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:: ‘De Olho nas Lentes’

CHAPADA DIAMANTE

Fotos de Jeremias Macário

Nos lajedos e nas montanhas de pedras de Mucugê, os primeiros garimpeiros de Minas Gerais começaram a extrair o diamante, partindo depois em suas aventuras para Andaraí, Lençóis dos coronéis e Palmeiras do Capão. Nelas deixaram impregnadas suas culturas, numa mistura afro-brasileira com índios e portugueses, Eles cultuaram e reverenciaram o orixá caboclo do Jarê, para serem donos dos diamantes. Foram escravos dos patrões fornecedores, capangueiros e lapidários das pedras. Veio a decadência e nasceu o Parque da Chapada Diamante, criado em 1985, com suas áreas de preservação ambiental, como do Marimbus. Hoje, sua economia vital é o turista que vem de todas as partes do Brasil e do mundo para conhecer suas belezas naturais. As águas em suas corredeiras e cachoeiras, os picos, cavernas e grutas fazem o espetáculo da vida, mas o garimpeiro deixou seu legado histórico que não pode ser esquecido.

“BRASIL: NUNCA MAIS”

Fotos de Evandro Teixeira

Entre milhares delas pelo mundo a fora, essas duas fotos do meu amigo e grande fotógrafo Evandro Teixeira são também marcantes e históricas que dizem tudo da ditadura civil-militar de 1964, e que essa maldita nunca mais volte como está registrado no livro “Brasil: Nunca Mais”, organizado pelo arcebispo de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns, em conjunto com igrejas protestantes.  Nesta semana, nos causou calafrios ver aqueles tanques desfilando na Esplanada dos Ministérios, num ridículo circo armado para entregar um convite ao capitão-presidente e intimidar a Câmara dos Deputados que votou contra a volta do voto impresso. Mais ridículo ainda foi ver aqueles generais de pijama subservientes ao “chefe”, envergonhando a imagem das forças armadas brasileiras. Não deveriam se prestar a esse papel de oportunismo barato. Ficaram feios na foto e se foram calados. Foi uma passagem melancólica, mas devemos ficar vigilantes 24 horas para que ela nunca mais no Brasil. Não vamos mais deixar passar essa boiada de carrascos que prenderam, torturaram e mataram.  Todas essas ameaças ainda acontecem porque as feridas da ditadura ainda continuam abertas, quando a anistia de 1979 não puniu os torturadores, como fizeram nossos países vizinhos. O dia dele vai chegar, sem intervenção militar como quer um grupo de nazifascistas que há anos viviam no armário porque não tinham ninguém para dar voz a eles, e nem havia espaço para tanta loucura.

“OS MASCARADOS”

Há mais de um ano e meio que fazemos o papel de “os mascarados” (nem todos), como se fossemos guerrilheiros de alguma facção política ideológica, criminosos, testemunhas que não podem ser reconhecidas ou policiais em missões de risco de vida, tudo por conta da pandemia da Covid-19, que já ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros. Hoje as máscaras estão por todas as partes, em farmácias, lojas de materiais de saúde e nas esquinas sendo vendidas até por camelôs, como na foto do jornalista Jeremias Macário. É uma forma de proteção contra o perigoso vírus que mata e deixa sequelas no ser humano. É altamente contagioso, mas, infelizmente, ainda tem muita gente negacionista da ciência que se recusa usar a máscara, que já faz parte da nossa indumentária. Essas pessoas, que não respeitam a vida dos outros, são as mesmas que escolhem qual vacina tomar, e desclassificam outras como imprestáveis, ou que são apenas água. Para a Covid, temos a vacina como saída única para a cura, mas para tratar a mente dessas pessoas, não há vacina que cure e salve.

UM CENTRO CULTURAL NO “PAU DA BANDEIRA”

