:: ‘De Olho nas Lentes’
O AMANHECER DE 2022
Por detrás daquele monte, lá no horizonte do sertão de cores avermelhadas de Vitória da Conquista, da minha rua, tenho a graça de flagrar com minhas lentes o amanhecer de 2022, num sábado primeiro em final de comemoração com meu amigo fotógrafo José Silva e seus dois filhos. Ao lado da minha dedicada e alegre esposa Vandilza, foi uma noite de muita música, prosa e causos dos nossos tempos de repórter nas caatingas deste sudoeste baiano. O sentimento foi de que aquele raiar de luzes ainda cortando alguns restantes fios soltos da noite, estava ali no portão a nos esperar para fazer sua saudação de um bom ano de esperança e fé, mesmo diante de tantas incertezas, imprevistos e imprecisões. Não resta dúvida que aquela imagem é uma prova viva da força da natureza que ainda com sua bondade nos acolhe, apesar da depredação e da ingratidão do homem. O clarear do dia solta suas partículas vermelhas como se brotassem da terra para nos benzer dos males do campo e das cidades. É uma pequena, mas grandiosa mostra do poder do universo, pouco apreciado nesses tempos de correrias e falta de sensibilidade do ser humano. É o momento onde a alma extasiada se encanta e se cala. Por alguns segundos, deixamos de nos preocupar com os mistérios e o sentido do existir. É a vida que ainda pulsa!
A SECA E A CHUVA
Há pouco tempo, a paisagem no sertão era assim, só sequidão e desolação. Desesperado, com tudo perdido, o sertanejo rogava pela chuva. Rezava para São José e São Pedro. Aí, vem chuva em demasia, e o sertão seco vira mar, como na profecia do Conselheiro. Não se sabe qual dos dois castiga mais. A diferença é que na estiagem prolongada, o sofrimento é mais lento do que nas enchentes que logo se vão. No entanto, ambos geram fome e tristeza diante das perdas físicas e humanas. São justamente as adversidades que fazem do sertanejo um forte, como dizia Euclides da Cunha em seu livro “Sertões”. Esses desastres climáticos, provenientes do aquecimento global, poderiam ser minimizados se houvesse prevenções antecipadas, porque a ciência já faz suas previsões. Em outros países que investem em tecnologia e pesquisa, esses efeitos causam menos danos às pessoas. A situação é bem mais controlada. Os governantes aqui só pensam no poder e se apropriar da coisa pública, como se fosse privada. Agora são as inundações que deixaram um rastro de terra arrasada. As plantações foram perdidas, como acontece no período da seca. É pau de todo lado!
O PASSARINHO PENSADOR
Sempre costumo ler em meu quintal para aproveitar o ambiente mais aprazível da natureza que me acolhe com seu cheiro único do chão e das plantas. Mesmo concentrado na leitura, observo pela fresta do meu pensamento os pássaros nos galhos fazendo também a sua função de predador de alguns pequenos insetos e retirando do néctar das flores algo doce para se alimentar. Alguns cantam e tem até uns que tentam se acasalar. Numa tarde, quando me encontrava absorto no tempo existencialista da vida, apareceu um passarinho pensador e pousou bem próximo a mim no varal de roupa. Era um pequeno colibri que ali ficou por uns cinco minutos me fitando e, como numa hipnose, penetrou em minha mente para acalmar a minha aflita alma nesses tempos tão difíceis. Como estava com minha máquina ao lado (lente de pouco alcance) deixou que desse alguns cliques, abriu as asas e se despediu de mim deixando a sua mensagem de que não adianta tentar desvendar os mistérios da vida. Ela segue o seu curso natural e pede para nunca desistir, mesmo diante das dificuldades.
