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:: ‘Na Rota da Poesia’

AÇÚCAR É ESCRAVIDÃO

Mais um poeminha inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A África fez o Nordeste,

Nação de grandes mestres;

Açúcar é cristal escravidão,

No melaço amargo da cana;

Fogo fervente da escuridão,

De cativos vindos de Gana;

Negreiros Benin e da Guiné:

Massacres de religião e fé.

 

Açúcar é escravidão,

Do tráfico negreiro malvado,

Nas borbulhas do caldo;

Fornalhas caldeiras do inferno;

Tachos melados no cobre,

Suor no couro subalterno,

Do senhor engenho nobre:

Açúcar é ouro e escravidão.

 

Açúcar é escravidão,

Nas correntes e algemas de ferro;

Chicote lacerado do corpo,

Moído no vinagre e no sal,

Da última dor, morto no berro;

No corte do feitor do canavial;

Lenhas nas ventas das bueiras;

Facão afiado, cantante vigilante,

Pra mutilar moedeiras:

Açúcar é escravidão.

 

RADICAIS DO GELO

Mais um poeminha inédito de autoria de Jeremias Macário

Das rampas voam homens-pássaros;

Suave pouso das pranchas no gelo;

Nos esquis, alturas de aros;

Descidas radicais dos picos:

Montanhas de adrenalina riscos,

Rasgando flocos,

Nos blocos de gelos:

Grass-grass, chaps-chaps!

São Jogos poéticos de Inverno,

De imagens do eterno:

Sê-los atletas radicais do gelo.

 

Radicais do gelo!

Peles macias, plasticidade,

Desafios da gravidade;

Deuses da mocidade:

Sê-los radicais do gelo.

 

Mobilete dos trenós,

Cento e trinta de velocidade,

Seguindo os sinais

Nas curvas de nós:

Lá vão deslizando sem medo,

Os radicais do gelo.

 

Radicais do gelo!

Nos pares patins-patinação:

Arremessos no ar;

Espiral da morte;

Giros espelhados,

No bailado vento esvoaçar;

Ou no individual surreal,

Ao som galopado de Ravel;

Leveza da poesia feminina;

Idade jovial menina:

Sensualidade, sabor de mel,

No sorriso de cada nação:

Sê-los radicais do gelo.

MOMENTOS DE TORMENTOS

Nova autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A noite rasteja lentamente;

Lá fora, sacodem ventos:

Tiram a visão dessa gente,

Nos momentos de tormentos.

 

A bruxa acende sua tocha,

Pra afastar corvos agourentos,

Que querem sugar minha mente,

Nos momentos de tormentos.

 

O sol demora a raiar,

Para espantar meu sofrimento,

Dessa peste, sufoco sem ar,

Como trevas brocar meu pensamento,

Nos momentos de tormentos.

 

Esse templo está contaminado;

A cancela abriu para os demônios;

A saudade não mais dói;

Só ficou o buraco no peito,

Estendido em meu solitário leito,

Que me corrói,

Nos momentos de tormentos.

 

A abelha fabrica o mel;

Em sua colmeia faz a ceia;

A aranha tece sua teia;

A formiga, seu formigueiro;

O ser humano destila raiva e fel;

Só sabe separar bem e mal;

Cada um com sua flor e dor,

Com seu conflito existencial,

Nos momentos de tormentos.

 

O MOCHILEIRO

De autoria de Jeremias Macário (uma nova versão)

Pelas brenhas do mundo,

No recanto mais profundo:

Sou mochileiro do agreste,

Água caindo das cachoeiras,

Rasgando todas fronteiras,

De norte-sul, leste-oeste.

 

Gira-planeta do tempo!

Mochileiro do vento!

Na hora do aqui e agora;

Sandália do asfalto-poeira,

Cruzando cancela e porteira,

Sempre um passo à frente,

Nessa multidão de tanta gente,

De ideário valente libertário.

 

Por estrada estranha diferente,

Como caravana cigana;

Latino-americano, euro-indiana;

Cantante mochileiro romeiro,

Com sua milenar filosofia,

Mochileiro da travessia.

 

Filho do mar, ondas de areias,

Sem intolerâncias nas veias;

Bravo andante, tocha amante;

Cometa de alma universal;

Estrela do Cruzeiro sideral;

Poente vermelho e nascente.

