:: ‘Na Rota da Poesia’
A DOR DO RETIRANTE
Nova versão de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, Senhor Deus!
O açude secou,
Tudo ao sol se evaporou,
No lajedo o mandacaru,
Nessa imensidão do tempo,
Sem o sinal do vento,
Nem no agreste uma flor.
Ah, Senhor Deus!
Vou embora do Nordeste,
Deixar o meu sertão,
Com a benção da minha mãe,
Pra noutra terra ser peão,
Ser escravo dos capitais,
E vagar nas transversais.
Ah, Senhor Deus!
A dor doida corta o peito,
Como facada no lamento,
Ver esse feito da minha gente,
Partir como retirante,
De fome sem lavoura e alimento.
O rebanho e sem semente,
Sem nascer um rebento.
Ah, Senhor Deus!
Na grande cidade das esquinas,
Filhos soltos desgarrados,
Sinaleiras de meninos e meninas,
Vivendo de parcas esmolas,
Como alvo das chacinas,
Balas perdidas sem escolas,
Nas selvas de pedras infernais.
Ah, Senhor meu Deus!
Nos socorra se quiser,
Para um dia nós voltar,
Pra nossas roças plantar,
Fartura pra renovar a fé,
Sem nunca mais na vida,
Em terra de estranhos,
Viver a mendigar.
PORTA ABERTA
Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Por muito tempo,
Nessa vida desumana,
Entre a lida sagrada/profana,
Juntos rimos e choramos,
Na alegria e no sofrer,
Com a porta aberta pra você.
Nos separamos em vias diferentes,
Com a jura de nunca mais nos ver,
No cego rancor de intolerantes,
Cheios de dor com o que restou.
O ódio dessa gente nos repartiu,
Fui egoísta como colonizador,
E troquei o ser pelo ter.
Hoje com os conceitos a rever,
Minha porta está aberta pra você.
Meu peito não guarda mais mágoa,
Lavei a alma no Rio do Amor,
Não consigo viver do esquecer,
Saudades do abraço afago,
Do banhar no mesmo lago,
Na porta que está aberta pra você.
Volte logo,
Não suporto está solidão,
Desse viajar na contramão,
Sem o sentido do viver existir,
Basta de tanto levantar e cair,
Do só cobrar o receber,
Sem abrir minha porta pra você.
Quando um viola do outro o feito,
É como canção sem o som da viola,
Vamos fazer nossa linha de frente,
Onde sopra o fresco vento,
Que atrás de nós vem gente,
Para roubar o nosso direito.
O segredo está em saber conviver,
Tire a tramela da sua janela,
Que minha porta está aberta pra você.
Perdoe meu passado de pecado,
Quero das cinzas como Fenix renascer,
Minha porta não é mais de ferro,
A intransigência aqui enterro,
Não mais um vil pintado de anil,
Minha porta está aberta pra você.
VISÕES DAS ÁFRICAS
Poema acabado de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Nasci na Região dos Grandes Lagos,
Ao pé do Baobá da Montanha da Lua,
Entre reis e adivinhos de Muzagos,
Onde a livre aldeia da mãe terra flutua,
No triângulo dourado da escravidão,
Nas visões geográficas das Áfricas.
Sou do Congo belga sanguinário,
Da Etiópia do Mussolini ditador,
Da Argélia dos tambores da dor.
Da Península Ibérica das Áfricas
Cresci bantu-ketu-jeje Magrebe,
Lamento negro criado no arado,
Sou do Crescente Fértil sumério,
Um lambuzo do império mulato,
Nas visões lendárias das Áfricas.
Não mais gado domado do colonizador,
Sou a voz de Mandela, sim Senghor,
Soynka, Mia Couto, Diop, Chebel e Cabral,
Fela-Kuti, Fanon, Mudimbe e Fatema,
Pan-africano com minha raiz cultural,
Na arte da escrita, da música e do cinema,
Nas visões dos “Intelectuais das Áfricas”.
Sou da Guiné, Benin, Angola e Senegal,
Rota das correntes, massacres de horror,
Carnes da negritude curadas com sal,
Forte como as ondas do mar Orixá Criador,
Nas visões históricas islã das Áfricas.
