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:: ‘Na Rota da Poesia’

ESCRAVIZADOS

De Danilo Jamal, em POFESTO – Ação Direta, Editora EDU O.

Pela frente ou por trás,

Nenhum deles sabe o que faz.

Nos tiram o direito,

Alegando que é em nome da paz.

Nos jogam em qualquer lugar

Feito animais,

Mancham nossa história

E esquecem nossos ancestrais.

Nos colocam em vitrines,

Para ver quem paga mais.

São essas as grandes

Injustiças sociais.

QUEM É ESSE ENCANTADO?

De autoria de Jeremias Macário

Quem é esse encantado,

De alma menino,

Que tanto nos fascina,

Como mito divino,

Que encurta caminhos,

Filho da América Latina,

Que escreveu em sua lápide:

Por aqui passei, sempre amei,

E tudo deixei.

 

Quem é esse encantado,

Sem mitra e estola,

Que fez da vida sua escola?

É o índio guerreiro?

General das guerras vencedor?

Escravo liberto do seu senhor?

Sábio viajante do tempo?

Ou espírito amante cantante?

 

Tentei decifrar seu encanto,

De encantado profundo,

Religioso e profano,

Que sabe rir e sofrer,

Sem ser pecador e santo,

Que só o canto da viola,

Desencanta seu mundo.

 

Quem é esse encantado,

De tanto mistério na terra,

Que aprendeu subir e descer a serra,

Conhece os enigmas do ar e do mar?

 

Quem é esse encantado,

Que tanto encanta o humano,

Pescador de poesia,

Resistente como planta

Do nosso sertão nordestino,

Que rege seu próprio destino,

E vive da sua filosofia?

 

 

CONTRASTE

Autor Erathósthenes Menezes, do livro “O Poeta do Mulungu”

Obra resgatada pelo professor Durval Menezes

Aqui, a dor a lancinar, fremente,

Um triste peito, aflito, suspirando,

Além um outro a delirar, contente,

Tendo de amores a alma transbordando.

 

Aqui, um Creso a rir, indiferente,

Tendo um sabor de glórias, ouro e mando,

Além, um outro, da ventura ausente,

Roto, na rua, triste, mendigando.

 

Num lar, festas, um mundo de esperança,

Já noutro lar a brusca morte lança,

O dardo agudo, cheio de terror.

 

É passageira, pois, e indefinida,

Esta balbúrdia que se chama vida

Em que se enlaçam a alegria e a dor.

Conquista, 22 de agosto de 1981

MUSA PRIMEIRA

Imagine,

Fim do dia,

O que fizemos?

A noite chega matreira,

Dizem ser uma criança,

Ou às vezes traiçoeira,

Das andanças lembrança.

 

Toda vida,

Tem entrada e saideira,

Viagem do tempo,

Do abrir cancela e porteira,

Na pisada do sentimento,

Subo serra,

Desço ladeira,

Gira a terra,

Igualdade é uma mentira,

Rico fica com a paisagem,

Pobre com a tira,

Mas cada um já teve,

Sua musa primeira.

 

Musa primeira,

Fonte inspiradora,

Deusa do ar e do amor,

Da arte redentora,

Bálsamo da dor,

Musa primeira.

 

TUDO ISSO VAI SE ACABAR

Versos inéditos de autoria de Jeremias Macário

Que me perdoem os otimistas,

Assassinaram minha esperança;

O sangue corre nas pistas;

A roubalheira só avança;

A situação pode ainda piorar,

Mas tudo isso vai se acabar.

 

Pelo celular recebo vídeos,

O ser mau caráter virou moda,

Nesse Brasil dos genocídios;

Corrupção tornou-se mão na roda,

Para nosso sonho esmagar,

Mas tudo isso vai se acabar.

 

Oh, Senhor Deus do poeta!

Com seus versos em oração,

Na linha reta como uma seta,

No lamento contra a escravidão,

Una forças aos dos orixás:

A Oxum, Iansã e a Iemanjá,

Omolu, Xangó, nagô-iorubá,

Para que no tempo um dia,

Nessa longa penosa via,

Tudo isso vá se acabar.

BA-HIA

Versos de autoria do jornalista Jeremias Macário

Ba-hia, rainha do mar,

Baia de Todos os Santos,

Do índio tupinambá,

Das mitologias dos orixás,

Aprendi a fazer essa prosa,

No Seminário de Amargosa,

Ba-hia escrita com “H”.

 

Ba-hia dos cancioneiros,

Abençoada pela natureza,

Gil, Caetano, Novos Baianos,

Raul “Maluco Beleza”,

Do Rio e São Paulo, pioneiros,

Do Águia de Haia para o mundo,

Ba-hia encanto do canto profundo.