Na foto do jornalista Jeremias Macário, quase todos conquistenses conhecem muito bem a popular Praça “Pau da Bandeira” onde funciona uma feirinha com um amontoado de barracas de corredores apertados, uma área de artesanato, também nos mesmos moldes, algumas lojinhas nas laterais do quarteirão, e o Teatro Carlos Jheová. Nesses tempos de pandemia, é um local perigoso por ser muito fechado, de pouca circulação. Há uns cinco ou oito anos, no Governo do PT, se cogitou derrubar esse “monstrengo” de prédios, salas e barracas, para no lugar se implantar um Centro Cultural, só que houve resistência dos usuários com apoio de vereadores da Câmara Municipal. O projeto, na sua concepção, em parceria com o Banco do Nordeste, que bancaria todo investimento, era um presente para a cultura de Vitória da Conquista. Nele funcionariam espaços que iriam beneficiar todas as linguagens artísticas, como audiovisual, literatura, teatro, dança, artes plásticas, artesanato, oficinas de treinamento e um auditório multiuso para eventos diversos e cinema. O “Pau da Bandeira” é um local que só enfeia a cidade.  O projeto ficou no papel, mas ainda se fala nele, como ouvi de um amigo dia desses. No próprio Centro poderia ser construído um teatro em homenagem ao nosso saudoso Jheová. Uma obra desse porte marcaria a gestão de qualquer prefeito. Existe ainda o antigo Cine Madrigal que está lá se deteriorando com o tempo e nada se faz.

UMA NAÇÃO EM CORRERIAS

Uma nação milenar, alegre e dançante, como da fotografia de arquivo, que como os mouros, influenciou a criação da dança flamenga, em Andaluzia, na Espanha, sempre viveu em correrias pelo mundo a fora, desde antes de Cristo. Na Europa foi perseguida por reis, nobres e imperadores, vista com preconceito como ladrões, trambiqueiros, sujos e marginais. Na Romênia, por exemplo, por quase um século, foi escrava como os negros, e eram vítimas de atrocidades. Muitos usavam de malandragens, e até cometiam crimes para a própria sobrevivência do seu povo e de suas famílias.  Pela Espanha e Portugal, a partir do século XVI, foram deportados em navios como criminosos. No Brasil, os calons e o rum (romeni –senti) viviam em correrias e sendo empurrados pela polícia de estado em estado. Bandidos aproveitavam para cometer seus crimes e colocar a culpa nos ciganos. Acossados e encurralados, muitos revidavam na troca de tiros e ocorriam matanças dos dois lados. Bem, o que muitos não sabem é que o Brasil teve um presidente cigano, o boêmio JK – Juscelino Kubistchek, que governou o país de 1956 a 1960.

UMA SONECA NA AGITAÇÃO

Em meio a todo o corre-corre da cidade agitada e desumana, com pessoas pra lá e pra cá nas calçadas e lojas, o cachorro, que não é escravo do tempo e vai vivendo do que encontra em seu presente, resolve, tranquilamente, tirar a sua soneca para depois seguir sua jornada em busca da sua sobrevivência.  Ele já é um morador de rua como muitos seres humanos, porque vivemos numa sociedade cruel, egoísta e desigual onde só existe lugar para os mais fortes. Com certeza ele foi abandonado pelo seu dono, como um José, uma Maria ou João que não tiveram o direito à cidadania, como reza uma Constituição, dita democrática. Muitos podem até dizer que se trata apenas de um cão no sossego do seu sono, sem estar aí para o barulho dos motores, a poluição sonora e a confusão de uma gente na luta pela vida do cada vez mais consumir. O flagrante registrado pelas lentas da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário também demonstra nossa desumanidade, porque os animais também são nossos irmãos, e fazem parte do nosso cotidiano. Além do mais, sempre foi um fiel amigo, sem nada cobrar em troca, apenas o seu alimento. Não tem outras ambições e nem é egoísta e individualista. A sua soneca, em plena calçada, sem um lar ou alguém que lhe cuide como deveria, é uma imagem triste de abandono, e de que ainda não somos uma sociedade civilizada como pensamos ser.

A SIMPLICIDADE DAS CAPELAS

As capelas com todas suas simplicidades, diferentes das ostentações das catedrais, retratam o modesto e sincero sertanejo, o homem do campo, como a da imagem fotográfica do jornalista e escritor Jeremias Macário, captada num povoado entre São José de Jacuípe e Várzea da Roça. Nela está a comadre e o compadre, e todos se conhecem em oração, no mesmo sentido de pedir bonança e chuva para molhar o solo que seca com a estiagem. Lá está a rezadeira para puxar o terço, o Pai Nosso e a Ave Maria e, seu vigário, quando aparece, a todos abraça com distinção e apreço. Nas catedrais imperam os estilos grandiosos, painéis e interiores banhados a ouro, com seus bispos, papas e cardeais. O senhor do poder, que só quer se aparecer para a mídia, participa das solenidades para angariar votos e dizer que é católico. Por isso, como sertanejo-catingueiro, admiro muito mais as capelas porque elas espelham a honestidade, a solidariedade e o humano. As capelas me encantam porque nelas existe o encantamento da fé.

