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:: ‘Encontro Com os Livros’

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (I)

Em fevereiro próximo (de 13 a 18) comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Nosso blog (Encontro com os Livros) vai fazer uma série de artigos sobre o assunto (pesquisa de Jeremias Macário) em homenagem ao evento, que foi um divisor de águas entre o passado e o novo na história das artes, abrangendo todas as linguagens artísticas. Este é o nosso primeiro comentário que segue todas as sextas-feiras.

A Semana de Arte Moderna de 1922 – uns estudiosos do assunto registram o período de 11 a 18 de fevereiro e outros de 13 a 18 – está recheada de controvérsia, divergências, brigas e separações entre grupos idealizadores. Ela nasceu com ideias futuristas da Itália através de Marinetti (seguidor de Mussolini), com princípios libertários nacionalistas visando substituir os velhos estilos e gêneros do passado parnasiano pelo novo, conforme assinalam críticos literários, como Alfredo Bosi e José de Nicola.

No geral ela bebeu da vanguarda europeia antes e depois da I Guerra Mundial e se inspirou em movimentos expressionista, dadaísta e cubista, principalmente. Com os acontecimentos políticos após o evento houve uma divisão e alguns enveredaram para o nacionalismo ufanista da direita fascista integralista. A concepção futurista foi banida pelo próprio Oswald de Andrade, um dos pensadores do movimento.

Os três principais espetáculos da Semana, no Teatro Municipal de São Paulo (dias 13, 15 e 17 de fevereiro), que neste ano está comemorando seu centenário, juntamente com a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta Militar do Forte de Copacabana (depois veio o tenentismo e a Coluna Prestes) e o bicentenário da Independência do Brasil, foram de muita confusão, algazarras, vaias, ofensas e críticas veladas aos escritores, poetas, pintores e aos artistas participantes.

Os mentores do movimento, Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras (Alfredo Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira”) e Di Cavalcanti (“Literatura Brasileira, de José de Nicola) depois seguiram caminhos diferentes na política, com o racha no grupo. Por ironia, o encontro contou com forte patrocínio do setor financeiro paulista, apesar dos escritos literários (a maior expressão veio da literatura), focar seus alvos contra os hábitos e costumes sociais da burguesia rural e urbana.

RETROSPECTIVA

Para entendermos melhor o que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, devemos fazer uma retrospectiva dos fatos desde a primeira década do século XX, a I Guerra Mundial (1914-1918) e as renovações de pensamentos ocorridas na Europa, especialmente na França, Alemanha e Itália. Esse turbilhão de ideias, como sempre acontece, chegou mais atrasado no Brasil de Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e outros.

Em sua crítica, Bosi faz uma definição do modernismo como um clima estético e psicológico, citando Graça Aranha, o único intelectual da velha guarda que passa do pré-moderno e adere ao modernismo, mas que permanece com sua posição política de direita. Na realidade, esse movimento traz consigo um novo código diferente do parnasiano de Olavo Bilac e do simbolismo, como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto.

O escritor Lima Barreto já introduzia em sua literatura traços modernos em seus romances, bem como Monteiro Lobato, um conservador crítico ferrenho da Semana, Guilherme de Almeida, Menotti e Oswald de Andrade. No entanto, nem tudo que foi modernista parecia moderno, conforme descrevem os literatos.

Lima Barreto e Graça de Aranha pertenciam a camadas sociais bem diferentes (o primeiro de origem pobre), mas tinham forte sentimento nacional ao ponto de palmilharem juntos a revolução literária dos anos 20 e 30. Em sua visão, Bosi pondera que, se por modernismo entende-se ruptura com os códigos literários do primeiro vintênio, a rigor não houve escritor pré-modernista.

Antes da Semana já havia exemplos de inconformismo cultural através da crítica literária às estruturas das velhas gerações nos primeiros vinte anos do século XX. Portanto, dentro desses códigos literários podem ser considerados de pré-modernistas Euclides da Cunha, João Ribeiro, Lima Barreto e Graça de Aranha.

Na verdade, como exemplifica Bosi, existia sim um espírito modernista no ar por meio de inovações artísticas que mais tarde iriam polarizar, a exemplo de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, dentre outros.

