:: ‘Na Rota da Poesia’
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Oh Senhor, Criador Supremo!
Sua criatura só destrói,
O planeta vive no extremo,
O sistema só nos corrói,
Mas nem tudo está perdido!
Ainda tem muita gente,
Que faz aquela diferença:
Lança na terra a sua semente
Do amor, da paz e da crença.
Nem tudo está perdido!
O bem ainda bate na porta,
Para abraçar o desvalido;
Tem aquele que importa,
Com a injustiça social,
Que é amigo certo leal.
Nem tudo está perdido!
Tem filhos que amam os pais,
Mãos que afagam o esquecido,
Não desejam o mal, jamais!
São como a excelência
Nessa humanidade em decadência.
Tem a alma companheira,
Que na tristeza nos aquece,
Tem a canção sonora da viola,
Que do peito arranca a banzeira,
Como chuva que renasce a flora.
DESILUSÃO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vagueia no recôndito
Da minha alma
Uma desilusão sofrida,
Sem mais aquele sopro,
Do viver encanto
Do vento fresco humano,
Que fazia o nosso canto
Contra o fútil profano.
A gente carregava o manto,
Da cultura e do saber,
Era lindo de se ver:
As ideias em confronto.
Os sonhos como vultos,
Somem entre os incultos,
Que mataram o conhecer,
E não mais se acredita
No clarear do alvorecer.
A massa insossa alienada,
Passa em louca disparada,
Consome porcarias no lixo,
Nas entranhas do consumismo,
E fica toda fedorenta empolada,
Pelo percevejo do capitalismo.
Minha alma está seca cinzenta,
Nesta cacimba, sedenta,
Como um estorricado chão,
Que definha na desilusão.
A juventude do não pensar,
Sem mais atitude e metas,
Guiada por falsos profetas,
Caminha nesse escuro,
Em meio ao besteirol,
E meu único alento,
É apreciar um pôr-do-sol.
PRINCESAS FERROVIÁRIAS
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, estações ferroviárias!
Princesas centenárias,
Trilhos do “Trem das Sete”,
“O último do sertão”,
Tempo de esperança e fé,
Nas serras de Wilson Aragão,
No canto do “Capim Guiné”.
Tuas lindas fotografias
Me enchem de fantasias,
De moleque piritibano,
Saindo do chão da praça,
Correndo de calça curta,
Para esperar a Maria Fumaça.
Formosas princesas,
De arcadas inglesas,
Minha saudade ainda voa,
Nos códigos do telégrafo,
E na paisagem da janela,
Eu livre viajo numa boa.
Em meu apaixonado olhar,
Princesas do Além-Mar,
De belas construções,
Embarcaram passageiros,
Inspirando lindas canções.
Princesas sertanejas,
De encantadoras fachadas,
Ainda vivas na memória,
Da nossa gente viajante,
Do passado de muita história.
Princesas ferroviárias
De esculturas elegantes,
Te amo entre as amantes,
Poéticas e relicárias.
NO TEMPO DAS QUESTÕES
Do grande Ariano Suassuna, retratando como era e se vivia no antigo sertão, terra isolada e sem lei.
Aqui reinava um Rei quando eu menino:
Vestia ouro e castanho no Gibão.
Pedra-da-sorte sobre o meu Destino
Pulsava junto ao meu seu coração.
Para mim, seu cantar era divino
Quando, ao som da viola e do baião
Cantava, com voz rouca, o Destino.
O riso, o sangue e as mortes do Sertão.
Também, coisas das antigas do fundo do baú, uma modinha do século XIX, cantada por João Flor em suas andanças na caatinga durante seus combates contra os cangaceiros. Era assim:
“Há quatro anos passados
Eu era alegre e feliz
Hoje me vejo sofrendo
Foi minha sorte quem quis.
Antes eu nunca te visse
Porque não te tinha amizade
Hoje me vejo sofrendo
No rigor desta saudade.
Antes eu nunca te visse
Porque não te tinha amor
Hoje me vejo sofrendo
No rigor da cruel dor
Quem por si se despreza
Merece ser castigado
Não me queixo da sorte
Vivo de ti separado”.
