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:: 16/out/2021 . 1:43

AS DIVINDADES E OS ORIXÁS DE SOYINKA NO PASSADO E PRESENTE AFRICANO

Wole Soyinka é um poeta e escritor nigeriano que pautou sua produção literária no passado e presente (o colonial e o pós-colonial) do seu povo africano, fazendo alusões às divindades e aos deuses orixás no universo ioruba.

Quem interpreta o acadêmico no livro “Intelectuais das Áfricas” é a professora de Letras, Divanize Carbonieri. Soyinka nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. Seus pais eram anglicanos que viviam num enclave de cultura europeia e religião cristã.

No entanto, havia uma certa mistura entre as línguas, costumes e crenças, como assinala Divanize. Era um mundo cristão que não abandonou as matrizes nativas. Na Universidade de Leeds, na Inglaterra, concluiu seus estudos em literatura inglesa. Ele se esforçou para adquirir conhecimento acadêmico a partir da cosmologia e mitologia iorubas.

Eliana Lima Reis que estudou sua infância, diz que o discurso de Soyinka parte de uma perspectiva dupla quando fala de dentro da sua cultura. mas também de fora.

O professor Aníbal Quijano, que descreve sobre colonialidade do poder, afirma que a colonização das Américas e de outras partes do mundo pelos europeus, instituiu a divisão da população em raças que foram hierarquizadas numa estrutura de poder que ainda permanece.

“As raças consideradas inferiores são atribuídas as formas de trabalho pior remuneradas”… Para Divanize, o escritor Soyinka pode ser classificado como um autor pós-colonial. Ele sofreu percalços na Nigéria. Foi preso em 1967 por dois anos porque, na Guerra de Biafra,  tentou negociar um acordo de paz. Mesmo depois de solto, manteve seu pensamento crítico contra os governos de regimes ditatoriais.

Em 1986 foi o primeiro africano a receber o Prêmio de Literatura. Continuou sendo perseguido e deixou o país nos anos 90, no governo de Sani Abacha. Divanize faz uma alusão da poética de Soyinka com o fenômeno Abiku (criança-espírito) na cultura ioruba.

Abiku é um espírito que não quer permanecer na terra. Ele vai e volta do outro mundo, em busca do espírito das crianças. As mães que sofrem abortos constantes e vê seus filhos morrerem (natimortos) ou na infância sofrem com a ação de Abiku. Para detê-lo, as pessoas fazem rituais no sentido de que Abiku permaneça na casa e nela se ambiente, não levando mais criança consigo para outra vida.

As casas são choupanas miseráveis cheias de buracos onde entram morcegos e corujas. A intenção é que ele não leva mais ninguém do mundo dos vivos. As casas têm condições de pobreza extrema, de existência com paredes de bambu que não suportam o harmattan (vento do deserto do Saara), tanto que só servem para alimentar o fogo.

O eu-lírico suplica a Abiku que fique, que outra vez não parta procurando buscar nele o afeto pela mãe e que escolha a esfera dos humanos. Porém, Soyinka, com sua poética, apresenta uma visão diferente. Ele trata o Abiku com zombaria e escárnio. Diz que nada pode aprisioná-lo na terra, numa referência à morte.

Soyinka expressa em sua obra que tudo o que as pessoas fizerem para mantê-lo vivo, na verdade, só servirá para assegurar-lhe ainda mais a morte. Ele anseia verdadeiramente pelo mundo que deixou para trás ao nascer. Em sua poética, destaca que, nem mesmo a dor da mãe é capaz de demovê-lo; ele será para ela como uma cobra sorrateira que dá o bote e morde quando menos se espera, injetando na vítima um veneno letal. Se a mãe esperava obter alegria com seu nascimento, isso é um aviso de que ele só trará tristeza.

Nos versos de Soyinka, existe a noção de que o ser humano está diante de algo que não pode controlar racionalmente. O que prevalece, na ótica de Soyinka, é o ponto de vista do mundo dos espíritos, de onde provém Abiku, e os rituais realizados pelos humanos são inúteis.

Na cosmologia ioruba, a realidade está dividida em três esferas: o mundo dos não-nascidos, o mundo dos mortos ou ancestrais e o mundo dos vivos. Em seu romance The Interpreters (1965), a trama se desenvolve em torno de um grupo de intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos, e que agora se desdobram em cidades nigerianas.

Eles desempenham a função de interpretes entre a cultura ocidental e a cultura nativa africana. É uma tradução marcada por niilismo e decepção. A desilusão se dá, principalmente, em relação à elite que chegou ao poder após a descolonização do país que se revelou tão ou mais nefasta do que os antigos colonizadores.

Os deuses orixás iorubas sempre estão presentes em suas obras, retratando Oxalá, Ogum, Xangó e outros. Nesse mundo, Soyinka opta pela personalidade de Ogum que, mesmo errando, se arisca para alcançar a autorrealização. Vamos abordar essa questão no nosso próximo comentário.





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