:: ‘De Olho nas Lentes’
SEMPRE MODERNO
Embora secular, desde os tempos medievais quando os poetas viajantes passavam em versos as notícias de histórias e estórias de grandes lendas, personagens, povos e acontecimentos de regiões longínquas, o cordel, originário da Península Ibérica, sempre foi um gênero moderno porque a sua essência é popular onde todos entendem suas mensagens. Do parnasiano, do impressionismo, dadaísmo, simbolismo ou expressionismo, ele é sempre único. O cordel já nasceu modernista, pena que muitos acadêmicos metidos a besta torcem a cara, e poucos colocam o tema em suas teses. O cordelista nasceu repórter-jornalista porque, de uma forma ou de outra, jocosa ou não, passa as notícias para o povo dos nossos sertões nordestinos. O cordel sempre esteve à frente das redes socais da internet. Ele está representado na exposição de mais de 20 artistas, no Memorial Regis Pacheco, que homenageia a Semana de Arte Moderna de 22, mas, infelizmente, a mídia pouco faz referência. É uma total indiferença!
DOIS ANOS SEM SARAU
Em “quando tudo isso vai se acabar” foi título de um recente comentário feito por mim sobre os estragos que esse estranho vírus chamado Covid-19 provocaram em nossas vidas, não somente em termos de milhões de mortes que abalaram nosso planeta, mas também das interrupções dos nossos encontros e atividades. Estava aqui lembrando que, justamente no dia 7 de fevereiro de 2020, realizamos nosso último Sarau Colaborativo, em nosso Espaço Cultural A Estrada, cujo tema principal foi “Carnaval”. Portanto, são dois anos sem o nosso saudoso Sarau que, além da diversão e da confraternização, nos oferecia a troca de conhecimento e saber através das discussões, da música, da poesia, da contação de causos e do intercâmbio de ideias. De lá para cá, tentamos duas vezes nos intervalos dos ciclos de baixas da pandemia, mas, infelizmente, não deram certo. Confesso que o nosso acervo, ou o nosso espaço cultural, sente um grande vazio espiritual, e os próprios escritores e toda arte que nele habitam dizem o mesmo. Tudo é uma solidão sem aquelas energias que transmitiam mais vida naquelas noites etílicas do respirar cultural. No lugar de quando esse vírus vai se acabar, indagaria se o nosso Sarau se acabou? Ainda existe espaço para Ele? Irá retornar com a mesma força de antes? Quando? São várias as interrogações, e uma delas é se as pessoas, com as quais convivemos por dez anos, ainda estão interessadas em reativar nossos encontros, ou simplesmente foi “amor eterno enquanto durou”, como sentenciou o poeta cancioneiro Vinícius de Morais? A reflexão e as respostas deverão ser respondidas pelos próprios participantes que construíram esse lindo elo. Será que ele foi partido?
MAIS POBREZA NAS RUAS
A pandemia da Covid-19 nos últimos dois anos, a alta da inflação, a crise na economia, o desemprego alarmante e o desgoverno de um capitã-presidente destrambelhado colocaram mais pessoas na ruas com o aumento da pobreza e da miséria. Calcula-se que mais de 50% da população brasileira de mais de 200 milhões de pessoas estejam vivendo no nível de pobreza e de extrema pobreza por causa desses fatores. Na verdade, estamos num país rico de pobres onde a cada dia mais gente vai morar nas ruas. É uma população invisível, sem cidadania, que a nossa sociedade, com seu egoísmo burguês elitista, construiu ao longo da nossa história. A concentração de renda cada vez mais acentuada fez do nosso Brasil ostentar o vergonhoso título de um dos piores índices de desigualdade social do planeta. Diante desse quadro macabro, não podemos dizer que temos uma real democracia.
