:: 13/dez/2023 . 22:44
AINDA EXISTE, E NÃO EXISTE MAIS…
Desde a invasão programada de Cabral com suas naus, lotadas de depravados, corruptos e tarados que aportaram em terras brasis, passando pelo período colonial e do império, ainda existe o banho de cuia, o homem que chama a mulher de intuia e imprestável, a casa que não tem energia elétrica e água encanada, o candeeiro e o fifó, a lata d´agua na cabeça, os esgotos a céu aberto nos casebres e favelas, o sarampo, a catapora, a papeira, a diarreia, outras doenças antigas e as mazelas sociais.
Ainda existe a corrupção e o suborno, a burocracia que emperra o processo de desenvolvimento do país, o patrão que ainda trata o empregado de escravo, o noivo que usa o cravo na lapela, a malandragem maliciosa, o gado que berra no agreste nordestino com fome e sede, a cacimba barrenta e a seca, os carros-pipas eleitorais, um Nordeste ainda atrasado, o retirante e milhões que ainda não têm o que comer.
Ainda existe a parteira, o curandeiro, a rezadeira, a feira livre e o escambo de mercadorias. Ainda existe para o criminoso o “não sei, o não vi” e o “eu sou inocente”. Ainda existe o “amigo da onça” que bate em suas costas e lhe chama de irmão. Ainda existe a procissão e o artesão de santos, o croché, o bordado e outros itens.
Ainda existe a injustiça e a profunda desigualdade social, a violação dos direitos humanos, o racismo, a homofobia, a discriminação e o preconceito. Ainda existe o relojoeiro, o sapateiro, o ferreiro, o alfaiate, o amolador de faca, o funileiro, o trapaceiro do conto do vigário do falso bilhete sorteado, o golpista e a falta de educação com milhões de analfabetos.
Ainda existe o voto de cabresto praticado pelos novos coronéis da política que prometem e nada fazem, as castas dos três poderes, as eleições compradas, as leis que são quebradas, a Constituição vilipendiada, o marido que bate na esposa e mata para limpar a honra, o estupro, a pedofilia, o encesto e o Severino que é enterrado em cova rasa. Ainda existe o namoro proibido e os vinis para tocar aquelas inesquecíveis, imortais e eternas canções.
Não existe mais a criança e o jovem que respeita e obedece ao professor e o idoso, o filho que dá benção ao pai e à mãe quando vai dormir e acorda de manhã, o gosto e o hábito pela leitura, a admiração pelos escritores, a carta escrita no papel para um parente distante, a vergonha na cara, o amigo sincero (coisa rara em extinção) e a moça donzela, nem o casamento virgem.
Não existe mais a preservação da natureza, das nascentes, sem a devastação das matas, a precisão das estações do ano, os ventos e as nuvens certas que anunciam a chegada das chuvas, o menino e a menina que brincam de ciranda, de roda, de esconde-esconde, de pião, de bola de gude no buraco, de peteca e nem o homem que vende o quebra-queixo na rua.
Não existe mais a máquina de datilografia, a montaria em jumentos para ir às cidades (agora são as motos), o casamento para sempre, a palavra como acerto de um acordo, tendo como aval o fio do bigode, as tropas que cortavam as trilhas dos sertões, as boiadas e os boiadeiros nas estradas, as rancharias no campo, a saudade dos berrantes e a vida em calmaria.
Não existe mais os trens de passageiros transportando gente, bruacas e bugigangas. Não existe mais o agueiro, o vendedor de lenha nas ruas das cidades, o carregador de malas, o médico da família, a pessoa de total confiança, o andar a pé nas ruas das grandes cidades nas madrugadas e as serestas para as amadas. Não existe mais o telefone fixo e nem o gravador tamanho tijolo, quanto mais aquele objeto, produto ou peça que não se acabava.
DIA NACIONAL DO FORRÓ
Não poderia deixar de registrar e passar em branco o Dia Nacional do Forró, pouco comemorado na data de 13 de dezembro. Na verdade, forró virou sinônimo de Luiz Gonzaga, o rei do baião que, se vivo fosse, estaria completando 111 anos.
É o nordestino “cabra da peste” que saiu daqui e foi divulgar nossa cultura no Rio de Janeiro, na Feira de São Cristóvão. Aliás, ele levou o nosso forró para todo Brasil e para o mundo com canções memoráveis e eternas, como Asa Branca, Triste Partida e tantas outras.
Por ser um ritmo principal das festas juninas do Nordeste, mais ainda me identifico porque me sinto orgulhoso de ter nascido nessa região, tão rica culturalmente. No entanto, quando se fala do “Gonzagão”, temos que lembrar também de seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas, sem esquecer Patativa do Assaré, que fizeram com ele lindas canções.
O Dia Nacional do Forró não é tão celebrado quanto o samba quando ritmistas deste estilo fazem festas em vários cantos do país, inclusive com “arrastões” e carros de som pelas ruas e avenidas atraindo multidões. Por que será? Entendo que o samba tem tanto seu valor quanto o forró, dois ritmos populares que estão ligados às raízes da nossa gente ancestral.
Aproveitando a ocasião, quero deixar aqui o meu recado, como sempre faço em meus comentários na época dos festejos juninos. Trata-se do meu repúdio sobre a descaracterização que vem sofrendo o nosso forró ao longo dos últimos anos numa mistura de lambada, arrocha, axé, pagode e até rock, não que seja contra quem gosta desses sons.
Fico muito triste quando vejo prefeitos em pleno São João contratarem bandas a preços altos, com o dinheiro do contribuinte, que nada têm a ver com o nosso forró. Deveria haver uma lei nacional rígida aprovada pelo Congresso, proibindo esse tipo de coisa, com punição severa para qualquer executivo municipal que colocasse no palco cantor ou banda que não fosse forrozeira.
Não me venha com essa que tal artista “famoso” de outro ritmo atrai mais a população. Muitas vezes são lixos musicais sem letra e conteúdo que deformam mais ainda o nosso povo e os levam a esquecer das nossas origens. Sem memória não temos identidade.
Coloquem enredos de qualidade do nosso forró legítimo, chamado “forró pé de serra”, que enche qualquer praça, como já aconteceu aqui em Vitória da Conquista. Tudo depende de uma decisão política com seu coordenador ou secretário de Cultura.
Vamos sim, valorizar o nosso forró que nasceu no Nordeste e encanta os nordestinos nas festas. Não adianta decretar o Dia Nacional do Forró se não houver por detrás uma campanha dos governantes e de todos artistas no sentido de valorizar o nosso patrimônio imaterial.
Forró é Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe, Alagoas e Bahia. Forró é a sanfona, o zabumba e o triângulo. São dois pra lá, e dois pra cá. São letras que falam da nossa terra, das tradições e dos costumes da nossa gente.
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