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:: ‘Na Rota da Poesia’

O GARIMPEIRO E O DIAMANTE

Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

“Quem não aguenta subir serra,

Não arranca candombá”,

Para extrair o diamante da mãe terra,

Consulta Curador Jarê caboclo orixá.

 

O garimpeiro da Diamantina Minas Gerais,

Cortou morro estrada até Mucugê Sincorá,

Das grunas dos olhos d´água, feras animais,

O pedrista lapidário faz do diamante colar.

 

Reza a lenda, todo diamante tem seu dono,

E o garimpeiro entra no túnel da encantaria,

Na Chapada Diamantina sonha em seu sono,

Encher de luxo brilhante sua amada Maria.

 

De Andaraí, Lençóis e das Palmeiras,

Nasceram bravos coronéis das Diamantinas,

E o garimpeiro no bambúrrio das cascalheiras,

Vendeu ao capangueiro suas amantes meninas.

 

Fantasias, cânticos, ritos, rituais e cultos,

Deuses sagrados e oráculos dos profanos,

Ainda se vê nos rios e vales alguns vultos,

Piçarras e mosquitos, perdas daqueles anos.

 

Um diamante apareceu no fundo da bateia,

Santo vaqueiro do eito, atabaque da magia,

Como nas bonanças das Lavras uma sereia,

Da Poíesis grega brotou do humano a poesia.

 

Senhor dos Passos dos mineiros padroeiro,

No enlace místico religioso afro-brasileiro.

O ALUNO E O MESTRE

Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia o aluno pediu ao seu mestre

para que definisse o sentido do viver.

Respondeu que o enigma não importa,

e que o certo é aprender abrir a porta.

 

O aluno insistiu no Sou e para aonde Vou?

e que explicasse origem e fim do universo.

O mestre olhou perplexo e emendou sério:

Viva sempre cada verso e nada de mistério;

 

As florestas possuem seus próprios espíritos,

e o homem não suportaria viver sem conflito,

mas o jovem se intriga com o finito e infinito.

 

Por que uns ricos saudáveis e outros miseráveis?

Para o mestre, o homem tem a diferença imposta;

do nada ao cósmico, nem a ciência tem resposta.

 

 

BALANÇA PARA LÁ…

Poema do jornalista e escritor jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”.

Olha o balanço das árvores,

Que o vento dá,

Balança pra lá, balança pra cá,

Depois começa tudo,

Como nas ondas do mar.

 

Olha o tempo passando,

Ligeiro e devagar;

Olha a morte chegando,

Com a benção de Alá.

 

Parte rasgando o avião,

Lotado de gente zumbi;

Criaturas saem da terra,

E aparecem como saci.

 

Olha a dança das folhas,

Girando pra lá e pra cá,

Levando saudades no ar.

 

Na avenida zunem os tiros;

Balas voam perdidas;

Criança tomba no asfalto,

No ataque dos vampiros.

 

Carnaval de sunga suada;

Empurra pra lá e pra cá;

Pula, pula a pipocada,

No axé do arrocha cambada.

 

Vadia a bela, ou a feia,

Na orgia da bundada;

Balança pra lá e pra cá,

Pra gringo e nativo

Namorar sua sereia.

 

No sol do meu sertão,

Balança o pau-de-arara,

Cortando o cinzento chão

De espinho, fogo e vara,

Na poeira da estrada.

 

Virgulino, meu capitão,

Que diz dessa nossa vida,

E da traiçoeira morte,

Sem aviso e sem razão;

Que diz da canção,

De Vandré que chora,

Mandando fazer a hora.

 

CIDADANIA SEM RAZÃO

Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, publicados em seu último livro  “ANDANÇAS”

Cidadão é não ter os seus direitos,

Dissolvidos na maior concentração;

Ser alimento no covil dos malfeitos,

E perambular na renda da contramão.

 

É ser eleitor e só servir para votar;

Viajar de avião uma vez na promoção;

Comer uma pizza com angu e caviar;

E humilhar esmola na fila do bolsão.

