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:: ‘De Olho nas Lentes’

EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Pelas lentes do jornalista Jeremias Macário, o tempo está carregado, incerto e com nuvens sombrias, mas amanhã será outro dia com o sol brilhando, e muita gente nele se banhando, para realizar seus sonhos que, apenas deram uma parada. É como estamos em tempos desse coronavírus, mas as nuvens turvas vão passar e todos vão se abraçar, mas, para isso acontecer, todos têm que deixar de ser individualistas e pensar no coletivo, no outros e nos mais de 50 mil que se foram no Brasil. Lamentavelmente, depois de quase quatro meses, ainda tem gente que não acredita no que está ocorrendo e acha que tudo é mentira. Infelizmente, outros entram em pânico e, de medo piram, fazendo com que a mente adoeça e, consequentemente, o corpo enfraquece e abre a guarda para o danado mortal do vírus. Sempre digo que os mais pobres são os mais vulneráveis a esse tempo pesado e carrancudo. É tempo de ler, meditar, de reduzir o consumo de supérfluos e mergulhar em si mesmo para puder mergulhar nos outros, e respeitar a ciência e os espaços de cada um.

SAUDADES DO NOSSO SÃO JOÃO!

Oh quantas saudades do nosso São João, uma festa tradicional e cultural do Nordeste! Em toda sua história, desde que foi introduzida no Brasil há séculos, com suas quadrilhas, maracatus, músicas, comidas e bebidas típicas, é a primeira vez que sua data vai passar em vazio por causa desse mortal coronavírus que já matou quase 50 mil no Brasil. Nos últimos anos, os festejos perderam suas características, mas os amantes da cultura sempre se posicionaram contra as deturpações dos tempos, principalmente no aspecto musical com as misturas de lambadas, axé, pagodes, arrochas e outros ritmos que nada têm a ver com o São João, tão decantado na sanfona do rei Luiz Gonzaga e seus seguidores. Neste ano, a data vai passar sem as fogueiras, os fogos e o forró-pé-de-serra. Que a festa volte com toda força no próximo ano, livre dessa pandemia, para comemorarmos o mês mais alegre e festeiro dos santos Antônio, São João e São Pedro.Todos os anos curto o São João em minha querida Piritiba, revendo amigos e parentes, mas 2020 vai ser mesmo em casa, sem muita graça. A história tem disso. Mesmo assim, Viva o São João, a melhor festa brasileira!

LAPA SEM ROMARIAS

Uma pena e dá tristeza não ver aquele “mundareú” de romeiros tirando seus chapéus para receber a benção do Bom Jesus da Lapa, de Nossa Senhora da Soledade, ou encher as ruas do centro na Procissão das Águas. Não dá para assimilar ver uma imagem da cidade tão vazia que todos os anos recebe mais de um milhão de romeiros, isso há mais de 320 anos de romarias. Pois é, o coronavírus vai fazer isso neste ano de pandemia que já ceifou mais de 40 mil brasileiros, e esse número, infelizmente, pode duplicar ou triplicar. Os hotéis, que sempre estiveram lotados nesta época do ano, entre julho a dezembro, vão estar vazios, como a gruta do Bom Jesus da Lapa, no oeste baiano. A atividade mais forte da economia da cidade, que é o turismo religioso, vai sofrer um colapso, bem como dos municípios vizinhos que servem de roteiro para os romeiros que saem de todas as partes do Brasil para pagar suas promessas. Depois de mais de três séculos, pela primeira vez, vamos ter uma romaria virtual. É o que tudo indica, diante dessa pandemia que aqui, neste nosso país, encontrou terreno “fértil” para se propagar por causa da política de desagregação do governo federal, da pobreza que só faz se alastrar e da precariedade na saúde, na educação, no campo social e na economia. Foto reprodução.

ASSASSINOS!

