AINDA EXISTE, E NÃO EXISTE MAIS…
Desde a invasão programada de Cabral com suas naus, lotadas de depravados, corruptos e tarados que aportaram em terras brasis, passando pelo período colonial e do império, ainda existe o banho de cuia, o homem que chama a mulher de intuia e imprestável, a casa que não tem energia elétrica e água encanada, o candeeiro e o fifó, a lata d´agua na cabeça, os esgotos a céu aberto nos casebres e favelas, o sarampo, a catapora, a papeira, a diarreia, outras doenças antigas e as mazelas sociais.
Ainda existe a corrupção e o suborno, a burocracia que emperra o processo de desenvolvimento do país, o patrão que ainda trata o empregado de escravo, o noivo que usa o cravo na lapela, a malandragem maliciosa, o gado que berra no agreste nordestino com fome e sede, a cacimba barrenta e a seca, os carros-pipas eleitorais, um Nordeste ainda atrasado, o retirante e milhões que ainda não têm o que comer.
Ainda existe a parteira, o curandeiro, a rezadeira, a feira livre e o escambo de mercadorias. Ainda existe para o criminoso o “não sei, o não vi” e o “eu sou inocente”. Ainda existe o “amigo da onça” que bate em suas costas e lhe chama de irmão. Ainda existe a procissão e o artesão de santos, o croché, o bordado e outros itens.
Ainda existe a injustiça e a profunda desigualdade social, a violação dos direitos humanos, o racismo, a homofobia, a discriminação e o preconceito. Ainda existe o relojoeiro, o sapateiro, o ferreiro, o alfaiate, o amolador de faca, o funileiro, o trapaceiro do conto do vigário do falso bilhete sorteado, o golpista e a falta de educação com milhões de analfabetos.
Ainda existe o voto de cabresto praticado pelos novos coronéis da política que prometem e nada fazem, as castas dos três poderes, as eleições compradas, as leis que são quebradas, a Constituição vilipendiada, o marido que bate na esposa e mata para limpar a honra, o estupro, a pedofilia, o encesto e o Severino que é enterrado em cova rasa. Ainda existe o namoro proibido e os vinis para tocar aquelas inesquecíveis, imortais e eternas canções.
Não existe mais a criança e o jovem que respeita e obedece ao professor e o idoso, o filho que dá benção ao pai e à mãe quando vai dormir e acorda de manhã, o gosto e o hábito pela leitura, a admiração pelos escritores, a carta escrita no papel para um parente distante, a vergonha na cara, o amigo sincero (coisa rara em extinção) e a moça donzela, nem o casamento virgem.
Não existe mais a preservação da natureza, das nascentes, sem a devastação das matas, a precisão das estações do ano, os ventos e as nuvens certas que anunciam a chegada das chuvas, o menino e a menina que brincam de ciranda, de roda, de esconde-esconde, de pião, de bola de gude no buraco, de peteca e nem o homem que vende o quebra-queixo na rua.
Não existe mais a máquina de datilografia, a montaria em jumentos para ir às cidades (agora são as motos), o casamento para sempre, a palavra como acerto de um acordo, tendo como aval o fio do bigode, as tropas que cortavam as trilhas dos sertões, as boiadas e os boiadeiros nas estradas, as rancharias no campo, a saudade dos berrantes e a vida em calmaria.
Não existe mais os trens de passageiros transportando gente, bruacas e bugigangas. Não existe mais o agueiro, o vendedor de lenha nas ruas das cidades, o carregador de malas, o médico da família, a pessoa de total confiança, o andar a pé nas ruas das grandes cidades nas madrugadas e as serestas para as amadas. Não existe mais o telefone fixo e nem o gravador tamanho tijolo, quanto mais aquele objeto, produto ou peça que não se acabava.