 

É pensar que existe uma democracia,

Onde o povo imagina estar no poder;

Que a submissão faz parte da cidadania,

E que a desigualdade já nasce com você.

 

Não importa se de fome a barriga dói,

Se todo ano tem uma festa de carnaval,

Quando se tem no peito seu ídolo herói,

E seu time foi classificado para a final.

 

Ser cidadão é ter orgulho do seu Brasil;

Não ter saúde e educação de qualidade;

Não ser honesto para não ser imbecil,

E não ligar para o regime da impunidade.

 

Autoestima é sediar os jogos olímpicos;

Armar barraquinhas na Copa do Mundo;

Virar elefantes depois dos paralímpicos;

E continuar resignados em sono profundo.

 

O barão condenado sorri em liberdade;

É que ele ainda está sendo o investigado;

O dezessete perigoso é menor de idade,

E o povo ferrado vai vagando como gado.

 

Deixaram queimar na Antártida nossa base;

Nos jogaram no lodo, sem saneamento básico;

Tem classe sem classe que não sabe uma frase,

E o roubo do bem público virou nosso clássico.

 

Já se falou em botar um astronauta no espaço,

Mas forças invisíveis retorceram os cientistas,

Lá em Alcântara, no país do reboco e do aço,

Musicado nas rimadas dos mestres cordelistas.

 

Uma cadeira na ONU por qualquer bagulho;

Não importa se já aprendemos a nossa lição,

Se os partidos políticos viraram um entulho,

Vivendo todos marchando nas ruas sem razão.

 

 

 

 

 

 

 

 

QUANDO E O AGORA

Uma nova versão corrigida e lapidada pelo autor Jeremias Macário

Quando vim ao mundo bebê,

No caldeirão fervente cultural,

Do conhecimento e do saber,

Cada escritor, poeta e jornal,

Eram como torcida de futebol,

Pelas noites etílicas ao pôr-do sol,

Nas praças, esquinas e botequins,

De livro na mão aprendendo a lição.

 

Lá fora cartazes e faixas gigantes,

Os jovens enfrentavam a censura,

Com o livre amor, todos vibrantes,

Marchavam contra a tirana ditadura.

 

O agora rotula a nova geração,

Como embalagem fora do produto,

Entre painéis, construção e viaduto,

Os milhões contam seus seguidores,

No youtuber, twiter, face e zap-zap,

Entre códigos pq, mt, mentes cores,

Troca o ser pelo consumo do ter,

No lixo joga a nossa memória,

Rosna a língua e nada de história,

E ainda acha você um careta que ler.

 

Quando o sábio visita o agora,

Sente o vazio no sentido do existir,

Um humano sem essência de elixir,

Como uma planta que não flora.

 

QUANDO E O AGORA

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando a cultura nascia com o bebê,

Sedento de conhecimento e saber,

Era discutida como torcida de futebol,

Pelas noites etílicas e pela luz do sol,

Nas praças, botequins e restaurantes,

Livros nas mãos aprendendo a lição.

 

Lá fora cartazes e faixas gigantes,

Os jovens enfrentavam a censura,

Com o livre amor, todos vibrantes,

Marchavam contra a tirana ditadura.

 

A nova geração do aqui e agora,

Perde todo tempo, e nem faz a hora,

No youtuber, twiter, face e zap-zap,

Entre códigos pq, mt e vap-vap,

Troca o ser pelo capital do ter,

Joga no lixo toda nossa memória,

Mata a língua mãe e nada de história,

Nem se importa com Sofia e política,

Não sabe o que é lógica e crítica,

E acha você um careta que ler.

 

VIOLAÇÃO

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu último livro “ANDANÇAS”

Mesmo o mais contrito do santo,

Tem no seu lamento o seu pranto,

Com a revolta varando o seu peito,

Pela violação sagrada do direito.

 

A alma em secura não mais chora;

Tortura do pau-de-arara e choque;

Abafa os gritos, a censura lá fora,

Calando canção suingada do Rock.

