:: ‘De Olho nas Lentes’
UM LUGAR ACONCHEGANTE!
Com muito trabalho e sacrifício, o nosso amigo e companheiro, mais conhecido como Jhesus, frequentador assíduo do nosso “Sarau a Estrada”, que em breve estará de volta com o nosso pessoal, montou, no Bairro Jurema (primeira travessa na subida da Avenida Bartolomeu em direção à Rodoviária), o bar e restaurante “Rancho Imperial”, um lugar agradável e aconchegante para se relaxar e bater um bom papo com amigos e pessoas amadas. Estive lá (foto de Jeremias Macário) com minha esposa Vandilza Gonçalves e adorei o ambiente de uma boa música nos finais de semana. Quem já foi gostou e voltou para comemorar, tomar umas geladas e comer um tira-gosto, principalmente de uma porção de quibe preparado pelo próprio Jhesus, admirador e declamador dos poemas do nordestino Querino. É uma boa pedida para aliviar o estresse do trabalho de semana e ouvir as cantorias de grandes artistas locais que primam pela música popular brasileira de bom gosto.
Por falar em Sarau, depois de quase dois anos fora do circuito cultural por causa da pandemia, planejamos fazer um reencontro na primeira semana de dezembro, de forma descontraída para matar as saudades desse tempo de separação obrigatória. Esperamos contar com as presenças de todos companheiros (vacinados com a segunda dose), inclusive de Jhesus, o mais novo empresário da noite conquistense.
“SAINDO DO ARMÁRIO”
Uma exposição da nossa companheira colega jornalista-fotógrafa, Edna Nolasco, realizada na Casa do Idoso, retratou o mundo LGBT como muita propriedade e beleza de imagens extraídas das suas lentes, por sinal a sua maior especialidade quando no manejo da máquina fotográfica, na escolha certa da luz e da sua expressividade. Um trabalho muito bonito e sensível feito em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Fotografia é como poesia, e Edna sabe muito bem fazer isso. Pelo seu tempo de atuação na área e experiência, ela já é, sem dúvida, uma fotógrafa baiana consagrada pela sua sensibilidade no olhar e registrar os fatos e acontecimentos. Em “Saindo do Armário” é mais uma de suas exposições que nos encanta por saber entrar na alma da natureza humana, no caso específico do tema em questão, mas sua lente se move também em outros assuntos do fotojornalismo. Edna aprendeu a clicar certo no momento certo, e isso, por si só, é uma arte de uma grande artesã da fotografia de Conquista e da Bahia.
A MISÉRIA E A BAIA DE TODOS OS SANTOS
De um lado a miséria brasileira que bate nos portões do Palácio Rio Branco, em Salvador, sede de muitos governos desde o primeiro Thomé de Souza, que nunca resolveram as gritantes desigualdades sociais, apesar das promessas políticas de esperança. Faltam prioridades nas políticas públicas, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Do outro lado, a bela paisagem da Baía de Todos os Santos que deixa soteropolitanos e turistas deslumbrados e encantados com tanta beleza. Ambas as imagens são históricas em nossas vidas, mas, com relação à primeira, milhares passam por ela todos os dias e nem olham. São indiferentes. Quanto a segunda, todos param para olhar e tirar fotos de recordação. São contrastes captados pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário em sua última visita à capital, no mês passado. A miséria é cada vez mais agravante, o que condena o Brasil a ser um dos piores na colocação do desenvolvimento humano, A Baia de Todos os Santos, descoberta há mais de 500 anos, foi degradada pela ação do homem e sofre os efeitos da poluição e do aquecimento global.
TÚNEL BAMBUZAL
Fotos de Jeremias Macário
Quem vai ao Aeroporto Internacional Dois de Julho (assim prefiro denominá-lo em repúdio ao nome histórico trocado por de um político), ou dele desce e segue de carro se depara com um belo túnel bambuzal construído pela própria natureza há muitos anos, só que dá pena porque as árvores carecem de maiores cuidados. Muitos dos bambus que formam o túnel estão prestes a cair e pode ser um risco para quem transita por aquela via que passa uma sensação de calma na alma de qualquer pessoa. Sempre me deixa encantado todas as vezes que entro ali, principalmente quando morava em Salvador. É como se você se sentisse uma outra pessoa, onde logo na entrada o bambuzal varre do seu espírito todos problemas da vida, e o corpo fica mais leve. Pode ser chamado de um pequeno grande túnel da poesia, da natureza e do bem-estar. Sem dúvida, esse túnel é um dos mais bonitos cartões postais da capital, e não há turista viajante desconhecido que não dê aquela suspirada e diga: Que coisa mais linda! Mesmo assim, imagina que já chegaram a cogitar na derrubada daqueles bambus que tanto deixam as pessoas fascinadas! Isso mostra como o ser humano é perverso e insensível. No lugar de cobrar das autoridades mais zelo e preservação, tem gente que prefere a destruição. Confesso que a pressa não me deixou captar melhores imagens da minha máquina, mas a sensação de encantamento é sempre mais forte quando caio naquele túnel verde. Sempre é como se fosse a primeira vez.
