novembro 2026
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

:: ‘De Olho nas Lentes’

ENTARDECER FUMACENTO

O que poderia ser uma nuvem encobrindo o entardecer de mais um pôr-do-sol, transmitindo uma bela imagem da natureza, é a fumaça de mais uma queimada nos arredores de Vitória da Conquista, poluindo o nosso meio ambiente e contaminando as pessoas. É fim de dia e o começo do escurecer que sinaliza o final de mais uma jornada do trabalhador, alívio do dever cumprido rumo ao aconchego da sua casa. Diferente do campo, o homem da cidade tem agora que enfrentar um trânsito até a sua residência, correndo o perigo de um acidente ou um ato de violência. O tempo gira porque o amanhã começa novamente, numa rotina que se repete. Quando não é a fumaça do fogo consumindo nossa vegetação, os habitantes da zona urbana ainda têm que respirar a fuligem tóxica que sai dos canos dos automóveis e motos, sem contar o gás das chaminés das indústrias que se mistura no ar. O nosso entardecer está ficando cada vez mais fumacento, como se vê nessa imagem captada pelo jornalista Jeremias Macário.

SÃO SALVADOR DA CIDADE BAIXA

Foto de Jeremias Macário

Uma imagem da Cidade Baixa da capital São Salvador onde estão localizados o Mercado Modelo, o Museu do Som, o imponente Elevador Lacerda, a Marinha e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Saudades das festas de largo. Bem nessa encosta da montanha, as ondas das águas do mar batiam no entorno da velha “serra do índio tupinambá”, quando aqui chegou o primeiro governador Thomé de Souza. Com o tempo, o mar foi sendo empurrado para mais distante, dando lugar a moradias, e depois prédios comerciais, bancos, um porto mais moderno, empresas de exportação e importação, lojas, bares e restaurantes, a Associação Comercial e outras instituições, como a sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia. Até os anos 80, o local representava o centro comercial e financeiro da capital, mas tudo isso depois foi deslocado para as bandas da hoje Avenida Bonocô, Iguatemi e Centro Administrativo, na Paralela, destruindo boa parte da Mata Atlântica.  É o progresso desumanizando a vida e impactando o meio ambiente. Lembro muito bem dessa efervescência capitalista quando era repórter de economia do jornal “A Tarde”, e era ali onde estava minha principal matéria-prima das reportagens jornalísticas do dia a dia. Conheci, praticamente, cada edifício, andar por andar onde estavam instaladas minhas fontes. Numa época, entre os anos 90 e 2000, a chamada Cidade Baixa virou uma cidade fantasma, só tomando novo impulso de atividades nos últimos anos, mas ainda de forma tímida. Mesmo assim, ali ainda reside a história da Baia de Todos os Santos da São Salvador.

OS FRUTOS DA TERRA

Como é bom plantar e colher os frutos da terra com seu próprio suor; ver e sentir a árvore brotar! Tudo isso faz lembrar a canção “Cio da Terra”, do nosso grande compositor e cantor Milton Nascimento, como na voz do Quinteto Violado. O flagrante das minhas lentes dessa obra da natureza vem lá do sítio do meu amigo Robson. No entanto, o homem é perverso e cruel com a nossa mãe terra, jogando nela o veneno dos agrotóxicos, derrubando e incendiando as florestas. Maldito seja quem não cuida bem do nosso chão, e dele só visa tirar o lucro do capital! Não são esses gananciosos dos grãos e dos bois de exportação que nos alimentam, mas o pequeno agricultor familiar que dá duro, enfrenta a seca e espera a chuva para lançar as sementes da esperança. Os gananciosos do dólar e dos altos preços, que destroem a natureza, deveriam ser amaldiçoados para sempre. Molhar o solo, colher os frutos da terra é como fazer uma poesia bem carregada de palavras, sentimentos e emoções da vida, bem diferente daqueles que matam a terra.

 

NOSSOS MUSEUS!

