:: ‘De Olho nas Lentes’
AS TRÊS AUTORIDADES MÁXIMAS
Quem não se lembra dos tempos Colonial e Imperial no Brasil onde o bispo, o prefeito e o juiz eram as três autoridades máximas da cidade? Pois é, mas depois da República, com uma nova Constituição, se não me engano em 1891, essa máxima foi desfeita, pelo menos teoricamente, mas isso ainda está arraigado na cultura popular. Ainda existe até hoje aquele ditado de “vá reclamar ao bispo” quando alguém não consegue resolver um problema no judiciário, no legislativo ou no executivo. Aqui em Vitória da Conquista (foto de Jeremias Macário), a Prefeitura está ao lado da Igreja Católica, e lá “mora” o bispo. O Fórum de Conquista está mais distante, mas em outras cidades essa localização se repete, e o juiz faz parte desse conjunto arquitetônico, geralmente numa praça. No campo espiritual de hoje, quando o Brasil passou a ser “laico”, a autoridade está dividida entre o padre, o bispo, o pastor ou seu pai-de-santo, dependendo de cada religião. No aspecto civil, o juiz e o prefeito permanecem autoridades mais importantes da cidade. Quando nada é resolvido, se diz para se apelar ao papa. Como sabemos, em muitos casos, o nosso país não é totalmente laico. Em nossas cabeças, o prefeito, o padre e o juiz continuam sendo autoridades principais que são mais recorridos. Os vestígios da nossa cultura, por mais que os tempos mudem, permanecem enraizados em nós.
“CALANGO VAI, CALANGO VEM”
O bicho calango é parente da lagartixa; parece com o camaleão e tem jeito de um mini jacaré terrestre. Sabe-se que ele é catingueiro, arisco e roda o mundão da terra árida à procura de alimento. Talvez por isso lembre aquela cantiga, ou verso “Calango vai, Calango vem” por circular em várias partes. Aqui em Vitória da Conquista, José Barbosa dos Santos, de 60 anos, capixaba, mas da terra do frio, é mais conhecido como “Calango”, e pode ser encontrado em várias partes da cidade, com suas sacolas vendendo os mais variados objetos inusitados, como óculos que não quebram, canivetes, lamparinas, tesouras, utilidades domésticas, gravadores e tudo mais que você pensar. Foi o primeiro vendedor ambulante móvel de Conquista, e há 49 anos que trabalha nesse ramo. Em sua atividade, já criou e formou quatro filhos, e se diz incansável na luta. Só parou um pouco uns meses quando começou a pandemia no início do ano passado. Seu apelido de “Calango” foi bem apropriado, porque o “bicho” também gira toda a cidade e é insistente quando se trata de ganhar uma grana para manter o seu sustento e o da sua família. Quem por essa terra não conhece “Calango”? Ele pode ser visto todos os dias nos arredores da Praça Barão do Rio Branco, nas filas dos bancos e em bares e restaurantes. É o “bicho” sertanejo andador que nunca desiste do cliente. A esta altura, ele é mais conquistense que capixaba. “Calango vai, Calango vem”, e lá vai ele com suas bugigangas nas sacolas, nos bolsos e nas capangas. Pode-se dizer que “Calango” já é um patrimônio de Vitória da Conquista
“A REGRA DO JOGO”
No último 7 de abril foi lembrado o “Dia do Jornalista”. Diria que não se tem muito a comemorar diante do atual quadro político do Brasil onde a categoria tem sido hostilizada, principalmente pelo chefe da nação, mas me faz voltar aos tempos das redações barulhentas, fumacentas e de muitas discussões sobre as matérias que estavam saindo do forno diretamente para o público leitor, ou telespectador. Infelizmente, temos hoje um sindicato bem mais enfraquecido. Mesmo durante aquele período tenebroso da ditadura civil-militar, tenho saudades daquele jornalismo à prova de fogo onde se questionava “A Regra do Jogo” que muito nos ensinou Cláudio Abramo em seu livro título. Nesse dia, presto a ele uma homenagem e a todos os profissionais que fizeram “O Pasquim”, um jornalismo alternativo, satírico, de contestação, de reportagens inéditas que sabiam driblar a censura do regime militar. Sobre Abramo, comentou Jânio de Frietas na orelha da sua obra que, “apesar disso, surge um Cláudio. Surge na multidão de jornalistas, um ao qual o tempo pode magoar, mas não pode vencer: Seu talento é mais forte do que a pressão de todos os relógios”. Para ele, ressalta Jânio, o jornal morria com a rapidez de um dia, mas seus artigos entravam para sempre na memória de milhares e milhares de leitores… “Podia fazer melhor, não fosse a exiguidade do tempo”. Abramo foi morto em agosto de 1987, deixando um grande legado, como a modernização dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. “Suas lições percorrem todo espectro da atividade e da ética jornalística”- disse Mino Carta, no prefácio da obra. Não desmerecendo o jornalismo de hoje da internet, não se se tem mais pauteiros e chefes de reportagem como antigamente que, sem muitos recursos tecnológicos, apresentava mais criatividade, imaginação e tramavam matérias mais empolgantes e históricas. Não quer dizer que naquele tempo não haviam falhas, mas as reportagens eram mais consistentes, investigativas e completas, sem deixar furos clamorosos como atualmente. Hoje se usa o “ctrl c, ctrl v” bem mais que o “gilete press” daqueles tempos. A busca pelo furo era mais intensa e emocionante. Os repórteres hoje precisam melhor formular as entrevistas e pesquisar mais o tema da matéria. Existe uma deficiência no preparo, talvez pelo vício demasiado da internet.
