Da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2015, Svetlana Aleksiévitch, o livro intitulado “O Fim do Homem Soviético” é uma série de reportagens jornalísticas com depoimentos e entrevistas de testemunhas que falam dos tempos da Revolução Russa de 1917 desde Lênin, Stalin e seus sucessores; os trabalhos em campos forçados; a invasão alemã em 1941; a Perestroika de Gorbatchev com a chegada do capitalismo de mercado; o fim da União Soviética; os refugiados das guerras civis nas diversas repúblicas; e as delações entre parentes.,

A obra fala de amor, de sentimentos, de mulheres sofridas que apanhavam dos maridos, dos veteranos de guerra que foram abandonados pelo regime, da Sibéria, dos kulaks, de violência, discriminação contra os refugiados, de uma Rússia que não admite estranhos em sua terra, do engenheiro que se tornou empacotador de supermercado depois da Perestroika, tudo isso narrado através de entrevistas feitas pela jornalista.

DEPOIMENTOS IMPARCIAIS

A escritora (jornalistas deveriam ler o livro) dá voz ao povo, de forma imparcial a quem elogia o comunismo stalinista, mesmo com suas atrocidades e falta de liberdade, defendendo que o homem tinha o seu valor e orgulho de ser soviético, sem pensar no dinheiro. Outros depoimentos contrários mostram os movimentos a favor da Perestroika, e a tentativa de golpe em 1991, com pessoas apoiando e outras se colocando contra a abertura e a liberdade.

Durante todo o livro, cada um vai contando suas experiências de vida, suas histórias, sofrimentos passados e presentes, antes e depois da queda do império soviético, a violência nas cidades, as guerras no Afeganistão e na Tchetchênia, os testemunhos de refugiados discriminados que foram viver em Moscou, a vida dos veteranos que voltaram das guerras e a luta de sobrevivência depois de Gorbatchov, com uma Rússia dividida em ódios e intolerâncias.

Nos testemunhos existem passagens muito fortes e impactantes de pessoas e famílias que foram vítimas de atrocidades criadas pelo rancor com o fim da União Soviética, o fim do homem soviético como diz o próprio título do livro. Nas entrevistas feitas pela jornalista, muitos destilam sua raiva contra os usurpadores que dividiram e lotearam o patrimônio da Rússia com a chegada do capitalismo quando se aprofundou a divisão entre ricos e pobres.

  Na introdução, a escritora (seu livro é um compêndio de entrevistas) faz uma cronologia sobre a Rússia depois de Stalin, morto em 1953, a passagem de Nikita Khruschóv, que denunciou o culto à personalidade de Stalin. a repressão na Hungria, em 1956, os tanques na Tchecoslováquia, em 1968, a publicação do livro Doutor Jivago (Boris Pastermak), o poder com Leonid Bréjniev, em 1964, a invasão do Afeganistão, em 1979, a morte de Bréjniev em 1982, e seus sucessores Iuri Andrópov, Tchernenko, Mikhail Gorbatchóv, em 1985, Boris Iéltsin, eleito presidente em 1991 e todo o desenrolar da história das separações das repúblicas soviéticas até a era Putin.

Durante o livro, Svetlana destaca o hábito russo da “geração cozinha”, o lugar predileto das conversas e reuniões dos russos entre as famílias, mesmo nos tempos de Stalin, para criticar e xingar os governos, com todo cuidado e até em forma de códigos, para que não fossem descobertos e mandados para os campos de trabalho na Sibéria. Colocavam músicas altas para confundir os diálogos. Naquela época, tudo era vigiado, até os pensamentos.

O HOMO SOVIÉTICUS

No capítulo em que descreve “Observações de uma cúmplice”, a jornalista relata através de suas entrevistas, que o comunismo tinha um plano insano, o de refazer o “velho homem”, o antigo Adão. A cúmplice diz que “depois de setenta e tantos anos, no laboratório do marxismo-leninismo, cultivaram uma espécie humana peculiar, o homo soviéticus”. Muitos chamam de sovok, aquele que aderia cegamente a ideologia oficial.

Ela conta que nos depoimentos que colheu são recorrentes palavras como atirar, fuzilar, liquidar, passar em armas. “Temos uma relação particular com a morte” – diz a cúmplice, que fala de milhões que morreram. “Estamos cheios de ódio e preconceito”. Tudo vem de lá, de onde havia o gulag, a coletivização, a expropriação dos Kulaks, a migração dos povos. No livro, existem muitos relatos de suicídios por amor, por medo e por velhice.