Nesta semana foi celebrado o “Dia Nacional do Museu”, tão pouco visitado no Brasil, tanto quanto a leitura de livros, o que denota que ainda somos um país atrasado culturalmente e, por consequência, não alcançamos um nível mais civilizado como em outras nações. Sem educação e cultura, não existe desenvolvimento. Vitória da Conquista não é uma exceção. Aqui temos o Museu Padre Palmeiras, o Museu Regional, as esculturas de Cajaíba, que estão no topo da Serra do Periperi, e agora o Museu de Kard, o maior do Norte e Nordeste a céu aberto, montado com recursos próprios do artista plástico Alan Kardec. Para o porte da cidade, com cerca de 400 mil habitantes, ainda são poucos. Mesmo assim, essas unidades, que guardam nossa história e conhecimento da arte, são raramente visitadas pelos seus moradores, a não ser algumas vezes por estudantes e professores, para cumprirem deveres escolares. Nos países europeus, eles são fontes de saber e renda. Estão sempre abertos, inclusive nos finais de semana. Aqui no Brasil, especialmente na Bahia e em Conquista, são fechados nesses dias, justamente quando deveriam estar com suas portas abertas. Além do mais, são mal preservados porque os governantes em geral não dão importância para a cultura. Tratam a arte como coisa secundária, sem valor. Os monumentos estão se perdendo com o tempo, como no caso do Cristo de Mário Cravo que pode vir abaixo por falta de manutenção.

ROLINHAS E O PERFUME DAS FLORES

Na barafunda das cidades de concreto, do corre-corre e do vaivém das multidões, cada um com seus problemas existenciais, ainda existe um pouco de verde que acolhe nossas aves, inclusive do nosso sertão catingueiro, como as rolhinhas que, vez por outra, visitam meu modesto quintal, talvez atraídas pelo perfume das flores. Outros pássaros aqui pousam para cantarolar, principalmente ao amanhecer e no poente, para sugar o néctar do café da manhã e do jantar antes do pernoite. O flagrante das nossas lentes sempre está a registrar esse aconchego da natureza que faz acalmar nossos espíritos atribulados diante de tantos fatos desumanos que não se cansam de acontecer. Tudo isso nos faz refletir mais e mais sobre a malvadeza do homem contra o nosso meio ambiente, o qual está sendo, pouco a pouco, destruído pela ignorância e ambição gananciosa desse capital assassino que só visa o consumismo. Quando a harmonia entre o homem e a natureza se esvai, é sinal de que o fim está se aproximando. Abençoados sejam as rolinhas e o perfume das flores do meu quintal.

A VOLTA DA SECA

Choveu bastante em Vitória da Conquista no final do ano passado e até nos primeiros dias de 2022, mas basta uma curta estiagem para a seca voltar com toda força nos distritos do semiárido do município. Aliás, a maior parte do perímetro de Conquista é caatinga, que não se sustenta com um ou dois meses de sol após uma chuvarada. A terra volta a estorricar, o sertanejo perde suas lavouras e a água se evapora rápido dos tanques, como o da foto clicada pelo jornalista Jeremias Macário, lá pelas bandas de “José Gonçalves”.  Do verde, a paisagem muda de cor para o cinzento, e os carros-pipas retornam a cortar as estradas poeirentas para matar a sede humana e dos animais. É assim a vida de quem labuta no sertão. O solo não aguenta sustentar as chuvas por muito tempo, e tudo volta novamente, como se fosse um castigo dos céus. No entanto, a esperança, a fé e a vontade de continuar tentando nunca se acabam. Foi-se a lama nas estradas e voltou a poeira que sempre persiste por mais tempo, principalmente com o aquecimento global que o próprio homem provoca com sua maligna insensatez de se autodestruir.

“ÁRVORE DA VIDA”

Vitória da Conquista foi visitada na semana passada por uma carreta de livros, estacionada na Praça Barão do Rio Branco, chamada de “Expolivro Árvore da Vida”, iniciativa de comunidades religiosas que percorrem o país disseminando a leitura por onde chega. A recepção na cidade foi muito boa, além das expectativas, segundo o coordenador do projeto, Tito Furtado. Estive lá no sábado passado para conhecer o ambiente e me senti mais esperançoso quando constatei a presença de um grande público de crianças ávidas e felizes ao manusear os livros, o que é um bom sinal para o nosso futuro, tão incerto nos tempos atuais quando se tem um governo que chega até a criminalizar a cultura. Não importa que sejam livros de cunho religioso, desde que não sejam fundamentalistas que procurem impor nos pequenos uma doutrina única, mas que abram as cabeças para condenar a intolerância e aceitar o pensar do outro, sem ódio e xingamentos.

