:: ‘Na Rota da Poesia’
MENINO MOLEQUE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando menino traquino,
Franzino nordestino,
De pai roceiro e carpinteiro,
Cresci na labuta da mandioca,
Que da terra saia
Como se fosse minhoca.
Depois fui para cidade pequena,
Da minha querida Piritiba,
Enfrentar outra cena:
Como menino moleque,
Paquerei uma morena,
Onde fiz o primário,
E de lá fui para o seminário,
Para ser padre vigário.
Estudei o latim e o grego,
Até o português e o francês;
Larguei a batina,
Porque não era minha sina,
E rumei pra capital,
Só com meu embornal.
Ainda aprendiz,
A rua era o meu lar,
Passei no vestibular
Para o curso de jornalismo,
Onde aprendi tanto ismo;
Duelei com a sorte
Como sertanejo forte;
Inventei ser escritor
Menino moleque,
Que nunca sonhou ser doutor,
Apenas um respeitado senhor,
Lá do interior.
REVISOR DE JORNAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Em pleno sol de verão,
Na praça do poeta condoreiro,
Meu olhar se perdeu
Pela Baia de Todos os Santos,
No balanço dos encantos
Das ondas do mar do barqueiro.
Estava avexado sem emprego:
Era só desassossego,
E nem sabia,
Que naquele dia,
Ia virar revisor de jornal,
Com trabalho salarial.
Zanzei pela rua Chile;
Cruzei com a Mulher de Roxo;
Mais adiante com irmã Dulce;
Beijei sua mão;
Pedi sua benção,
Com o sinal da cruz abençoou:
Vá meu filho,
Com seu Deus Nosso Senhor.
Na velha calçada de pedra,
Ainda vi o trilho do bonde,
Rangendo como carro de boi,
Que com seu tempo se foi.
Vaguei pela praça da Câmara;
Admirei o Lacerda Elevador,
Na Catedral entrei e orei,
Do Terreiro retornei
Até o prédio do “A Tarde”;
Contei minha situação ao doutor,
E de lá sai com o título de revisor.
DAR TEMPO AO TEMPO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Oh, tempo, tempo, tempo!
Dar tempo ao tempo,
Ou tudo tem seu tempo:
É o mais popular dito,
De quem roga seu visto!
Oh, tempo, tempo, tempo!
Memória da nossa história,
Oh, quanto falam de ti!
Como canto do Bem-Te-Vi.
Dizem que a tudo curas,
Até nossas mágoas e loucuras.
Quando bate o sofrimento,
Ou aquela ferina decepção,
Lá vem aquele consolo:
De dar tempo ao tempo,
Pra acalmar a aflição.
O arrependido dos erros,
Das besteiras que fez,
Implora que o tempo volte,
Pra coisas fazer diferente;
Outros dele têm saudade,
Para que sua felicidade
Se repita novamente.
Oh, tempo, tempo, tempo!
Estás nos autores literários,
Nos escritos dos diários,
Nas canções das poesias,
Rebentos de maresias.
Oh, tempo, tempo, tempo!
És criança, jovem e idoso,
Supremo divino silencioso.
O amor pede mais tempo,
Para cicatrizar sua dor,
Como o devedor ao credor,
E chega o tempo,
Para acertar as contas,
Porque ele não pode parar,
É como o vento,
Viajante da nave do ar.
Tu vais e renovas o ano,
Na ilusão do ser humano.
Oh, tempo, tempo, tempo!
Tu és nosso eterno senhor,
Seja pobre, ou doutor:
Tem o tempo de plantar e colher,
O de nascer e o de morrer.
LINHAS DAS MÃOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
As linhas das mãos,
Como diz o poeta:
São correntes digitais,
Ou cordéis em varais,
Fileiras de poesias,
Xilogravuras de fantasias.
As linhas das mãos,
Como a íris da visão,
São linhas diferentes,
Riscos das nossas mentes,
Com início, meio e fim,
Enigmáticas assim.
