:: ‘Na Rota da Poesia’
TÃO SÓ
Poeminha de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Às vezes,
A gente se sente tão só,
Como bode a berrar na caatinga,
Quando se perde do seu rebanho
Onde a solidão nos dá aquele nó.
Tão só,
Como tantas ideologias
Que se tornam pó,
Trancadas em suas abadias.
Tão só,
Como os antigos ancestrais
A mirar a relva do campo,
O cavalgar dos animais,
E o piscar do pirilampo.
Meu ego sum
Está tão só,
No recôndito da minha alma
Que só o pôr-do-sol,
Anunciando a noite
Me acalma
Desse rasgado açoite
Nessa ventania de agonia.
A GENTE QUER, E NÃO QUER
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário.
A gente não quer
Viver nesse fio da navalha,
Que tenhamos Estados paralelos,
O povo carregando cangalha,
Nos capitais algozes como martelos.
A gente quer
Cada jovem com sua flor,
A marchar pelo ser do saber,
Aprendendo a lição do amor,
Que o tempo nos ensine a viver.
A gente não quer
Ver mais tanta injustiça social,
O fogo nas florestas em chamas,
O errado se tornando normal,
A ganância destruindo os biomas.
A gente quer
Que a vida supere a morte,
Que a mentira se renda à verdade,
O conhecimento seja nosso norte,
E todos tenham dignidade.
A gente não quer
Esse fanatismo religioso,
Tantas ideologias radicais,
O discurso intolerante odioso,
Esses facínoras de armas mortais.
A gente quer
Uma humanidade mais humana,
Só louvar o nosso universo,
Uma sociedade não espartana,
Que o sistema não seja perverso.
A gente não quer
Esse genocídio palestino,
As bombas dos imperialistas,
Ter mais retirante nordestino,
Oprimir os ideais socialistas.
A gente quer
Mais canção, arte e poesia,
Que o sonho se torne realidade,
O pôr-do-sol seja nossa homilia,
Sem essa fogueira da vaidade.
A gente não quer
Que exista mais a dor da fome,
Que não roubem nossa estima,
Sem diferenças entre mulher e homem,
Não mais a Rosa de Hiroshima.
A gente quer
Sentir o perfume da primavera,
Que o legal não seja imoral,
Uma amizade aberta sincera,
Onde a emoção seja racional.
MEU NORDESTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu Nordeste,
Do Sertão, Carrasco Agreste,
Da Mata e do Brejo Cerrado,
Do misticismo religioso,
Vindo das caravelas do Rio Tejo,
Abençoai-nos, oh todo Poderoso!
Meu Nordeste,
Dos engaços espinhentos,
Até na florada do mandacaru,
Meu Nordeste
Do Juazeiro e do fruto do Umbu!
Quero cravar minhas mãos nesta terra,
Molhada pelas chuvas do trovão;
Quero liberdade, justiça e pão;
Quero ler todos escritores,
Ao Graciliano Maior;
Ouvir Caetano, Gil, Zé e Vandré
Até chegar a Belchior.
Meu Nordeste,
Nação de guerreiros,
Com seus litorais poéticos,
Cheiro encourado dos bravos vaqueiros,
Do couro dos partos nos quartos,
Contraste que se faz harmonia,
Na louvação dos céticos,
Onde tudo exala poesia.
Do meu Nordeste,
Livrai-nos, Senhor dessa canga,
Que deixa nosso povo na tanga!
QUE FIM LEVARAM NOSSOS SONHOS?
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Que fim levaram nossos sonhos,
Se perderam nas longas marchas,
Das avenidas e praças,
Dos cartazes nas mãos,
Nas letras das eternas canções,
Que ficaram em nossos corações?
Que fim levaram nossos sonhos,
Nascidos das revoluções?
Arrancaram as flores do nosso jardim,
Nele plantaram corrupções,
Na base do meio justifica o fim.
Que fim levaram nossos sonhos,
De igualdades humanas sociais,
Justiças para nossas oprimidas gentes?
Estão nos cofres dos capitais,
Mas ainda vivem em nossas mentes,
Nessa sociedade de canibais.
Que fim levaram nossos sonhos,
De resgatar nossa jovem geração;
Acabar de vez com a fome,
Amparar as desgarradas multidões,
Nas lutas armadas ou pela razão?
A DOR FÍSICA E A ESPIRITUAL
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na essência da vida existencial,
Qual a pior dor,
A física ou a espiritual?
Cada uma na sua cada qual:
A matéria acha que é a física,
A filosofia que é a espiritual,
E delas se inspira a poesia,
Na dor de José e Maria.
Uma é canibal da outra:
A física aniquila a mente,
A espiritual se fecha como ostra,
E as duas são viscerais da gente.
Tem a dor do câncer,
Aquele que não tem cura,
Tem a dor da fome,
Que até o juízo, consome,
Tem a dor da tortura,
Nos porões da ditadura,
A dor de dente, persistente,
Que deixa a alma em chama,
E a terminal no leito da cama.
Tem a dor do amor perdido,
Que rasga por dentro o peito,
A dor do luto da perda,
Daquele ente querido,
Do material ao metafísico,
É o espiritual roendo o físico.
Entre a física e o espiritual,
Existe aquela enigmática,
Que nem explica a matemática,
É a dor mortal
Daquele suspiro final,
Que nos leva para o além,
E não está no saber de ninguém.
NÃO ESPEREM MAIS POR MIM
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O velho elefante,
Cansado e ofegante,
Se escora numa frondosa árvore,
Sente ser chegado seu fim;
Manda seu rebanho seguir em frente,
E diz não esperem mais por mim.
