:: ‘De Olho nas Lentes’
UMA SONECA NA AGITAÇÃO
Em meio a todo o corre-corre da cidade agitada e desumana, com pessoas pra lá e pra cá nas calçadas e lojas, o cachorro, que não é escravo do tempo e vai vivendo do que encontra em seu presente, resolve, tranquilamente, tirar a sua soneca para depois seguir sua jornada em busca da sua sobrevivência. Ele já é um morador de rua como muitos seres humanos, porque vivemos numa sociedade cruel, egoísta e desigual onde só existe lugar para os mais fortes. Com certeza ele foi abandonado pelo seu dono, como um José, uma Maria ou João que não tiveram o direito à cidadania, como reza uma Constituição, dita democrática. Muitos podem até dizer que se trata apenas de um cão no sossego do seu sono, sem estar aí para o barulho dos motores, a poluição sonora e a confusão de uma gente na luta pela vida do cada vez mais consumir. O flagrante registrado pelas lentas da máquina do jornalista e escritor Jeremias Macário também demonstra nossa desumanidade, porque os animais também são nossos irmãos, e fazem parte do nosso cotidiano. Além do mais, sempre foi um fiel amigo, sem nada cobrar em troca, apenas o seu alimento. Não tem outras ambições e nem é egoísta e individualista. A sua soneca, em plena calçada, sem um lar ou alguém que lhe cuide como deveria, é uma imagem triste de abandono, e de que ainda não somos uma sociedade civilizada como pensamos ser.
A SIMPLICIDADE DAS CAPELAS
As capelas com todas suas simplicidades, diferentes das ostentações das catedrais, retratam o modesto e sincero sertanejo, o homem do campo, como a da imagem fotográfica do jornalista e escritor Jeremias Macário, captada num povoado entre São José de Jacuípe e Várzea da Roça. Nela está a comadre e o compadre, e todos se conhecem em oração, no mesmo sentido de pedir bonança e chuva para molhar o solo que seca com a estiagem. Lá está a rezadeira para puxar o terço, o Pai Nosso e a Ave Maria e, seu vigário, quando aparece, a todos abraça com distinção e apreço. Nas catedrais imperam os estilos grandiosos, painéis e interiores banhados a ouro, com seus bispos, papas e cardeais. O senhor do poder, que só quer se aparecer para a mídia, participa das solenidades para angariar votos e dizer que é católico. Por isso, como sertanejo-catingueiro, admiro muito mais as capelas porque elas espelham a honestidade, a solidariedade e o humano. As capelas me encantam porque nelas existe o encantamento da fé.
OS EFEITOS DA PANDEMIA
As imagens captadas pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário, em sua viagem de Vitória da Conquista a Juazeiro, na Bahia, demonstram muito bem os efeitos da pandemia nos setores de bares e restaurantes nas estradas, com o fechamento de muitos estabelecimentos, inclusive de postos de combustíveis, oficinas e borracharias. Muitos desses locais onde fazia paradas em minhas andanças, como o da foto na BR-242, entre os acessos de Andaraí e Rui Barbosa, na Chapada Diamantina, foram abandonados. Viraram pontos fantasmas. Observei muitos comércios de pequeno porte que encerraram suas atividades como resultado da primeira onda da Covid-19. Esses micros negócios não tiveram o suporte financeiro dos governantes e foram obrigados a fechar suas portas. Só os maiores resistiram, mesmo assim tiveram seus movimentos reduzidos e, somente agora, estão tentando se recuperar, com muito sacrifício. Claro que a vida deve estar acima da economia, mas a ausência do Estado nessa crise de “guerra epidêmica” provocou o desemprego de milhares de famílias pelo Brasil a fora, aumentando mais ainda a pobreza e gerando fome. São os efeitos da pandemia, difíceis de serem anulados. O estrago foi grande.