Também gostava de cantar:
“Morena, minha morena
Quem te ensinou a nadar?
Foi o tombo do navio
Foi o balanço do mar”
Vale lembrar que “Muié Rendeira” era de um cangaceiro por apelido “Cacheado”.
Extraído do livro “O Canto do Acauã”, de Marilourdes Ferraz
CANÇÃO DO SABER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Esta canção que laço,
Tem raízes fincadas na terra;
É do menino de pés descalço,
Nascente de água cristalina,
Que desce daquela serra,
Como uma graça divina.
Quando se está triste,
A alma cálida padece,
Parece que nada existe;
Dá vontade de chorar:
Oh, Senhor, meu pai Oxalá!
O vento zune lá fora,
Como canção de ninar,
Nem sei mais fazer a hora,
Desse doer se acabar,
Mas, como disse Vandré,
“É só saber querer,
Para poder chegar”.
Esta é a canção do saber,
A canção do sofrer, do amar,
De quem lutou e foi calado,
Pelo facínora do ditador,
Quando sua viola solou,
Que gente unida é pra ganhar.
Esta é a canção do saber,
Saber viver e saber morrer.
TUDO TEM SUA VEZ
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Deixe a inspiração fluir,
Para nascer a poesia,
Espere a maré baixar,
Para fazer a travessia.
Tem a vez do nascer e crescer,
Do aprender e do saber,
Trabalhar e do curtir,
Do ganhar e do perder,
O tempo da velhice:
Foi o sábio que assim disse.
Tudo tem sua vez,
Do início e do fim,
Do não e do sim;
Tem a tristeza e a alegria,
A vida tem prazo de garantia.
Não fique aí com cara de tacho,
Esperando o acontecer,
Na base do eu acho,
Que tudo vai melhorar,
Sem a labuta enfrentar.
Tudo tem sua vez,
O primeiro beijo,
A primeira transa sexual,
E é você quem faz
Ser divina sensacional;
Tem a vez do amar,
E também a do odiar.
Tudo tem sua vez,
A do sofrer e a do prazer,
Depois do pôr-do-sol,
Vem o alvorecer.
Tem o choro e o sorriso,
Cada um com sua vez,
Como no sinal do aviso.
A flor perfuma o ar,
Tem sua hora de murchar,
O produto do consumir,
Se torna lixo do poluir.
Só os deuses são imortais,
Tudo tem sua vez,
A esperança da mudança,
O plantar e o colher;
As sementes que caem no chão
São espíritos dos ancestrais,
No sentimento e na razão.
É o ciclo da vida,
Se há entrada, existe saída,
Na corrida do ter e do ser,
Tudo tem sua vez,
Do primeiro cavalo selado,
Não pegue a estação errada,
Para não entrar numa furada.
Tudo tem sua vez,
O mar revolto e a calmaria,
O acidente na rodovia,
Um dia é da caça,
O outro é do caçador,
Não existe vencer sem dor.
ASSIM QUIS O DESTINO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
No ferro, fogo e aço,
Entre jurema e o calumbi,
Na imbira da macambira,
Rifle, fuzil e punhal,
Na alpercata do carrasco,
O agreste era seu quintal,
Na glória e no fracasso.
Assim quis o destino,
Não importa se terreno ou divino,
Aprendeu menino ser bandido
De um povo isolado sem lei,
Onde foi governador e rei.
Meia dúzia de balas,
No corpo carregava,
Cegueira e doenças renais,
No Angico apertado se refugiava,
Com seus deuses e satanais,
Sertão dos tempos medievais.
Acabou o corpo fechado,
No cinzento da oração,
Maria Bonita caiu junta,
Com seu amor Lampião,
E o tenente Bezerra atirava,
Nove cabras tombaram no chão.
Eram dois pernambucanos,
Da região do Pajeú,
Celeiro de cangaceiros,
De nordestinos espartanos,
Renegados pelo sul.
Um aprendeu a atirar,
Com a pontaria de Antônio Silvino,
Depois entrou para a volante,
E assim quis o destino,
Que caísse o Virgulino.
