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:: ‘De Olho nas Lentes’

NO BRASIL DA VIRAÇÃO

Com mais de trinta milhões passando fome, cada um faz sua viração para sobreviver, como estas senhoras da foto que vivem de catar lixo reciclável para comprar o pão de cada dia, mas nem sempre é o suficiente. É a realidade do Brasil da viração nos tempos atuais de tanta exclusão social! A essas pessoas foram negados a educação e o saber com os quais teriam mais dignidade. É gente idosa que se vira para complementar uma aposentadoria merreca ou um auxílio eleitoral do governo, quando deveria estar gozando do seu descanso de uma vida sofrida. Interessante que a própria imagem mostra o jumentinho, que está sendo vítima de extinção através das matanças pelos frigoríficos, dando a sua contribuição nessa luta pesada. A própria sociedade capitalista e a elite egoísta construíram esse triste cenário que nos envergonha. Temos assim, um Brasil desumano onde é detentor de um dos maiores índices de desigualdade social. É tão cruel que elas próprias procuram evitar o foco das lentes porque não passam de simples números das estatísticas da miséria. Sentem vergonha. De qualquer forma, são trabalhadoras da viração, enquanto outras tantas perambulam pelas ruas sem nada fazer porque se entregaram ao total abandono, sem mais um fio de fé e esperança.

POLUIÇÃO DE TORRES

Depois de invadida por moradias clandestinas, depredada por exploradores de areia, terra e pedras por muitas décadas, com a modernização das tecnologias de comunicação, principalmente, a Serra do Periperi, tombada em 1996, se não me engano, pelo governo de José Pedral, está poluída de torres e fios elétricos, de telefone e operadoras de internet. Infelizmente, mesmo tendo sido transformada em “parque de preservação ambiental”, a Serra, com seu lindo pôr-do-sol, ainda é pouco visitada pelos conquistenses e visitantes, quando já deveria ser um cartão postal de Vitória da Conquista. Além das invasões constantes que ainda acontecem, sem falar nos incêndios, ela hoje está com seu visual poluído por torres na parte mais alta. Despois de tantos estragos praticados pelo ser humano, principalmente pelo poder público que dela retirou toneladas de materiais, como durante a construção da BR-116, a chamada Rio-Bahia, ainda nos restou um pedaço de mata do Poço Escuro e o monumento ao Cristo que o executivo promete urbanizar a área. No entanto, não adianta realizar obras de beneficiamento se não houver total segurança, pois até hoje as pessoas têm medo de subir à Serra para fazer algumas imagens e apreciar a cidade lá de cima.

O MAIOR QUEBRA-MOLA DO MUNDO

Dizem que o brasileiro e o baiano são os maiores piadeiros do mundo, com tudo faz chacotas e gozações, no bom sentido. Vitória da Conquista já foi a cidade das flores, das boiadas, do frio, capital dos quebra-molas e agora inventaram essa de “Suíça Baiana”, coisa de complexo de pobre querendo ser rico. Quando se quiser dar uma referência para um encontro qualquer nas imediações da Avenida Régis Pacheco se diz perto do “Bigode de Pedral”, uma piada que pegou. Essa obra também levou a alcunha de maior quebra-mola do mundo. Poderia até ser inscrito no livro dos recordes. É a nossa Conquista de clima ameno e inverno rigorosos como foi neste ano. Com a minha idade já avançada ando pensando até em passar esse período em Teresina, em Palmas, Fortaleza ou aqui mesmo em algumas terras quentes baianas, mas sem grana para isso, preciso de um benfeitor ou patrocinadores porque o véio não aguenta mais essas baixas temperaturas. Mudei até de assunto, mas aqui, ou em outro lugar, sempre vou lembrar do maior quebra-mola do mundo onde milhares todos os dias cruzam aquele elevado vindo do oeste com destino ao centro resolver seus problemas do dia-a-dia naquela cotidiana correria pela sobrevivência.

