:: ‘De Olho nas Lentes’
TEATRO PEDE SOCORRO
É tanta falta de sensibilidade para com a cultura (a alma da vida) neste país, que o “Teatro Carlos Jheovah”, em Vitória da Conquista, na Praça da Bandeira, construído em 1982, está em péssimas condições físicas, ao ponto do seu uso não ser recomendado, pois corre risco de desabamento. Por fora ainda corre boatos, por conta de especulações do setor imobiliário, de que o equipamento pode ser demolido pela Prefeitura Municipal. Seria mais um ato insano e a morte de uma alma cultural que alimenta saber, conhecimento e entretenimentos. Ao seu lado, o mercado de artesanato também se encontra em grave situação, e muitos artistas denunciam ações de despejos por parte de prepostos do poder público. Para salvar esses sagrados locais, um grupo de jovens está se mobilizando, inclusive junto à sociedade, entidades, Câmara de Vereadores e outras instituições, no sentido de que o executivo agilize, com urgência, a reforma do teatro e do mercado. É triste ver mais uma vez um espaço cultural pedir socorro para não desaparecer. A cultura deveria ser a nossa joia mais preciosa, quando, na verdade, não passa de um pato manco nos gabinetes dos governantes. Todos os dias ela está sendo ultrajada, como se fosse uma criminosa de alto risco para o nosso povo.
QUAL O CAMINHO?
Fotos de JeremiasMacário(Mack Geremy)
A vida é cheia de indecisões e medos, mesmo no avançar da idade. Quantas vezes ficamos sem saber qual o caminho a tomar, seja no amor, na escolha da profissão, na política, no âmbito econômico, em que lugar viajar nas férias e até em quem votar. São desafios que surgem em nossa frente, e somos obrigados a tomar uma posição. O pior é ficar parado com receio da atitude não dar certo. Temos que ter coragem para arriscar, porque só vamos saber se vai dar certo depois que se vai em frente e se chega lá. Triste é de quem sempre fica em cima do muro. Esse não merece viver, e já morreu e não sabe. Mesmo que lá na frente haja um tropeço, e não foi aquilo que esperava, há tempo de se fazer a correção. Além do mais, a tomada de direção serve como amadurecimento para se errar menos. A vida é cheia de escolhas. Qual o caminho a tomar? Em muitas vezes, e a depender do problema, não se pode apenas usar a razão. Em certos casos conta mais a emoção que nasce do coração. Qual o caminho?
MINHAS ARTES!
Entre um texto político, social ou qualquer assunto que vier na cabeça, uma leitura e uns versos sobre a vida, vou temperando o tempo com minhas artes de marcenaria (herança do meu velho sábio pai) e algumas “esculturas” trançadas de cipó que aproveito do muro do terreno vazio, por sinal cheio de entulhos, vizinho da minha casa. Assim vou ocupando esse vazio existencial brasileiro, turbinado de ódio e intolerância nas redes sociais (não tenho smartphone). O passatempo resultou em mais de dez peças, entre elas mesas, estantes, bancos, cinco esculturas de cipó ,e a aventura de montar um oratório que, na minha concepção, terminou sendo uma capela-oratório. E olha que nem tenho religião! Assim vou cumprindo o meu dever de passageiro da vida, circulando num trem que ainda não chegou à minha estação de saltar. Do espaço das janelas vou apreciando as paisagens, umas secas, áridas, outras verdes floridas, morros, planaltos e planícies, ora com momentos alegres, tristes e melancólicos. Não faltam as reflexões, e só delas esqueço quando estou fazendo alguma coisa na espera do meu destino. Não sei o que virá depois, e se terá amanhã, mas vou fazendo as minhas artes.