Tem as linhas,
Do sertanejo nordestino,
Queimadas pelo sol,
Calosas e grossas,
Cada qual com seu destino,
As do doutor são finas,
E as delicadas femininas.
Olho as linhas das minhas mãos,
Veja as suas como estão,
São cicatrizes do tempo,
Nos traços e espaços,
Lembranças de amor e dor,
De um passado que não passou,
Que nem o vento levou.
As linhas das minhas mãos,
Colheram o que plantaram;
Tiveram amigos e inimigos,
Amaram e odiaram,
E lágrimas enxugaram.
Depois de tantas andanças,
Feitas de fé e esperanças,
Por este mundão do meu Deus,
Entre nobres e plebeus,
Olho as linhas das minhas mãos,
E não entendo o que elas são.
Lembro que uma cigana,
Vinda lá da Toscana,
Leu as linhas das minhas mãos,
Previu coisas do meu destino,
Desde quando mirrado menino,
Que teria longa existência,
Mas não conseguiu ver,
Se a minha finitude
Seria repentina ou de sofrer.
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FLOR DE PRIMAVERA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, em homenagem à sua neta Cecília.
Flor de primavera,
Perfume abrindo o sol de verão,
Nascestes na virtual era,
Oh, menina soberana,
Cecília é teu nome visão,
Da terra Brasil primaveril,
De origem romana,
Latina Americana.
Flor de primavera,
Teu meigo sereno olhar,
Vai além do horizonte do mar,
Coisa mais linda de se ver,
Como florada de Ipê!
Seja bem-vinda, Cecília,
Aos braços mágicos da vida,
Essa misteriosa passageira,
Peregrina deusa romeira,
De encontros e desencontros,
Amores e dissabores,
Mas dizem que ela é bela,
Como as tintas da aquarela,
Encanto flor de primavera.
VOU ME EMBORA PRA SODOMA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu poeta Manuel Bandeira,
Deixa eu entrar
Em sua roda de capoeira!
Mas não vou para sua Passárgada,
Estou indo pra Sodoma,
Porque lá tem festa o ano inteiro,
Baticum pra gingo estrangeiro,
Uma fartura de mulheres,
De energias gostosas,
Pra comer, não preciso de talheres,
Vou na mão, no papo e nas prosas,
Por isso, meu caro Bandeira,
Vou me embora pra Sodoma,
Como na antiga Roma.
Tudo lá é devassidão,
Rufam os tambores na multidão,
Tem músicas lixo de montão;
Descem todos das ladeiras,
Como águas de cachoeiras,
E nem importo ser queimado,
Pelo fogo ardente do seu Deus,
Se todos já somos plebeus.
Só não quero virar estátua de sal,
Pois ainda tem o esfrega do carnaval.
Isso aqui é uma zorra,
Com cultura de massa alienada,
Nessa loucura da muvuca,
Nem é preciso ser bom da cuca!
Meu amigo Bandeira,
Você está dando uma de bobeira,
Pior é ficar em estado de coma,
Vou me embora pra Sodoma,
Quem quiser que vá pra porra,
E de lá sigo pra Gomorra,
No embalo, eu vou, eu vou
Ver o nosso Cristo Redentor,
E cair no samba, sim senhor!
MUNDÃO DO PROGRESSO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta mundão do progresso!
Que deixou meu verso,
Quebrado na beira da estrada,
Só se ouve o ronco do motor,
Valei-nos, oh Deus, Nosso Senhor!
Não passam mais as boiadas,
Nem os tropeiros estradeiros,
Com suas missangas e bruacas,
Abrindo cancelas e estacas,
Subindo e descendo ladeiras,
Nos mata-burros das poeiras.
Êta mundão do progresso!
Está tudo virado pelo avesso,
Entra tecnologia, sai a razão,
Mas ainda sobrou uma nesga,
De crença, amor e religião,
Nesse meu vasto sertão,
E eu aqui só de bobeira,
Vendo gente dando rasteira.
Êta mundão do progresso!