AS FLORES DO MEU QUINTAL
Elas estão em várias partes das nossas cidades, mas são despercebidas pela grande maioria que vive na corrida desenfreada pela busca do dinheiro e, consequentemente, da sobrevivência. São as flores que até são pouco decantadas pelos poetas que no romantismo serviam de inspiração para belos poemas de amor e gratidão pela vida. Elas sempre foram as musas da natureza. Em meu quintal, as flores me deixam menos tenso, principalmente nesses tempos tão difíceis de pandemia e crise política, econômica e social, com tanta pobreza. Estão sempre nas lentes da minha máquina. Precisamos olhar mais para as flores quando passamos por uma por que eles nos saúdam. Uma parada pode ser confortante e pode lhe dar a resposta que você tanto procura para seu problema. Vamos apreciar mais a natureza que pode nos fazer mais tolerantes com os outros. Tente refletir sobre o ministério contido na flor, e sua vida pode ser bem melhor nesse universo desconhecido.
NO COMBATE À COVID
Foto de Vandilza Gonçalves
Mesmo sem um comando central do governo federal, que contraria as recomendações da ciência, piorando o quadro de infecção da Covid-19, com hospitais superlotados, os profissionais da saúde estão lá na linha de frente cumprindo o seu dever de salvar vidas, como a técnica enfermeira que prepara a vacina que nos vai dar a esperança de enfrentar essa pandemia. Eles estão lá nas ambulâncias socorristas do trânsito e dentro dos hospitais, tentando fazer o possível e o impossível para reanimar pacientes intubados sem ar. Cada vida recuperada é uma história e uma vitória nunca mais esquecidas. São eles que também choram juntos com os parentes quando, através dos celulares ou sinais, têm que passar uma informação de perda. A correria é grande e o trabalho é estressante. Apesar da falta de insumos, de equipamentos necessários de socorro e até de oxigênio, eles nunca desistem, e sua política é salvar vidas. Não fossem esses profissionais, talvez já teríamos mais do dobro de mortes no Brasil (mais de 300 mil atualmente). A vacinação está lenta, mas não é por culpa deles. Tenho minhas críticas na condução dessa política por falta de uma liderança, mas eles são os nossos homenageados por representarem a ciência contra os negacionistas. Pelas suas mãos fui vacinado, e rendo aqui toda minha admiração porque eles já fizeram história. Obrigado e que continuem fortes em suas árduas missões.
TODOS CAMINHOS LEVAM A CONQUISTA
Além de ser a terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 340 mil habitantes, Vitória da Conquista é a capital da região sudoeste. Em torno dela giram mais de 80 municípios, cuja população circula todos os dias em Conquista vinda de todos lugares através de vans e carros particulares. É o caso de se dizer, que todos os caminhos levam a Conquista, de segunda a sexta-feira, fortalecendo a economia da cidade. Estima-se que circule, diariamente, por Conquista, 50 mil pessoas, e aqui deixam boa parte de suas economias. Uns vêm a negócios, outros para tratamento de saúde; visitar parentes ou filhos estudantes; fazer compras; e resolver outros problemas. Logo cedo as vans vão chegando de Tanhaçú, Ituaçu, Barra da Estiva, Anagé, Barra do Choça, Brumado, Guanambi, Belo Campo, Tremedal, Aracatu, Nossa Senhora do Livramento, Caatiba, Itambé, Itapetinga, Maetinga, Presidente Jânio Quadros e tantos outros municípios. A ausência desse povo da região na cidade causaria um tremendo impacto negativo no comércio e no setor de serviços, principalmente. Poderia se dizer que toda essa gente é uma roda na economia de Conquista. Numa segunda-feira, a população do município mais os circulantes podem atingir até 400 mil habitantes.
MUITAS PANELAS PARA POUCA COMIDA
Até que não temos escassez de produtos alimentícios nas feiras livres e nos supermercados. Como na pandemia, infelizmente, estamos vivendo uma alta da inflação onde a classe mais pobre não está conseguindo encher as panelas, que sempre estão vazias. Temos sim, muitas panelas para pouca comida, e o pior é que existem milhões passando fome no Brasil. Os governos neoliberais e capitalistas subsidiam o agronegócio que só produz grãos, principalmente a soja, para serem comercializados no exterior. Na maior parte, esses produtos são utilizados na ração animal, e o povo passa fome porque não consegue comprar o alimento cotado em dólar. O pequeno agricultor que, na verdade, coloca o alimento na mesa do brasileiro, vive desassistido, sem contar as intempéries do tempos, como as estiagens. É um sistema bruto de muitas panelas para pouca comida. A saída seria vender as panelas para adquirir o alimento, mas, também não tem comprador. O negócio é encostá-las num canto qualquer da casa, ou do casebre. Fotos do jornalista Jeremias Macário.
