:: ‘Na Rota da Poesia’
TUDO ISSO VAI SE ACABAR
Versos inéditos de autoria de Jeremias Macário
Que me perdoem os otimistas,
Assassinaram minha esperança;
O sangue corre nas pistas;
A roubalheira só avança;
A situação pode ainda piorar,
Mas tudo isso vai se acabar.
Pelo celular recebo vídeos,
O ser mau caráter virou moda,
Nesse Brasil dos genocídios;
Corrupção tornou-se mão na roda,
Para nosso sonho esmagar,
Mas tudo isso vai se acabar.
Oh, Senhor Deus do poeta!
Com seus versos em oração,
Na linha reta como uma seta,
No lamento contra a escravidão,
Una forças aos dos orixás:
A Oxum, Iansã e a Iemanjá,
Omolu, Xangó, nagô-iorubá,
Para que no tempo um dia,
Nessa longa penosa via,
Tudo isso vá se acabar.
BA-HIA
Versos de autoria do jornalista Jeremias Macário
Ba-hia, rainha do mar,
Baia de Todos os Santos,
Do índio tupinambá,
Das mitologias dos orixás,
Aprendi a fazer essa prosa,
No Seminário de Amargosa,
Ba-hia escrita com “H”.
Ba-hia dos cancioneiros,
Abençoada pela natureza,
Gil, Caetano, Novos Baianos,
Raul “Maluco Beleza”,
Do Rio e São Paulo, pioneiros,
Do Águia de Haia para o mundo,
Ba-hia encanto do canto profundo.
Ba-hia de São Salvador,
Mistérios e dos Terreiros,
Com seu manto de igrejas,
Senhor do Bonfim ou Oxalá,
Nos guie e nos protejas,
Raízes jejes, nagôs e iorubá.
Ba-hia do sertanejo catingueiro,
Resistente menino de pés no chão,
Filho do cacto e do mandacaru,
Nordestino, estrangeiro no sul.
Ba-hia de se perder de vista,
Nas histórias de Jorge Amado,
Dos coronéis de Itabuna e Ilhéus,
Tem cacau, café e o sol de Jequié,
Memórias de Vitória da Conquista,
Anísio Teixeira de Caetité,
Filmes de faroeste agreste,
Glauber, Elomar menestrel,
Repentistas versando nas feiras,
E grãos do oeste Barreiras.
Ba-hia do gado de Itapetinga e Caatiba,
Tem a Chapada Diamantina;
Foi lá que namorei uma menina,
No Piemonte de Piritiba,
Com ela fui me banhar,
Nas águas do São Francisco,
Virei pescador ribeiro,
Nas fartas frutas de Juazeiro.
PRECISO RESPIRAR!
Novo poeminha de Jeremias Macário
Preciso respirar!
Preciso respirar!
Preciso de ar!
Estou sufocado,
Com essa fumaça da Amazônia,
O fogo do Pantanal;
Tenho insônia,
Angústia existencial.
Preciso respirar!
Preciso de ar! Gritar!
Dos automóveis, a fuligem,
Monóxido, metano, dióxido,
Carbono dos fósseis;
Não posso abrir minha janela;
Bate a poluição sonora,
Sem ar, trancado nessa cela;
Virgem Maria, Nossa Senhora!
Tanto lixo a entupir o mar;
Meu respirador, seu doutor!
Preciso respirar:
Novas ideias,
Sem polarizar;
Fugir dessa gente farsante,
De falso sorriso,
Palavra de vento errante;
Minha garganta, seu moço!
Tem um caroço.
Preciso respirar!
A vista se faz escura!
Nesse sistema sem cura;
Preciso de ar!
NÃO SOU DESSE MUNDO
Mais um poeminha inédito de Jeremias Macário
Não sou desse mundo,
Do sistema que mata o humano;
Estou mais para amante,
Do poeta do canto profundo;
Na campina ouvir,
O solar do Bem-te-Vi.
Difícil ser romântico,
Nesse planetário quântico,
Conhecer a si mesmo,
Nesse vazio esmo.
Procuro quem sou,
Na angústia da dor,
Se sou caça, ou caçador.
Não dá para tapar,
O sol com a peneira;
Saravá, meu orixá!
Me salve dessa cegueira.
Na praça, a câmara me vigia;
Quer saber o que penso;
Segue meus passos noite e dia;
Acusa que não tenho senso,
Nem incluso nesse censo.
Não sou desse mundo covil;
Vou virar bicho mocó;
Viver em minha loca,
Sem ser pororoca,
Nem broca desse metal vil.
Não sou desse mundo,
De tanta amargura,
Sem quase ternura.
BRUXA DA INQUISIÇÃO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A arte virou bruxa da inquisição,
Com vassouras e armas na mão.
Não me encontro nesse presente;
Do passado, aprendiz das lembranças;
Prefiro seguir em frente,
Na procura de um novo futuro,
De um porto firme e seguro,
Sem as amarras dessas alianças.
Arrebentaram as cordas do meu violão,
Minha voz está ferida e rouca,
Foi-se o perfume da linda canção;
A linguagem ficou louca,
Até a flor da arte está murcha,
Virou bruxa da inquisição.