Não se vê mais rezadeira,
Coisa difícil é mulher rendeira,
Estão acabando com nossa tradição,
Mataram até nosso São João,
Está indo nossa cultura do ler,
Trocada pelo celular na mão,
Só se tem tempo para o vil ter,
E esqueceram do nosso ser.
QUANDO SE ENVELHECE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando se chega à velhice,
Pulsa mais lento o coração,
A gente sente da janela aberta,
Na paisagem da viagem,
Que está próxima nossa estação,
E aí, o tempo começa a marcar,
Em seu relógio, o tic-tac,
Dá até vontade de chorar.
Cada dia é mais uma graça
Alcançada que nos enlaça,
No laço da fé e da esperança;
Uns dizem que viramos criança,
Outros que é só ranzinzice,
Coisa mesmo da velhice.
Tem os professores,
Poetas e escritores,
Artistas e cantores em ação,
Que ainda solam uma canção;
Gente simples de fresca cuca,
Com felicidade, amor e liberdade,
Que alargam seus horizontes,
Construindo outras pontes.
Tem a turma do dominó nas esquinas,
Na baba das moças meninas!
Os fofoqueiros e arengueiros,
Impulsivos, ativos e inativos,
Que se isolam aos desencantos,
Aos braços das mágoas e prantos,
E vivem de salivar suas lamúrias,
De suas antigas tertúlias,
Enxugando as lágrimas do passado,
No galope do cavalo alado.
Quando se chega à velhice,
O fantasma cavaleiro da foice,
Sempre fica em nosso encalço,
Com seu afiado aço,
Encurtando nosso espaço.
Existem os duros reacionários,
Os sábios liberais revolucionários,
Mas poucos seguem seus ideários,
E o velho, em seu canto amargurado,
Engole seu soluço engasgado.
Quando se chega à velhice,
Os sentimentos afloram,
Todo plano tem que ser no ano,
Na base do aqui e do agora,
Antes que se vá embora.
Quando se chega à velhice,
Toca o sino em nossa porta,
Das lembranças de outrora,
Algumas coisas jogam fora,
E a pessoa se consola,
Com sua fiel companheira,
Outra nossa passageira,
Desse trem da vida,
De tanta confusão, labuta e lida.
Quando se chega à velhice,
Os netos se tornam seus filhos,
Que se distanciam de você,
E só miram o bem querer,
Na ganância do seu ter.
Quando se chega à velhice,
Falam logo de asilo,
Que é para seu benefício,
Um bom lugar ao seu estilo,
Mas, na verdade, é seu castigo,
De viver na solidão do abrigo,
Onde chora pai, avó e avô,
Que rogam ao Nosso Senhor,
Para logo acabar com essa dor.
NA ESTRADA DA VIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pela estrada da vida,
Aperto o cinto em cada saída,
Às vezes as vistas ficam turvas,
Temo o labirinto das curvas,
Reduzo a marcha,
Alivio o acelerador,
Olho quem vem na frente,
No retrovisor tem gente,
Assim avanço em meu destino,
Tentando cicatrizar minha dor,
Lembrando do meu amor,
Que partiu e me deixou.
Na estrada da vida,
Adoro as retas,
Sigo pelas setas,
Atento às encruzilhadas,
Sinto a sensação do vento,
Nas poeiras do tempo,
Aprecio a paisagem,
Cada qual em sua viagem,
E lá vai o homem com sua enxada,
Acolá o vaqueiro em seu gibão,
Toca uma rês desgarrada,
Cortando o agreste do sertão,
Como fazia meu velho pai,
Que cumpriu sua travessia,
Como o existir previa.
Na estrada da vida,
Uns apressados exageram,
No asfalto da velocidade,
Tudo depende da idade,
Outros preferem o compasso,
Deixar na terra seu traço,
E com fé carregar sua cruz,
Ora ao farol do escuro,
Ou iluminado pela luz,
Viajando no passado,
No presente apegado,
Mirando suas metas no futuro.