BEM ACOMPANHADO
“Viva o Povo Brasileiro” é uma das obras-primas do jornalista e escritor baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, que fala das nossas origens ancestrais, mistura do índio com o português, o negro, o turco sírio-libanês e do nosso caboclo. Esse caldeirão de ingredientes, para muitos indigesto, gerou a nossa cultura miscigenada. Em homenagem ao grande escritor, foi erguido na Praça da Luz, na Pituba, uma estátua onde ele apresenta a premiada obra. Até aí tudo bem, mas o inusitado é o personagem do idoso morador anônimo de rua que praticamente passa todo dia ao seu lado, como um vigia ou escutador das imortais palavras do escritor de tantos livros, artigos e crônicas em jornais e revistas. No flagrante da sua máquina fotográfica, o jornalista Jeremias Macário ouviu dele (o morador) que se sentia bem acompanhado do homenageado por tão bem ter retratado na literatura o povo brasileiro. Coincidência ou não, João Ubaldo em seus trabalhos literários e em seus comentários sempre escreveu sobre essa tão profunda desigualdade social e clamou por justiça e direitos humanos para todos. A impressão é que o idoso ali se aportou em segurança, na fé e na esperança de dias melhores. Em seu silêncio, parecia refletir sobre seu passado e presente, não sabendo ao certo o seu futuro. Só de uma coisa ele tinha certeza de que se sentia bem acompanhado do escritor.
O GAVIÃO E A SECA
Pelas lentes do fotógrafo José Silva, o gavião voa baixo no sol escaldante do agreste do sertão farejando uma presa para matar a fome, mas o chão está rachado pela seca que não deixou muita coisa para se alimentar. Sem flora e sem fauna, ele é um dos últimos solitários nessa paisagem cinzenta a esperar que uma graça desça dos céus, como também o catingueiro que perdeu suas lavouras e o gado. Ainda com um fio de fé e esperança, o roceiro mira todos os dias para o alto à procura de uma nuvem e um vento mais forte que deem sinais de chuva, mas nada de um cheiro dela no ar. Ele é resistente e forte como o gavião que continua a voar, e dificilmente bate em retirada. O carro-pipa corta a estrada de cascalho, cobrindo de poeira os engaços e bagaços, mas a água não chega para todos. Sempre dizem que o homem pode conviver com a seca, mas os projetos para que isso se torne realidade não saem do papel. Os programas se estacionam nas promessas vãs dos políticos. Na cultura religiosa foi Deus que assim quis, mas isso é só uma tentativa de acomodar o sertanejo para que ele continue submisso aos poderosos. Mesmo com a seca, o gavião não vai parar de fazer a sua caça e, se nada encontrar, ele bate asas para bandas mais distante, e retorna à sua terra natal nos bons tempos, como faz o sertanejo.
O CALDO E O PASTEL
Fotos do jornalista Jeremias Macário
Como e bom e gostoso um caldo de cana e um pastel (com moderação por causa da fritura) numa feira livre que faz lembrar o velho hábito dos nossos ancestrais! A feira é um comércio milenar desde os tempos mais antigos onde os povos iam trocar seus produtos quando não havia inventado a moeda. Era uma forma também socialista de sobrevivência do homem do campo e das cidades. Mas, vamos deixar de lado essa história, porque estamos falando da Feirinha do Bairro Brasil, na qual sempre estou lá aos domingos e me deleito com aquela gente simples diferente da dos supermercados, mais caros e com menos calor humano. A feira também me faz lembrar dos meus pais e seus compadres e comadres/amigos e amigas que aos sábados e domingos marcavam encontro para prosear depois das vendas e das compras. Ainda tem a cara de um ambiente familiar, por mais que seja nas médias e grandes cidades como Vitória da Conquista. Um caldo e um pastel são sempre boas combinações para muita gente, mas há também que adora uma buchada, um mocotó, um sarapatel ou uma rabada com uma gelada ou uma pinga da pura. De qualquer forma, feira sempre tem sua face poética e literária. Feira é cultura onde se encontra cantadores, trovadores, cordelistas e repentistas. Viva a feira e seus caldo de cana com pastel!