Essa é uma foto do meu amigo baiano fotógrafo Evandro Teixeira que registrou com suas lentes os anos de chumbo da ditadura civil-militar de 1964 no Brasil, que deixou um rastro de torturas, desaparecidos e mortes. As feridas ficaram abertas até hoje porque os torturadores não foram punidos, mas o povo brasileiro escreveu “Nunca Mais”. Mesmo assim, em pleno século XXI, um grupelho de fascistas raivosos, racistas e homofóbicos sai às ruas para pedir a sua volta, e o capitão-presidente apoia abertamente que a assassina retorne para calar com a liberdade de expressão, fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. São assassinos, em plena pandemia do coronavírus ceifando a vida de mais de 30 mil brasileiros, que deveriam ser presos por crime de responsabilidade. Por afrontar a Constituição, o seu chefe desequilibrado e sem nenhuma capacidade para presidir o país, já deveria ter sido cassado. A sociedade precisa reagir e dar um basta nesse governo que desagrega toda a nação, disseminando o genocídio, principalmente das camadas mais pobres. Por menos, dois presidentes foram cassados. Não dá mais para tolerar essa psicopatia que está levando nosso país ao abismo!

ABERTURA PRECIPITADA

Conforme determinação do gabinete do prefeito, o comércio de Vitória da Conquista começa a ser aberto nesta segunda-feira, mesmo diante do crescente número de contaminação do coronavírus devido ao baixo nível de isolamento social de um povo sem disciplina e consciência política, social e educacional, características próprias do brasileiro. Mesmo com os dois meses de fechamento, o movimento das pessoas nas ruas não caiu no nível desejado, principalmente na Travessa Ramiro Santos e na Praça 9 de novembro. Nesta segunda feira ela pode estar assim, como nesta imagem clicada pelo jornalista Jeremias Macário. As pessoas não temem o perigo, e cada um acha que o vírus só pega nos outros. Esquecem os lamentos, os choros e as lágrimas derramadas pelos parentes dos seus mortos. No Brasil, mais de mil ainda estão sendo infectados por dia. É um índice muito alto, mas os estados estão também abrindo o comércio. De um lado, o coronavírus matando e, do outro, a psicopatia de um governo que está levando o Brasil ao abismo. Vamos ter dias ainda mais terríveis e turvos. Esta abertura é precipitada e temerária. Nossa gente detesta seguir normas, e a fiscalização é deficitária. Vamos ver no que vai acontecer. Só nos resta rezar. A situação tende a piorar nesta terra Pau Brasil, tão maltratada e vilipendia por salteadores e bandidos.

LEMBRANÇAS DE PARIS

 

 

O coronavírus fez silenciar o mundo com o isolamento social, mas as lembranças permanecem vivas, como nesta foto do Rio Sena et Petit Cité, clicada pelo meu filho Caio Macário quando morava em Paris. Depois estive lá por uma semana e fiquei encantado com o Velho Mundo, principalmente com a Cidade Luz. Pena que esse vírus mortal deixou uma paisagem cinzenta e triste, mas as coisas por lá estão, aos poucos, voltando ao seu normal porque o povo cumpriu com as medidas de restrição, diferente do nosso Brasil desgovernado, sem rumo e liderança. Aqui as coisas estão piorando porque tem um presidente maluco que quer receitar medicamente por meio de decreto, e transformou o Ministério da Saúde num batalhão do exército. Agora, só nos resta rezar muito para voltarmos a curtir a vida e homenagear os mortos, a grande maioria de pobres desamparados e que vivem à margem da sociedade.

A EXTINÇÃO DOS JUMENTOS

Lamento muito a declaração do diretor da Adab -Agência de Defesa Agropecuária da Bahia, Maurício Bacelar, de que o estado vai criar uma cadeia produtiva de jumentos, jegues ou asininos, para fornecer, de “forma sustentável”, esses animais, símbolos do Nordeste, para o abate nos frigoríficos baianos. A foto e a informação foram divulgadas nesta semana, com exclusividade, no blog do nosso companheiro e amigo jornalista, Mário Bitencourt (blogdomariobitencourt). Uma balela para enganar ambientalistas e defensores dos animais. Na verdade, o que está por trás disso é uma estratégia montada para extinguir com os jumentos em nosso Nordeste, porque não vai haver cadeia produtiva alguma, como bovinos, caprinos e suínos, citados pelo diretor da Adab. Aqui na Bahia, os frigoríficos de Amargosa, Simões Filho e Itapetinga estão matando, impiedosamente, os jegues para vender a carne e o couro para a China, utilizados em iguarias domésticas e para fabricar um gelatina, o eijao, medicamento para pele e impotência sexual, como afirmam os chineses. Depois que os jumentos foram substituídos pelas motos e não servem mais para transportar água e lenha, resolveram, criminosamente, acabar com esta espécie que tanto serviu ao sertanejo na labuta do dia a dia, sustentando famílias. Em meio a essa pandemia, com milhares de mortes, o governo federal (a matança conta com o apoio) está destruindo o meio ambiente, incluindo os animais. A perversidade do homem sobrou agora para os nossos inocentes jumentos. Cadê o Ministério Público, as entidades ambientalistas e outros órgãos de defesa animal que se calam e não tomam providências contra mais este absurdo?

