:: ‘Na Rota da Poesia’
NÃO ACEITO
Autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário
Não aceito
Esses seres malditos,
Com seus poderes malignos,
Do ocidental moralista,
De história opressiva terrorista,
Seletivos canalhas das muralhas,
Das terras arrasadas de guerras,
Que fazem da pobreza,
Produto de consumo,
Do insumo sangue humano,
Entre gritos, gemidos e fome,
De gente que vaga sem nome,
Pelos escombros desses monstros.
Não aceito
Que cortem meu cérebro,
Em seu laboratório,
Para enxertar seu chip,
Do sistema totalitário.
Prefiro meu bip,
Do pensar contraditório,
Longe do seu sofisma,
Da sua hipnose de massa,
Do quem eu sou
Para aonde vou
Conversa mansa de raça,
Do seu pensador,
Que confunde prazer com amor.
Não aceito
Sofia sem poesia,
Por que uns cantam louvores,
Outros choram suas dores,
Nesse vale de lágrimas,
Num mundo tão desigual,
Dividido entre o bem e o mal,
E ainda procuramos saída,
No sentido da vida.
RISCO
De Ana Luz, da sua obra QUADRAS
A maçã sempre esteve lá,
a esperar pela flecha.
É que só agora me dou
direito de atirar .
POETAS E EXCLUSÃO
Poeminha de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Quando do sono despertam os poetas,
Os pássaros no raiar fazem suas sonoras,
E as visões misteriosas abrem suas frestas.
Dos barracos morros na porta bate a fome,
Na virada da noite dos tiroteios de balas,
Onde prospera a exclusão do Estado que some.
Nos mocambos a educação sem redes e sinais.
Corta a navalha a alma dos despossuídos,
E adormecem os poetas na língua dos intelectuais.
SEM TEMPO NO TEMPO
Poeminha inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ando sem tempo,
Para te amar, ler e sorrir,
Para te abraçar,
Nem para um alô,
Para meu amor,
No tempo que segue seu compasso.
Só que nossa gente,
Vive em disparada,
Negando a existência do tempo,
No acelerado passo:
Diz não ter tempo;
Tropeça no poste da frente,
No tempo do celular;
Ultrapassa o sinal,
No laço do capital.
Ando sem tempo,
Dentro do tempo,
Que gira como a roda,
Que o próprio tempo inventou,
No sonho da meia noite,
Que o homem sonhou,
E você dorme e acorda,
Com a agenda na mão,
Como código de Humurabi,
Nem sabe
Da Lei do Talião,
E esquece do tempo,
Que te envelhece.
Ah, desculpa, irmão!
Ando sem tempo,
Na corrida da vida,
Nem vi sua mensagem,
E na hora, do aqui e agora,
Se depara de cara,
Sem levar bagagem,
Na partida da última estação,
Do seu tempo, oh Senhor!
Que o vento levou.
A CONTA NUNCA BATE
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Nesse ciclo de tanto estrago,
Entre consumo e o reciclável
Da economia sustentável,
A conta nunca bate,
Tomo mais um trago,
Que se reparte,
Na resistência da arte.
O capital só quer consumo,
Indica quem leva o fumo.
A chapa só esquenta,
Nas estações de forno,
Onde não existe retorno.
Nos raros telefones de amor,
Oh, meu Senhor!
Nesse vosso paraíso,
Do apocalipse final juízo,
Assola a solidão,
Na loucura da contramão,
Desse metal vil,
Dos ciclones até no Brasil.
A conta nunca bate,
E ninguém ouve o vate.
Treme e geme a terra,
Na guerra, frio e calor,
Da flora, lágrimas de fogo,
Larvas espirram dos vulcões,
Do caos devastador:
Brasas, fumaças e chamas,
Tempestades engolem multidões,
Nos desertos de lamas.
Do leste ao oeste,
Do norte ao sul,
Lá vem Deus deslizando
Entre raios e trovões,
Como profetizou
Nosso maluco Raul.
Conferências climáticas,
Para reduzir o metano,
O C O Dois,
Nas propostas temáticas,
E tudo fica para depois.
Meu peito sangra de dor,
Nas asas do beija-flor!
Tentando salvar a floresta
Que o homem incendiou.
Só que nesse embate,
Todos só querem festa,
E a conta nunca bate.
O GALO CANTOU ERRADO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pelas brenhas do meu serão,
Ouvi causos e histórias,
Saídas de nossas memórias,
De um maturo lavrador,
Sem relógio e rádio,
Para seguir o divino horário,
Como no tempo templário.
Quase nada tinha,
Só suas cargas de farinha,
Para vender na feira da cidade,
No sábado de madrugada.
Acordou depressa atordoado,
No primeiro estalo,
Do canto do galo,
Que cantou errado.
Gritou bravo,
Para o mirrado menino,
Coisa de nordestino,
Pra pegar os jumentos no pasto,
E tocar a tropa na estrada,
Para pagar seu gasto.