NOSSOS RIOS ESTÃO MORRENDO
Há uns dois anos, ou pouco mais que isso, o nosso cansado Rio São Francisco, mais conhecido como o “Velho Chico” ocupava manchetes na mídia em geral pelo seu estado terminal de falência de seus órgãos devido a uma prolongada estiagem, mas a causa principal era a mão destruidora e facínora do homem que dele tudo tira e quase nada repõe para sua proteção. Era grande o clamor dos ambientalistas, ribeirinhos e defensores dos nossos rios, exigindo dos governantes a realização de projetos de revitalização. Foi só São Pedro mandar cair chuvas dos céus e não mais se ouviu cobranças em favor do “Velho Chico”, que deu uma revigorada, mas vulnerável a qualquer seca. Com a crise hídrica batendo na porta dos brasileiros onde nossos rios estão morrendo, com os reservatórios em níveis mais baixos dos últimos tempos, volta-se à mesma questão que logo pode ser esquecida com novas enchentes. O homem, a maior praga do planeta, é mesmo cruel, perverso e ingrato, mas um dia tudo vai se acabar porque os desmatamentos, as queimadas, as retiradas da vegetação e areias de suas nascentes e margens avançam pelo vil lucro de se ganhar mais dinheiro. Novamente, o nosso “Velho Chico” pede socorro, e ainda tem parlamentar baiano que nega aprovação de recursos para que ele continue a viver, mesmo nas adversidades do tempo. Suas margens, como a de outros rios pelo Brasil a fora, estão depenadas pela ação humana. Suas águas baixaram, e o país pode sofrer apagões, o que significa ficar às escuras. Não é só a falta de energia, mas também a escassez de alimento quando os nossos rios começam a morrer, caso específico do “Velho Chico” onde grande parte da sua foz é de água salgada. É o mar invadindo e empurrando o rio de volta até a morte.
AS NUVENS E O TEMPO
Do meu quintal cercado de plantas (algumas floridas), pássaros a cantar, o beija-flor a bailar e entre hortas da terra viçosa, fico a mirar as nuvens e o tempo que sempre estão mudando de posições, de acordo com a direção do vento, ora forte e fraco, do sul, do oeste, leste e norte como se fossem nossas vidas cotidianas. A depender do tempo, as nuvens mudam, ficam leves esparsas e pesadas, cuspindo suas rajadas como que anunciando tempestade, como nas imagens captadas pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. São imprevisíveis como os seres humanos dos tempos atuais, que sempre mudam de roupagem. É a metamorfose ambulante como na canção do poeta compositor Raul Seixas. Com as bruscas mudanças climáticas, decorrentes da intervenção humana na natureza, o vento quente, repentinamente, se torna frio. Assim vivemos no Brasil de hoje onde predominam as incertezas, com nuvens sombrias e tempos de medo e falta de esperança. Quando o céu está limpo, dizem que é céu de brigadeiro, de se voar tranquilo. Na atualidade, quando olhamos para o alto, só enxergamos nuvens carregadas, ventos incertos de trovoadas de correntes elétricas, num tempo de divisões, com imagens e figuras estranhas como as nuvens que cortam nossas cabeças.
AS PALMEIRAS E A CULTURA
As nossas centenárias e imponentes palmeiras da Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista já fazem parte da nossa cultura, mas quantos não passam por ali todos os dias e nem param para admirá-las e refletir o quanto a natureza é bondosa conosco? Da Casa Regis Pacheco, bem em frente da bela praça, as lentes da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário registrou essa imagem que se eleva aos céus e se une à nossa cultura. Lá estão elas, as palmeiras, numa intimidade com o vento e as nuvens a balançar suas folhas para lá e pra cá, refrescando os que passam apressados pelos afazeres do dia a dia, principalmente em épocas de muito calor. Felizmente, ainda é o local mais conservado e aprazível da cidade porque também todas as outras praças deveriam ganhar os mesmos privilégios. Praça, não é somente lazer e turismo para adultos e crianças. É também cultura porque é nela que se troca ideias, que uma pessoa rever a outra que há muito tempo não se via e é parada para um bom bate-papo entre amigos. É ainda onde namorados se encontram para a troca de beijos e carícias. É reconciliação e, acima de tudo, uma benção e um presente da natureza que merece toda atenção e cuidados, sem essa de jogar lixo no chão. Quem apenas só quer ser servido e não serve ao outro, é um ignorante ingrato que nem merece continuar a existir.




