QUEIMADAS NA CAATINGA
Foto do jornalista João Martins![]()
A foto do meu amigo e companheiro jornalista, João Martins, me lembra muito quando atuava como chefe da Sucursal do Jornal A Tarde de Vitória da Conquista e elaborávamos muitas matérias denunciativas sobre a derrubada de árvores da caatinga para serem queimadas em fornos e se transformarem em carvão. A grande maioria das queimadas era irregular, como o transporte do carvão para as siderúrgicas mineiras. Ele pela revista “Integração”, e eu com meu amigo fotógrafo José Silva pelo o A Tarde estampávamos reportagens denunciando os destruidores do nosso milenar bioma, chamando a atenção de que a caatinga ia virar um deserto. De certa forma isso ocorreu em várias partes do nosso sertão. Em nossas andanças, cortando estradas por esse semi-árido cruzávamos com caminhões rumo a Minas Gerais, principalmente. Nos postos de combustíveis lá eles estavam carregados de carvão. Como era muito perigoso para a nossa profissão, tinhamos que ter muito cuidado para flagrar os fornos no meio da caatinga e o transporte, quase sempre clandestinos. Os fornos sempre usavam mão-de-0bra, que muito lembrava o sistema escravagista diante das condições dos trabalhadores, inclusive crianças de rostos esfumaçados e doentes dos pulmões. Conversei com meu amigo João sobre o assunto e, para meu alívio, disse-me que esse quadro praticamente não mais existe devido a intensa vigilância e fiscalização do Inema. É uma boa notícia, mas os estragos ficaram na paisagem da nossa natureza, difíceis de serem recuperados quando se trata da caatinga, sempre seca. Os municípios que mais queimavam carvão eram Sebastião das Laranjeiras, Palmas de Monte Alto, Caculé, Igaporã, Riacho de Santana, dentre outros.
PATRIMÔNIO ABANDONADO
Na Avenida Integração, esquina com a Regis Pacheco, um patrimônio público que já foi sede do DNER (extinto) e do Ibama, órgão que está sendo sucateado no atual governo do capitão-presidente, negacionista da ciência e destruidor do meio ambiente, está totalmente abandonado, com lixo por todos os lados e muito mato, conforme imagens fotográficas do escritor e jornalista Jeremias Macário.
Entre tantos outros no Brasil a fora, é mais um caso de dinheiro do povo jogado no lixo, sem a devida punição dos irresponsáveis governantes. Por ironia, o patrimônio abandonado, em Vitória da Conquista, já abrigou as dependências do Ibama, inauguradas no Governo Lula. O local me recorda quando atuava como jornalista da Sucursal do Jornal A Tarde, e na época entrevistei muitos técnicos sobre questões do meio ambiente, especialmente o transporte clandestino de carvão extraído de madeiras da caatinga no sertão do sudoeste.
Há anos que a casa se encontra em estado deplorável, caindo aos pedaços dentro de um matagal que mais serve para usuários de drogas e marginais à noite, sem falar da sujeira que atrai todo tipo de insetos, ratos e até mosquitos da dengue. Pelo que demonstra pela placa, trata-se de um patrimônio federal, mas não se sabe qual a ingerência do estado e do município. O local podia muito bem está sendo útil para ocupar uma repartição pública, uma escola, creche, uma entidade ou associação em benefício da população.