O outro, aluno de Sinhô Pereira,
Que ensinou sua cabroeira,
A ser andante bandoleiro,
Como negócio, refúgio e vingador,
Na terra de coronéis e doutor.
Só sobrou o velho Corisco,
Que até serviu o exército,
Cabra valente e arisco,
Como lutador teve seu mérito,
Mas o Governo Getulista,
Em quarenta fechou a lista,
Do Nordeste cangacista.
CAVERNA VIRTUAL
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Você é produto do meio,
Ilusão e devaneio,
Nessa caverna virtual,
De morcegos vampirescos,
Dentes dantescos,
Que sugam seu sangue,
Até a medula cerebral.
Desculpe companheiro,
Se meu verso não lhe agrada,
Pela lasca da pedrada.
Livre-se desse cativeiro,
Do influenciador superficial,
Seja mais racional
Fique aí em sua rede,
Com sua bicharada,
Como caça do caçador,
Nem sente mais fome e sede,
Alienígena social,
Do vazio virtual.
Ao invés de curtir na tela,
Veja a vista da sua janela,
Sua caverna virtual,
Cria taquicardia,
Morte lenta, passional,
Drogaria, psiquiatria,
Clique no amor presencial,
O resto é idolatria.
AS SECAS E OS BANDOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vejo pelas estradas e veredas
Levas de esfarrapados famintos,
Ao sol das labaredas,
Bandos enfeitados de cartucheiras,
Nas lágrimas secas das secas,
Balas varam quintais,
Coronéis derrubam cercas.
Êta Nordeste de guerreiros!
Infestado de bandoleiros!
Lá vem Antônio Silvino,
Ventania de um furacão,
No aço reluzente do cangaço,
Depois os bandos de Lampião,
Pelas secas dos Pereiras e Quelés,
Vinte e Dois, os Patriotas e Sabinos,
Jararaca, os Marianos e Porcinos,
Fechando lojas e até cabarés.
Nesta terra sofrida sem lei,
O bandido é o dono e rei.
Nas secas não existem feiras,
“Padim Ciço” derruba governador,
Pajeú, Cariri e Piancó das bagaceiras,
Há anos que não se colhe uma flor,
Neste agreste de tanta desgraça e dor.
As secas com seus bandos,
Os bandos com seus santos,
Com rezas de corpos fechados,
Os beatos com seus pobres rebanhos,
Cada cabra com seus comandos,
E nordestinos expulsos de seus cantos.
Chusmas de maltrapilhos,
Estirados pelo árido chão,
E os debilitados sobreviventes,
Em campos de concentração.
Meus versos não têm graça,
Oh, Senhor Deus dos desamparados,
Cadê sua divina Graça:
Deixar seus filhos morrem,
Nas florestas do ciclo da borracha?
Os bandos têm seus coiteiros,
Os chefes políticos, o poder,
E as secas parem os cangaceiros.
A Coluna Prestes passa,
No meio dessa confusão,
Querendo justiça social,
Mas o reacionário capital,
Metralha sua Revolução.
A marcha é arrastada difícil,
Dos levantes em busca de comida,
Sacrificam até suas crianças,
Para sustentar suas andanças,
No labirinto entre morte e vida.
As secas são implacáveis,
Como nas antigas guerras romanas,
Acossadas pelos bandos desumanos.
É arder no caldeirão do inferno,
De almas na espera
Das chuvas de inverno.
O último bando foi de Corisco,
As secas continuam por séculos,
E eu por aqui fico,
Sem mais nenhum rabisco.
TORMENTOS DA ALMA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O ser, do ser Criador,
Servo do tempo infinito,
Matéria e espírito de dor,
Tormentos da alma:
Luta entre o existir do viver,
Mesmo sem sentido no crer.
Neste embate entre vida e morte,
Transitam a angústia e a felicidade,
Nas frestas do vencer do mais forte,
Mistérios da Suprema divindade:
Com linhas tortas universais,
Conflitos humanos animais.
Para os tormentos viscerais:
Religiões, amuletos das muletas,
Versões morais e imorais,
Somos almas atormentadas,
Até mesmo santos canibais,
Com suas cores multifacetadas.