Nos primeiros anos da I Guerra Mundial, os ventos desses ideais já sopravam. Na Europa, a literatura dava sinais de crise. Em Paris, Oswald conheceu o futurismo de Marinetti, em 1909. Este acabou aderindo ao fascismo de Mussolini. Em 1912 aconteceu o manifesto “Fundação no Figaro” e Paul Fort lançava seus versos livres.

No Brasil, Manuel Bandeira plantou as primeiras sementes do modernismo. Ronald de Carvalho ajudou, em 1915, fundar a revista de vanguarda portuguesa “Orpfeu” que propagou a poesia de Fernando de Pessoa e Sá Carneiro.

Também Tristão de Ataíde e Graça de Aranha conheceram as vanguardas europeias simbolizadas na poesia de Sérgio Milliet. Mesmo com críticas e polêmicas, o termo futurismo, visto como barbarismo, começa a circular nos jornais brasileiros por volta de 1914. Antes disso, em 1910, na Bahia, foi publicado um folheto sobre o manifesto de Marinetti, excluído durante a Semana de Arte Moderna. Outro fato que marcou essas mudanças foi o artigo de Ernesto Bertarelli sobre as lições do futurismo, no jornal “Estado de São Paulo”.

Essas inovações simbolistas de versos livres eram muito contestadas, mas começavam a aparecer até no meio sertanista de Cornélio Pires, Paulo Setúbal e Catulo da Paixão Cearense. Como diz Bosi, era um híbrido de culto ao popular e ao nacional.

As manifestações, surgidas na Europa através de uma série de exposições, terminaram desaguando no encontro da Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo da burguesia culta paulista e carioca, que mudou o quadro literário, o carro-chefe do evento junto com as artes plásticas.

Antes da Semana, porém, o fato mais importante que movimentou a cultura paulista foi a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Apesar de criticada, sua mostra de pinturas, com traços expressionista e cubista, serviu de guia para as novas tendências. O evento de São Paulo recebeu uma crítica virulenta de Monteiro Lobato (conservador), com o artigo “Paranoia ou Manifestação”?, publicado no jornal “Estado de São Paulo”.

Os trabalhos de Anita (estudou artes plásticas na Alemanha) tiveram o apoio de solidariedade de Oswald, Menotti del Picchia e Mário de Andrade contra as críticas de Lobato. Em sua bagagem da Europa, ela trazia novos elementos plásticos da Alemanha e dos Estados Unidos.

Em sua obra de “Literatura Brasileira”, Alfredo Bosi descreve que de 1917 a 1922, um grupo jovem e atuante no meio literário paulista bebeu das poéticas do pós-guerra, mas, mesmo assim, ainda mantinha o tradicionalismo provinciano brasileiro.

Ainda em 1917, Mário de Andrade estreou na literatura com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema” sobre a I Guerra. Na época, Bandeira considerou os versos ruins, dizendo que tinham resquícios condoreiros. Oswald lança “Os Condenados”, um romance ainda de estilo híbrido na análise de Bosi.

Menotti, um dos mais ativos da Semana, publica os livros de “Poemas do Vício e da Virtude” (1913), ainda parnasiano, Juca Mulato” (poemeto regionalista), “Moisés” (poema bíblico) e as “Máscaras” (1917), com vícios do decadentismo. As obras foram bem aceitas pelo público. Em 1922, ele escreve o romance “O Homem e a Morte” que narra as aventuras de um artista paulista com um estilo entre o romântico e o impressionista.

 

NOSSOS LIVROS COMEÇAM A FLORESCER NO JARDIM DAS MENTES BRASILEIRAS

Até que afinal de contas uma luz começa a surgir lá no fim do túnel da nossa cultura, um jardim tão pisoteado nos últimos anos. Essa esperança faz o sol nos tirar das trevas através do livro. Acabo de ler uma boa notícia do Painel do Varejo de Livros. Ele diz que entre os meses de janeiro a novembro deste ano, a venda de livros superou em 33% o ano de 2020, e em 31% o ano de 2019, antes da pandemia.

É uma boa nova cultural entre tantas macabras neste ano que se finda com a destruição do nosso patrimônio histórico, com a negação da nossa memória e o retrocesso em direção aos tempos da Idade Média. O aumento da leitura, não importa os estilos e gêneros, é um sinal do florescer das mentes, porque ela oferece mais visão ao indivíduo que passa a expressar melhor suas ideias.