OS EFEITOS DA PANDEMIA

As imagens captadas pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário, em sua viagem de Vitória da Conquista a Juazeiro, na Bahia, demonstram muito bem os efeitos da pandemia nos setores de bares e restaurantes nas estradas, com o fechamento de muitos estabelecimentos, inclusive de postos de combustíveis, oficinas e borracharias.  Muitos desses locais onde fazia paradas em minhas andanças, como o da foto na BR-242, entre os acessos de Andaraí e Rui Barbosa, na Chapada Diamantina, foram abandonados. Viraram pontos fantasmas. Observei muitos comércios de pequeno porte que encerraram suas atividades como resultado da primeira onda da Covid-19. Esses micros negócios não tiveram o suporte financeiro dos governantes e foram obrigados a fechar suas portas. Só os maiores resistiram, mesmo assim tiveram seus movimentos reduzidos e, somente agora, estão tentando se recuperar, com muito sacrifício. Claro que a vida deve estar acima da economia, mas a ausência do Estado nessa crise de “guerra epidêmica” provocou o desemprego de milhares de famílias pelo Brasil a fora, aumentando mais ainda a pobreza e gerando fome. São os efeitos da pandemia, difíceis de serem anulados. O estrago foi grande.

QUEIMADAS NA CAATINGA

Foto do jornalista João Martins

A foto do meu amigo e companheiro jornalista, João Martins, me lembra muito quando atuava como chefe da Sucursal do Jornal A Tarde de Vitória da Conquista e elaborávamos muitas matérias denunciativas sobre a derrubada de árvores da caatinga para serem queimadas em fornos e se transformarem em carvão. A grande maioria das queimadas era irregular, como o transporte do carvão para as siderúrgicas mineiras. Ele pela revista “Integração”, e eu com meu amigo fotógrafo José Silva pelo o A Tarde estampávamos reportagens denunciando os destruidores do nosso milenar bioma, chamando a atenção de que a caatinga ia virar um deserto. De certa forma isso ocorreu em várias partes do nosso sertão. Em nossas andanças, cortando estradas por esse semi-árido cruzávamos com caminhões rumo a Minas Gerais, principalmente. Nos postos de combustíveis lá eles estavam carregados de carvão. Como era muito perigoso para a nossa profissão, tinhamos que ter muito cuidado para flagrar  os fornos no meio da caatinga e o transporte, quase sempre clandestinos. Os fornos sempre usavam mão-de-0bra, que muito lembrava o sistema escravagista diante das condições dos trabalhadores, inclusive crianças de rostos esfumaçados e doentes dos pulmões. Conversei com meu amigo João sobre o assunto e, para meu alívio, disse-me que esse quadro praticamente não mais existe devido a intensa vigilância e fiscalização do Inema. É uma boa notícia, mas os estragos ficaram na paisagem da nossa natureza, difíceis de serem recuperados quando se trata da caatinga, sempre seca.  Os municípios que mais queimavam carvão eram Sebastião das Laranjeiras, Palmas de Monte Alto, Caculé, Igaporã, Riacho de Santana, dentre outros.

PATRIMÔNIO ABANDONADO

Na Avenida Integração, esquina com a Regis Pacheco, um patrimônio público que já foi sede do DNER (extinto) e do Ibama, órgão que está sendo sucateado no atual governo do capitão-presidente, negacionista da ciência e destruidor do meio ambiente, está totalmente abandonado, com lixo por todos os lados e muito mato, conforme imagens fotográficas do escritor e jornalista Jeremias Macário.

Entre tantos outros no Brasil a fora, é mais um caso de dinheiro do povo jogado no lixo, sem a devida punição dos irresponsáveis governantes. Por ironia, o patrimônio abandonado, em Vitória da Conquista, já abrigou as dependências do Ibama, inauguradas no Governo Lula. O local me recorda quando atuava como jornalista da Sucursal do Jornal A Tarde, e na época entrevistei muitos técnicos sobre questões do meio ambiente, especialmente o transporte clandestino de carvão extraído de madeiras da caatinga no sertão do sudoeste.

Há anos que a casa se encontra em estado deplorável, caindo aos pedaços dentro de um matagal que mais serve para usuários de drogas e marginais à noite, sem falar da sujeira que atrai todo tipo de insetos, ratos e até mosquitos da dengue. Pelo que demonstra pela placa, trata-se de um patrimônio federal, mas não se sabe qual a ingerência do estado e do município. O local podia muito bem está sendo útil para ocupar uma repartição pública, uma escola, creche, uma entidade ou associação em benefício da população.

 





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