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:: ‘Na Rota da Poesia’

NÃO FALE DEMAIS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Fale menos, escute mais.

Diz quem fala demais,

Dá bom dia a jegue,

Nada contra o animal,

Só não fale demais,

Meu amigo,

Pode ser um perigo.

Fortaleça suas teorias;

Escolha bem suas vias,

E pratique mais o exemplo,

Do seu templo;

Cuidado com as feras,

Com essas falsas galeras,

Que na frente é uma coisa,

Outra é por detrás,

Pra derrubar os dizeres

Do seu cartaz.

 

Fale menos, escute mais.

Sua vida é uma viagem;

Não apresse demais o passo;

Tenha nervos de aço,

Que seu caminho,

É uma aprendizagem.

Gente vem,

Gente sai.

Tem aquele que trai.

Não fale tudo que pensar,

Pense antes de falar,

E não fale demais

NO BICO DO PAPAGAIO

Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

No Bico do Papagaio,

Onde bate a chuva,

O trovão e o raio,

A luta faz sua hora,

E o tempo lento chora,

Ai, ai, ai, ai, ai

 

Da selva brota a guerrilha,

Lá na região do Araguaia,

Goiás, Maranhão e Pará,

Cada guerreiro em sua trilha,

Da terra, companheiro,

Com sua mente libertária,

Contra a ditadura assassina,

De botas tiranas brutais,

Em plena América Latina,

Dominada pelos generais.

 

Os sessenta e nove idealistas,

Marcharam com seus bornais,

Na crença de uma vitória:

Mudar a nossa história,

Como nas cartas aos familiares:

Saudades, amores e dores,

Dos mortos desaparecidos,

Que ficaram sem seus rituais.

 

Eram mais de dez mil,

Helicóptero, metralhadora e fuzil,

Cabeças foram decepadas,

Corpos esquartejados,

Jogados no mar e nos rios,

Insepultos sem lutos,

Para apagar nossa memória,

Meu querido, minha querida!

Do pó continua aberta

Nossa sofrida ferida,

No Bico do Papagaio.

TÃO FALADO E ODIADO!

Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Terra árida nordestina,

Do Assaré retirante,

Na “Triste Partida”

Da sua terra, amante,

Sou essa gente latina,

Tão falado e odiado

Por andantes trovadores,

Cordelistas e repentistas,

Escritores, mestres e doutores,

Da Bahia, Maranhão ao Ceará,

De todo estado nosso irmão,

Que ultrapassaram além-mar,

Desde os tempos coloniais,

No melaço dos canaviais,

E nas manchetes dos jornais.

 

Sertão agreste nordestino,

Pelos coronéis, escravizado,

De tanta canção que nos encantou,

No voo lamentoso da Asa Branca,

Na palavra libertária do Conselheiro,

Que deu voz ao catingueiro;

Da Coluna Prestes,

Que cortou nosso chão,

Como os jagunços de Lampião,

Onde nasceram os bravos e fortes,

Com suas tradicionais culturas,

Escritas nas lápides das sepulturas.

 

Tão falado e odiado,

Sou o Nordeste,

Não sou trapo farrapo,

De nazistas sulistas,

Senhores opressores,

Imigrantes intolerantes,

Que derrubam nosso cerrado,

Com suas cercas farpadas,

E ainda sugam nossos canais,

Das águas do “Velho Chico”

E nos chamam de macaco-mico,

Seus extremistas venais.

COISA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

“Uma coisa é uma coisa,

Outra coisa é outra coisa”.

 

Tudo que se faz,

É inspirado numa coisa,

Como esta coisa.

 

Coisa pode ser

Masculino ou feminino,

Substantivo, adjetivo e advérbio,

Até verbo.

 

Tem o coisa ruim,

Que é o capeta belzebu;

Tem a coisa boa,

Que pode ser tanta coisa.

 

Vou lhe contar uma coisa,

Que você não pode revelar,

Então não me conte sua coisa.

 

Cante aí nessa viola,

Uma canção MPB, samba ou forró,

E não me deixe aqui,

Com essa coisa só.

 

Rapaz, me deu aqui

Uma coisa na espinhela,

Não seria na costela?

 

Estou com uma virose,

Pode ser qualquer coisa.

 

Tenho uma coisa por ela,

Que não sei explicar essa coisa.

 

Não me venha com essa coisa,

Que já estou cheio de tanta coisa,

E não vou mais falar dessa coisa,

Porque você está sendo chato

Com tanta coisa.

 

Mostre sua coisa,

Que eu mostro minha coisa.

 

Me dê sua coisa,

Pra eu dar uma tragada,

Quero ficar doidão com essa coisa.

 

Sua coisa é de primeira

Não é da misturada.

 

Vá pra lá com sua coisa,

Que fico com minha coisa,

E quem quiser,

Que acrescente outra coisa.

POR QUE SERÁ?

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que será?

Que a mais gloriosa criação,

Após bilhões de anos,

Galgou a inteligência,

Para se curvar

À arte da corrupção,

E colocou no pódio

O ódio e a intolerância?

 

Será o instinto primitivo,

O real motivo?

 

Por que será?

Que a terra está pegando fogo,

Com ameaça existencial;

O mal virando o jogo,

Nessa era da ebulição global,

Onde o luto ganha da luta?

 

O progresso abiu as portas do inferno,

E eu aqui a queimar neurônios,

Entre o calor de 50 graus,

E o verão do inverno.

 

Por que será?

Que você se contorne

Entre o medo e a ansiedade

Do louco competir,

Atrás de uma felicidade passageira,

Que se acaba na saideira,

Do exótico vulgar consumir?

 

Por que será?