Quando o zunir do vento
Chicotear minha alma,
Ferir e dilacerar meu passado,
E o passo ficar mais lento,
Trocar o não pelo sim,
Digo que sigam em frente,
E não esperem mais por mim.
Quando o futuro encurtar meus planos,
O amanhã anunciar menos anos,
As flores murcharem em meu jardim,
Sigam em frente, gente!
E não esperem mais por mim.
ENSINAMENTOS DE EPICURO
José Fábio da Silva Albuquerque, do seu livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular (Editora Nzamba)
O medo é algo engraçado
Quando de alguém se apodera
Pois deixa geladas as mãos
E o coração acelera
Mostrando cenário terrível
Que outro não é possível
Além de sofrer na espera.
Uma pessoa com medo
Perde de todo a razão
Fica sujeito aos conselhos
Que prejudicam a ação
Dos mais primitivos instintos
Parentes da obsessão.
Do medo um dia falara
Um homem de nome Epicuro
Chamado por todos filósofo
Do jeito que outro Obscuro
Caráter de muitos dizeres
Um defensor dos prazeres
Mesmo perante o apuro.
E dentro do seu ensinar
Está o imbatível dizer
Voltado aos seres humanos:
Que não se deve temer
Sofrer, nem deuses, nem morte
Pois quando se é desta sorte
Já não se está mais no viver.
A todos que sentem medo
AMÉRICAS IBÉRICAS!
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sou filho das Américas
Do Sul e Central,
De Colombo e Cabral,
Das caravelas ibéricas,
Dos capitães piratas,
Que singraram mares
Atrás do ouro e das pratas,
Que fizeram matanças,
Cativaram nativos,
Deles roubaram seus colares,
Impuseram suas crenças,
Encheram suas panças
Nas Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
Do México a Patagônia,
Terra do fogo,
Do Caribe à Amazônia,
Sou filho dos tupis-guaranis,
Dos Maias, Incas e Astecas,
Dos Tupinambás, Tapuias e Cariris,
Sou das Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
Sou mestiço, caboclo e mameluco,
Até cabra cafuzo maluco,
Branco, pardo e negro,
Árabe-judeu, mouro ibérico,
Nações famélicas
Das Américas Ibéricas.
Américas Ibéricas!
Sou fruto do índio-português,
Dos antepassados ancestrais,
Das tribos canibais,
Das Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
Sou filho dos deuses guerreiros,
De Montezuma e Atahalpa,
Dos espanhóis prisioneiros,
Nas Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
Não sou filho norte-americano,
Imperialistas ianques,
Invasores de territórios soberanos,
Com seus foguetes, drones e tanques,
Sou das Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
Sou da África, africano,
Nordestino latino,
Com nossas culturas “bélicas”
Das Américas Ibéricas,
Américas Ibéricas!
PEDAÇOS DE MIM
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meus sentimentos,
Vagueiam em alto mar,
Como pedaços de mim;
Meu choro rasga minhas entranhas:
São lágrimas internas em meu jardim,
Como pedras que rolam das montanhas.
Pedaços cortados de mim,
Amor inculto a dilacerar;
Sou como pássaro solitário,
Na caça da fome a voar.
Pedaços entrelaçados de mim,
Tropeço aqui e acolá;
Na estrada que tem seu fim:
Morte, castigo do Alá.
Sou apenas um passageiro,
Vulto, sombra e confusão,
No andar cambaleante da contramão.
Pedaços doídos de mim:
Dizem que a vida é canção.
Nas curvas, não vejo assim, não,
Quando bate a melancolia,
Parto para outra estação.
Minha alma está inerte,
Nesse cenário teatral;
Navegam pedaços de mim
Pelo mundo sideral.
Vem a tempestade e me açoita,
Sem pena e compaixão;
Seguro firme no chão,
Sinto que ela vai me estraçalhar,
Mas sou guerreiro forte,
Sei que vou me salvar.
O CANGAÇO E A VOLANTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Revoltam Severino e Maria,
Um vai pro cangaço,
O outro entra na volante
Porque não existe outra via.
Pelo espinhaço do sertão
Entre espinhos e garranchos,
No lajedo agreste do Nordeste,
Pobres miseráveis em seus ranhos,
Cortam o cangaço e a volante,
Em seus picados matreiros
Nessa terra de gigante.
Lá vão Antônio Silvino,
Lampião, Sinhô Pereira,
Corisco e Jesuíno Brilhante,
Bandos de valentes guerreiros,
Na tora da bagaceira,
Nos rastros de seus coiteiros.
O Cangaço chama a volante
De “macaco” bandido,
A volante de salteador bandoleiro,
E o povo se lasca num “partido”.
Cabeças decepadas e degoladas,
Gargantas cortadas sangradas,
Corpos esquartejados ferrados,
Como gado magro em manadas,
Sangue a jorrar pelo chão,
De pedregulho, seco estorricado,
Fardas esfarrapadas,
Mulheres escravas estupradas,
O cangaço e a volante
Criados pelo sistema dos coronéis,
Doutores, senhores de engenho,
Com suas afiadas chibatas de anéis.
Ditam suas sentenças,
Impõem seus costumes,
Baseados em suas crenças.
O murmúrio se cala no além
Pelas armas do rifle, fuzil e do punhal
Nessa região de ninguém
Onde o choro fica entalado,
Em meio à desgraça e o cabedal.
E o cangaço e a volante
Fazem sua carnificina brutal.
O cangaço com sua canga,
No cipó de boi torturador,
Arranca olhos e retalha peles.
Tem até o ferro castrador,
Ferraduras, lapadas de reio cru,
Nesse inferno de fogo e aço,
Crucifica humanos no mandacaru.
A volante ainda é mais cruel
Com suas barbaridades medievais
Riscam como raios do céu.