ENTRE A POBREZA E A RIQUEZA
A imagem que brotou das lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário já diz tudo sobre o nosso Brasil tão desigual, onde 1% da nossa população de cerca de 230 milhões de brasileiros detém 99% da riqueza do país. Nem necessita de mais comentários. O índice por si só já é uma grande vergonha! Entre a pobreza, ou mesmo a miséria, de uma criança sentada na calçada enquanto o pai e a mãe pedem uma esmola na sinaleira entre os veículos, muitos dos quais luxuosos passam indiferentes com suas janelas fechadas. Alguns abrem e dão uns trocados que mal dão para matar a fome, que sempre volta mais tarde. A cena é de um triste sistema capitalista selvagem onde as elites ainda resistem dividir ou distribuir um pouco da renda para os pobres. Infelizmente, esse é o meu país que traz consigo a marca da desigualdade social, uma das maiores do planeta. Os governos com uns tais de auxílios esmolas eleitoreiras, que matam o homem de vergonha, e as doações de campanha são apenas paliativos, sem perspectivas para um futuro melhor, pois é negada a educação, o saber e o conhecimento. Entre a pobreza e a riqueza é um quadro que não se apaga, se essa política cão desumana não for revertida.
TEATRO PEDE SOCORRO
É tanta falta de sensibilidade para com a cultura (a alma da vida) neste país, que o “Teatro Carlos Jheovah”, em Vitória da Conquista, na Praça da Bandeira, construído em 1982, está em péssimas condições físicas, ao ponto do seu uso não ser recomendado, pois corre risco de desabamento. Por fora ainda corre boatos, por conta de especulações do setor imobiliário, de que o equipamento pode ser demolido pela Prefeitura Municipal. Seria mais um ato insano e a morte de uma alma cultural que alimenta saber, conhecimento e entretenimentos. Ao seu lado, o mercado de artesanato também se encontra em grave situação, e muitos artistas denunciam ações de despejos por parte de prepostos do poder público. Para salvar esses sagrados locais, um grupo de jovens está se mobilizando, inclusive junto à sociedade, entidades, Câmara de Vereadores e outras instituições, no sentido de que o executivo agilize, com urgência, a reforma do teatro e do mercado. É triste ver mais uma vez um espaço cultural pedir socorro para não desaparecer. A cultura deveria ser a nossa joia mais preciosa, quando, na verdade, não passa de um pato manco nos gabinetes dos governantes. Todos os dias ela está sendo ultrajada, como se fosse uma criminosa de alto risco para o nosso povo.
QUAL O CAMINHO?
Fotos de JeremiasMacário(Mack Geremy)
A vida é cheia de indecisões e medos, mesmo no avançar da idade. Quantas vezes ficamos sem saber qual o caminho a tomar, seja no amor, na escolha da profissão, na política, no âmbito econômico, em que lugar viajar nas férias e até em quem votar. São desafios que surgem em nossa frente, e somos obrigados a tomar uma posição. O pior é ficar parado com receio da atitude não dar certo. Temos que ter coragem para arriscar, porque só vamos saber se vai dar certo depois que se vai em frente e se chega lá. Triste é de quem sempre fica em cima do muro. Esse não merece viver, e já morreu e não sabe. Mesmo que lá na frente haja um tropeço, e não foi aquilo que esperava, há tempo de se fazer a correção. Além do mais, a tomada de direção serve como amadurecimento para se errar menos. A vida é cheia de escolhas. Qual o caminho a tomar? Em muitas vezes, e a depender do problema, não se pode apenas usar a razão. Em certos casos conta mais a emoção que nasce do coração. Qual o caminho?
MINHAS ARTES!
Entre um texto político, social ou qualquer assunto que vier na cabeça, uma leitura e uns versos sobre a vida, vou temperando o tempo com minhas artes de marcenaria (herança do meu velho sábio pai) e algumas “esculturas” trançadas de cipó que aproveito do muro do terreno vazio, por sinal cheio de entulhos, vizinho da minha casa. Assim vou ocupando esse vazio existencial brasileiro, turbinado de ódio e intolerância nas redes sociais (não tenho smartphone). O passatempo resultou em mais de dez peças, entre elas mesas, estantes, bancos, cinco esculturas de cipó ,e a aventura de montar um oratório que, na minha concepção, terminou sendo uma capela-oratório. E olha que nem tenho religião! Assim vou cumprindo o meu dever de passageiro da vida, circulando num trem que ainda não chegou à minha estação de saltar. Do espaço das janelas vou apreciando as paisagens, umas secas, áridas, outras verdes floridas, morros, planaltos e planícies, ora com momentos alegres, tristes e melancólicos. Não faltam as reflexões, e só delas esqueço quando estou fazendo alguma coisa na espera do meu destino. Não sei o que virá depois, e se terá amanhã, mas vou fazendo as minhas artes.
