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:: 21/dez/2023 . 23:09

CINDELERO NO NATAL

Chico Ribeiro Neto)

Seu Antenor achou interessante a brincadeira. Depois de tomar um vinho, começou a pensar no Natal, longe de todos os filhos e netos, e decidiu repetir um velho gesto de infância: resolveu botar na janela o seu sapato Vulcabrás número 44.

Lembrou da alegria de ganhar o primeiro velocípede e do trator que soltava fagulhas. Esperou dar perto da meia-noite, apagou todas as luzes e foi, pé ante pé, até a janela do quarto, no oitavo andar, depositar o seu sapatão. Esboçou um leve sorriso de criança e dormiu pleno.

Seu Antenor acordou às 7 da manhã com os gritos de uma vizinha lá embaixo: “Quem foi o filho da puta que fez isso?” O Vulcabrás 44 estava em cima do capô do carro zero que ela acabou de receber essa semana.

Final da história: o síndico teve que ir, de porta em porta, com o pé do Vulcabrás na mão, para tentar identificar entre os moradores o dono do sapato. Mandava um por um experimentar o sapato no pé esquerdo.

Não era o sapatinho de cristal deixado no baile pela Cinderela, mas um Vulcabrás, e quem o calçasse com perfeição não iria casar com a princesa, mas pagar os danos causados ao carro novo da irada vizinha. O Cinderelo se deu mal.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

O LIXO E O LUXO DO NATAL

Muitos devem perguntar o que tem a ver o lixo com o Natal, sem falar das festas de final de ano. Ah, tem muita coisa! Primeiro, como resultado do consumismo extravagante, acontece o aumento elevado do lixo que é jogado no planeta, principalmente de forma desordenada que entope rios e esgotos, causando enchentes que invadem as casas dos mais pobres que recebem todos entulhos. Segundo, de positivo só para o catador que ganha mais uns trocados para comprar algum alimento e dar um drible na fome. Terceiro são as discrepâncias das cenas entre o lixo e o luxo, especialmente entre os mais abastados, os mais inconsequentes que nem estão aí para o meio ambiente. São tão insensatos e irracionais que nem percebem que estão contribuindo para a autodestruição da humanidade. São os maiores hipócritas que pregam preservação, respeito à natureza para o bem das novas gerações e fazem tudo diferente. Desse tema do lixo e o luxo do Natal pode brotar uma poesia, uma crônica ou um conto malditos, mas ninguém importa para isso. Mesmo sem boas condições financeiras e induzido pela mídia burguesa, nosso povo enlouquece nessa época e só quer saber de comprar e compra sapatos, roupas, bens móveis, brinquedos, celulares, fantasias (sem necessidades) e se empanturrar nas comidas e bebidas. Depois é só curtir as ressacas do outro dia. Para tirar o peso da consciência das mazelas praticadas durante o ano, na véspera muitos costumam fazer algumas doações ou dar uns quilos de mantimentos. Essa gente idolatra mesmo é o Papai Noel e não o Cristo como abre a boca e fala.

AINDA TEM, E NÃO TEM MAIS…

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Da colônia ao reino imperial,

Do navio no lugar da nau,

Ainda tem o banho de cuia,

O homem violento,

Que chama mulher de intuia.

 

Não tem mais

Serenata para amada

Em lua enluarada.

 

Ainda tem

A casa sem energia elétrica,

O candeeiro e o fifó,

E o alfaiate com sua fita métrica.

 

Não tem mais

Boiada e boiadeiro na estrada,

Comitiva e jornada,

Tropeiros das mercadorias,

Para abrir trilhas e vias.

 

Ainda tem

Lata d´agua na cabeça,

O ditado “cresça e apareça,

O jangadeiro e o saveiro.

 

Não tem mais

Pena melada no tinteiro,

A palavra no fio do bigode,

Nem carta de mensageiro.

 

Ainda tem

O boi que na seca berra,

O soluço do ronco da fome,

E a vilã corrupção em nossa terra.

 

Não tem mais

Criança que respeita professor,

O idoso e o senhor,

E pede benção ao pai e à mãe

Ao deitar e ao acordar.

 

Ainda tem

O ferreiro e o sapateiro,

A rezadeira e a parteira,

O retirante do Nordeste,

E o chão árido do agreste.

 

Não tem mais

O amor para sempre:

Agora é troca-troca,

Um chega e outro vai embora,

Pelo virtual se dá o fora.

 

Ainda tem

O Zé ninguém,

O patrão ganancioso,

Que faz do empregado escravo,

O pobre que ainda rói o osso,

Na lapela do noivo, o cravo.

 

Não tem mais

O consumo consciente,

Nem amigo como antigamente.

 

Ainda tem

O cigano perseguido em correria,

A cigana que lê sua mão,

No traçado da linha,

Que quase tudo advinha;

O roceiro com sua enxada,

Preconceitos e racismos,

Intolerância dos ismos,

O Severino nordestino,

Enterrado em cova rasa,

E político safado,

De fala mansa cretino,

Que promete e vasa.

 

Não tem mais

O coronel de patente,

O ensino do latim,

E a confiança em toda gente.

 

Ainda tem

Vida e morte,

Prostituta e cabaré,

Esperança e fé,

O azar e a sorte,

O coveiro pra nos embarcar

No último trem,

Até a estação do além.

 

 

 

 

 

 





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