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:: ‘Na Rota da Poesia’

NÃO SOU DESSE MUNDO

Mais um poeminha inédito de Jeremias Macário

Não sou desse mundo,

Do sistema que mata o humano;

Estou mais para amante,

Do poeta do canto profundo;

Na campina ouvir,

O solar do Bem-te-Vi.

 

Difícil ser romântico,

Nesse planetário quântico,

Conhecer a si mesmo,

Nesse vazio esmo.

 

Procuro quem sou,

Na angústia da dor,

Se sou caça, ou caçador.

 

Não dá para tapar,

O sol com a peneira;

Saravá, meu orixá!

Me salve dessa cegueira.

 

Na praça, a câmara me vigia;

Quer saber o que penso;

Segue meus passos noite e dia;

Acusa que não tenho senso,

Nem incluso nesse censo.

 

Não sou desse mundo covil;

Vou virar bicho mocó;

Viver em minha loca,

Sem ser pororoca,

Nem broca desse metal vil.

 

Não sou desse mundo,

De tanta amargura,

Sem quase ternura.

BRUXA DA INQUISIÇÃO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A arte virou bruxa da inquisição,

Com vassouras e armas na mão.

 

Não me encontro nesse presente;

Do passado, aprendiz das lembranças;

Prefiro seguir em frente,

Na procura de um novo futuro,

De um porto firme e seguro,

Sem as amarras dessas alianças.

 

Arrebentaram as cordas do meu violão,

Minha voz está ferida e rouca,

Foi-se o perfume da linda canção;

A linguagem ficou louca,

Até a flor da arte está murcha,

Virou bruxa da inquisição.

 

Não sou nenhum Dom Quixote,

Nesse moinho de tanta ilusão,

Nem açoite dessa boiada;

Perdi o compasso do mote,

Nessa cultura ensanguentada;

Não mais viver nessa contramão.

 

O CATINGUEIRO

Um soneto de Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS

O catingueiro é tempestade do tempo e do vento;

Calmaria da caatinga de cor queimada do sol poente;

No sangue traz a seiva do mandacaru em pedregulhos;

Da seca, o sofrimento que o faz mais forte-resistente.

 

O catingueiro é cheiro da terra molhada e rachada;

Verde ou cinzenta, prosa cismada e desconfiada;

Poeira do sol a pino no arrasto do cabo da enxada;

Capanga cheia de sinais das nuvens das trovoadas.

 

O catingueiro carrega no corpo mãos calosas e espinhos;

Na alma, a sagrada palavra da prometida profecia,

De um Deus penitente, sem ler a escrita da sabedoria.

 

Pergaminho do sertão, cortando vereda e caminho;

Irmão da lua, esperança noturna, fé a lavrar todo dia;

Bicho do mato, tabaréu emboscado pela demagogia.

PALAVRAS! PALAVRAS!

Mais nova obra do jornalista e escritor Jeremias Macário

Tempos de estiagem,

Num cálido vazio árido,

Assim padece nossa linguagem,

De limitadas palavras,

Menos verbos conjugados,

Cadeados, censuras e travas.

 

Palavras! Palavras vira-latas,

Nesses mares de piratas;

Sem regras gramaticais;

Travessa de ódio e xingamentos,

Pouca lógica e argumentos;

Códigos que entopem canais,

Nas enchentes das redes sociais.

 

Palavras! Palavras! Palavras!

Raízes de Alá e Baobá,

Que nos fazem racionais,

Diferentes de outros animais.

 

Palavras! Palavras! Palavras!

Nascidas nos fios das barbas,

Que perderam seu valor,

Na escrita, fala e nos sinais,

Na guerra, na paz e no amor;

Sejam dos sábios imortais,

Labaredas de fogo incandescentes,

Como nas canções dos festivais;

Iluminem nossas mentes,

Na crítica e nos pensamentos;

Que não se percam aos ventos;

Nunca armas da violência,

E sim, sentido da existência.

 

 

 

 

TREM DE BITOLA

Versos inéditos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Não seja trem de bitola,

“se oriente, meu rapaz”:

Seu time não é sua vida,

Curta a canção da viola,

Pra tudo tem uma saída,

Não seja trem de bitola.

 

Fazer o quê, seu moço?

Use sua pensante cabeça,

Pra não ficar ai nessa cola,

Cresça, faça e apareça,

Não seja trem de bitola.

 

Troque a conta pela filosofia,

Se livre dessa burocracia,

Que rima com tirania;

Seja vaqueiro na laçadeira;

Vá abrindo sua porteira;

Não fiquei aí com cara de estola,

Nem seja trem de bitola.

 

Entre a comida a la carte,

Prefiro mocotó e a buchada,

Assim vou tocando minha arte;

Sou cabra nordestino da enxada,

Longe dessa sociedade depravada,

Cheia de porcarias no buxo,

Que só pensa consumir o luxo,

Ser seguidor de pistola,

E andar como trem de bitola.

 

MINHA FILHA DOWN

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou continente e ilha;

Navegante errante,

Dessa insensata nau.

