:: 7/dez/2023 . 23:18
RETALHOS ESCRITOS (MEUS E DOS OUTROS)
(Chico Ribeiro Neto)
O relógio de parede da casa de vovô Chico em Ipiaú, Bahia. O tempo mora ali e quem toma conta é o passarinho.
O RELÓGIO DE “TRISTEZA”
O melhor goleiro da turma da Rua Gabriel Soares, em Salvador, era “Tristeza”. Voava nos paralelepípedos durante os “babas”, se ralava todo mas a bola não entrava. O apelido vem do fato dele nunca sorrir.
“Tristeza” tinha um relógio de pulso que só vivia quebrando. Levava ao relojoeiro e uma semana depois o bicho parava novamente de funcionar. Um dia, depois de umas quatro idas ao relojoeiro e do bicho parar mais uma vez, “Tristeza” botou o relógio em cima do meio-fio, pegou um paralelepípedo, ergueu-o no alto, gritou “agora você não vai mais aborrecer ninguém” e jogou-o com toda força sobre o relógio quebrão.
DESPONGAR DO BONDE
Ainda peguei o bonde em Salvador. Tinha o bonde aberto e o bonde fechado. No aberto era mais fácil viajar sem pagar, porque a gente fugia do cobrador andando pelos estribos.
Eu, com uns 11 anos, e meu irmão Cleomar, com uns 13, íamos para o Cine Pax, na Baixa dos Sapateiros, que passava dois filmes de cobói. A gente pegava um bonde, saltava na Praça da Sé e descia uma ladeira vizinha à Igreja de São Francisco, que ia dar no Pax.
Era um bonde aberto. Cleomar propôs que a gente despongasse (saltar do bonde ainda em movimento) antes do bonde fazer a curva na Praça da Sé. Eu não sabia despongar. Tem que ter uma arte pra isso: tem que pular do bonde com o corpo inclinado para trás porque senão você cai pra frente. Pulei reto, que nem uma vara em pé, todo duro. Não deu outra: saí “catando ficha” e fui me estabacar numa velhinha, derrubando-a. Ela gritou “socorro” e só ouvi o grito de Cleomar “corre, Chico” e me piquei ainda ouvindo os xingamentos da velhinha que me freou.
DO ATO DE ESCREVER
“Remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas esperanças mais descabidas…no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto”. (Do escritor Caio Fernando Abreu).
BALCÃO DE UMA VENDA
O escritor José J. Veiga, em seu excelente livro “A Hora dos Ruminantes”, descreve na página 19 o balcão de uma venda na pequena cidade de Manarairema: “O chão precisava de vassoura, o balcão precisava de uma limpeza com pano molhado para tirar aquelas argolas do fundo de copo de cachaça, os derramados de açúcar, a gordura salgada dos pesos de carne seca, os farelos de rapadura e farinha”.
O TRATOR DO NATAL
Nunca esqueço do trator que ganhei do meu pai Waldemar quando tinha uns quatro anos, em Ipiaú. O trator soltava fagulhas enquanto andava e fiz sucesso no passeio da Rua 2 de Julho. Todo menino queria pegar no brinquedo encantador.
Natal dorme na lembrança e sempre acorda quando dezembro começa. O pisca-pisca da fachada do Shopping Barra só me lembra o trator, e dá vontade de chorar.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br
HOMENAGEM AOS PRESOS POLÍTICOS
No próximo ano, em 1º de abril (Dia da Mentira), o golpe civil-militar de 1964 dos generais que implantaram mais uma ditadura no Brasil estará completando 60 anos, data esta que deve ser lembrada, repudiada e contestada por todos cidadãos brasileiros. Devemos sim, prestar homenagens aos presos políticos que na luta heroica contra um regime de opressão foram torturados, mortos e desaparecidos. Em Itapetinga, na Praça da Concha Acústica, ao lado da Biblioteca Municipal, foi erguido um monumento em homenagem a esses personagens que tombaram em favor da democracia. Em Vitória da Conquista, na Praça Tancredo Neves, também existe um monumento semelhante do grande escultor Romeu Ferreira com os nomes dos baianos que foram vítimas desse terror. Infelizmente, essas esculturas passam despercebidas do nosso público porque poucos conhecem essa história, principalmente nossos jovens. É preciso que no próximo ano ocorram debates, seminários, discussões diversas nas instituições e em todos os cantos do país para se dizer com viva voz que ditadura nunca mais. No governo passado, os extremistas imbecis foram para as ruas e avenidas pedir uma intervenção militar e tivemos o 8 de janeiro, em Brasília, quando uma turba ensandecida invadiu os três poderes com a intenção de instalar em nosso país um regime de opressão. Conquista, por exemplo, foi uma das cidades baianas que mais sofreu a mão pesada dos militares no dia 6 de maio de 1964, quando o eleito pelo povo, Pedral Sampaio, teve seu mandato cassado. Tudo isso e mais está retratado no livro “Uma Conquista Cassada”, do jornalista e escritor Jeremias Macário.
POETA, E POETA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Todos trazem na alma alva,
Uma pinta de poeta,
Porque o despertar do escuro,
Para a luz do futuro,
Já é um ato poético,
Mas só em poucos,
Corre no sangue,
Essa arte da alquimia,
De entrar em portas fechadas,
Farejar pegadas apagadas,
Navegar na onda homérica,
Ser Europa, Ásia e América.
O poeta carrega no peito,
Uma dor enigmática,
Coisa além do existencial,
Talvez um ser com defeito,
Que nasceu fora do normal,
Onde nem a química e a filosofia,
Desvendam seu embornal.
No deserto pode ser mar,
E no mar um deserto;
Da pedra faz o ouro;
Torna ferro em tesouro;
Garimpeiro que mira a veia,
Cascalheiro e mestre da bateia.
Poeta é como craque de futebol,
Que sabe dar aquela caneta,
Um capeta no elástico,
Desafiador da gravidade,
Flecha torta incerta,
Na linha da curva certa,
Da bola que na rede cola.
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