O VERDE E O CONCRETO

Em meio a esta selva de pedras e o concreto, ainda temos um pouco de verde para suavizar a vida. A correria é tão grande que quase ninguém para numa praça para admirar uma planta florida e relaxar seu espírito carregado de problemas do dia a dia, quer sejam financeiros, materiais ou da própria alma. Mesmo com a linda Praça Tancredo Neves, que serve de acolhimento para os passantes, inclusive para uma reflexão sobre donde viemos e para onde vamos, Vitória da Conquista ainda é carente de mais verde, principalmente em certos pontos do centro, como na Avenida Siqueira Campos, que poderia ser uma alameda de árvores de espécies da região. A Brumado, a Frei Benjamim e a própria Juracy Magalhães são outras avenidas desprovidas do verde. Não é somente fazer canteiros e ciclovias de concreto. A natureza tem que vir em primeiro lugar. Ao invés do eucalipto, bem que o bosque ao lado do Parque de Exposições poderia ser mais fresco, úmido e bonito se fosse preenchido com outras espécies do nosso sertão. O verde ameniza a dureza do concreto.

A REFORMA DO “CRISTO”

Assim como o Teatro Carlos Jheová e outros equipamentos que já fazem parte do nosso patrimônio cultural e precisam de atenção especial para que não pereçam, a obra do “Cristo de Mário Cravo”, lá no ponto mais alto da Serra do Periperi, necessita, com urgência, de uma reforma em sua estrutura para que não venha a ser corroído pelo tempo. Quer chova, faça frio, neblina, calor e sol, lá está o monumento ao Cristo nos oferecendo uma visão privilegiada da cidade, principalmente o pôr-do-sol deslumbrante. Por várias vezes já esteve abandonado ao ponto do local não ser recomendado a visitantes por causa do perigo de assaltantes. Passaram-se governantes e vários projetos foram propostos, como até a construção de um bonde ligando o Cristo ao centro da cidade, mas, a maioria ficou no meio do caminho. Era para ser o cartão postal mais visitado de Vitória da Conquista, inclusive com a implantação de um restaurante e outros serviços, como existe no Rio de Janeiro. Fizeram alguns reparos, mas o tempo está a exigir uma reforma mais completa, pois corre o risco de ser completamente deteriorado.

O maior Cristo crucificado do mundo, com 33 metros de altura, foi instalado, em 1980, na data do aniversário de Vitória da Conquista (9 de novembro). Com o abandono, o local chegou a se transformar num covil de ladrões. Até hoje continua sendo pouco visitado pelos moradores e turistas que passam por Conquista. Devido ao seu isolamento, ainda persiste aquele receio de assalto. Por isso, não se trata apenas da reforma do Cristo, que não é do artista Mário Cravo, mas de todo Planalto da Conquista e sua região. É também de todos baianos e brasileiros. Além da estátua, o local carece de urbanização e projetos de infraestrutura ambiental e turística.

 

EM PLENO VOLUME

  FotoATardedivulgaçãoIvandeAquino

Depois de 16 anos, a Barragem de Sobradinho, no norte do estado, próximo a Juazeiro, alcançou seu pleno volume de água (100% da sua capacidade). Nesse período, sofreu também sua pior baixa por causa da seca e da degradação do Rio São Francisco pelo homem que, ao invés de revitalizá-lo, prefere dele tudo extrair sem repor e preservar, principalmente suas margens. No dia 31 de março teve sua vazão defluente reduzida de três mil metros cúbicos por segundo para 1.500. Todo processo é controlado pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf. Com isso, houve uma baixa no nível de água que invadiu vários bairros de cidades ribeirinhas. O reservatório foi construído na década de 1970 com a finalidade de produzir energia elétrica e acumular água para o consumo das populações locais, bem como irrigar plantações de frutas e outras lavouras da região. O aproveitamento dessa água beneficia toda sociedade, principalmente os pequenos produtores. Mesmo assim, o Comitê da Bacia do Lago de Sobradinho, que abrange 11 municípios, vem cobrando do governo federal que seja feito um estudo geológico do fundo da barragem, para calcular o volume de sedimentos decantados para o leito desde a edificação do lago, que não tem mais 34 bilhões de metros cúbicos devido ao assoreamento. Essa situação ocorre pela falta de mata ciliar em longos trechos do reservatório e em toda extensão do “Velho Chico”. Com certeza, esse governo que destrói o meio ambiente não vai fazer estudo nenhum.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia