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:: 29/out/2021 . 23:52

NUNCA A IMPRENSA TRADICIONAL FOI TÃO ODIADA, HOSTILIZADA E EXCLUÍDA

O LIVRO É A FONTE DA VIDA, GUARDIÃO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE QUE NOS TIRA DA ESCURIDÃO PARA A LUZ.  INFELIZMENTE NÃO É ASSIM LEMBRADO, NEM NO DIA NACIONAL DO LIVRO (29 de outubro).

Com o advento das redes sociais, esse governo negacionista de extrema-direita, fascista e autoritária, bem como autoridades, políticos e as celebridades que comungam da mesma ideologia, deixaram de dar entrevistas presenciais no olho a olho aos jornais, revistas, rádios e aos canais de televisão. Essa mídia tradicional noticiosa passou a ser odiada, hostilizada e excluída dos seus depoimentos.

Como forma de não se comprometer com perguntas dos jornalistas, e numa atitude própria de ferir e amordaçar a liberdade de expressão, eles resolveram usar a tática das postagens no Instagram, Yutube, Twitter, Facebook e no WhatsApp. Com isso, no conforto do seu celular, tablete ou do computador, esse pessoal diz o que bem entende sobre assuntos e temas importantes que a opinião pública gostaria de conhecer com mais detalhes e sem engodos.

A começar pelo capitão-presidente, eles odeiam e têm medo de encarar, por exemplo, uma coletiva de profissionais da imprensa. Quando raramente existe, não respondem a perguntas e ainda desdenham, xingam e desrespeitam repórteres que estão ali no ofício do seu trabalho de levar informações à população, principalmente a menos esclarecida.

As coletivas (raras) viraram monólogos do interlocutor que já leva pronta a sua fala e depois dá as costas para os jornalistas, numa clara demonstração de escárnio e de total despreparo do cargo que ocupa na esfera governamental. Não têm a mínima compostura! Esse cenário lembra bem o período do “off” da ditadura civil-militar de 1964, se bem que agora bem pior e atentatório à liberdade.

Existe uma lacuna muito grande de reportagens na mídia com determinadas celebridades, ministros, secretários e gente do primeiro escalão do governo. Nas matérias jornalísticas em geral, o que mais vemos são trechos em aspas de declarações extraídas de postagens feitas nas redes sociais por essa gente que detesta a mídia profissional. Na grande maioria, seus “recados” são mentirosos e falsos.

Quando aparecem, esses personagens do retrocesso e preconceituosos, racistas e homofóbicas simplesmente se retiram de uma entrevista ou agride com palavrões o repórter quando se faz uma pergunta que não é do agrado deles. A entrevista, para eles, tem que ser bajulatória e imbecil, no mesmo nível deles.

Um exemplo bem explícito disso é do capitão-presidente em recente programa da TV Jovem Pan News. Ele se irritou com uma pergunta sobre “rachadinha” feita pelo humorista André Marinho e deixou a entrevista. Marinho perguntou se o “rachador” tinha que ir para a cadeia. O Bozó respondeu que não iria aceitar provocação. “Recolha-se ao seu jornalismo”.

Esse é apenas um exemplo, mas existem tantos outros onde ele se comportou como um moleque, com palavras de baixo calão, e não como um presidente da República. Assim, ele dá voz a outros da sua turma fazerem o mesmo, na tentativa de expurgar os tradicionais veículos de comunicação que não praticam fake news.

Infelizmente, a classe jornalística, e eu faço parte dela há quase 50 anos, sempre foi desunida e não tem uma representação forte da Federação Nacional e de seus sindicatos e associações. Passou do tempo da categoria tomar uma atitude de boicote contra esses elementos que repudiam os profissionais sérios e éticos, que procuram exercer suas funções com lisura. Alguma coisa tem que ser feita em repúdio, com mais firmeza!

No entanto, isso é outro problema porque as grandes empresas monopolistas da nossa mídia têm seus compromissos capitalistas e visam interesses comerciais particulares, quer como apoiadoras desse governo ou como opositoras. Por serem tendenciosas, elas não são confiáveis. Sem representação da classe, nossos jornalistas se tornam reféns desse mercado da notícia.

Esse quadro odioso e hostilizante contra a imprensa profissional abre mais espaço para a proliferação das chamadas fake news onde os embusteiros postam o que querem nas redes sociais, visitadas pela grande maioria da população inculta que não leem jornais e revistas. Assim, eles manipulam suas ideias macabras como bem entendem.

O ANGOLANO QUE EXTRAIU DO POVO SUA PRODUÇÃO LITERÁRIA

Uanhenga Xitu, escrito por Washington Santos Nascimento, no livro “Intelectuais das Áfricas”, escutou as tradições e costumes de seu povo para dele fazer sua produção literária, uma mistura da cultura colonial europeia com o nativo. Em suas obras, consideradas oraturas, procurou angolanizar a literatura, tendo como base o Kimbundu da região de Icolo-Bengo.

Foi um intelectual que falou para o povo, como os escritores Antônio Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, dentre outros que procuraram visar a valorização da sociedade e da história nativa, ou como eles mesmos disseram, “angolizar” Angola. Eles denunciaram as relações de trabalho precárias e violentas da Angola colonial.

