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:: 28/dez/2023 . 23:38

O ÓDIO NÃO MORRE COM O ANO VELHO

Carlos González – jornalista

Um ano sem Jair Bolsonaro. Há motivos para uma parcela considerável da população brasileira comemorar? A resposta é dada pela conceituada revista inglesa “The Economist”, ao afirmar que o Brasil voltou à normalidade em 2023, superando o que chamou de “populismo mentiroso”. O efervescente movimento das pessoas nas ruas e nas lojas nesse Natal, com o anunciado aumento de consumo da população, não deve servir de parâmetro para se aplaudir os primeiros 365 dias do terceiro mandato de Lula.

Nessa virada do ano há lufadas de otimismo na atmosfera. Pesquisa Datafolha revelou que sete entre dez brasileiros esperam um 2024 melhor do que 2023. Segundo o ministro Márcio Moreira (Secretaria-Geral da Presidência) o governo em 2024 vai continuar apostando nas políticas econômicas e sociais, responsáveis pelos 38% de aprovação da população ao trabalho do petista. Certas promessas de campanha foram parcialmente cumpridas. Vamos lembrar o meio ambiente e a violência.

A televisão mostrou destruição de barcaças e aeronaves de garimpeiros que exploram ilegalmente o ouro nos rios da Amazônia. Louvável o desempenho da Polícia Federal (PF) e do Ibama. Mas os criminosos estão voltando, junto com os que exploram o comércio de madeiras nobres e os que queimam a floresta para abrir pastos para o gado. Há necessidade de uma intervenção mais rigorosa, com apoio do Exército e da Força Aérea, senão “a boiada vai passar”.

Revogar os decretos de Bolsonaro que beneficiaram a indústria armamentista nacional e o contrabando de armas e munição era um dos objetivos prioritários do lulismo. Nos primeiros meses deste ano foram fechados centros de treinamento de atiradores bolsonaristas, sem que isso diminuísse os crimes de homicídio e o poder de fogo das quadrilhas de traficantes de drogas. A campanha em favor do desarmamento da população acabou esbarrando em comissões da Câmara dos Deputados, onde uma maioria formada pelas bancadas da bala e evangélica, incentivada pelo lobby dos fabricantes de armas, votou contra os projetos de lei enviados pelo Executivo.

A Justiça acaba de determinar que o governo federal, o do Estado do Amazonas e da cidade de Manaus indenizem em R$ 1,4 mi os familiares de dona de casa que morreu por asfixia em 15 de janeiro de 2021. Entre o final de 2020 e começo de 2021, a capital nortista viveu uma dramática crise sanitária e humanitária por falta de oxigênio nas UTIs dos hospitais que recebiam pacientes com covid-19. O ministro da Saúde na época era o general Eduardo Pazuello, que, por sua negligência, recebeu como “prêmio” dos bolsonaristas fluminenses uma cadeira na Câmara Federal.

Essa e outras milhares de vidas perdidas na gestão Bolsonaro por falta de vacinas e insumos hospitalares poderão suscitar uma série de pedidos de indenizações na Justiça. Além de ter atrasado a compra de vacinas, de ter incinerado medicamentos de alto custo, de ter falsificado seu cartão de vacinação e de ter estimulado o uso da cloroquina e derivados para prevenção e cura da covid–9, o ex-capitão está deixando mais uma dívida para o governo Lula.

Ao dar palpites de questões da diplomacia, Lula cometeu erros que depois tentou consertar. Para recolocar o Brasil como protagonismo no mundo visitou em 62 dias 24 países em 15 viagens, a um custo em torno de R$ 1 bi. Estabeleceu um recorde, mas, em compensação, não trouxe joias sauditas. Silenciou as críticas da oposição repatriando em voos da FAB mais de 1.500 brasileiros que residiam em Israel e na Faixa de Gaza.

Eles estão lá no plenário da Câmara dos Deputados, inquietos, não têm ideologia, só falam nas emendas. É a turma do Centrão, que faz Lula de refém, como fez de presidentes anteriores desde FHC. Sem os bilhões de reais os projetos do Executivo não são aprovados. Pressionado, Lula foi obrigado a colocar em segundo plano pautas progressistas previstas para serem executadas este ano.

Infelizmente, o ódio não vai morrer com o Ano Velho. Na fala à nação na noite de Natal o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que o “Brasil abraçasse o Brasil”, gesto que significaria o fim do ódio, sentimento que durante o mandato de Bolsonaro separou amigos e dividiu famílias.