Espero que neste 2022, a venda de livros nas livrarias que ainda restam (muitas foram fechadas) supere a do ano que se vai. Isso pode até dar um ânimo no mercado livreiro, mas o governo federal, um negacionista e retrógrado, já trama o pior contra a nossa combalida cultura, que é a intenção de elevar os impostos para os livros. Isso poderá tornar menos acessível às classes de menor poder aquisitivo.

Ler é florescer as mentes. Ler um livro é como plantar mais uma semente do conhecimento e do saber no quintal do nosso jardim. A maioria dos nossos grandes escritores sempre tiveram uma infância e uma juventude de leitura, principalmente nos tempos em que se tinha fome de cultura, e se devorava livros, e não redes sociais em celulares de ódios e intolerâncias, cheias de fake news.

Sobre a leitura, um alimento para a alma faminta, aqui listaria uma série de benefícios para o espírito que poderia até virar bordões chatos como de final de ano, mas o livro é um templo sagrado que o ser humano deve sempre frequentar, não importando sua religiosidade. É um rememorar o passado para o conhecer das nossas origens; entender melhor a realidade do presente; e abrir novos caminhos para um futuro melhor.

Se o brasileiro está lendo mais, isso logo vai refletir na sociedade, e vamos ter mais capacidade de agir e reagir contra as mentalidades atrasadas. Vamos ter gente falando melhor, e transformações sociais virão por aí. É um sinal de que estamos saindo dessa letargia, desse apagão mental e de que está despontando aí o senso crítico. Incentivar o hábito de ler é lutar por uma país melhor, como disse o escritor e poeta Leandro de Assis, autor do livro “O Poder Transformador da Leitura: Hábitos e Estratégias para Ler Mais”.

Como diz o escritor, precisamos de mais espaços para a leitura, como a criação de mais bibliotecas, estímulo às livrarias e projetos do poder público para lançar novos talentos da literatura. Em Vitória da Conquista, por exemplo, precisamos resgatar a nossa cultura em reverência aos grandes nomes que projetaram nossa cidade através das letras.

Umas das estratégias seria a criação de um Plano Cultural para Conquista através de uma Fundação, para dar normas às diretrizes políticas culturais. Nesse sentido, o novo Conselho Municipal de Cultura tem, neste ano de 2022, a obrigação de fazer decolar esse plano, deixando um legado para as novas gerações.

Acredito que um país culto é um país desenvolvido onde seus cidadãos passam a ser donos de si mesmos, elegendo políticos comprometidos com a educação e a cultura. Só assim poderemos extirpar de uma vez os preconceitos racistas, a homofobia, a xenofobia, a misoginia, e olhar os outros sem diferenças. A cultura exerce influência também no nível econômico e social das pessoas, reduzindo as desigualdades.

 

 

“ESCRAVIDÃO”

Em tempos de tanto preconceito racial, ódio e intolerância entre brasileiros, envolvidos numa polarização bestial, o jornalista e escritor premiado com os livros 1808, 1822 e 1889, Laurentino Gomes acaba de lançar a trilogia ESCRAVIDÂO (o último sai agora em 2022), que durou 350 anos no Brasil, o último país ocidental a decretar a abolição. Deve ser lido para se entender a história, a vergonha e as agruras do tráfico negreiro.

Foram seis anos de pesquisas que incluíram doze países e três continentes por onde Laurentino passou, além de centenas de entrevistas. O primeiro volume cobre um período de 250 anos, desde o primeiro leilão de escravos africanos em Portugal, no dia 8 de agosto de 1444, até a morte de zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.

A obra também explica as raízes da escravidão humana na antiguidade (Grécia antiga, Império Romano, Turco-Otomano) e na própria África antes da chegada dos portugueses; o início do tráfico para as Américas; os números; os bastidores; e os lucros do negócio negreiro. Fala também da trajetória do baiano mulato claro Francisco Felix de Souza, o mais rico, famoso e influente mercador de gente na costa africana do Benin.

Outro personagem descrito por Laurentino é o do infante Dom Henrique, patrono das grandes navegações e descobrimentos do século XV, tido também como um dos grandes traficantes no Atlântico. É uma história de dor que continua com suas marcas em Luanda (Angola), Ajudá (Benin), Cidade Velha, em Cabo Verde, Liverpool, na Inglaterra e cais do Velongo (Pequena África), no Rio de Janeiro.