Xitu nasceu em 24 de agosto de 1924, em Calomboloca a 100 quilômetros da capital Luanda, por ele chamada de “Manana”. Faleceu em 2014 depois de ter transitado em outros países como França, Portugal, Alemanha e também no Brasil. Além dos portugueses, a região onde nasceu foi marcada pela presença de missionários metodistas estrangeiros, sobretudo norte-americanos.

Washington afirma que o impacto das missões não limitou apenas à construção de centros religioso, conversão das populações e tradução da Bíblia para as línguas africanas, mas também criaram plantações de novos produtos agrícolas, ensinaram ofícios e promoveram a alfabetização do tipo colonial.

Em Angola, as estradas de ferro (linha Benguela) foram elementos essenciais de colonização e penetração econômica portuguesa no interior que permitiram o desenvolvimento das cidades de Malange, Nova Lisboa, Silva Porto e Sá de Bandeira, bem como dos portos de Lobito e Moçamedes.

Como seu primo Adriano Sebastião, desde cedo Xitu passou a estudar nas escolas missionárias metodistas da região, segundo ele, por serem mais acolhedoras e se preocuparem com a escolarização das populações locais, mais que as missões católicas.

Ressalta Washington que a percepção de uma realidade segregadora provocada pelas ações do colonialismo português, incentivou Xitu a entrar na resistência, mesmo tendo uma situação social melhor que a maioria da população. “Me meti na política por causa da crueldade do colonialismo”. Com a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), entre 1945-1969, a violência era norma na capital praticada pelos delegados de postos.

Em Luanda, Xitu foi preso no dia 29 de março de 1959 pela PIDE acusado de participar de atividades políticas consideradas subversivas e atentatórias à integridade do regime colonial. Fez parte do chamado “processo dos 50”. Na época estava casado e contava com 11 filhos. A sobrevivência de sua esposa teve a ajuda de alguns portugueses progressistas membros das igrejas católica e protestante.

Cumpriu parte de sua pena na prisão do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1962-1970. Foi membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Ele se considerava um “mais velho” que propriamente escritor. Disse que, cada um de nós, “os mais velhos”, resume em si a memória de centenas de anos.

Xitu começou a escrever em 1945, com 21 anos de idade, mas somente em 1974 conseguiu editar suas primeiras obras, mesmo não sendo um profissional, destacando O Meu Discurso (1974), Mestre Tomada, Bola com Feitiço, Manana, Vozes na Zenzala, Maka na Zenzala, Discursos do Mestre Tomada, O Ministro e tantos outros, contribuindo para o processo de angolanização da literatura.

Fora O Ministro, o tempo que aparece em suas obras é a primeira metade do século XX até o início da luta pela independência (1960). Ele preferiu fazer uma análise política da opressão colonial a partir de fatos paralelos. Gostava de dizer que não era um escritor, mas um “apanhador” de dados, ouvindo o povo.

De acordo com Washington, seus trabalhos nunca tiveram a pureza da língua ou todas as categorias gramaticais do cânone europeu. Pertencia a uma linhagem antiga de escriturários da senzala… Leu muito Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis e Eça de Queirós.

Na cadeia, escreveu muitos livros e dizia que a escrita servia para por suas ideias em ordem, fiel do meu longo cativeiro. Afirmava que, quando estava na prisão pensava nos tempos da sua terra, “naquilo que eu tinha vivido e naquilo que eu tinha escutado da boca dos meus mais velhos”.

Suas obras, segundo ainda Washington, podem ser consideradas como oraturas (literatura oral), produto de um acervo de histórias trazidas da tradição oral e registradas sob a forma de escrita. Na apresentação de Manana, ele diz que aquele livrário não teria português caro, não. Português do liceu, não. Do Dr., não. Do funcionário, não. De escritório, não. Só tem mesmo português d´agente, lá do bairro, lá da senzala, lá do quimbo (kimbundu).

Em seus livros existem uma diversidade de temas, mas o principal eixo é o trânsito entre a ancestralidade e a modernidade, o rural e o urbano, como em Mestre Tomada, seu trabalho mais conhecido. Além da sua crítica à assimilação colonial, ele denunciava o racismo e a discriminação social, exemplo de Os Discursos do Mestre Tomada.

Xitu passava a mensagem de que uma nova Luanda (e Angola), mais justa e democrática deveria ser construída pela juventude, a partir da união entre brancos e negros, urbanos e rurais. Em Mungo, denuncia as relações de trabalho extremamente precárias e violentas da Angola colonial. Em O Ministro, faz duras críticas aos políticos aduladores que se afastam do povo.

O escritor foi também um dos principais pesquisadores angolanos a investigar as divindades religiosas tradicionais, sobretudo as ligadas aos kimbundus (Quimbundos)  Kimbanda (Quimbanda) era outro personagem dos seus escritos, responsável pelo processo de cura.  Em seus livros descreve os gênios da natureza, como as kiandas, kiximbi e kitutas. Um dia perguntaram a ele se acreditava em feitiço. Respondeu que não, mas acreditava nas pessoas que acreditavam em feitiço.





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