GENTE QUE SOFRE
Nunca é demais falar dessa gente nossa que sofre (foto de Jeremias Macário) no dia a dia para conseguir o mínimo de sobrevivência, num país dilacerado pela pandemia da Covid-19 e pelo desgoverno que nega a ciência, incentiva o não uso da máscara e provoca aglomerações. Será que ainda não bastam as mais de 480 mil vidas perdidas? Quem vai consolar o choro dessa nossa gente que sofre nas intermináveis filas bancárias para tirar um mísero auxílio emergencial, sendo que milhares retornam para seus barracos de mãos vazias? Como amar uma pátria que não cuida de seus filhos e deixa 15 milhões fora do mercado de trabalho? E os outros milhares que passam fome? Quem vai confortar essa gente que vê seus filhos a chorar nos cantos com fome? Infelizmente, essa gente é o Brasil que sofre, sem um líder, ou um guia para lhe dar dignidade humana. Essa gente que sofre não tem seus direitos assegurados pela Constituição no âmbito social, da educação e da saúde. Quem é esse que tripudia, debocha da nação e não é punido com seu afastamento? Até quando vão abusar da paciência dessa gente humilde que só pede o pão para se alimentar? Quem é esse que quer mais mortes quando recomenda o não uso de máscaras, como se o Brasil fosse os Estados Unidos, a Inglaterra e Israel que seguiram a ciência e vacinaram mais da metade de suas populações? Ele ainda é aplaudido pelos seus bobos da corte e seguidores da morte. Será que a história um dia os levará a um tribunal internacional de julgamento por genocídios e crimes de lesa-humanidade?
UMA FLOR, É UMA FLOR
Alguém já me disse certa vez que uma flor, é simplesmente uma flor, e mais nada, mas é muito mais que isso. Embora ela em pouco tempo desapareça ou murche, fica dentro do coração de alguém. Duvido que alguém, por mais seco e empedernido que seja, olhe para uma flor e não exale sentimentos, recordações, ou não faça uma reflexão da vida. Ela pode até lembrar amargura de algum passado, mas vai lhe fazer melhor para o futuro. Outros falam, e ouvir muito isso ainda jovem, que todo poeta tem que falar de flor e dor. Não necessariamente, porque a flor por si só já é uma poesia divina, mais ainda quando sai das lentes de uma máquina. Foi isso que senti quando a captei em minha máquina, e lá estava no quintal de um amigo. Confesso que ela me cativou pela primeira vez que vi, como se diz do amor à primeira vista. Ela nos faz esquecer, mesmo que seja repentinamente, dos problemas existenciais, das angústias e até das decepções da vida. Nos renova por dentro. Uma flor, é uma flor e, além do seu perfume, seja qual for o nome, tem um sentido de estar ali em meio a esse planeta tão desumano. Mesmo assim, ainda tem gente que a destrói, como faz com o todo meio ambiente, derrubando e queimando as nossas florestas. Os pássaros e os animais silvestre são mais sensíveis que nós humanos, e jamais a pisotearia. Uma flor não é simplesmente uma flor. É muito mais que isso em sua essência e profundeza.

O SOBREVIVENTE DO LIXO
Além de contribuir para a preservação do meio ambiente através da reciclagem, quando a grande maioria dos brasileiros não tem essa consciência, ele é o sobrevivente do lixo para manter o seu sustento nesses terríveis tempos de pandemia. O trabalho é árduo e arriscado, mas todos os dias ele está nas ruas fazendo o seu catado de muitos materiais que são jogados fora em terrenos baldios, quando tudo poderia ser selecionado pela comunidade, se a Prefeitura Municipal desse o devido suporte de organizar a separação do lixo em cada bairro, com tuneis próprios, como existe nos países mais desenvolvidos. A insensibilidade humana é tão grande que ele se torna um invisível por onde passa, mas sua luta diária foi captada pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário. Muitos objetos jogados fora pelo consumismo exagerado ainda são utilizáveis e dão uns trocados ao solitário sobrevivente do lixo. Bem que mereceria mais atenção, mas a sociedade capitalista o tem como um número e, talvez, nem isso ele tenha. Como milhões de brasileiros, ele também está incluído no grupo dos que passam fome nesse país e depende de uma doação para alimentar sua família. Ele representa também a profunda desigualdade social, uma das maiores do mundo. Na verdade, ele é descartado como se fosse um lixo, e não como ser humano.