 

Nos porões desaparecem os mortos,

Na selva sepultam quebrados corpos,

Sem punição, sangrados como porcos.

 

A justiça cheira como um coliforme,

E nas cadeias simulam os suicídios,

Com mentiras impostas pelo uniforme.

SOU MAIS AS CAPELAS

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Bendito seja nosso oratório!

Sou mais as capelas,

Com suas rezas e velas,

Do que a ostentação das catedrais,

Com seus bispos, papas e cardeais.

 

Sou mais as capelas,

Sem estilos gótico, ou barroco,

Feitas pelos braços dos mutirões,

Na pisada do samba e do coco,

E nelas não se fez inquisições.

 

Sou mais as capelas,

Do sincero nordestino de fé,

Onde tem Maria, João e José,

O compadre, a comadre e você,

Sem o falso senhor do poder,

Que só quer pousar pros jornais,

Entre luminárias dos castiçais.

 

As catedrais dos imponentes sinos,

Das mitras, báculos e anéis,

Com seus seculares painéis,

E crucifixos banhados a ouro,

São da nobreza, reis e rainhas,

Coroados como deuses divinos,

Que saquearam o tesouro dos latinos.

 

Capelas não têm vitrais nas janelas,

Nem antigos imperiais azulejos,

Só seu vigário e seus fiéis sertanejos,

Que oram Pai Nosso, Santa Senhora,

Mandai chuva pra molhar esse solo,

Pra matar a fome da criança que chora.

 

 

 

 

MEMÓRIA

Um poema do jornalista e escritor Jeremias Macário em homenagem aos torturados e mortos pela ditadura civil-militar de 1964 e que faz parte do seu livro “ANDANÇAS”

De algum lugar da selva,

De gente pobre submissa,

O guerrilheiro firme resiste,

Redigindo sua carta,

Para sua amada Marta,

Acreditando na vitória,

De construir uma justiça,

Para mudar nossa história.

 

De algum lugar da selva,

Vive uma senhora lavradora,

Onde as réstias da luz do sol,

Disputam espaços nas folhas,

Revigorando o social ideário,

De um guerrilheiro solitário,

Que foi crivado de balas.

Pela tirana metralhadora.

 

Veio a fúria do vento forte,

Cuspindo fogo pelas ventas,

No disfarce de uma chicória,

Que com seu cutelo da morte,

Devorou a nossa memória.

 

Sem o direito de nem pensar,

Quanto mais de se expressar,

Os contras foram torturados,

E sacrificados no altar.

 

Os sobreviventes dos horrores,

Ainda temem seus algozes,

Como os cães mais raivosos,

Que ainda causam as dores,

Ultrajando nossa memória.

 

De uma noite para o dia,

A lua cheia ficou vazia;

Foi-se embora toda ternura,

Porque o carrasco teve anistia,

E a família do desaparecido,

Ficou sem fazer sua sepultura.

 

Pior ainda é perdurar as trevas,

Sem a punição dos assassinos,

Que executaram nossos meninos,

E agora querem outra vez voltar,

Para massacrar e humilhar,

Quem já foi tirado do seu lar.

 

Está entalado em nossa garganta,

O grito proibido da verdade,

Dessa memória ensanguentada.

Que ainda não saiu do porão,

Para punir toda brutalidade,

Dos carrascos de plantão.

LÍQUIDO AMARGO

Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”

Dá para escutar o vento farfalhar no trigal,

No brandir das espadas na poeira da arena;

Ouvir o galope do corcel a milhas de distância,

Quando o silêncio visceral da morte,

Derrama seu líquido amargo da solidão,

Pelo corpo que não é mais seu.

 

Dar para sentir o salto veloz da fera,

A dilacera suas presas mortais,

Na garganta sanguenta da razão.

 

O líquido amargo expele sua fórmula,

E com toda calma arranca sua alma,

Para um outro além da dimensão,

Sem ao menos pedir a sua permissão.

 

 





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