Bolsonaro ainda não reconheceu a derrota. Seus devotos continuam a espalhar “fake news” (o projeto de lei que regulamenta as redes sociais foi engavetado), aguardando a volta do Messias, que deverá ser indiciado – mais outro processo – por incitação aos atos golpistas do 8 de janeiro. Em 2024, o ex-morador do Alvorada poderá se mudar para a Papuda.

 

 

PENSAMENTOS MIÚDOS (OU VAIKAIS)

(Chico Ribeiro Neto)

Como você anda?

Mastigando de lado

E andando de banda

XXX

Na escada rolante

Caiu uma lágrima

Por um instante

XXX

Notícia tem Sim e Não

Só depende do patrão

XXX

Besouro da alma

Quando pousa

Acalma

XXX

Viver é diário?

Sei não

Pergunte ao vigário

XXX

Bota a casa bonita

Pois amanhã

Chega visita

XXX

Comer ligeiro

Farinha pouca

Meu pirão primeiro

XXX

Notícia dura

Ela é bonita

Mas usa dentadura

XXX

O que é esperança?

Não é difícil

São olhos de criança

XXX

Cadê os sonhos?

O vento levou

Só um ficou

XXX

Vendedor de um pacote de saudades:

– É pra embrulhar ou o senhor vai levar assim mesmo?

XXX

“…Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro…”

(Trecho do poema “O Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio, Poemas Completos de A. Caeiro).

Feliz Natal a todos.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

SÓ DE LUZES

Como nos anos passados, com shows e apresentações de artistas, ternos de reis, quadrilhas e shows musicais no Espaço Glauber Rocha, no Bairro Brasil, inclusive de renome nacional, neste ano, praticamente só tivemos um Natal de Luzes em Vitória da Conquista, na tradicional Praça Tancredo Neves, antiga Praça das Borboletas. No mais foram propagandas do poder executivo nos telões e apresentações desorganizadas de artistas locais no pequeno palco da Praça da Bandeira, no centro comercial. No ano passado ainda ocorreram alguns eventos artísticos no Memorial Casa Régis Pacheco porque o Conselho Municipal de Cultura liberou do seu Fundo 160 mil reais para realização de editais contemplando diversas linguagens. Neste ano de 2023 foi um total fracasso em termos de atividades culturais para o povo, conforme ressaltaram diversos artistas conquistenses. Houve até uma reclamação dos moradores em relação ao “apagão” das luzes na Tancredo Neves, por volta das 23 horas, quando as pessoas estavam se divertindo no local com suas famílias e crianças. De acordo com artistas, o Natal deste ano foi um dos piores de todos os tempos. Tudo isso é um sinal de que a nossa cultura foi abandonada em Conquista, o que é uma vergonha para uma cidade de quase 400 mil habitantes e a terceira maior da Bahia. Cadê a reforma dos equipamentos culturais? Foi só um Natal de luzes e uns pingadinhos de pisca-piscas em alguns bairros, como na Lagoa das Bateias.

CARTA DE UM NORDESTINO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Não existe mais carta,

Escrita à mão,

Pra falar de amor e solidão,

Só mensagens no celular,

Algumas tiras,

Curtas e apressadas,

Depois apagadas,

Palavras corretas,

Muitas erradas,

Quase sem saudades no ar,

Amenidades, mentiras

E falsidades.

 

Nos alfarrábios do meu baú

Na minha lida carpina,

Coisa da sina,

Encontrei amarelada,

Toda abarrotada,

Uma carta de um nordestino,

Contando notícias de cá e de lá,

De terras distantes sobre o lar,

De quem ficou e partiu,

Coisa de lavrador cansado,

Que bateu em retirada,

Numa longa estrada,

Na poeira do pau-de-arara,

Deixando o canto da juriti,

Do nambu, do sofrer e da arara.

 

A carta do nordestino,

Como no choro de um menino:

Falava dos gaviões e urubus,

No canto a foice e a enxada,

De mantimentos quase nada,

Mulher e filhos quase nus,

Da dor da fome danada,

Das lágrimas, soluço entalados,

Do gadinho e das plantações,

Do governo que faz de conta,

Que dá carro-pipa e acode,

E mal socorre o bode.

 

O cachorro sempre deitado,

Dizia a carta:

Nem mais late e morde,

O jeito é apelar pra fé,

Pra esperança e a sorte,

E acreditar na safra farta,

Que o sertanejo é um forte.

 

A carta ainda narrava:

Aqui estou,

Do alto de uma construção,

Sendo escravo de patrão,

Mas um dia eu volto,

Quando o aguaceiro cair,

A terra molhar, o verde sair,

Ver a flor brotar seu botão,

Pra cuidar da minha terrinha,

E até promessa e penitência,

Fez pra sua santinha,

Para subir de joelhos,

O morro da Paciência.





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