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:: 10/fev/2021 . 2:14

“O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO”

Da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2015, Svetlana Aleksiévitch, o livro intitulado “O Fim do Homem Soviético” é uma série de reportagens jornalísticas com depoimentos e entrevistas de testemunhas que falam dos tempos da Revolução Russa de 1917 desde Lênin, Stalin e seus sucessores; os trabalhos em campos forçados; a invasão alemã em 1941; a Perestroika de Gorbatchev com a chegada do capitalismo de mercado; o fim da União Soviética; os refugiados das guerras civis nas diversas repúblicas; e as delações entre parentes.,

A obra fala de amor, de sentimentos, de mulheres sofridas que apanhavam dos maridos, dos veteranos de guerra que foram abandonados pelo regime, da Sibéria, dos kulaks, de violência, discriminação contra os refugiados, de uma Rússia que não admite estranhos em sua terra, do engenheiro que se tornou empacotador de supermercado depois da Perestroika, tudo isso narrado através de entrevistas feitas pela jornalista.

DEPOIMENTOS IMPARCIAIS

A escritora (jornalistas deveriam ler o livro) dá voz ao povo, de forma imparcial a quem elogia o comunismo stalinista, mesmo com suas atrocidades e falta de liberdade, defendendo que o homem tinha o seu valor e orgulho de ser soviético, sem pensar no dinheiro. Outros depoimentos contrários mostram os movimentos a favor da Perestroika, e a tentativa de golpe em 1991, com pessoas apoiando e outras se colocando contra a abertura e a liberdade.

Durante todo o livro, cada um vai contando suas experiências de vida, suas histórias, sofrimentos passados e presentes, antes e depois da queda do império soviético, a violência nas cidades, as guerras no Afeganistão e na Tchetchênia, os testemunhos de refugiados discriminados que foram viver em Moscou, a vida dos veteranos que voltaram das guerras e a luta de sobrevivência depois de Gorbatchov, com uma Rússia dividida em ódios e intolerâncias.

Nos testemunhos existem passagens muito fortes e impactantes de pessoas e famílias que foram vítimas de atrocidades criadas pelo rancor com o fim da União Soviética, o fim do homem soviético como diz o próprio título do livro. Nas entrevistas feitas pela jornalista, muitos destilam sua raiva contra os usurpadores que dividiram e lotearam o patrimônio da Rússia com a chegada do capitalismo quando se aprofundou a divisão entre ricos e pobres.

  Na introdução, a escritora (seu livro é um compêndio de entrevistas) faz uma cronologia sobre a Rússia depois de Stalin, morto em 1953, a passagem de Nikita Khruschóv, que denunciou o culto à personalidade de Stalin. a repressão na Hungria, em 1956, os tanques na Tchecoslováquia, em 1968, a publicação do livro Doutor Jivago (Boris Pastermak), o poder com Leonid Bréjniev, em 1964, a invasão do Afeganistão, em 1979, a morte de Bréjniev em 1982, e seus sucessores Iuri Andrópov, Tchernenko, Mikhail Gorbatchóv, em 1985, Boris Iéltsin, eleito presidente em 1991 e todo o desenrolar da história das separações das repúblicas soviéticas até a era Putin.

Durante o livro, Svetlana destaca o hábito russo da “geração cozinha”, o lugar predileto das conversas e reuniões dos russos entre as famílias, mesmo nos tempos de Stalin, para criticar e xingar os governos, com todo cuidado e até em forma de códigos, para que não fossem descobertos e mandados para os campos de trabalho na Sibéria. Colocavam músicas altas para confundir os diálogos. Naquela época, tudo era vigiado, até os pensamentos.

O HOMO SOVIÉTICUS

No capítulo em que descreve “Observações de uma cúmplice”, a jornalista relata através de suas entrevistas, que o comunismo tinha um plano insano, o de refazer o “velho homem”, o antigo Adão. A cúmplice diz que “depois de setenta e tantos anos, no laboratório do marxismo-leninismo, cultivaram uma espécie humana peculiar, o homo soviéticus”. Muitos chamam de sovok, aquele que aderia cegamente a ideologia oficial.

Ela conta que nos depoimentos que colheu são recorrentes palavras como atirar, fuzilar, liquidar, passar em armas. “Temos uma relação particular com a morte” – diz a cúmplice, que fala de milhões que morreram. “Estamos cheios de ódio e preconceito”. Tudo vem de lá, de onde havia o gulag, a coletivização, a expropriação dos Kulaks, a migração dos povos. No livro, existem muitos relatos de suicídios por amor, por medo e por velhice.

As pessoas russas não conseguem abandonar a Grande História, e é um povo bélico, como descreve a escritora. “Ou guerreávamos, ou nos preparávamos para a guerra”, na observação da cúmplice. Referindo-se aos tempos pós revolução, existe um diálogo entre um professor e Tróstski. O professor diz que Moscou está literalmente morrendo de fome. Ai Tróstski responde: “quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias comeram seus próprios filhos. Quando eu fizer suas mães comerem os próprios filhos, aí você pode vir a dizer: Estamos morrendo de fome.

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