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:: ‘De Olho nas Lentes’

O ARCO-ÍRES E O PÔR-DO-SOL

Nas lentes do jornalista Jeremias Macário, um flagrante poético-mágico da natureza num final de tarde onde a luz cede seu lugar para o anoitecer. Ambas as imagens se reverenciam e se penitenciam com seus significados misteriosos. O Arco-íris é o símbolo da comunidade LGBT, com suas cores de esperança e renovação da vida. Na verdade, essa simbologia é de todos nós quando nos faz refletir sobre nossa pequenez diante das belezas do universo. É o momento do nosso instinto primitivista de ódio e intolerância dar lugar para a paz espiritual, de que devemos respeitar os outros. É o portal para o outro lado do ser.

O pôr-do-sol é como o beijo da luz do dia com o escurecer da noite, com suas cores rajadas de despedida de uma jornada entre nascente e poente, prometendo um novo alvorecer de outro dia. Pode também representar o ciclo da vida: o nascer e a morte onde cada um procura deixar o seu sentido nessa passagem de luz. São duas belas figuras poéticas supremas onde cada um tem um olhar e interpretação diferentes. Dizem que o homem é a imagem do criador, mas, por mais esmero que seja, o pincel humano artístico jamais conseguirá alcançar tal perfeição.

HOMENAGEM ÀS MULHERES

Mais uma vez, como em todos os anos, a Câmara de Vereadores realizou uma sessão especial em homenagem às mulheres conquistenses pela passagem do Dia Internacional da Mulher, nesse 8 de março. Na ocasião, fez a entrega de diplomas “Loreta Valadares” a diversas personalidades femininas da cidade. A sessão foi proposta pela vereadora Lúcia Rocha que falou sobre a participação da mulher na sociedade, mesmo tendo muito ainda a conquistar em vários setores, principalmente na política. Outra questão abordada durante o evento foi o aumento da violência doméstica, que deve ser combatida diariamente. Nos últimos anos, houve mudanças de mentalidades sobre o potencial da mulher em diversos setores, mas, infelizmente, o machismo ainda persiste, dificultando o alcance do ideal igualitário entre os homens. O Brasil ainda é um país patriarcalista, com raízes fincadas nos tempos coloniais, onde o lugar de mulher era na cozinha e só servia para procriar. No entanto, como na antiguidade, a nossa história está repleta de grandes mulheres, inclusive em Conquista e na Bahia. A lista é extensa que serve de exemplo para mostrar que esse pensamento arcaico tem que ser mudado. A maior luta ainda é a conquista da equidade.

MATAGAIS EM TERRENOS VAZIOS

Cobras, ratos, escorpiões, mosquitos da dengue, muriçocas e todos tipos de insetos podem ser encontrados nos matagais dos terrenos vazios espalhados pelos bairros de Vitória da Conquista, e a Prefeitura Municipal não toma nenhuma providência para obrigar os donos desses lotes abandonados a cercá-los e limpá-los. Está na lei, através de sanções, mas o poder público nada faz. Comentei sobre esse assunto em várias oportunidades, e tudo continua no mesmo. Isso é uma vergonha para uma cidade onde existem uns bairristas que a chamam de “suíça baiana”. Depois das chuvas, a situação só fez piorar. Não é somente o matagal. Esses terrenos vazios se transformaram em verdadeiros depósitos de doenças e animais peçonhentos. Como se não bastasse o IPTU, a Câmara de Vereadores aprovou a taxa de lixo, mas silencia diante desse quadro de horror e ameaças para quem mora ao lado e nas proximidades desses matagais. Além de lixo, entulhos e insetos perigosos, esses locais servem de coito para bandidos praticarem seus assaltos, inclusive de dia. Durante à noite, ninguém se atreve passar ao lado de um matagal desse. Cadê o Código de Postura? Cadê o Plano Diretor Urbano? O gato comeu a língua deles. Paga-se muito, e não se recebe quase nada do governante. Esse é um dos matagais que pode ser visto na Rua “G”, ao lado do número 296, bairro Filipinas, ou Jardim Guanabara, saído das lentes do jornalista Jeremias Macário.