As pessoas russas não conseguem abandonar a Grande História, e é um povo bélico, como descreve a escritora. “Ou guerreávamos, ou nos preparávamos para a guerra”, na observação da cúmplice. Referindo-se aos tempos pós revolução, existe um diálogo entre um professor e Tróstski. O professor diz que Moscou está literalmente morrendo de fome. Ai Tróstski responde: “quando Tito tomou Jerusalém, as mães judias comeram seus próprios filhos. Quando eu fizer suas mães comerem os próprios filhos, aí você pode vir a dizer: Estamos morrendo de fome.

A Rússia mudou, e odiou a si mesma por ter mudado. “O mongol imóvel”, como escreveu Marx. São notas de testemunhas entrevistadas pela jornalista. Outra delas diz que ninguém nos ensinou o que era a liberdade. Sobre esse assunto tão delicado na época do comunismo, muitos dão suas versões, inclusive com relação a Perestroika. Liberdade é ter um jeans, usar uma camisa com o retrato de Che Guevara e de Lênin? Ninguém fala mais de ideal, fala de crédito, de porcentagens e de cambio…

Sobre os anos 90, alguém desabafa que agora o quadro é diferente. Os alunos de hoje já sentiram na pele o que é o capitalismo: desigualdade, pobreza e riqueza descarada. Eles já viram bem de perto a vida dos pais, para quem não sobrou nada da pilhagem do país.  Existe o partido do poder, que copia o partido comunista.

Durante esse tempo, as piadas floresceram, como a de que comunista é aquele que leu Marx, e um anticomunista é aquele que entendeu. Um diz que os contrabandistas e os cambistas tomaram o poder. Ao contrário do que disse Marx, depois do socialismo estamos construindo o capitalismo. Os capitalistas são gordos e são horríveis. Foi isso que enfiaram em nossas cabeças na infância. Você liga a televisão e todos estão falando como bandidos.

Para os que viveram os tempos duros, o império e o comunismo estão alojados no nosso subcórtex. Preferimos as coisas heroicas. O socialismo fazia as pessoas viverem na história; fazer parte de algo grandioso. Quando eu acreditava no comunismo, não precisava de igreja. Achamos os ocidentais ingênuos porque eles não sofrem como nós, para qualquer brotoeja, eles têm um remédio.

O livro conta dez histórias do interior vermelho. Numa delas, um personagem afirma que a ciência também trouxe à humanidade inúmeras catástrofes. Vamos então aniquilar os cientistas! Amaldiçoar os pais da bomba atômica”?… Existem depoimentos sobre o término da campanha na Finlândia, em 1940.

Nesse tempo, as histórias são muito trágicas e tristes. Tanto os prisioneiros de guerra na Finlândia como dos alemães, quando escapavam ou retornavam, eram tratados como traidores da pátria, e muitos até iam para os campos de trabalho forçado. Contra a abertura dos anos 90, um entrevistado critica os democratas. Dizem que eles provaram um terninho americano, ouviram o Tio Sam, mas o terninho americano não entra.

Um defensor do socialismo diz que o sistema não é só campo de trabalho forçado, não é só delação e cortina de ferro; é também um mundo justo e limpo; Dividir com todos, ter pena dos mais velhos, ter compaixão, e não juntar tudo para si.

AS DELAÇÕES

Bem, a obra é um retrato fiel de entrevistas feitas pela jornalista onde cada um diz o que pensa, cada qual em seu tempo, e o que perdeu e o que sofreu. Relata sobre as delações onde pai dedurava filho, e este a mãe. Irmão apontava irmão; vizinho entregava vizinho, e assim por diante. Qualquer vacilo era visto como inimigo do povo.

No livro existem umas passagens interessantes que dão uma ideia de como o medo pairava sobre as cabeças das pessoas, principalmente na época stalinista.  Um testemunho narra que numa sessão do Partido, Stalin foi ovacionado de pé, mas ninguém se atrevia a sentar-se primeiro. Quando um membro do Partido revolveu se sentar foi depois condenado a trabalho forçado.

Outro caso foi de um russo que fez uma crítica sobre a qualidade do jeans russo depois de 20 anos de comunismo. Também foi preso e sentenciado. Um artista declamava uma poesia sobre Stalin. Era uma festa em homenagem ao centenário da morte de Púchkin. (Eu rio, mas ele não ri.) O estudante recebeu dez anos no campo de trabalho sem direito a correspondência.

Tinha um motorista preso por ser parecido com Stalin. Um intelectual folclorista que contava contos de fada infantis foi delatado pela própria mãe. O Comitê Central debatia a fecundação das éguas. Um russo brincou indagando se o Comitê não tinha coisa mais importante para discutir. Ele falou isso à tarde, e de madrugada já estava preso. Quando eu ia para o trabalho, passava por uma estátua de Stalin, e ficava suando frio: Vai que de repente ele advinha o que eu estou pensando.