AS TRAPAÇAS DOS PATRIARCAS
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
De Ur veio Abraão,
Lá da terra dos Caldeus,
Com Sara e seu clã,
Com suas sandálias, desertos rasgou,
Orou ao seu Deus,
Até chegar a Canaã,
Com a escrava Agar se deitou,
E dela nasceu Ismael,
Renegados de casa pelo pai,
Pra ele restou o fel,
Dos ismaelitas fez-se a nação árabe,
Mas Jeová deu-lhe a graça,
E assim nasceu a trapaça,
Tudo por herança,
Pra encher a pança,
Do primeiro monarca patriarca
Das religiões monoteístas,
Para esconjurar os politeístas,
Que delas precisaram um dia,
Pra matar a fome,
Que a seca os consumia.
Foi no Egito do faraó,
No escaldante sol,
Que a bela e ambiciosa Sara,
Se passou como irmã,
Do esposo Abraão,
Ela foi servir seu harém,
Ambos deram a mão,
E o patriarca fez outra trapaça,
Dessa vez pela caça,
Se deu bem com um bom rebanho,
Ainda saiu no ganho,
Do seu Deus a maldição,
Mas nunca acabou a desunião,
Tudo por herança,
Para encher a pança.
Depois de muito tempo,
Abraão ganhou o filho Isaac,
Fora do antigo almanaque,
Que no lajedo amarrado,
Quase foi sacrificado,
Como prova de fé do seu genitor,
E o menino depois de homem,
Com Rebeca, a formosa gananciosa,
Namorou e se casou,
Gerou os gêmeos Esaú e Jacó,
Este último mais uma vez,
Com seu plano da mãe,
O irmão trapaceou,
Se passando como primogênito,
Com um prato de cabrito,
Ganhou a benção no grito,
Tudo por herança,
Pra encher a pança.
Esaú amargurado chorou,
Jacó para não ser morto fugiu,
Caiu nas mãos do tio Labão,
Mais esperto do que o sobrinho,
Deu uma de moço bonzinho,
Tudo por herança,
Pra encher a pança.
Foi lá na Mesopotâmia,
Que tudo se sucedeu,
Quando Jacó se apaixonou,
Ficou perdido de amor,
Pela linda ardilosa Raquel,
Como sopa no mel,
Por ela sete anos trabalhou,
Tudo por herança,
Pra encher a pança.
No dia do casamento,
Teve aquela festança de arromba,
Todo mundo caiu na dança,
O noivo tomou aquele porre,
Que de besta se embriagou,
Dormiu com a feia Lia baranga,
Com a mais velha se refestelou,
E mais sete anos foi servir a Labão,
Pela ditosa flor,
Tudo por herança,
Para encher a pança.
Na enrolada negociação,
Ganhou mais duas criadas,
Com quatro mulheres ficou,
Mais seis anos como administrador,
Em vinte fortuna acumulou,
E na fuga pra se livrar do vilão,
Raquel roubou os deuses ídolos do pai,
Se mandaram para Canaã,
Noutra lasca de trapaça,
Tudo por herança,
Para encher a pança.
O tempo gira e tudo embola,
Como no meio campo da bola,
Jacó criou doze tribos de Israel,
E o mais querido José,
O Judá do povo judeu,
Foi vendido pelos irmãos,
Para os descendentes de Ismael,
Aquele bastardo de Abraão,
Todos sempre foram meios-irmãos,
Árabes islâmicos e hebreus,
Que têm um único deus,
Assim como os cristãos.
A história nunca está acabada,
A gente pega ela pela rabada,
José, o belo bonitão,
Foi escravo do Putifar,
Guarda chefe do faraó do Egito,
Rejeitou a mulher do patrão,
Que lhe entregou como assediador,
Se lascou na masmorra prisão,
Depois ganhou as graças do rei,
Dos sonhos fez sua lei,
Armou suas trapaças,
Aumentou a herança,
E ainda encheu a pança,
Do seu pai e irmãos.