FARTURA TEMPORÁRIA

Se nunca deram importância para a revitalização e recuperação ciliar das margens do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, castigado há séculos pelas mãos predadoras do homem, imagine agora que ele está cheio pelas chuvas fortes que bateram nos últimos meses em seus afluentes de Minas Gerais e Bahia! A mídia faz festa de imagens dizendo que tudo é fartura, mas não questiona que essa bonança pode ser temporária. Esquecem que há dois ou três anos, o “Velho Chico” estava seco e pedindo socorro, como um doente terminal de UTI. Basta São Pedro mandar chuvas, para não mais se falar em processo de recuperação e revitalização! É mais um motivo para acomodação com a Barragem de Sobradinho transbordando mais de três mil metros de água por segundo. E quando vier uma nova seca? Com certeza, toda essa fartura vai se acabar, e o nosso rio nordestino pode até morrer de vez! Vamos, então, ouvir aquela mesma lengalenga e lamento de sempre, de que é preciso tomar providências urgentes para salvar o “Velho Chico”. Até quando vamos ficar dependentes do tempo da abundância das chuvas? Essa fartura pode apenas ser temporária!

SEMPRE MODERNO

Embora secular, desde os tempos medievais quando os poetas viajantes passavam em versos as notícias de histórias e estórias de grandes lendas, personagens, povos e acontecimentos de regiões longínquas, o cordel, originário da Península Ibérica, sempre foi um gênero moderno porque a sua essência é popular onde todos entendem suas mensagens. Do parnasiano, do impressionismo, dadaísmo, simbolismo ou expressionismo, ele é sempre único. O cordel já nasceu modernista, pena que muitos acadêmicos metidos a besta torcem a cara, e poucos colocam o tema em suas teses. O cordelista nasceu repórter-jornalista porque, de uma forma ou de outra, jocosa ou não, passa as notícias para o povo dos nossos sertões nordestinos. O cordel sempre esteve à frente das redes socais da internet. Ele está representado na exposição de mais de 20 artistas, no Memorial Regis Pacheco, que homenageia a Semana de Arte Moderna de 22, mas, infelizmente, a mídia pouco faz referência. É uma total indiferença!

DOIS ANOS SEM SARAU

Em “quando tudo isso vai se acabar” foi título de um recente comentário feito por mim sobre os estragos que esse estranho vírus chamado Covid-19 provocaram em nossas vidas, não somente em termos de milhões de mortes que abalaram nosso planeta, mas também das interrupções dos nossos encontros e atividades. Estava aqui lembrando que, justamente no dia 7 de fevereiro de 2020, realizamos nosso último Sarau Colaborativo, em nosso Espaço Cultural A Estrada, cujo tema principal foi “Carnaval”. Portanto, são dois anos sem o nosso saudoso Sarau que, além da diversão e da confraternização, nos oferecia a troca de conhecimento e saber através das discussões, da música, da poesia, da contação de causos e do intercâmbio de ideias.  De lá para cá, tentamos duas vezes nos intervalos dos ciclos de baixas da pandemia, mas, infelizmente, não deram certo. Confesso que o nosso acervo, ou o nosso espaço cultural, sente um grande vazio espiritual, e os próprios escritores e toda arte que nele habitam dizem o mesmo. Tudo é uma solidão sem aquelas energias que transmitiam mais vida naquelas noites etílicas do respirar cultural. No lugar de quando esse vírus vai se acabar, indagaria se o nosso Sarau se acabou? Ainda existe espaço para Ele? Irá retornar com a mesma força de antes? Quando? São várias as interrogações, e uma delas é se as pessoas, com as quais convivemos por dez anos, ainda estão interessadas em reativar nossos encontros, ou simplesmente foi “amor eterno enquanto durou”, como sentenciou o poeta cancioneiro Vinícius de Morais? A reflexão e as respostas deverão ser respondidas pelos próprios participantes que construíram esse lindo elo. Será que ele foi partido?