NÃO VIM PARA CONSTRUIR
Versos satíricos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Não vou mais comprar arroz e feijão,
Vou comprar fuzil pra matar meu irmão,
Ser um idiota ignorante nesta terra plana,
Não vou usar máscara e tomar vacina,
Pra você uma banana, fela da puta sacana.
Sou AntiCristo ladrão de palmito,
Tenho o meu direito individual,
De cagar na corte do Supremo Federal,
Canalhas jornalistas, gays comunistas,
Meus seguidores me chamam de “mito”.
Não vim como o messias construir,
E sim com minha loucura destruir,
Essa maldita subversiva cultura,
Derrubar cada pau dessa Amazônia,
Com minha democrata ditadura.
Negro se vende por quilo e arroba,
Índio tem que ser expulso e morto,
Cada dia falo minha merda ôba-ôba,
Rio tem que ser enterrado com mercúrio,
Sou Deus pelo caminho curvo e torto,
Militar bom é quem atira e rouba.
Vou detonar todo esse Pantanal,
Acabar com essa bicharada no lamaçal,
Com esse Mané, José e Juvenal,
Estourar essa tal camada de ozônio,
Com minha bombinha de plutônio.
Tenho meus generais de pijama,
Que ora urinam no pinico e na cama,
Todos são uns velhos frangotes,
Iludo meus apoiadores com lorotas,
Que acreditam que ainda tenho botas.
Sou o capitão expulso da negação,
Desmascarado da moto da morte,
Os malucos ainda entram na minha,
E na dos meus filhos da rachadinha
Que morra o fraco e viva o forte.
Fui até contrabandista garimpeiro,
Detesto todo cabra do estrangeiro,
Menos meu Tio Sam Trampeiro,
Meu Brasil dourado, Pátria Amada,
Eu sou a pregação besta fera do nada.
Que morram todos de fome e pandemia,
Alegria, Alegria e viva a mordomia,
O sol não bate mais nas bancas de jornais,
Bate nas fake news das redes sociais,
E o Brasil do dia a dia conta seus mortais.
Povo armado jamais será escravizado,
Atiro em quem não estiver do meu lado,
O coletivo social que vá pro espaço,
Sou o tirano desse povo colonizado,
E para vocês mando chupar o bagaço.
VISÕES DAS ÁFRICAS
Versos inacabados do jornalista e escritor Jeremias Macário
Nasci na Região dos Grandes Lagos,
Sou filho da Montanha da Lua,
Mãe nua das florestas e dos matos,
Fui rei do Reino dos Magos,
Não sou mais preto e branco,
Sou um lambuzo dos mulatos,
Visões geográficas das Áfricas.
Sou parto colonizado do colonizador,
Do Congo, da Guiné, Angola e Senegal,
Portos de correntes, massacres da dor,
Culturas do chicote curadas com sal,
Kunta Kinté do patrão fugidor,
Nas visões das lendas das Áfricas.
Sou Soynka, Mia Couto e Cabral,
Diop, Fela-Kuti, Mudimbe e Fatema,
Ketu e Bantu com sua raiz cultural,
Arte da escrita, música e do cinema,
Cada um com sua história nos anais,
Nas visões dos intelectuais das Áfricas.
RIO RIACHO
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Dos tempos em que era só riacho,
E foi casco seco nesse carrasco,
Onde até rasparam as favas do tacho.
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Lava o suor e renova a palma de alma,
A lavadeira nele bate roupa e enxagua,
A boiada do boiadeiro cruza as águas,
Na toada avante do berrante do vaqueiro.
E a bela morena se banha sem anáguas.
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Do velho cancioneiro poeta solitário,
E o sertão em cor volta a ser relicário,
Dos meninos que do troco do barranco,
Pulam e brincam nus em suas águas.
O HOMEM QUE CHORA
Versos inéditos do jornalista e escritor Jeremias Macário
O homem em seu interior chora,
E lá fora bate o vento atrás do monte,
Até no horizonte onde secou toda fonte.