Disse a mulher:
Homem doido agoniado,
Só pode estar endiabrado,
Esse galo cantou errado.
Lá na frente, nem pé de gente,
Nem piava a cotovia,
Onde o vizinho concorrente,
Ainda calmo dormia,
E foi aí que ele desconfiou,
Que o galo cantou errado.
No caminho só esbravejava,
Passamos pelas ruas,
Em meio à escuridão,
E nada do dia clarear.
No chão arriamos os sacos,
Os couros pra dormir,
E o feirante não parava,
De cafangar
Que ia jogar o galo na panela,
Todo picado na gamela,
Porque o danado cantou errado.
O galo sabendo do acontecido,
Para não ser degolado,
Se enfiou no mato como rato,
Porque cantou errado.
Tudo é pura verdade,
Como prosa da antiguidade,
Não tem nada de engraçado:
O galo cantou errado.
ANGÚSTIA SOCIAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Senhor, alivia minha angústia que por dentro rói!
Acalma esta minha alma na procura de um sentido
Desse incerto futuro e desse presente que tanto dói.
Afasta essa exclusão cruel dos diferentes oprimidos.
Aos pobres são dados a exploração e o sofrimento,
Para uns céus e festas, para outros, penas e gemidos.
Por que aos poetas cabe o enigma do encantamento,
De decifrar o amor e abrir o passado que não passa?
Para o alegre o vento canta, para o triste um lamento.
De fome e frio chora o menino em sua favela canibal.
Os pais abafam o soluço que a angústia do peito brota,
E o sistema segue se alimentando dessa injustiça social.
NÃO FALE DEMAIS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Fale menos, escute mais.
Diz quem fala demais,
Dá bom dia a jegue,
Nada contra o animal,
Só não fale demais,
Meu amigo,
Pode ser um perigo.
Fortaleça suas teorias;
Escolha bem suas vias,
E pratique mais o exemplo,
Do seu templo;
Cuidado com as feras,
Com essas falsas galeras,
Que na frente é uma coisa,
Outra é por detrás,
Pra derrubar os dizeres
Do seu cartaz.
Fale menos, escute mais.
Sua vida é uma viagem;
Não apresse demais o passo;
Tenha nervos de aço,
Que seu caminho,
É uma aprendizagem.
Gente vem,
Gente sai.
Tem aquele que trai.
Não fale tudo que pensar,
Pense antes de falar,
E não fale demais
NO BICO DO PAPAGAIO
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
No Bico do Papagaio,
Onde bate a chuva,
O trovão e o raio,
A luta faz sua hora,
E o tempo lento chora,
Ai, ai, ai, ai, ai
Da selva brota a guerrilha,
Lá na região do Araguaia,
Goiás, Maranhão e Pará,
Cada guerreiro em sua trilha,
Da terra, companheiro,
Com sua mente libertária,
Contra a ditadura assassina,
De botas tiranas brutais,
Em plena América Latina,
Dominada pelos generais.
Os sessenta e nove idealistas,
Marcharam com seus bornais,
Na crença de uma vitória:
Mudar a nossa história,
Como nas cartas aos familiares:
Saudades, amores e dores,
Dos mortos desaparecidos,
Que ficaram sem seus rituais.
Eram mais de dez mil,
Helicóptero, metralhadora e fuzil,
Cabeças foram decepadas,
Corpos esquartejados,
Jogados no mar e nos rios,
Insepultos sem lutos,
Para apagar nossa memória,
Meu querido, minha querida!
Do pó continua aberta
Nossa sofrida ferida,
No Bico do Papagaio.
TÃO FALADO E ODIADO!
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Terra árida nordestina,
Do Assaré retirante,
Na “Triste Partida”
Da sua terra, amante,
Sou essa gente latina,
Tão falado e odiado
Por andantes trovadores,
Cordelistas e repentistas,
Escritores, mestres e doutores,
Da Bahia, Maranhão ao Ceará,
De todo estado nosso irmão,
Que ultrapassaram além-mar,
Desde os tempos coloniais,
No melaço dos canaviais,
E nas manchetes dos jornais.
Sertão agreste nordestino,
Pelos coronéis, escravizado,
De tanta canção que nos encantou,
No voo lamentoso da Asa Branca,
Na palavra libertária do Conselheiro,
Que deu voz ao catingueiro;
Da Coluna Prestes,
Que cortou nosso chão,
Como os jagunços de Lampião,
Onde nasceram os bravos e fortes,
Com suas tradicionais culturas,
Escritas nas lápides das sepulturas.
Tão falado e odiado,
Sou o Nordeste,
Não sou trapo farrapo,
De nazistas sulistas,
Senhores opressores,
Imigrantes intolerantes,
Que derrubam nosso cerrado,
Com suas cercas farpadas,
E ainda sugam nossos canais,
Das águas do “Velho Chico”
E nos chamam de macaco-mico,
Seus extremistas venais.










