:: ‘Na Rota da Poesia’
VISÕES DAS ÁFRICAS
Versos inacabados do jornalista e escritor Jeremias Macário
Nasci na Região dos Grandes Lagos,
Sou filho da Montanha da Lua,
Mãe nua das florestas e dos matos,
Fui rei do Reino dos Magos,
Não sou mais preto e branco,
Sou um lambuzo dos mulatos,
Visões geográficas das Áfricas.
Sou parto colonizado do colonizador,
Do Congo, da Guiné, Angola e Senegal,
Portos de correntes, massacres da dor,
Culturas do chicote curadas com sal,
Kunta Kinté do patrão fugidor,
Nas visões das lendas das Áfricas.
Sou Soynka, Mia Couto e Cabral,
Diop, Fela-Kuti, Mudimbe e Fatema,
Ketu e Bantu com sua raiz cultural,
Arte da escrita, música e do cinema,
Cada um com sua história nos anais,
Nas visões dos intelectuais das Áfricas.
RIO RIACHO
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Dos tempos em que era só riacho,
E foi casco seco nesse carrasco,
Onde até rasparam as favas do tacho.
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Lava o suor e renova a palma de alma,
A lavadeira nele bate roupa e enxagua,
A boiada do boiadeiro cruza as águas,
Na toada avante do berrante do vaqueiro.
E a bela morena se banha sem anáguas.
O rio cheio no peito cura as mágoas,
Do velho cancioneiro poeta solitário,
E o sertão em cor volta a ser relicário,
Dos meninos que do troco do barranco,
Pulam e brincam nus em suas águas.
O HOMEM QUE CHORA
Versos inéditos do jornalista e escritor Jeremias Macário
O homem em seu interior chora,
E lá fora bate o vento atrás do monte,
Até no horizonte onde secou toda fonte.
Nuvens anunciam tempestade de chuva,
Foguetes voam nesse espaço de engaço,
Da terra que produz da mandioca a uva,
Mas morre de fome a criança sem nome.
No infinito solitário da eternidade,
Náuseas desse falso existir solidário,
O homem perdeu seu sonho e o amor,
E só lhe restou a dor da tirana saudade,
Na espera de um verde no calendário.
Repente, repentistas desse Nordeste,
Cantam esse chão cauboy faroeste,
Do retirante a vagar com sua viola,
A solar a canção do homem que chora,
Nas noites frias a pedir uma esmola.
Sou a voz desse homem que chora,
Que perdeu a fé até em Nossa Senhora,
Sou a voz desse homem que chora,
Por justiça social que virou pedra de sal.
O GARIMPEIRO E O DIAMANTE
Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
“Quem não aguenta subir serra,
Não arranca candombá”,
Para extrair o diamante da mãe terra,
Consulta Curador Jarê caboclo orixá.
O garimpeiro da Diamantina Minas Gerais,
Cortou morro estrada até Mucugê Sincorá,
Das grunas dos olhos d´água, feras animais,
O pedrista lapidário faz do diamante colar.
Reza a lenda, todo diamante tem seu dono,
E o garimpeiro entra no túnel da encantaria,
Na Chapada Diamantina sonha em seu sono,
Encher de luxo brilhante sua amada Maria.
De Andaraí, Lençóis e das Palmeiras,
Nasceram bravos coronéis das Diamantinas,
E o garimpeiro no bambúrrio das cascalheiras,
Vendeu ao capangueiro suas amantes meninas.
Fantasias, cânticos, ritos, rituais e cultos,
Deuses sagrados e oráculos dos profanos,
Ainda se vê nos rios e vales alguns vultos,
Piçarras e mosquitos, perdas daqueles anos.
Um diamante apareceu no fundo da bateia,
Santo vaqueiro do eito, atabaque da magia,
Como nas bonanças das Lavras uma sereia,
Da Poíesis grega brotou do humano a poesia.
Senhor dos Passos dos mineiros padroeiro,
No enlace místico religioso afro-brasileiro.
O ALUNO E O MESTRE
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um dia o aluno pediu ao seu mestre
para que definisse o sentido do viver.
Respondeu que o enigma não importa,
e que o certo é aprender abrir a porta.
O aluno insistiu no Sou e para aonde Vou?
e que explicasse origem e fim do universo.
O mestre olhou perplexo e emendou sério:
Viva sempre cada verso e nada de mistério;
As florestas possuem seus próprios espíritos,
e o homem não suportaria viver sem conflito,
mas o jovem se intriga com o finito e infinito.
Por que uns ricos saudáveis e outros miseráveis?
Para o mestre, o homem tem a diferença imposta;
do nada ao cósmico, nem a ciência tem resposta.
BALANÇA PARA LÁ…
Poema do jornalista e escritor jeremias Macário, que pode ser encontrado em seu livro “ANDANÇAS”.
Olha o balanço das árvores,
Que o vento dá,
Balança pra lá, balança pra cá,
Depois começa tudo,
Como nas ondas do mar.
Olha o tempo passando,
Ligeiro e devagar;
Olha a morte chegando,
Com a benção de Alá.
Parte rasgando o avião,
Lotado de gente zumbi;
Criaturas saem da terra,
E aparecem como saci.
Olha a dança das folhas,
Girando pra lá e pra cá,
Levando saudades no ar.