CORONAVID
Durante esse amargo período da pandemia, para acalmar meu espírito e passar alguma mensagem para os outros, tenho procurado ocupar o tempo lendo, escrevendo meus textos e versos poéticos, produzido vídeos e, mais recentemente, enveredei pelo terreno tão difícil da escultura, como desafio (não é mesmo meu forte). Nessa investida, passei duas semanas montando uma escultura feita de cipó intitulada “CORONAVID”, uma homenagem ao meu poema e uma fusão do maldito Corona com a Covid. Trata-se de uma figura humana se protegendo com a máscara e, na cabeça, a danada da Covid atacando ou invadindo o globo terrestre. Seja como for, é uma obra conceitual, de protesto contra esse governo genocida que aí está, o pior da história do Brasil, bem como de pesar e lamento pelas mais de 160 mil mortes vítimas desse vírus. Para acabar com isso, queremos vacina, mas o capitão emperra as negociações e responde ao clamou social, dizendo que só se for comprar “da sua mãe”. É tão imbecil ao afirmar que o Brasil é um país de mais de 200 milhões de habitantes e, diante disso, que os laboratórios procurem o país para vender seus produtos. Ora, os países que se planejaram bateram nas portas das companhias farmacêuticas e adquiriram, a muito custo, seus lotes de vacinas. Ele não está nem aí para vacinar o povo brasileiros. Os governadores e prefeitos deveriam sim, redigir uma carta aberta à nação pedindo que esse capitão renuncie à presidência.
AS NUVENS E SUAS IMAGENS
Dizia um político mineiro, se não me engano Tancredo Neves, que a política é como as nuvens. Você olha para os céus e elas estão sempre mudando de lugar. Só faltou afirmar que no Brasil a política muda de acordo com a máxima do toma lá, dá cá. Diferente da nuvem, a política é pilantra, e aqui só se faz politicagem. Mas, não é disso que quero tratar no momento. Na natureza, elas são belas e poéticas. Nos relaxa. Quando carregadas, transmitem esperança de chuvas, ou tristeza de seca quando vazias e ralas. Fora isso, as nuvens, olhando bem para os céus, como na foto do jornalista Jeremias Macário, compõem diversas imagens de pessoas, montanhas, animais selvagens, florestas, acidentes geográficos, colinas, rostos diferentes e ainda fazem aquele efeito vermelho-sangue no pôr-do-sol. Nessa imagem, por exemplo, dá para você navegar na imaginação, como a aparência de um dromedário, ou uma grande ave pré-histórica. Olhando bem, no alto vejo a imagem de um ser humano. Parece também com uma grande avestruz. Gosto sempre de mirar as nuvens e desenhar as minhas imagens em meu cérebro, e logo em seguida aparecem outras. É uma terapia olhar as nuvens e fazer suas imagens. Já olhar a nossa política, dá nojo, irritação, revolta e vergonha. Ela não merece a nossa consideração e passa uma péssima imagem do nosso país aqui dentro e lá fora, no exterior.
O COMÉRCIO INFORMAL DE AMBULANTES
Fotos do jornalista e escritor Jeremias Macário
É meus amigos, se a situação já estava feia para os mais de 13 milhões de desempregados e subutilizados no mercado de trabalho, piorou mais ainda com a chegada da Covid-19 no início do ano passado, e ainda mais agressiva depois de um ano, em razão de diversos fatores, desde um governo genocida até a própria população que não tem senso de coletividade e parte para as aglomerações suicidas. Para sobreviver a esse caos, por falta de estratégia do poder público central, todos se viram como podem, vendendo seus produtos no comércio informal de ambulantes. As ruas e avenidas das capitais e grandes cidades do nosso Brasil estão superlotadas de ambulantes tentando fazer uns trocados para apaziguar a fome. Vitória da Conquista não é exceção. Em todos os lugares, nas portas dos bancos, nas calçadas, em frente dos supermercados, praças e lojas, lá estão eles oferecendo suas mercadorias, como frutas, doces, bombons, chaveiros, artesanatos, bijuterias e outras tantas bugigangas. É claro que deixam a cidade com a cara mais feia, mas fazer o quê diante de tanta pobreza e aprofundamento das desigualdades sociais? A crise só tende a se agravar, e não adianta querer ser otimista porque a realidade está ai bem escancarada. Dias melhores e esperança não caem do céu de graça. O povo tem que se levantar e se indignar com esse quadro tão degradante, para que as coisas mudem. Nada se consegue sem sacrifício e sofrimento, a não ser para eles que se especializaram em roubar a dignidade da população brasileira com suas canalhices, malandragens e ladroagens.





