“O ÚLTIMO DOS MOICANOS”
Fotos de Jeremias Macário
Por que o Cine Madrigal, o último dos moicanos dos cinemas de rua de Vitória da Conquista, dentre tantos outros que fizeram história na cidade e na Bahia, está sob a gestão da Secretaria de Educação e não com a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer? É uma pergunta que somente o poder público municipal pode responder, porque não tem cabimento se o equipamento tem tudo para estar no setor da cultura. Quando aqui cheguei era o último que ainda resistia à crise provocada pelos DVDs, onde as pessoas passaram a preferir assistir filmes no conforto de suas casas. Assisti grandes filmes no saudoso Cine Madrigal, que há anos está fechado, mesmo depois da aquisição do equipamento pela Prefeitura Municipal. Soube que seria reativado nos festejos dos 181 anos do aniversário de Conquista, o que não ocorreu. A sociedade continua na expectativa sobre o seu destino o quanto antes. Lamentável que essas decisões não contam com uma consulta popular, inclusive dos segmentos que representam a arte e cultura.
O TOMATEIRO E A PRAÇA
Em plena praça, no centro da cidade de Vitória da Conquista, que no último dia 9 completou 181 anos, na Barão do Rio Branco, o tomateiro dá seus frutos em meio à poluição dos carros e à agitação do vai-vem das pessoas que passam sem perceber a presença da natureza nos brindando com essa cultura, tão apreciada na mesa dos brasileiros. É um sinal de que o meio ambiente ainda resiste, apesar da depredação do homem com as derrubadas e queimadas das florestas, provocando o aquecimento global. Soube que uma senhora até já colheu alguns tomates que, por sinal, são vítimas dos altos preços inflacionários devido, sobretudo, a escassez do produto no campo. Ele está ali meio que solitário, mas produzindo e já alimentou alguém que percebeu sua presença num pequeno espaço de terra na vastidão do concreto. Agora com as últimas chuvas que caíram em Conquista, ele está mais viçoso e pronto para gerar mais frutos. É uma dádiva da natureza que o ser humano não sabe reconhecer.
A DOR DA FINITUDE
Fotos de Jeremias Macário
Os filósofos e cientistas sempre se debateram e se debruçaram sobre a questão da morte desde quando a vida surgiu na terra há bilhões de anos. Uns apostam que ela, como matéria a partir do átomo, é apenas o final de um ciclo passageiro da vida. Outros, como os pensadores gregos espiritualistas, que ela é a continuação da vida. No espiritismo e no universo iorubá existe a crença da reencarnação. Não importa, ela é dor da finitude, como nesses versos do jornalista e escritor Jeremias Macário. Há quem recomenda não se ter tristeza, mas saudade no peito quando se perde um ente querido. Os mexicanos e outras culturas fazem festas. De qualquer forma, é tudo mistério e confusão, como já expressou Fernando Pessoa.
Dizem que a morte é matreira;
É o líquido eterno da vida finita;
Outro que é o amargo sem sentido,
E que a vida é sombra passageira,
Que traz na lida a dor da finitude,
Com seu baú de coragem e medo,
Nos laços do intrincado segredo.
A finitude pode até curar sua dor;
O sábio manda conhecer a ti mesmo;
Um que nada muda em sua forma;
O outro que tudo vai e se transforma;
Você se depara com o ser ou não ser,
E o poeta na sua escala fora dessa bitola
Não se conforma e se embriaga no amor.
Tudo passa, é mutável e se transforma,
Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão,
Nada começa, nada se acaba, nada torna;
A flecha que voa está parada lá no ar;
É tudo finito, infinito, mistério e confusão,
E uns preferem o delírio etílico da festa;
Mergulhar nas ondas que se quebram no mar.


