NA ESPERA DA ÁGUA E DA COMIDA
Ulisses, depois da Guerra de Troia, passou dez anos vagando pelo mar (Odisseia de Homero) onde enfrentou batalhas, monstros e encontrou amores. Quando retornou à sua terra na Grécia, seu cachorro rosnou quando o viu, levantou-se e foi morrer em seu canto. Seu escravo, no entanto, não o reconheceu. Uma prova da fidelidade e do apego do cão ao seu dono, que atualmente abandona esses animais nas ruas das cidades, com sede e fome, caso específico de Vitória da Conquista. A imagem na foto, clicada pelo jornalista e escritor jeremias Macário, diz tudo, bem como o título acima “na espera da água e da comida”. Esses cachorros de rua dependem que alguém, com sua generosidade, ofereça algum alimento e água. Estressados, doentes, com pernas quebradas em acidentes, famintos e se arrastando eles ficam perambulando pelas ruas e avenidas porque alguém, sem nenhuma piedade, jogou seu fiel amigo para fora de casa. É um crime, mas não existe punição para quem faz isso. Outros fazem isso por falta de condições financeiras de mantê-los em casa por causa da crise econômica e social. São também vítimas da miséria no país. Muitos abrigos particulares de acolhimento já estão cheios, e o poder público nada faz para protegê-los. Há muito tempo que se fala na construção de uma casa de zoonose para tirar esses animais das ruas. Eles são vistos em todos lugares por onde se passa em Conquista, principalmente no centro, como no Terminal Lauro de Freitas (Estação Hérzem Gusmão). Estão sempre na espera de que alguém dê água e comida para, pelo menos, continuarem vagando, e ainda tem gente que apedreja e dar chutes quando um deles late ou está cruzando com uma fêmea, como se fossem culpados.
ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS
A paisagem clicada pelas minhas lentes pode ser feia ou bonita, mas isso depende do ponto de vista de cada um. O colorido também pode ser sem graça e até triste para alguns. Mesmo entre os engaços e bagaços da terra árida do sertão nordestino, sempre existe uma ponta de verde em alguma árvore no cenário cinzento de pedregulho, como se fosse um tufo de esperança para o homem resistente às secas. Não é somente o cacto e o mandacaru que aguentam a sequidão e sobrevivem às intempéries. Com as recentes chuvas que bateram em praticamente todas regiões, imaginamos essa imagem verde, mas é só o sol voltar a castigar e tudo volta ao mesmo estado, como no ciclo da vida de altos e baixos. Como a lente de uma máquina fotográfica, nosso eu interior a tudo registra, o verde e o seco, os bons tempos e os ruins, e temos que seguir em frente para não afogarmos no deserto, nem perecermos nas águas.
O NINHO
Estava nesta semana podando minha árvore de flores (ela já estava quase tombando ao chão do quintal) onde pousa o beija-flor e cantam os passarinhos. A poda tinha que ser feita, mas fazia aquilo com pesar porque por uns tempos lá se vão meus pássaros que todos dias aparecem e me saúdam com bons presságios. Quando partia para o outro lado, deparei com um ninho e, por pouco, minha faca não o atingiu. Tive que interromper o restante do corte para deixar que a natureza e a vida sigam seu curso. Não vai demorar muito para ter outras aves para me alegrar nesses momentos tão difíceis. A minha árvore logo vai voltar a florir e, com certeza, abrigar outros ninhos da vida.
O AMANHECER DE 2022
Por detrás daquele monte, lá no horizonte do sertão de cores avermelhadas de Vitória da Conquista, da minha rua, tenho a graça de flagrar com minhas lentes o amanhecer de 2022, num sábado primeiro em final de comemoração com meu amigo fotógrafo José Silva e seus dois filhos. Ao lado da minha dedicada e alegre esposa Vandilza, foi uma noite de muita música, prosa e causos dos nossos tempos de repórter nas caatingas deste sudoeste baiano. O sentimento foi de que aquele raiar de luzes ainda cortando alguns restantes fios soltos da noite, estava ali no portão a nos esperar para fazer sua saudação de um bom ano de esperança e fé, mesmo diante de tantas incertezas, imprevistos e imprecisões. Não resta dúvida que aquela imagem é uma prova viva da força da natureza que ainda com sua bondade nos acolhe, apesar da depredação e da ingratidão do homem. O clarear do dia solta suas partículas vermelhas como se brotassem da terra para nos benzer dos males do campo e das cidades. É uma pequena, mas grandiosa mostra do poder do universo, pouco apreciado nesses tempos de correrias e falta de sensibilidade do ser humano. É o momento onde a alma extasiada se encanta e se cala. Por alguns segundos, deixamos de nos preocupar com os mistérios e o sentido do existir. É a vida que ainda pulsa!