O ENCANTADO

Por que as pessoas de um modo geral ficam encantadas com o pôr-do-sol? Em meu entendimento porque acalma o ser humano e o faz refletir sobre a vida que nos tempos atuais é tão corrida em busca da sobrevivência e da solução dos problemas. O pôr-do-sol tranquiliza o espírito como se fosse um encantado e nos faz pensar sobre os mistérios do universo. Transmite paz, amor e esperança de que depois do pôr-do-sol virá o alvorecer, o nascer de novo. Além do mais, um pôr-do-sol é sempre diferente do outro, dependendo do local onde a pessoa esteja colocado e em que ponto ele se despede do dia para dar passagem à noite. É reflexão e meditação. Ele faz você dar um mergulho em si mesmo, sem contar que é poesia e canção.

CACHORROS E MORADORES DE RUA

Eles estão visíveis em todas as partes da cidade, inclusive fora do centro como na foto da Avenida Filipinas, no Bairro do mesmo nome ou Jardim Guanabara, como também é conhecido por muitos. Infelizmente, é a cara do nosso país dos dias atuais, cujos governantes deixaram o povo e os animais, no caso os cachorros, caírem no abandono e na miséria. Uma pátria que não cuida de seus filhos não é amada por todos e dela não se pode orgulhar. Por incrível que possa parecer, o aumento de moradores de rua tem também relação com o de cachorros, pois muitas pessoas entraram na extrema pobreza e foram obrigadas a soltar seus animais em cada canto da cidade por falta de alimento para dividir. Vitória da Conquista não poderia ser diferente. Os pedintes estão espalhados em todas as partes, como nas praças, portas de bancos, supermercados, nas filas e nas sinaleiras. Nesses locais também lá estão os cachorros que vagam famintos lambendo restos de comida ou alguma sobra que alguém oferece. São imagens que nos envergonham, mas a realidade não pode deixar de ser registrada quando uma lente está por perto. Do registro da máquina nascem as palavras que podem até ser dispensadas porque o retrato já diz e denuncia tudo. O dia de votar está chegando e todos os candidatos prometem mudar esse triste quadro. Será mesmo?

 

CADÊ A PRAÇA DOS ORIXÁS?

Temos belas praças em Vitória da Conquista, algumas bem arborizadas e conservadas, a começar pela Tancredo Neves, a mais visitada, principalmente na época do Natal. Temos ainda a Sá Barreto, a Gerson Salles, a Praça do Gil e a Victor Brito na saída da Avenida Bartolomeu de Gusmão. As mais urbanizadas estão localizadas justamente na zona leste. Os poderes públicos precisam olhar mais para a zona oeste, sempre esquecida. No entanto, a questão maior não é esta. Sempre me pergunto do porquê ainda não termos, em Conquista, a Praça dos Orixás, tendo em vista que o candomblé é forte no município com cerca de 200 terreiros entre as zonas urbana e rural? Temos a Praça do Índio, que demorou de ser criada, a da Bíblia e até, porque não dizer, da Catedral que está integrada à Tancredo Neves? O assunto já foi comentado pelos povos de axé, mas até o momento nenhum prefeito tomou a iniciativa de construir a Praça dos Orixás. Lugares existem de sobra. Será preconceito religioso?

EM NOME DE DEUS…

Este é o monumento à Bíblia, erguido na Praça Vitor Brito, em Vitória da Conquista. Trata-se de um símbolo do cristianismo, e dizem ser o livro mais lido no mundo. Tenho minhas dúvidas nos tempos de hoje. Por que não temos em Conquista outros monumentos dedicados às outras religiões? Por que não temos, por exemplo, a Praça dos Orixás? No Brasil de hoje, do fundamentalismo fanático dos evangélicos, influenciados por falsos pastores, inclusive corruptos que colocam o poder político acima de tudo, este livro, chamado de Bíblia, vem sendo mal interpretado e deturpado. É triste ver que em nome de Deus, para defender sua religião como a única que salva, muitos, e não são poucos, praticam o ódio e a intolerância contra aqueles que adotam outra fé em seus rituais religiosos. Aqui reitero os comentários feitos pelo meu amigo e jornalista Carlos Gonzalez, que do alto da sua visão, condena o extremismo e o conservadorismo que avançam em nosso território. Segundo ele, usam o nome de Deus para jogar pedras nos templos dos outros e destilar sua raiva naqueles que não seguem sua doutrina. Essas pessoas não se contentam somente com isso: Pregam o retrocesso medieval, negam a ciência e se alimentam do preconceito, do racismo e da homofobia. Para eles, só existe a luta do bem contra o mal. Em nome de Deus e da sua Bíblia, odeiam, ao invés, de amar o próximo. Em nome de Deus, roubam e até matam. O péssimo exemplo disso vem do Planalto com as barbaridades proferidas pelo capitão-presidente que engana os incultos quando fala em Deus, pátria e família. Infelizmente temos um povo de fácil manipulação onde os “fieis” são vítimas de lavagem cerebral.

