Continuação do nosso poema-teatro, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fala da cultura nordestina, destacando seus principais personagens, como escritores, poetas, trovadores, historiadores, cordelistas e repentistas.

Em todo lugar ia fazendo mais uma descoberta nordestina,

Agora na companhia de uma cabrocha hipada lá de Cabrobó,

Assim com ela passei pela famosa cidade de sal do Mossoró,

Onde Lampião recuou sua tropa e mandou baixar a carabina;

Quebrou outra caatinga carcará pra fugir da Volante assassina.

 

Comendo cascalho atravessei todo o Rio Grande do Norte,

No encalço atrevido para entrevistar o cangaceiro Lampião,

No bagaço cinzento, com papel e a arma da caneta na mão,

Mas o cabra farejador sentiu meu cheiro e logo me tocaiou,

Quando descampei numa ribanceira e avistei uma pedreira,

Do lajedo como dum nada o punhal em meu bucho encostou.,

E logo gritou: macaco! Vou arrancar suas tripas pros urubus;

Foi quando as pernas tremeram no susto do voar dos nambus.

 

Espera ai, capitão! Não cometa esse desatino, só quero lhe ver;

Sou afilhado do Padim Cícero do Juazeiro, jornalista e escritor,

Vim aqui para narrar sua epopeia nessa terra de cactos e umbus;

Fotografar vosmicê e sua companheira de toda lida Maria Bonita,

E assim domei a fera que já sangrou coronéis, soldados e doutor.

 

Na volta corrida pela trilha me deparei com o temido Corisco,

Com um parabelo de papo amarelo mirou bem na minha testa,

E disse seu tira da peste! Ajoelha e reza pro assado da festa;

Falei Corisco, não me entrego não, sou compadre de Lampião,

Mostrei seu “biête” que me dava passagem por toda essa região,

E ai baixou sua arma, e com coragem cortei a árida paisagem,

Numa carreira fui parar em Natal, do Forte dos Reis Magos,

Fazer chamegos e vadiagem, e das potiguaras receber afagos.

 

Mergulhei no litoral de dunas e me banhei no mar de lagos;

Ariei o espírito para encarar o folclorista Câmara Cascudo,

Que relutou em não aceitar em sua casa um estranho difuso,

Mas intruso insisti que só queria conhecer seu vasto estudo,

E ele aturou paciente, e culto resolveu baixar seu escudo,

Para mostrar seus escritos sobre os ritos da cultura Brasil,

De cabo a rabo dessa terra de tanta expressão de faces mil,

Dos costumes nordestinos de várias personagens divinos;

Tudo estava em seus rascunhos feitos no ritmo do vinil,

Dos deuses gregos narrando suas viagens de eternos hinos,

E naquele encanto, como um menino, pedi sua benção,

Para louvar minha jornada com o calor da sua benta mão.