UMA PROFISSÃO QUE AINDA RESISTE
Em meio ao avanço da revolução industrial do século XVIII, da evolução das civilizações, da tecnologia da informação e do mundo virtual, muitas profissões milenares ainda resistem a todas essas mudanças e insistem em continuar vivas. Elas tiveram suas origens em nossos antepassados, cujos netos e bisnetos agora tentam, com dificuldade, transmitir aos seus filhos, mas somente alguns abraçam a atividade. A grande maioria dos jovens parte para outras carreiras que dão mais dinheiro e visibilidade no mercado. São as chamadas profissões em extinção, e a de alfaiate, entre tantas como a de relojoeiro, serralheiro, sapateiro, ferreiro, amolador de tesouras e facas, é uma delas que ainda é procurada em pleno século XXI.
Como em todas outras grandes cidades, em Vitória da Conquista os alfaiates são contados a dedo, como respondeu Divanei “Sansão”, de 53 anos, que desde os treze anos aprendeu a costurar com seu pai Ausírio Correia da Silva, um dos mais antigos que já faleceu. Seu filho Hélio Correia da Silva, de 70 anos, também fez a mesma caminhada do irmão, mas sua irmã tomou outro rumo. Divanei disse que sua mãe também era costureira. Coisa de família, de pai para filho. Há quanto tempo ainda vamos encontrar um alfaiate no comércio para fazer um terno, uma calça, uma camisa, uma jaqueta ou consertar uma peça que não se ajustou no corpo? Essa pergunta é difícil de responder porque essas profissões estão ficando cada vez mais escassas.
Além da anunciada extinção do alfaiate e outras profissões, a sociedade e o mercado em geral não dão mais valor para elas, e a mídia raramente levanta uma matéria sobre este assunto. Só lembramos do alfaiate, por exemplo, quando precisamos de fazer um conserto ou correção numa peça comprada numa loja. Atualmente, poucas pessoas, somente as mais idosas, compram uma “fazenda”, como se falava antigamente, para mandar o seu alfaiate costurar uma calça, um paletó ou uma camisa. Em tempos passados, quando se encontrava muitos deles espalhados pelas cidades, se dizia “o meu alfaiate é muito bom”, e recomendava o profissional para um amigo. Hoje a pergunta é se ainda existe alfaiate, e aonde encontrar um.
PASSAR O CHAPÉU
Não é nenhuma humilhação o artista, por decisão própria dele, seja qual for a sua linguagem, passar o chapéu em lugares públicos para angariar algum dinheiro para o seu sustento, mas é um grande desrespeito quando se trata de um secretário de Cultura mandar em público que ele faça isso para se virar, quando pouco faz para ajudar aqueles que produzem cultura para o povo. É um atestado que o poder público não tem projetos para amparar e fortalecer a nossa cultura. O próprio rei do baião passou o chapéu nas feiras de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, quando saiu do sertão para lançar suas cantorias e composições no sul. Uma coisa, senhor secretário, é o artista se exibir nos metros de Londres, nas praças de Paris e em outros países europeus. A outra é um secretário, ou ministro da Cultura mandar passar o chapéu. São atitudes diferentes. Na Europa, muitos são de outros países que estão de passagem apresentando seus shows e espetáculos e estão até trabalhando de forma clandestina. Mandar passar o chapéu nada mais é que uma humilhação nessa circunstância específica da fala do secretário. Aliás, senhor secretário, muitos artistas estão atravessando uma situação tão difícil e carente que nem têm dinheiro para comprar um chapéu. Já que a Secretaria quase nada oferece em termos de apoio à classe, e mandou que se passe o chapéu, posso ajudar fazendo uma doação para a pasta, pois possuo uma coleção de mais de 150 peças. Pelo menos a Secretaria entraria com um chapéu para cada um. Como se trata de uma ofensa, creio que os músicos, malabaristas, atores e outros que lidam com a arte não vão aceitar esse desrespeito. Por falar nisso, a OAB está entrando com uma ação judicial contra o desmonte da cultura no país praticado pelo governo federal. O mesmo poderia ser feito com relação a Vitória da Conquista, cuja Prefeitura Municipal abandonou a nossa cultura.



