MORADORES E OS ANIMAIS

Como criaturas, todos somos animais, inclusive na classificação social onde uns poucos vivem com dignidade e outros muitos na mais profunda desigualdade. Como os humanos moradores de rua, os cachorros, principalmente, vagam abandonados pelos seus donos nas ruas e praças das cidades, sujeitos à fome, ao calor e ao frio, dormindo debaixo de marquises e viadutos. No caso dos cachorros, existem aqueles bem tratados em mansões de ricos que levam uma vida melhor que milhões de seres humanos brasileiros. Como na imagem da foto, estes são os considerados miseráveis renegados. A mesma coisa acontece com os humanos que também são divididos por classes, e comem o que os outros dão. Quanto aos cachorros, nem existe essa capacidade de colaboração e solidariedade entre eles. Numa análise mais filosófica no campo da superioridade racional, o homem é ainda pior porque larga seu bicho na rua, com a mínima condição de sobrevivência. Nessa ótica de visão, somos mais estúpidos que os outros animais. São os paradoxos que se cruzam com as comparações da vida na terra.

“NOSSO TEMPLO”

Uma vez estávamos aqui numa discussão acalorada e aí levantou-se um amigo para apaziguar os ânimos e disse: Vamos baixar o tom gente, porque estamos num templo sagrado! Aquilo me marcou, não no sentido religioso das palavras, mas, essencialmente cultural porque em nosso espaço, onde realizamos nossos memoráveis saraus com artistas, professores, intelectuais, visitantes e outras categorias, grandes autores brasileiros e estrangeiros nos vigiam e nos inspiram, sem contar o artesanato, as esculturas, as pinturas, as fotografias, as coleções de facas e até os chapéus, dos quais tanto ciúmo. Aqui nos confraternizamos, debatemos temas importantes, declamamos, contamos causos e histórias da vida, trocamos ideias, tudo ao som do canto cancioneiro da viola violada do cantor compositor. Não vou aqui citar os nomes dos frequentadores, a maioria com mais de dez anos, porque poderia faltar alguém, mas a todos agradecemos a participação, e digo que nos enriquecemos com a permuta de conhecimentos e saber. Estamos retomando nossos saraus com mais força nesse templo sagrado com cerca de seis mil itens que só nos fazem engrandecer, ao ponto de ter gente que já sugeriu tombar, e outros perguntarem se era um espaço público. Esse templo é carinhosamente chamado de “Espaço Cultural A Estrada” que já se imortalizou nas mentes dos estradeiros. Aqui é onde se sacode a poeira da labuta do corpo e do espírito. No final de setembro, ou início de outubro, estaremos de voltar para nos reencontrarmos.

FLORES DOS CIPÓS

Dentro do próprio bioma da Mata Atlântica, ou da própria caatinga e até da ciliar, existe a chamada mata de cipó, uma espécie de vegetação que se entrelaça entre as árvores numa ramificação que se estende por toda floresta. Os cipós, os mais grossos, são até utilizados por micos e macacos como forma de ponte para se comunicarem e buscar comida em folhas e plantas frutíferas. Poucos sabem, no entanto, que os cipós brotam lindas flores como na imagem sobre o telhado do meu rancho.  Como o mandacaru e o cacto, os cipós são resistentes e não precisam de chuvas para suas subsistências, certamente por causa de suas profundas raízes que se nutrem da água do subsolo, pois corto todos os anos e, em pouco tempo, lá estão eles, que são utilizados para fazer cestos, jarros, caçuás e muitas outras peças artesanais, inclusive esculturas. Flores dos cipós também fazem parte do meu quintal, ou da minha pequena floresta caseira, já que ainda não tive a benção de retornar ao campo, como pretendo ainda em vida.





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