“O ÚLTIMO DOS MOICANOS”
Fotos de Jeremias Macário
Por que o Cine Madrigal, o último dos moicanos dos cinemas de rua de Vitória da Conquista, dentre tantos outros que fizeram história na cidade e na Bahia, está sob a gestão da Secretaria de Educação e não com a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer? É uma pergunta que somente o poder público municipal pode responder, porque não tem cabimento se o equipamento tem tudo para estar no setor da cultura. Quando aqui cheguei era o último que ainda resistia à crise provocada pelos DVDs, onde as pessoas passaram a preferir assistir filmes no conforto de suas casas. Assisti grandes filmes no saudoso Cine Madrigal, que há anos está fechado, mesmo depois da aquisição do equipamento pela Prefeitura Municipal. Soube que seria reativado nos festejos dos 181 anos do aniversário de Conquista, o que não ocorreu. A sociedade continua na expectativa sobre o seu destino o quanto antes. Lamentável que essas decisões não contam com uma consulta popular, inclusive dos segmentos que representam a arte e cultura.
O TOMATEIRO E A PRAÇA
Em plena praça, no centro da cidade de Vitória da Conquista, que no último dia 9 completou 181 anos, na Barão do Rio Branco, o tomateiro dá seus frutos em meio à poluição dos carros e à agitação do vai-vem das pessoas que passam sem perceber a presença da natureza nos brindando com essa cultura, tão apreciada na mesa dos brasileiros. É um sinal de que o meio ambiente ainda resiste, apesar da depredação do homem com as derrubadas e queimadas das florestas, provocando o aquecimento global. Soube que uma senhora até já colheu alguns tomates que, por sinal, são vítimas dos altos preços inflacionários devido, sobretudo, a escassez do produto no campo. Ele está ali meio que solitário, mas produzindo e já alimentou alguém que percebeu sua presença num pequeno espaço de terra na vastidão do concreto. Agora com as últimas chuvas que caíram em Conquista, ele está mais viçoso e pronto para gerar mais frutos. É uma dádiva da natureza que o ser humano não sabe reconhecer.
A DOR DA FINITUDE
Fotos de Jeremias Macário
Os filósofos e cientistas sempre se debateram e se debruçaram sobre a questão da morte desde quando a vida surgiu na terra há bilhões de anos. Uns apostam que ela, como matéria a partir do átomo, é apenas o final de um ciclo passageiro da vida. Outros, como os pensadores gregos espiritualistas, que ela é a continuação da vida. No espiritismo e no universo iorubá existe a crença da reencarnação. Não importa, ela é dor da finitude, como nesses versos do jornalista e escritor Jeremias Macário. Há quem recomenda não se ter tristeza, mas saudade no peito quando se perde um ente querido. Os mexicanos e outras culturas fazem festas. De qualquer forma, é tudo mistério e confusão, como já expressou Fernando Pessoa.
Dizem que a morte é matreira;
É o líquido eterno da vida finita;
Outro que é o amargo sem sentido,
E que a vida é sombra passageira,
Que traz na lida a dor da finitude,
Com seu baú de coragem e medo,
Nos laços do intrincado segredo.
A finitude pode até curar sua dor;
O sábio manda conhecer a ti mesmo;
Um que nada muda em sua forma;
O outro que tudo vai e se transforma;
Você se depara com o ser ou não ser,
E o poeta na sua escala fora dessa bitola
Não se conforma e se embriaga no amor.
Tudo passa, é mutável e se transforma,
Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão,
Nada começa, nada se acaba, nada torna;
A flecha que voa está parada lá no ar;
É tudo finito, infinito, mistério e confusão,
E uns preferem o delírio etílico da festa;
Mergulhar nas ondas que se quebram no mar.
UM LUGAR ACONCHEGANTE!
Com muito trabalho e sacrifício, o nosso amigo e companheiro, mais conhecido como Jhesus, frequentador assíduo do nosso “Sarau a Estrada”, que em breve estará de volta com o nosso pessoal, montou, no Bairro Jurema (primeira travessa na subida da Avenida Bartolomeu em direção à Rodoviária), o bar e restaurante “Rancho Imperial”, um lugar agradável e aconchegante para se relaxar e bater um bom papo com amigos e pessoas amadas. Estive lá (foto de Jeremias Macário) com minha esposa Vandilza Gonçalves e adorei o ambiente de uma boa música nos finais de semana. Quem já foi gostou e voltou para comemorar, tomar umas geladas e comer um tira-gosto, principalmente de uma porção de quibe preparado pelo próprio Jhesus, admirador e declamador dos poemas do nordestino Querino. É uma boa pedida para aliviar o estresse do trabalho de semana e ouvir as cantorias de grandes artistas locais que primam pela música popular brasileira de bom gosto.