A SECA E A CHUVA
Há pouco tempo, a paisagem no sertão era assim, só sequidão e desolação. Desesperado, com tudo perdido, o sertanejo rogava pela chuva. Rezava para São José e São Pedro. Aí, vem chuva em demasia, e o sertão seco vira mar, como na profecia do Conselheiro. Não se sabe qual dos dois castiga mais. A diferença é que na estiagem prolongada, o sofrimento é mais lento do que nas enchentes que logo se vão. No entanto, ambos geram fome e tristeza diante das perdas físicas e humanas. São justamente as adversidades que fazem do sertanejo um forte, como dizia Euclides da Cunha em seu livro “Sertões”. Esses desastres climáticos, provenientes do aquecimento global, poderiam ser minimizados se houvesse prevenções antecipadas, porque a ciência já faz suas previsões. Em outros países que investem em tecnologia e pesquisa, esses efeitos causam menos danos às pessoas. A situação é bem mais controlada. Os governantes aqui só pensam no poder e se apropriar da coisa pública, como se fosse privada. Agora são as inundações que deixaram um rastro de terra arrasada. As plantações foram perdidas, como acontece no período da seca. É pau de todo lado!
O PASSARINHO PENSADOR
Sempre costumo ler em meu quintal para aproveitar o ambiente mais aprazível da natureza que me acolhe com seu cheiro único do chão e das plantas. Mesmo concentrado na leitura, observo pela fresta do meu pensamento os pássaros nos galhos fazendo também a sua função de predador de alguns pequenos insetos e retirando do néctar das flores algo doce para se alimentar. Alguns cantam e tem até uns que tentam se acasalar. Numa tarde, quando me encontrava absorto no tempo existencialista da vida, apareceu um passarinho pensador e pousou bem próximo a mim no varal de roupa. Era um pequeno colibri que ali ficou por uns cinco minutos me fitando e, como numa hipnose, penetrou em minha mente para acalmar a minha aflita alma nesses tempos tão difíceis. Como estava com minha máquina ao lado (lente de pouco alcance) deixou que desse alguns cliques, abriu as asas e se despediu de mim deixando a sua mensagem de que não adianta tentar desvendar os mistérios da vida. Ela segue o seu curso natural e pede para nunca desistir, mesmo diante das dificuldades.
ENTRE A POBREZA E A RIQUEZA
A imagem que brotou das lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário já diz tudo sobre o nosso Brasil tão desigual, onde 1% da nossa população de cerca de 230 milhões de brasileiros detém 99% da riqueza do país. Nem necessita de mais comentários. O índice por si só já é uma grande vergonha! Entre a pobreza, ou mesmo a miséria, de uma criança sentada na calçada enquanto o pai e a mãe pedem uma esmola na sinaleira entre os veículos, muitos dos quais luxuosos passam indiferentes com suas janelas fechadas. Alguns abrem e dão uns trocados que mal dão para matar a fome, que sempre volta mais tarde. A cena é de um triste sistema capitalista selvagem onde as elites ainda resistem dividir ou distribuir um pouco da renda para os pobres. Infelizmente, esse é o meu país que traz consigo a marca da desigualdade social, uma das maiores do planeta. Os governos com uns tais de auxílios esmolas eleitoreiras, que matam o homem de vergonha, e as doações de campanha são apenas paliativos, sem perspectivas para um futuro melhor, pois é negada a educação, o saber e o conhecimento. Entre a pobreza e a riqueza é um quadro que não se apaga, se essa política cão desumana não for revertida.

