MAIS POBREZA NAS RUAS

A pandemia da Covid-19 nos últimos dois anos, a alta da inflação, a crise na economia, o desemprego alarmante e o desgoverno de um capitã-presidente destrambelhado colocaram mais pessoas na ruas com o aumento da pobreza e da miséria. Calcula-se que mais de 50% da população brasileira de mais de  200 milhões de pessoas estejam vivendo no nível de pobreza e de extrema pobreza por causa desses fatores.   Na verdade, estamos num país rico de pobres onde a cada dia mais gente vai morar nas ruas. É uma população invisível, sem cidadania, que a nossa sociedade, com seu egoísmo burguês elitista, construiu ao longo da nossa história. A concentração de renda cada vez mais acentuada fez do nosso Brasil ostentar o vergonhoso título de um dos piores índices de desigualdade social do planeta. Diante desse quadro macabro, não podemos dizer que temos uma real democracia.

NA ESPERA DA ÁGUA E DA COMIDA

Ulisses, depois da Guerra de Troia, passou dez anos vagando pelo mar (Odisseia de Homero) onde enfrentou batalhas, monstros e encontrou amores. Quando retornou à sua terra na Grécia, seu cachorro rosnou quando o viu, levantou-se e foi morrer em seu canto. Seu escravo, no entanto, não o reconheceu. Uma prova da fidelidade e do apego do cão ao seu dono, que atualmente abandona esses animais nas ruas das cidades, com sede e fome, caso específico de Vitória da Conquista. A imagem na foto, clicada pelo jornalista e escritor jeremias Macário, diz tudo, bem como o título acima “na espera da água e da comida”. Esses cachorros de rua dependem que alguém, com sua generosidade, ofereça algum alimento e água. Estressados, doentes, com pernas quebradas em acidentes, famintos e se arrastando eles ficam perambulando pelas ruas e avenidas porque alguém, sem nenhuma piedade, jogou seu fiel amigo para fora de casa. É um crime, mas não existe punição para quem faz isso. Outros fazem isso por falta de condições financeiras de mantê-los em casa por causa da crise econômica e social. São também vítimas da miséria no país. Muitos abrigos particulares de acolhimento já estão cheios, e o poder público nada faz para protegê-los. Há muito tempo que se fala na construção de uma casa de zoonose para tirar esses animais das ruas. Eles são vistos em todos lugares por onde se passa em Conquista, principalmente no centro, como no Terminal Lauro de Freitas (Estação Hérzem Gusmão). Estão sempre na espera de que alguém dê água e comida para, pelo menos, continuarem vagando, e ainda tem gente que apedreja e dar chutes quando um deles late ou está cruzando com uma fêmea, como se fossem culpados.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS

A paisagem clicada pelas minhas lentes pode ser feia ou bonita, mas isso depende do ponto de vista de cada um. O colorido também pode ser sem graça e até triste para alguns. Mesmo entre os engaços e bagaços da terra árida do sertão nordestino, sempre existe uma ponta de verde em alguma árvore no cenário cinzento de pedregulho, como se fosse um tufo de esperança para o homem resistente às secas. Não é somente o cacto e o mandacaru que aguentam a sequidão e sobrevivem às intempéries. Com as recentes chuvas que bateram em praticamente todas regiões, imaginamos essa imagem verde, mas é só o sol voltar a castigar e tudo volta ao mesmo estado, como no ciclo da vida de altos e baixos. Como a lente de uma máquina fotográfica, nosso eu interior a tudo registra, o verde e o seco, os bons tempos e os ruins, e temos que seguir em frente para não afogarmos no deserto, nem perecermos nas águas.

O NINHO

Estava nesta semana podando minha árvore de flores (ela já estava quase tombando ao chão do quintal) onde pousa o beija-flor e cantam os passarinhos. A poda tinha que ser feita, mas fazia aquilo com pesar porque por uns tempos lá se vão meus pássaros que todos dias aparecem e me saúdam com bons presságios. Quando partia para o outro lado, deparei com um ninho e, por pouco, minha faca não o atingiu. Tive que interromper o restante do corte para deixar que a natureza e a vida sigam seu curso. Não vai demorar muito para ter outras aves para me alegrar nesses momentos tão difíceis. A minha árvore logo vai voltar a florir e, com certeza, abrigar outros ninhos da vida.





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