Nuvens anunciam tempestade de chuva,
Foguetes voam nesse espaço de engaço,
Da terra que produz da mandioca a uva,
Mas morre de fome a criança sem nome.
No infinito solitário da eternidade,
Náuseas desse falso existir solidário,
O homem perdeu seu sonho e o amor,
E só lhe restou a dor da tirana saudade,
Na espera de um verde no calendário.
Repente, repentistas desse Nordeste,
Cantam esse chão cauboy faroeste,
Do retirante a vagar com sua viola,
A solar a canção do homem que chora,
Nas noites frias a pedir uma esmola.
Sou a voz desse homem que chora,
Que perdeu a fé até em Nossa Senhora,
Sou a voz desse homem que chora,
Por justiça social que virou pedra de sal.
O GARIMPEIRO E O DIAMANTE
Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
“Quem não aguenta subir serra,
Não arranca candombá”,
Para extrair o diamante da mãe terra,
Consulta Curador Jarê caboclo orixá.
O garimpeiro da Diamantina Minas Gerais,
Cortou morro estrada até Mucugê Sincorá,
Das grunas dos olhos d´água, feras animais,
O pedrista lapidário faz do diamante colar.
Reza a lenda, todo diamante tem seu dono,
E o garimpeiro entra no túnel da encantaria,
Na Chapada Diamantina sonha em seu sono,
Encher de luxo brilhante sua amada Maria.
De Andaraí, Lençóis e das Palmeiras,
Nasceram bravos coronéis das Diamantinas,
E o garimpeiro no bambúrrio das cascalheiras,
Vendeu ao capangueiro suas amantes meninas.
Fantasias, cânticos, ritos, rituais e cultos,
Deuses sagrados e oráculos dos profanos,
Ainda se vê nos rios e vales alguns vultos,
Piçarras e mosquitos, perdas daqueles anos.
Um diamante apareceu no fundo da bateia,
Santo vaqueiro do eito, atabaque da magia,
Como nas bonanças das Lavras uma sereia,
Da Poíesis grega brotou do humano a poesia.
Senhor dos Passos dos mineiros padroeiro,
No enlace místico religioso afro-brasileiro.
O ALUNO E O MESTRE
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um dia o aluno pediu ao seu mestre
para que definisse o sentido do viver.
Respondeu que o enigma não importa,
e que o certo é aprender abrir a porta.
O aluno insistiu no Sou e para aonde Vou?
e que explicasse origem e fim do universo.
O mestre olhou perplexo e emendou sério:
Viva sempre cada verso e nada de mistério;
As florestas possuem seus próprios espíritos,
e o homem não suportaria viver sem conflito,
mas o jovem se intriga com o finito e infinito.
Por que uns ricos saudáveis e outros miseráveis?
Para o mestre, o homem tem a diferença imposta;
do nada ao cósmico, nem a ciência tem resposta.
BALANÇA PARA LÁ…
Poema do jornalista e escritor jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”.
Olha o balanço das árvores,
Que o vento dá,
Balança pra lá, balança pra cá,
Depois começa tudo,
Como nas ondas do mar.
Olha o tempo passando,
Ligeiro e devagar;
Olha a morte chegando,
Com a benção de Alá.
Parte rasgando o avião,
Lotado de gente zumbi;
Criaturas saem da terra,
E aparecem como saci.
Olha a dança das folhas,
Girando pra lá e pra cá,
Levando saudades no ar.
Na avenida zunem os tiros;
Balas voam perdidas;
Criança tomba no asfalto,
No ataque dos vampiros.
Carnaval de sunga suada;
Empurra pra lá e pra cá;
Pula, pula a pipocada,
No axé do arrocha cambada.
Vadia a bela, ou a feia,
Na orgia da bundada;
Balança pra lá e pra cá,
Pra gringo e nativo
Namorar sua sereia.
No sol do meu sertão,
Balança o pau-de-arara,
Cortando o cinzento chão
De espinho, fogo e vara,
Na poeira da estrada.
Virgulino, meu capitão,
Que diz dessa nossa vida,
E da traiçoeira morte,
Sem aviso e sem razão;
Que diz da canção,
De Vandré que chora,
Mandando fazer a hora.