Não sou nenhum Dom Quixote,
Nesse moinho de tanta ilusão,
Nem açoite dessa boiada;
Perdi o compasso do mote,
Nessa cultura ensanguentada;
Não mais viver nessa contramão.
O CATINGUEIRO
Um soneto de Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS
O catingueiro é tempestade do tempo e do vento;
Calmaria da caatinga de cor queimada do sol poente;
No sangue traz a seiva do mandacaru em pedregulhos;
Da seca, o sofrimento que o faz mais forte-resistente.
O catingueiro é cheiro da terra molhada e rachada;
Verde ou cinzenta, prosa cismada e desconfiada;
Poeira do sol a pino no arrasto do cabo da enxada;
Capanga cheia de sinais das nuvens das trovoadas.
O catingueiro carrega no corpo mãos calosas e espinhos;
Na alma, a sagrada palavra da prometida profecia,
De um Deus penitente, sem ler a escrita da sabedoria.
Pergaminho do sertão, cortando vereda e caminho;
Irmão da lua, esperança noturna, fé a lavrar todo dia;
Bicho do mato, tabaréu emboscado pela demagogia.
PALAVRAS! PALAVRAS!
Mais nova obra do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tempos de estiagem,
Num cálido vazio árido,
Assim padece nossa linguagem,
De limitadas palavras,
Menos verbos conjugados,
Cadeados, censuras e travas.
Palavras! Palavras vira-latas,
Nesses mares de piratas;
Sem regras gramaticais;
Travessa de ódio e xingamentos,
Pouca lógica e argumentos;
Códigos que entopem canais,
Nas enchentes das redes sociais.
Palavras! Palavras! Palavras!
Raízes de Alá e Baobá,
Que nos fazem racionais,
Diferentes de outros animais.
Palavras! Palavras! Palavras!
Nascidas nos fios das barbas,
Que perderam seu valor,
Na escrita, fala e nos sinais,
Na guerra, na paz e no amor;
Sejam dos sábios imortais,
Labaredas de fogo incandescentes,
Como nas canções dos festivais;
Iluminem nossas mentes,
Na crítica e nos pensamentos;
Que não se percam aos ventos;
Nunca armas da violência,
E sim, sentido da existência.
TREM DE BITOLA
Versos inéditos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Não seja trem de bitola,
“se oriente, meu rapaz”:
Seu time não é sua vida,
Curta a canção da viola,
Pra tudo tem uma saída,
Não seja trem de bitola.
Fazer o quê, seu moço?
Use sua pensante cabeça,
Pra não ficar ai nessa cola,
Cresça, faça e apareça,
Não seja trem de bitola.
Troque a conta pela filosofia,
Se livre dessa burocracia,
Que rima com tirania;
Seja vaqueiro na laçadeira;
Vá abrindo sua porteira;
Não fiquei aí com cara de estola,
Nem seja trem de bitola.
Entre a comida a la carte,
Prefiro mocotó e a buchada,
Assim vou tocando minha arte;
Sou cabra nordestino da enxada,
Longe dessa sociedade depravada,
Cheia de porcarias no buxo,
Que só pensa consumir o luxo,
Ser seguidor de pistola,
E andar como trem de bitola.
MINHA FILHA DOWN
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sou continente e ilha;
Navegante errante,
Dessa insensata nau.
Esse meu verso e canto,
É para minha filha Down,
Que perdoe meu egoísmo,
Por tanto lidar com esse ismo,
Que me deixa confuso,
Mas seu olhar de ver,
Acalanta o meu ser.
Sou deserto e mar,
Horizonte finito e infinito;
Você é facho de luz,
Ternura que me conduz;
Desculpe esse meu ego conflito;
Sou como vento cortante;
Você rosa perfumante.
Minha filha Down!
Sou dúvida do sentido sentir;
Você é certeza do existir,
Sem pecado, imaculada,
Pedra reluzente preciosa,
Alma de encanto formosa,
De pura beleza sideral:
Down estrela da natureza,
Do ventre da mãe Tereza.
CABARÉ PÉ DE SERRA
Mais um poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
A terra pegando fogo em guerra,
E eu aqui nesse cabaré
Do Nordeste pé de serra
Dos poros transpiro sofrência
Nas luzes ultravioletas
Bani da alma toda crença
Sem mais fé e consciência
Sangrando pela Julieta
Que na cama me traiu
Com um cara de nome Capeta
Sem você acabou melodia
Tô pior que cachorro de rua
Vira-lata todo pulguento
Ninguém cura meu sofrimento
Nem sei mais o que é noite e dia
Nem vejo o sol, nem vejo a lua
Nesse cabaré pé de serra
Entre mulheres quebrantes
Só vejo o rosto de Julieta
Com suas coxas rebolantes
Nesse cabaré pé de serra
Como cartucho na linha de frente
Nem sei mais o que é ser gente
Na embriaguez dessa agonia
Ninguém escuta meu pranto
Sou como papel em branco
Na lagoa uma simples gia
Um inseto lá no canto
Jogado numa sarjeta
Por aquela ingrata Julieta
Que fugiu com o Capeta.