Na avenida zunem os tiros;
Balas voam perdidas;
Criança tomba no asfalto,
No ataque dos vampiros.
Carnaval de sunga suada;
Empurra pra lá e pra cá;
Pula, pula a pipocada,
No axé do arrocha cambada.
Vadia a bela, ou a feia,
Na orgia da bundada;
Balança pra lá e pra cá,
Pra gringo e nativo
Namorar sua sereia.
No sol do meu sertão,
Balança o pau-de-arara,
Cortando o cinzento chão
De espinho, fogo e vara,
Na poeira da estrada.
Virgulino, meu capitão,
Que diz dessa nossa vida,
E da traiçoeira morte,
Sem aviso e sem razão;
Que diz da canção,
De Vandré que chora,
Mandando fazer a hora.
CIDADANIA SEM RAZÃO
Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, publicados em seu último livro “ANDANÇAS”
Cidadão é não ter os seus direitos,
Dissolvidos na maior concentração;
Ser alimento no covil dos malfeitos,
E perambular na renda da contramão.
É ser eleitor e só servir para votar;
Viajar de avião uma vez na promoção;
Comer uma pizza com angu e caviar;
E humilhar esmola na fila do bolsão.
É pensar que existe uma democracia,
Onde o povo imagina estar no poder;
Que a submissão faz parte da cidadania,
E que a desigualdade já nasce com você.
Não importa se de fome a barriga dói,
Se todo ano tem uma festa de carnaval,
Quando se tem no peito seu ídolo herói,
E seu time foi classificado para a final.
Ser cidadão é ter orgulho do seu Brasil;
Não ter saúde e educação de qualidade;
Não ser honesto para não ser imbecil,
E não ligar para o regime da impunidade.
Autoestima é sediar os jogos olímpicos;
Armar barraquinhas na Copa do Mundo;
Virar elefantes depois dos paralímpicos;
E continuar resignados em sono profundo.
O barão condenado sorri em liberdade;
É que ele ainda está sendo o investigado;
O dezessete perigoso é menor de idade,
E o povo ferrado vai vagando como gado.
Deixaram queimar na Antártida nossa base;
Nos jogaram no lodo, sem saneamento básico;
Tem classe sem classe que não sabe uma frase,
E o roubo do bem público virou nosso clássico.
Já se falou em botar um astronauta no espaço,
Mas forças invisíveis retorceram os cientistas,
Lá em Alcântara, no país do reboco e do aço,
Musicado nas rimadas dos mestres cordelistas.
Uma cadeira na ONU por qualquer bagulho;
Não importa se já aprendemos a nossa lição,
Se os partidos políticos viraram um entulho,
Vivendo todos marchando nas ruas sem razão.
QUANDO E O AGORA
Uma nova versão corrigida e lapidada pelo autor Jeremias Macário
Quando vim ao mundo bebê,
No caldeirão fervente cultural,
Do conhecimento e do saber,
Cada escritor, poeta e jornal,
Eram como torcida de futebol,
Pelas noites etílicas ao pôr-do sol,
Nas praças, esquinas e botequins,
De livro na mão aprendendo a lição.
Lá fora cartazes e faixas gigantes,
Os jovens enfrentavam a censura,
Com o livre amor, todos vibrantes,
Marchavam contra a tirana ditadura.
O agora rotula a nova geração,
Como embalagem fora do produto,
Entre painéis, construção e viaduto,
Os milhões contam seus seguidores,
No youtuber, twiter, face e zap-zap,
Entre códigos pq, mt, mentes cores,
Troca o ser pelo consumo do ter,
No lixo joga a nossa memória,
Rosna a língua e nada de história,
E ainda acha você um careta que ler.
Quando o sábio visita o agora,
Sente o vazio no sentido do existir,
Um humano sem essência de elixir,
Como uma planta que não flora.
QUANDO E O AGORA
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando a cultura nascia com o bebê,
Sedento de conhecimento e saber,
Era discutida como torcida de futebol,
Pelas noites etílicas e pela luz do sol,
Nas praças, botequins e restaurantes,
Livros nas mãos aprendendo a lição.
Lá fora cartazes e faixas gigantes,
Os jovens enfrentavam a censura,
Com o livre amor, todos vibrantes,
Marchavam contra a tirana ditadura.
A nova geração do aqui e agora,
Perde todo tempo, e nem faz a hora,
No youtuber, twiter, face e zap-zap,
Entre códigos pq, mt e vap-vap,
Troca o ser pelo capital do ter,
Joga no lixo toda nossa memória,
Mata a língua mãe e nada de história,
Nem se importa com Sofia e política,
Não sabe o que é lógica e crítica,
E acha você um careta que ler.
VIOLAÇÃO
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu último livro “ANDANÇAS”
Mesmo o mais contrito do santo,
Tem no seu lamento o seu pranto,
Com a revolta varando o seu peito,
Pela violação sagrada do direito.
A alma em secura não mais chora;
Tortura do pau-de-arara e choque;
Abafa os gritos, a censura lá fora,
Calando canção suingada do Rock.
Nos porões desaparecem os mortos,
Na selva sepultam quebrados corpos,
Sem punição, sangrados como porcos.
A justiça cheira como um coliforme,
E nas cadeias simulam os suicídios,
Com mentiras impostas pelo uniforme.