Uns ricos e outros pobres,

Escravos e nobres,

Tantas doenças,

De uns que se agarram nas crenças,

Outros no teorema,

Se Cristo se sacrificou,

Para derrubar o sistema?

 

ASSIM NÃO DÁ…

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Assim não dá,

Ficar calado como gado:

Ver tanta barbaridade,

Nessa nossa humanidade,

De gente perversa criminosa,

Que gananciosa nos rouba,

E depois diz ser inocente,

Que nada sabe e nada viu,

Nega muda, surda e cega

A verdade nua e crua.

 

Assim não dá,

Para não se manifestar,

Contra esse nosso país,

Sem cultura, caráter e raiz.

 

Assim não dá:

Vivo com meus medos,

Fantasmas e segredos,

Do meu soneto,

Sair pior que o enredo.

 

Assim não dá,

Ver o humano desumano,

Entupir de lixo o mar,

Com suas mentes artificiais,

Como se fossem canibais.

 

Assim não dá,

Para ver o amor minguar,

América e a África

Passar tanta fome,

Enquanto o luxo só consome.

 

Assim não dá,

Imperar o individual,

Com o ódio subindo ao pódio,

Nos dividindo em fatias,

Como crias,

Dessas loucas correrias.

JOGO TUDO NA GAMELA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Minhas contas de luz e água,

Faturas dos cartões de crédito:

Tudo é só débito,

Toda vez como freguês.

 

O selvagem capital,

Me trata como faquir,

Que toma banho na gamela,

Ainda me cobra,

Conta paga,

Para ir na camela conferir,

E fico a olhar tudo que quitei,

Todo sangue que já dei.

 

Logo vai chegando,

O outro mês:

Nem sei mais o que gastei:

Jogo tudo na gamela,

Depois nos arquivos,

Como mortos inativos.

 

Jogo tudo na gamela,

No banho que lá tomei,

Quando criança esperança,

No campo ou na favela,

E quando morro,

Nessa vida de aventura,

Num caixão apertado sem largura,

Só tenho direito a uma vela.

 

Jogo tudo na gamela,

Essa remela,

Do trabalhador,

Tratado como escravo insano,

Como nos tempos,

Do tráfico africano.

O SILÊNCIO E OS RUÍDOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Na magia do meu campo,

Na alquimia da natureza,

Das águas correntes a roncar,

Entre pedras e cachoeiras,

Em meu sertão profundo,

Escuto o canto dos pássaros,

Sem os ruídos dos corações,

Invejosos dos bárbaros,

Das traiçoeiras competições.

 

Sou o silêncio sem os ruídos,

O mergulhar em meu eu interior,

O zunido da abelha na flor,

Para nela polinizar,

Sem os ruídos dos instintos,

Egoístas da sedução,

Labirintos da exposição,

De si mesmo para divagar,

Nos toques do celular.

 

O silêncio vale ouro.

Digo ser reflexão,

Da alma o tesouro,

Absinto da razão.

 

Fortaleça seu silêncio,

Para dar voz ao silêncio,

Contra os ruídos capitais,

Das injustiças sociais,

E não ao silêncio sepulcral,

Que causa tanto mal.

NO GOLFO DO BENIM

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Brigam nações estrangeiras!

Ingleses, espanhóis e franceses,

Holandeses e portugueses,

Até capitães baianos brasileiros,

De canhões, bacamartes e estopim,

Em navios e canhoneiras,

Pelo tráfico negreiros,

No Golfo do Benim.

 

Brigam reis do Oyó e Daomé,

Com seus deuses orixás de fé,

Contra os reinos de Ardra,

Badagre, Porto Novo e Onim,

Em pântanos, savanas e mares;

Destroem aldeias e lares,

Para as vendas insanas,

De carnes negreiras humanas,

Nesse oceano de sangue,

Por cativos prisioneiros,

No Golfo do Benin.

 

Brigam navegantes traficantes,

Pelo domínio de Uidá,

Para escravos comercializar,

Por tabacos, ouro e aguardentes,

Moedas zimbo e cauri,

Até degolam cabeças,

Nessas feitorias fortalezas,

Horrores que nunca vi;

Matam gentes nas prisões,

Para lotar fedorentos porões,

De africanos, príncipes,

Rainhas de cetim,

Jejes, tapas e haussás,

Minas, nagôs-iorubás,

Filhos do Golfo do Benin.

NÃO MISTURE NOSSO FORRÓ

Autoria do jornalista Jeremias Macário

Não misture

Nosso forró, não,

Nem profane

Nossas festas juninas,

Com suas músicas assassinas.

 

Nosso forró,

Nasceu do fifó,

Na poeira do arrasta-pé,

Ao som do triângulo,

Da zabumba e da sanfona,

No melaço da cana,

Com cultura, tradição e fé.

 

Nosso forró é nordestino

Dos santos Antônio, João e Pedro

Brinca idoso, jovem e menino.

 

Seu prefeito predador safadão,

Não misture nosso forró, não

Com sua propina de mocotó.

 

Não misture nosso forró, não

De penetras estrangeiros,

Com chapéu de couro,

Indumentária de cangaceiros,

Que roubam nosso ouro,

E nem sabem lá cantar,

Xote, xaxado e baião.

 

Salvem Jachson do Pandeiro,

Marinês, Sivuca e Gonzagão,

Sem essa plástica indecência,

De misturar sertanejo e pagodão,

Axé, arrocha e sofrência.

 

Não misture nosso forró, não,

Pra nóis dançar é forrozeiro,

Na letra agreste do Nordeste,

Com licor, quentão e mungunzá,

Como nos tempos do candeeiro.





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