:: ‘Na Rota da Poesia’
ONDE ESTÁ O AMOR?
Autoria de Jeremias Macário
Um dia me perguntaram,
Onde está o amor?
E eu respondi assim:
Está na arte do artista,
No bruto que também ama,
Cada um com sua chama.
Está em Nietzsche,
Do desejo, desejado,
No Cristo,
De amar o próximo
Como a ti mesmo,
No amor à primeira vista,
Narcisista interessado,
E desinteressado.
Tem o platônico aristotélico,
O amor ágape transformador,
O saudoso distante bélico,
O do Vinicius,
Eterno enquanto dura,
O do Jobim,
Do filme “Amor sem Fim”
O do “Jardim de Allah”
O das juras do altar,
Na alegria e na dor,
Que só a morte nos separa,
Até no ventre do Saara.
Está na mãe que lhe gera,
No tempo de espera.
No velho solitário da esquina,
No doce olhar menina.
Está nas aves que cortam o céu,
Na abelha que faz o mel,
Na natureza do universo,
No verso do poeta,
Ou na pena do escritor,
Que sempre falam de amor.
CADA UM SABE DE SI
Autoria de Jeremias Macário
Quando a pedra,
No sapato aperta,
Cada um sabe de si,
Como dizia o Vizir.
A vida é assim:
Cada um sabe de si,
Onde castiga sua dor,
Pode ser por amor,
No sofrer calado sozinho,
Pra não incomodar o vizinho.
Em meu canto,
Curto meu pranto,
No canto do Zé, Chico e Vandré,
Uns com bom pé de meia,
Outros de barriga vazia;
Pinga água fraca na pia,
Até no rico da lua cheia.
Nessa terra de gigante,
De tanto ouro e diamante,
Cada um sabe de si,
Uns gastando solas,
Outros nas enrolas.
Quando o vento sopra forte,
Seja do sul ou do norte,
Cada um sabe de si,
Um sorriso,
Pode não ser de alegria,
Cada choro com sua travessia.
INGRATA
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando te conheci
Pedra reluzente ametista,
Arco-íris do horizonte,
Me encantou teu olhar cigana:
Foi amor à primeira vista,
Religiosa e profana,
Solene nos beijamos;
Bebi da tua fonte,
Como amantes viajantes.
Te cobri de ouro e prata,
Entreguei minha alma a ti;
Tudo fiz para te ver,
No jornal, na rádio e na TV,
Como deusa rainha,
Mas com o tempo,
Não passastes de ingrata,
Individualista,
Com teu ego narcisista,
Moça nordestina,
Com ar de sulina.
Doei minhas veias,
Para pulsar teu coração;
Ajudei a tecer tuas teias,
E esquecestes, afinal,
De ao menos,
Afagar minha mão,
Impávida Ingrata,
Depois de farta,
Me tratas como anormal.
JOGA NO LIXO
Autoria de Jeremias Macário
Se seu vestido saiu de moda;
Seu relógio atrasou a hora
E lhe deixou de fora,
Joga no lixo.
Se seu celular saiu do ar,
Joga no lixo.
Se seu mau humor da vida,
Ficou sem saída,
Joga no lixo.
Se seu amor lhe abandonou,
Pro outro que se encantou,
Joga no lixo.
Se seu conceito
Não é mais aceito,
joga no lixo.
Se seu amigo não é certo,
Na hora incerta,
Joga no lixo.
Se a notícia é falsa,
Sua companhia,
uma mala sem alça,
Joga no lixo.
Se sua amizade não é sincera,
Se alguém não lhe considera,
Joga no lixo.
Se você mistura
Alhos com bugalhos,
Joga no lixo.
Se sua vida virou um bagaço,
Entre engaço,
Joga no lixo.
Se você é um animal bicho,
Joga no lixo.
Se seus sonhos são pesadelos,
Como monstros em novelos,
Joga no lixo
LIXO ANIMAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Lá fora bate a garoa,
E aqui meu pensamento voa,
Nessa terra que virou lixeira,
Entulhos nos rios e no mar,
Gases tóxicos no ar,
Do lixo animal, bicho porqueira,
Que ainda não aprendeu a amar.
A natureza não perdoa,
Devolve tudo na cheia,
Do lixo animal,
Que se enrola em sua teia,
Nem respeita o sinal que soa,
Dos tempos do aquecimento global.
Vem a seca inclemente,
A fumaça da floresta a sufocar;
Derretem as calotas polares;
Sobem os níveis dos mares,
Tanto choro e ranger de dentes
Dessa estúpida gente,
A brincar de foguetes,
Pelo espaço sideral,
E o planeta a se acabar,
Com a sujeira debaixo dos tapetes,
Pelo lixo animal,
Onde o bem perde para o mal.
SOMBRA ARTIFICIAL
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sonhei que era uma sombra,
De um primitivo passado,
De antigos ancestrais,
De atraso e evolução;
Um ente invisível global,
Fora do corpo, com razão,
Sem o emotivo sentimental.