 

 

SALVABOA

Nova versão, de autoria de Jeremias Macário

SalvaBoa, navegar de saveiro!

Conhecer um Terreiro;

Velha e antiga Lisboa,

Onde nasceu o fado;

Misturar Amado com Pessoa;

Em Belém, com muita fé,

Mirrar a Torre, comer pastel,

Ou passear pelo Sodré.

 

Da Piedade, São Bento/Pelourinho;

Chile, Praça de Thomé,

Na Salvaboa, em todos cantos,

Olhando cada pedacinho;

O mar de Todos os Santos;

Soledade a Liberdade,

Pode-se ir a pé, numa boa,

Vendo Lacerda/Catedral da Sé.

 

Do Contorno da Gamboa,

Lembro da minha Lisboa,

Dos azulejos no casario;

De Nazaré, como quiser,

Ou do Canela a Paralela,

Corre-se noite e dia,

Pra preencher o vazio,

Desse PIB que diluiu.

 

De Ondina-Amaralina, coroa,

Passe uma “Tarde em Itapuã”,

Do poetinha, o seu fã,

No céu azul da Salvaboa.

 

De lá, vá ao Abaeté;

O avião rasga o vento;

Esqueça o senhor tempo;

Ouça o samba e o axé,

Ou o relincho do jumento;

Siga até o aeroporto,

Pelo túnel do bambuzal,

E leia notícias do jornal.

 

NAS TRINCHEIRAS

NAS TRINCHEIRAS

De Danilo Jamal, em seu livro “POESTO – Ação Direta”. O autor é um artista de rua, poeta inquieto, ousado, contestador e engajado com questões concernentes à comunidade negra, principalmente periférica, segundo palavras de Marilza Oliveira, que prefaciou sua obra.

Pelas trincheiras da sociedade

Observando o submundo da maldade,

Dói a realidade…

Embora tudo isso seja verdade,

Existe algo que nos trava.

Falta mais sentimento…

Muito mais alma

Para sairmos da fornalha

Que queima os corações sofredores.

Digam-me senhores,

Felizes com seus horrores?

Mas é isto.

A massa gosta de atores.

MAR PORTUGUÊS

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzamos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosse nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

DE VEZ PRIMEIRA

Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha…

 

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada…

Arde um toco de vela, amarelada…

Como o único bem que me ficou!

 

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

Ah! Desta mão, avaramente adunca,

Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

 

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz, trêmula e triste como um ai,

A luz do morto não se apaga nunca!

 

Este poema está no livro Mário Quintana “Prosa e Verso”. São textos variados

DOR E MEDO

Poeminha inédito de autora do jornalista e escritor Jeremias Macário

No fio da navalha

Inquietações, niilismo

Ansiedade

Dor e medo, infelicidade

Amor e segredo

Campo de batalha.

 

O homem não é este homem

Vencerá o medo para ser o novo?

Será um outro Deus sem dor?

Sem raça e cor?

 

Misticismos, fantasias

Islamismo, judaico-cristã

Paz, ira e conflito

Mitologias, esperança vã

Volta do passado harmonia

Morrer sem sofrer

Sedução do existir infinito

Culpa dos deuses do fazer

Ilusão do paraíso jardim

Início, meio e fim.

 

Dos romanos flavianos, esplendor

Dinastia dos severos

Odisseia de Homero

Mar de medo, penar e dor.

 

Medo do obscuro que veio

Tudo vai ruir, dor e medo

Espera pela memória do cheio.

 

INFINITO REVOLTO SERENO

Um ser cativo tão pequeno,

A mirar o infinito revolto sereno,

De fortes correntes e ventos,

É o mar dos descobrimentos,

Esse revolto sereno.

 

Rios correm invisíveis ativos,

Nesse infinito sacrário,

Nos sentidos anti e horário,

Para outra banda continental,

De jangada, caravela e nau,

Navegaram polinésios nativos,

Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.

 

Nesse infinito revolto sereno,

Do cabo fervente diabo Bojador,

Do Boa Esperança até a Índia,

Mar mistério negreiro cemitério,

Infinito sereno de prazer e dor.

 

Infinito revolto sereno,

Do Pau Brasil que já sumiu,

Rota dos escravos Benim Ajudá,

Me cure dessa saudade veneno,

Do amor que ficou do lado de lá.





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