 

Ba-hia de São Salvador,

Mistérios e dos Terreiros,

Com seu manto de igrejas,

Senhor do Bonfim ou Oxalá,

Nos guie e nos protejas,

Raízes jejes, nagôs e iorubá.

 

Ba-hia do sertanejo catingueiro,

Resistente menino de pés no chão,

Filho do cacto e do mandacaru,

Nordestino, estrangeiro no sul.

 

Ba-hia de se perder de vista,

Nas histórias de Jorge Amado,

Dos coronéis de Itabuna e Ilhéus,

Tem cacau, café e o sol de Jequié,

Memórias de Vitória da Conquista,

Anísio Teixeira de Caetité,

Filmes de faroeste agreste,

Glauber, Elomar menestrel,

Repentistas versando nas feiras,

E grãos do oeste Barreiras.

 

Ba-hia do gado de Itapetinga e Caatiba,

Tem a Chapada Diamantina;

Foi lá que namorei uma menina,

No Piemonte de Piritiba,

Com ela fui me banhar,

Nas águas do São Francisco,

Virei pescador ribeiro,

Nas fartas frutas de Juazeiro.

PRECISO RESPIRAR!

Novo poeminha de Jeremias Macário

Preciso respirar!

Preciso respirar!

Preciso de ar!

 

Estou sufocado,

Com essa fumaça da Amazônia,

O fogo do Pantanal;

Tenho insônia,

Angústia existencial.

 

Preciso respirar!

Preciso de ar! Gritar!

 

Dos automóveis, a fuligem,

Monóxido, metano, dióxido,

Carbono dos fósseis;

Não posso abrir minha janela;

Bate a poluição sonora,

Sem ar, trancado nessa cela;

Virgem Maria, Nossa Senhora!

Tanto lixo a entupir o mar;

Meu respirador, seu doutor!

 

Preciso respirar:

Novas ideias,

Sem polarizar;

Fugir dessa gente farsante,

De falso sorriso,

Palavra de vento errante;

Minha garganta, seu moço!

Tem um caroço.

 

Preciso respirar!

A vista se faz escura!

Nesse sistema sem cura;

Preciso de ar!

NÃO SOU DESSE MUNDO

Mais um poeminha inédito de Jeremias Macário

Não sou desse mundo,

Do sistema que mata o humano;

Estou mais para amante,

Do poeta do canto profundo;

Na campina ouvir,

O solar do Bem-te-Vi.

 

Difícil ser romântico,

Nesse planetário quântico,

Conhecer a si mesmo,

Nesse vazio esmo.

 

Procuro quem sou,

Na angústia da dor,

Se sou caça, ou caçador.

 

Não dá para tapar,

O sol com a peneira;

Saravá, meu orixá!

Me salve dessa cegueira.

 

Na praça, a câmara me vigia;

Quer saber o que penso;

Segue meus passos noite e dia;

Acusa que não tenho senso,

Nem incluso nesse censo.

 

Não sou desse mundo covil;

Vou virar bicho mocó;

Viver em minha loca,

Sem ser pororoca,

Nem broca desse metal vil.

 

Não sou desse mundo,

De tanta amargura,

Sem quase ternura.

BRUXA DA INQUISIÇÃO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A arte virou bruxa da inquisição,

Com vassouras e armas na mão.

 

Não me encontro nesse presente;

Do passado, aprendiz das lembranças;

Prefiro seguir em frente,

Na procura de um novo futuro,

De um porto firme e seguro,

Sem as amarras dessas alianças.

 

Arrebentaram as cordas do meu violão,

Minha voz está ferida e rouca,

Foi-se o perfume da linda canção;

A linguagem ficou louca,

Até a flor da arte está murcha,

Virou bruxa da inquisição.

 

Não sou nenhum Dom Quixote,

Nesse moinho de tanta ilusão,

Nem açoite dessa boiada;

Perdi o compasso do mote,

Nessa cultura ensanguentada;

Não mais viver nessa contramão.

 

O CATINGUEIRO

Um soneto de Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS

O catingueiro é tempestade do tempo e do vento;

Calmaria da caatinga de cor queimada do sol poente;

No sangue traz a seiva do mandacaru em pedregulhos;

Da seca, o sofrimento que o faz mais forte-resistente.

 

O catingueiro é cheiro da terra molhada e rachada;

Verde ou cinzenta, prosa cismada e desconfiada;

Poeira do sol a pino no arrasto do cabo da enxada;

Capanga cheia de sinais das nuvens das trovoadas.

 

O catingueiro carrega no corpo mãos calosas e espinhos;

Na alma, a sagrada palavra da prometida profecia,

De um Deus penitente, sem ler a escrita da sabedoria.

 

Pergaminho do sertão, cortando vereda e caminho;

Irmão da lua, esperança noturna, fé a lavrar todo dia;

Bicho do mato, tabaréu emboscado pela demagogia.





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