Era mesmo uma sombra,
De inteligência artificial,
Uma cópia do carbono,
Dentro de um longo sono,
Na forma de outro animal.
Sonhei ser a deusa Atenas,
Das penas dos sábios imortais,
Sombra parida do cristão-judaico,
Dos imperadores romanos generais,
Das trevas do pensador arcaico,
Cruzado do inquisidor carrasco,
Filha dos ideais dos iluminismos,
Saída do frasco das eras dos ismos,
Sombra anarquista-comunista,
Mistura entre direita-esquerdista.
Sonhei ser apenas uma sombra,
Que se foi no vulto da luz,
No escurecer do lenho da cruz,
Em noites de sonhos me assombra,
Essa máquina maluca artificial.
AMOR CONTIDO
Autoria de Jeremias Macário
Amor contido,
Que irradia energias,
Olhos em meus olhos,
Luz que ilumina e seduz,
Em seus longos cabelos,
De finos fios de poesias.
Ainda lembro daquela fonte,
De água cristalina serena,
A refletir nossa imagem,
Dos beijos de amante,
No arco-íris do horizonte.
Amor contido
De eterno segredo,
Que não passa na TV,
Nem ninguém pode saber,
Só a alma criança sente,
Esse sublime presente.
Amor contido,
Deleite do sol poente,
Sabor de proibido,
Até o último respirar.
Minação da serra nascente,
Que vira correnteza de rio,
E se encontra com o mar.
Sempre existe o amor contido,
Que chega para sempre ficar;
Envenena nossa mente,
No físico visível latente,
Para não mais se separar.
É como semente do tempo,
Esse amor contido ardente,
Que vem do vento platônico,
Biônico na gente a grudar,
Para nunca mais largar.
NOS TEMPOS DO CANDEEIRO
Autoria do jornalista Jeremias Macário
Sou dos tempos do candeeiro,
Do pavio no óleo da mamona,
Pilada no velho pilão,
Pra clarear o forró do sanfoneiro,
A sanfona do Gonzagão,
E o xaxado dos cabras de Lampião.
Sou dos tempos do candeeiro,
Do oi de casa!
Oi de fora. É de bem?
É da paz, que a paz esteja nesta casa!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Para sempre seja louvado!
Saudavam o rancho e o rancheiro,
Com abraços e café no bule,
Pra com fé prosear,
Em noites de luar.
Sou dos tempos do candeeiro,
Do ferro em brasa,
Da goma de engomar,
Pra missa da Vila Umbuzeiro,
Que o padre não se atrasa,
Quando o sino toca pra rezar.
Sou do candeeiro,
Do fole do ferreiro,
Da ferradura na tropa do tropeiro,
Do namoro distante respeitoso,
Do jovem que respeitava idoso.
ALMAS PERDIDAS
Autoria de Jeremias Macário
Dizem que fantasmas
São almas perdidas,
Que vagam no vaivém,
Coisas de carmas,
De abertas feridas.
Para espíritas, morte é vida,
Que retornam do além,
Para pagar suas dívidas,
Encarnam em alguém.
Tudo é mistério e confusão.
“Só sei que nada sei”
De céu, purgatório e inferno:
Só sinto o verão e o inverno;
O resto é assombração.
Almas perdidas!
Andantes vivas-mortas
Nesta terra de guerra,
Que não são ativas,
E circulam por linhas tortas;
Sem visível passagem
Nessa passageira viagem,
Onde ninguém nota,
Sua atribulada rota.
Almas perdidas!
Sem idas e saídas.
Almas perdidas!
Rogai por elas, oh Senhor!
Para que desatem seus nós
De seus antepassados e avós.
Almas perdidas!
Meu canto é um pranto,
Cada um com seu santo,
E cada dor em seu canto.
O AGRICULTOR E O PESCADOR
Autoria de Jeremias Macário
Um na labuta do campo,
Outro no rio e no mar,
No rigor do calor e do frio,
Nos cortes das fases lunares,
Pra plantar, colher e pescar.
Cada qual com suas marés
De altas e baixas.
Aguaceiro molha a terra,
Agricultor vai semear,
E renova no santo sua fé.
Tempestade agita o mar,
Pescador não vai pescar;
Roga a Iansã e Iemanjá,
Para o vento se acalmar.
O agricultor mira as nuvens,
O céu, a cigarra e o ar;
Sente quando a chuva vai chegar.
Pescador também pressente,
No escudo do horizonte quente,
Quando o tempo vai fechar.
Joga a rede pescador!
Como ensinou a Pedro, seu Senhor!
Ás vezes vem cheia de peixes,
Outras só sai lixo de lá,
Do homem que só faz sujar.
A seca mata de fome o animal,
Plantação mirrada a murchar,
Com esse aquecimento global.
Um com sua enxada a olhar o sol,
O outro com seu barco a navegar,
Os dois pedem a Deus uma graça,
Pra na praça da feira sua safra levar
O surubim, o vermelho e a sardinha,
O milho, feijão, arroz e a farinha.