Esse meu verso e canto,

É para minha filha Down,

Que perdoe meu egoísmo,

Por tanto lidar com esse ismo,

Que me deixa confuso,

Mas seu olhar de ver,

Acalanta o meu ser.

 

Sou deserto e mar,

Horizonte finito e infinito;

Você é facho de luz,

Ternura que me conduz;

Desculpe esse meu ego conflito;

Sou como vento cortante;

Você rosa perfumante.

 

Minha filha Down!

Sou dúvida do sentido sentir;

Você é certeza do existir,

Sem pecado, imaculada,

Pedra reluzente preciosa,

Alma de encanto formosa,

De pura beleza sideral:

Down estrela da natureza,

Do ventre da mãe Tereza.

CABARÉ PÉ DE SERRA

Mais um poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

A terra pegando fogo em guerra,

E eu aqui nesse cabaré

Do Nordeste pé de serra

Dos poros transpiro sofrência

Nas luzes ultravioletas

Bani da alma toda crença

Sem mais fé e consciência

Sangrando pela Julieta

Que na cama me traiu

Com um cara de nome Capeta

 

Sem você acabou melodia

Tô pior que cachorro de rua

Vira-lata todo pulguento

Ninguém cura meu sofrimento

Nem sei mais o que é noite e dia

Nem vejo o sol, nem vejo a lua

 

Nesse cabaré pé de serra

Entre mulheres quebrantes

Só vejo o rosto de Julieta

Com suas coxas rebolantes

 

Nesse cabaré pé de serra

Como cartucho na linha de frente

Nem sei mais o que é ser gente

Na embriaguez dessa agonia

Ninguém escuta meu pranto

Sou como papel em branco

Na lagoa uma simples gia

Um inseto lá no canto

Jogado numa sarjeta

Por aquela ingrata Julieta

Que fugiu com o Capeta.

AÇÚCAR É ESCRAVIDÃO

Mais um poeminha inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A África fez o Nordeste,

Nação de grandes mestres;

Açúcar é cristal escravidão,

No melaço amargo da cana;

Fogo fervente da escuridão,

De cativos vindos de Gana;

Negreiros Benin e da Guiné:

Massacres de religião e fé.

 

Açúcar é escravidão,

Do tráfico negreiro malvado,

Nas borbulhas do caldo;

Fornalhas caldeiras do inferno;

Tachos melados no cobre,

Suor no couro subalterno,

Do senhor engenho nobre:

Açúcar é ouro e escravidão.

 

Açúcar é escravidão,

Nas correntes e algemas de ferro;

Chicote lacerado do corpo,

Moído no vinagre e no sal,

Da última dor, morto no berro;

No corte do feitor do canavial;

Lenhas nas ventas das bueiras;

Facão afiado, cantante vigilante,

Pra mutilar moedeiras:

Açúcar é escravidão.

 

RADICAIS DO GELO

Mais um poeminha inédito de autoria de Jeremias Macário

Das rampas voam homens-pássaros;

Suave pouso das pranchas no gelo;

Nos esquis, alturas de aros;

Descidas radicais dos picos:

Montanhas de adrenalina riscos,

Rasgando flocos,

Nos blocos de gelos:

Grass-grass, chaps-chaps!

São Jogos poéticos de Inverno,

De imagens do eterno:

Sê-los atletas radicais do gelo.

 

Radicais do gelo!

Peles macias, plasticidade,

Desafios da gravidade;

Deuses da mocidade:

Sê-los radicais do gelo.

 

Mobilete dos trenós,

Cento e trinta de velocidade,

Seguindo os sinais

Nas curvas de nós:

Lá vão deslizando sem medo,

Os radicais do gelo.

 

Radicais do gelo!

Nos pares patins-patinação:

Arremessos no ar;

Espiral da morte;

Giros espelhados,

No bailado vento esvoaçar;

Ou no individual surreal,

Ao som galopado de Ravel;

Leveza da poesia feminina;

Idade jovial menina:

Sensualidade, sabor de mel,

No sorriso de cada nação:

Sê-los radicais do gelo.

MOMENTOS DE TORMENTOS

Nova autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A noite rasteja lentamente;

Lá fora, sacodem ventos:

Tiram a visão dessa gente,

Nos momentos de tormentos.

 

A bruxa acende sua tocha,

Pra afastar corvos agourentos,

Que querem sugar minha mente,

Nos momentos de tormentos.

 

O sol demora a raiar,

Para espantar meu sofrimento,

Dessa peste, sufoco sem ar,

Como trevas brocar meu pensamento,

Nos momentos de tormentos.

 

Esse templo está contaminado;

A cancela abriu para os demônios;

A saudade não mais dói;

Só ficou o buraco no peito,

Estendido em meu solitário leito,

Que me corrói,

Nos momentos de tormentos.

 

A abelha fabrica o mel;

Em sua colmeia faz a ceia;

A aranha tece sua teia;

A formiga, seu formigueiro;

O ser humano destila raiva e fel;

Só sabe separar bem e mal;

Cada um com sua flor e dor,

Com seu conflito existencial,

Nos momentos de tormentos.

 





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