicação do seu governo, haja vista que em quatro anos cinco profissionais ocuparam a Secretaria de Imprensa.
DESABRIGADOS
Tem pesquisas que só dizem o óbvio ululante, porque qualquer pessoa com determinado nível de instrução já sabe. Essas pesquisas só têm sentido em termos de quantificação. O IBGE, por exemplo, concluiu que a pandemia do coronavírus aprofundou ainda mais o fosso entre ricos e pobres. Os números negativos das desigualdades sociais são altos. Isso já está bem visível aos nossos olhos com o aumento da pobreza, dos desabrigados, dos milhões de desempregados e de outros milhões vivendo na miséria, como bem mostram as imagens clicadas através das lentes do jornalista Jeremias Macário nas ruas e avenidas de Vitória da Conquista. Essas pessoas, que têm uma profissão, (um deles é motorista) estão nas ruas pedindo socorro, passando fome e necessidades de todos os tipos. São de todos lugares como estes personagens das fotos que vieram de Minas Gerais e não têm mais como retornar às suas terras. São como refugiados dentro do seu próprio país que, infelizmente, abandonou seus filhos, numa pátria onde o slogan diz que é amada. São quadros tristes e impactantes, mas que devem ser mostrados. Alguém já disse que o “homem sem pátria é como o rouxinol sem jardim”. É assim que muitos se sentem no Brasil, tão rico com um povo tão pobre. Achamos que não temos culpa pelo que está acontecendo, mas foi a nossa sociedade, com a qual compactuamos, quem criou a fome e a violência.
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