SEQUIDÃO

Foto e escultura do jornalista Jeremias Macário

Não sou escultor, mas um atrevido que procura retratar a vida, principalmente do nosso Nordeste, procurando mostrar suas belezas e também as mazelas de um povo sofrido e com sede de justiça social. Esta é a minha quarta escultura, se assim me permite denominá-la, feita de cipó, que vou aproveitando aqui no muro do outro lado do meu quintal. Resolvi chamá-la de “Sequidão” por representar o mandacaru sobrevivente da seca, como é a nossa mente inteligente que usa a fé e a ciência para continuar a viver. Minha intenção foi retratar o Nordeste que ora é verde, ora é cinzento. Uma é vida e a outra é sinal da morte nas lavouras, nas plantas e animais que têm que enfrentar a sequidão até as próximas águas molharem o chão.

DA SERRA JORRAM PEDRAS

Fotos aéreas de José Silva

Durante muitos anos, desde a construção da BR-116 (Rio-Bahia) na década de 1960, depredaram a Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, e dela retiraram areia, cascalhos e pedras para edificação de casas e prédios. Eu e meu companheiro de trabalho jornalístico José Silva fomos testemunhos ainda na década de 90 quando aqui cheguei para a chefiar a Sucursal do jornal A Tarde. Fizeram um tremendo estrago na natureza, como os exploradores que dizimaram os índios e derrubaram as florestas. Na época fiz um trabalho de pesquisa sobre o problema, relatando tudo isso e contando a história de Conquista e da Serra, palco de muitas batalhas de derramamento de sangue, mas, infelizmente, o estudo não foi publicado por falta de patrocinadores. Quando existe agressão, o meio ambiente sempre dá a sua resposta à perversidade do homem. Hoje, quando chove jorram pedras e cascalhos da Serra do Periperi e tudo desce das enxurradas, alagando a cidade. Além da depredação criminosa, inclusive da parte do poder público, as invasões irregulares de casebres, sem nenhum ordenamento, contribuíram mais ainda para destruir a natureza e fazer desaparecer a fauna e a flora. Até início do século passado, há 100 anos, toda Serra era coberta por uma densa floresta. Hoje só existe um capão chamado de Mata Escura, também maltratada pela população. Com a exploração predatória, todos os minadouros desapareceram e poucas espécies de plantas e animais sobreviveram, mas estão em extinção.

CONQUISTA E O CORONA

As fotos são do meu companheiro de trabalho no “A Tarde” durante muito tempo, José Silva, que registrou a atual Vitória da Conquista em vários ângulos. É um arquivo precioso e histórico. Como todo Brasil, a cidade também está atravessando sua crise do corona, mas, infelizmente, sem o pleno isolamento social, de cada um ficar em sua casa. Aliás, num país pobre como o nosso, isso é impossível e uma falácia. Há mais de um mês, o prefeito decretou fechamento do comércio, mas depois foi liberando outros setores não essenciais. Foi a única cidade em que os empresários fizeram uma carreata pedindo a reabertura do comércio lojista. Nesta semana, caiu visivelmente a tal quarentena, e o que se vê é a circulação exagerada de muita gente e carros nas ruas da cidade. Já morreu uma pessoa vítima do coronavírus, e tudo indica que haja uma quebra geral do isolamento social, com a obrigatoriedade apenas do uso de máscaras, que antes os infectologistas diziam não terem muita valia, mas agora recomendam. Estamos num Brasil desordenado e confuso onde o governo federal é a favor da volta às atividades, e governadores e prefeitos tomam suas próprias decisões. O povo fica a bater cabeça, e as maiores vítimas são sempre os pobres, chegando a passar fome, na espera de doações individuais e de algumas entidades. Não sabemos o que pode vir por aí. O sistema de saúde sempre foi precário e deficitário e a situação se agravou com a Covid-19.





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