Por falar em Sarau, depois de quase dois anos fora do circuito cultural por causa da pandemia, planejamos fazer um reencontro na primeira semana de dezembro, de forma descontraída para matar as saudades desse tempo de separação obrigatória. Esperamos contar com as presenças de todos companheiros (vacinados com a segunda dose), inclusive de Jhesus, o mais novo empresário da noite conquistense.
“SAINDO DO ARMÁRIO”
Uma exposição da nossa companheira colega jornalista-fotógrafa, Edna Nolasco, realizada na Casa do Idoso, retratou o mundo LGBT como muita propriedade e beleza de imagens extraídas das suas lentes, por sinal a sua maior especialidade quando no manejo da máquina fotográfica, na escolha certa da luz e da sua expressividade. Um trabalho muito bonito e sensível feito em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Fotografia é como poesia, e Edna sabe muito bem fazer isso. Pelo seu tempo de atuação na área e experiência, ela já é, sem dúvida, uma fotógrafa baiana consagrada pela sua sensibilidade no olhar e registrar os fatos e acontecimentos. Em “Saindo do Armário” é mais uma de suas exposições que nos encanta por saber entrar na alma da natureza humana, no caso específico do tema em questão, mas sua lente se move também em outros assuntos do fotojornalismo. Edna aprendeu a clicar certo no momento certo, e isso, por si só, é uma arte de uma grande artesã da fotografia de Conquista e da Bahia.
A MISÉRIA E A BAIA DE TODOS OS SANTOS
De um lado a miséria brasileira que bate nos portões do Palácio Rio Branco, em Salvador, sede de muitos governos desde o primeiro Thomé de Souza, que nunca resolveram as gritantes desigualdades sociais, apesar das promessas políticas de esperança. Faltam prioridades nas políticas públicas, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Do outro lado, a bela paisagem da Baía de Todos os Santos que deixa soteropolitanos e turistas deslumbrados e encantados com tanta beleza. Ambas as imagens são históricas em nossas vidas, mas, com relação à primeira, milhares passam por ela todos os dias e nem olham. São indiferentes. Quanto a segunda, todos param para olhar e tirar fotos de recordação. São contrastes captados pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário em sua última visita à capital, no mês passado. A miséria é cada vez mais agravante, o que condena o Brasil a ser um dos piores na colocação do desenvolvimento humano, A Baia de Todos os Santos, descoberta há mais de 500 anos, foi degradada pela ação do homem e sofre os efeitos da poluição e do aquecimento global.
TÚNEL BAMBUZAL
Fotos de Jeremias Macário
Quem vai ao Aeroporto Internacional Dois de Julho (assim prefiro denominá-lo em repúdio ao nome histórico trocado por de um político), ou dele desce e segue de carro se depara com um belo túnel bambuzal construído pela própria natureza há muitos anos, só que dá pena porque as árvores carecem de maiores cuidados. Muitos dos bambus que formam o túnel estão prestes a cair e pode ser um risco para quem transita por aquela via que passa uma sensação de calma na alma de qualquer pessoa. Sempre me deixa encantado todas as vezes que entro ali, principalmente quando morava em Salvador. É como se você se sentisse uma outra pessoa, onde logo na entrada o bambuzal varre do seu espírito todos problemas da vida, e o corpo fica mais leve. Pode ser chamado de um pequeno grande túnel da poesia, da natureza e do bem-estar. Sem dúvida, esse túnel é um dos mais bonitos cartões postais da capital, e não há turista viajante desconhecido que não dê aquela suspirada e diga: Que coisa mais linda! Mesmo assim, imagina que já chegaram a cogitar na derrubada daqueles bambus que tanto deixam as pessoas fascinadas! Isso mostra como o ser humano é perverso e insensível. No lugar de cobrar das autoridades mais zelo e preservação, tem gente que prefere a destruição. Confesso que a pressa não me deixou captar melhores imagens da minha máquina, mas a sensação de encantamento é sempre mais forte quando caio naquele túnel verde. Sempre é como se fosse a primeira vez.


























