Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Da colônia ao reino imperial,

Do navio no lugar da nau,

Ainda tem o banho de cuia,

O homem violento,

Que chama mulher de intuia.

 

Não tem mais

Serenata para amada

Em lua enluarada.

 

Ainda tem

A casa sem energia elétrica,

O candeeiro e o fifó,

E o alfaiate com sua fita métrica.

 

Não tem mais

Boiada e boiadeiro na estrada,

Comitiva e jornada,

Tropeiros das mercadorias,

Para abrir trilhas e vias.

 

Ainda tem

Lata d´agua na cabeça,

O ditado “cresça e apareça,

O jangadeiro e o saveiro.

 

Não tem mais

Pena melada no tinteiro,

A palavra no fio do bigode,

Nem carta de mensageiro.

 

Ainda tem

O boi que na seca berra,

O soluço do ronco da fome,

E a vilã corrupção em nossa terra.

 

Não tem mais

Criança que respeita professor,

O idoso e o senhor,

E pede benção ao pai e à mãe

Ao deitar e ao acordar.

 

Ainda tem

O ferreiro e o sapateiro,

A rezadeira e a parteira,

O retirante do Nordeste,

E o chão árido do agreste.

 

Não tem mais

O amor para sempre:

Agora é troca-troca,

Um chega e outro vai embora,

Pelo virtual se dá o fora.

 

Ainda tem

O Zé ninguém,

O patrão ganancioso,

Que faz do empregado escravo,

O pobre que ainda rói o osso,

Na lapela do noivo, o cravo.

 

Não tem mais

O consumo consciente,

Nem amigo como antigamente.

 

Ainda tem

O cigano perseguido em correria,

A cigana que lê sua mão,

No traçado da linha,

Que quase tudo advinha;

O roceiro com sua enxada,

Preconceitos e racismos,

Intolerância dos ismos,

O Severino nordestino,

Enterrado em cova rasa,

E político safado,

De fala mansa cretino,

Que promete e vasa.

 

Não tem mais

O coronel de patente,

O ensino do latim,

E a confiança em toda gente.

 

Ainda tem

Vida e morte,

Prostituta e cabaré,

Esperança e fé,

O azar e a sorte,

O coveiro pra nos embarcar

No último trem,

Até a estação do além.