Os dois últimos volumes de um trabalho profundo são dedicados aos séculos XVIII, auge do tráfico de escravos, e ao movimento abolicionista que resultou na lei áurea de 13 de maio de 1888. Na verdade, os escravos não tiveram a liberdade de verdade porque foram abandonados à própria sorte, sem serem indenizados pelos anos de sofrimentos.

Esse fantasma da escravidão continua a nos perseguir com o racismo que ainda persiste no Brasil, sem falar na questão social de pobreza entre os negros, onde os índices de acesso ao emprego, à educação, à saúde e outros serviços são baixos em relação aos brancos.

Laurentino começou sua obra em Ajudá, na República do Benin (não confundir com o Reino do Benin que fica na Nigéria), em frente a uma grande gameleira, conversando com Marcelin Norberto, de 92 anos, patriarca da nona geração da família Souza, dinastia fundada no Reino do Daomé (colônia francesa até 1975).

Ao morrer, em 1848, com 94 anos, o baiano Francisco de Souza deixou 53 mulheres viúvas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna de mais de 120 milhões de dólares. Ele ganhou do rei Guezo, do Daomé, o título de chachá.  Em seu livro-reportagem, o autor narra que, a centenas de metros da casa de Marcelin, ergue-se a antiga Fortaleza de São João de Ajudá, o mais importante entreposto de tráfico negreiro português e brasileiro no Golfo de Benin até metade do século XIX. A poucos quilômetros, no litoral, lá está a Porta do Não Retorno onde começou a Rota dos Escravos. Pela porta de Ajudá, passaram cerca de um milhão de escravos.

Na África, existem dezenas dessas portas por onde foram embarcados nos navios negreiros mais de 12 milhões de africanos que nunca tiveram a oportunidade de retornar às suas origens. Desses, estima-se que cinco milhões vieram parar no Brasil. Segundo Laurentino, o banco de dados Slave Voyages, cataloga 36 mil viagens dos navios negreiros ao longo dos 350 anos, num total de 188 portos de partida de cativos, sendo que 20 deles responderam por 93% do total do tráfico no Atlântico.

A história é longa e triste que vale a pena ser lida e até relida para que conheçamos as origens dos nossos antepassados e sepultemos para sempre o racismo. Paranaense de Maringá, premiado seis vezes com o Jabuti de Literatura, Laurentino é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação pela Universidade de São Paulo e membro da Academia Paranaense de Letras.

 

“JOVENS NO MERCADO DE TRABALHO E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL”

Desigualdade e vulnerabilidade social, a inclusão do jovem nas leis de aprendizagem e do estágio no mercado de trabalho, a empresa que não segue os ritos da lei, a informalidade, a evasão escolar e a necessidade do emprego para o sustento familiar são questões pertinentes e atuais abordadas pelo professor, conselheiro-presidente do Instituto Alfam, gestor e consultor empresarial Fabrício Vieira Silva em um dos capítulos do livro “Relações Humanas-desafios e perspectivas”.

Todos esses problemas, como aponta o mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, terminam refletindo no desenvolvimento do país, detentor de grandes riquezas, mas com instabilidade econômica e social de toda ordem, bem como escassez de recursos para assegurar as condições básicas à população (educação, saúde precárias) menos favorecidas- assinalou.

Fabrício diz estar longe de apresentar soluções para situações tão complexas, mas deixa claro que a saída é a educação completa do jovem para enfrentar a competitividade do mercado, cada vez mais exigente em termos de qualificação da mão-de-obra. “O abandono escolar perpetua o ciclo de pobreza e a vulnerabilidade social”, termo sempre repetido por ele em seu artigo.

Quando se discute o aspecto do trabalho, Vieira destaca que o país tem características peculiares em relação a outras nações do mesmo porte, por dispor de instrumentos de inserção dos jovens no mercado formal de trabalho, como o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, a lei de aprendizagem (Lei do Jovem Aprendiz) e a lei do estágio. “Mesmo assim, o país patina na tentativa de encontrar as soluções para tornar-se mais igualitário e com melhor desempenho no mundo do trabalho”.

Ele salienta que, “embora o estágio não seja considerado regime formal de trabalho, o destacamos como uma oportunidade disponível de inserção dos jovens no mercado de trabalho, desde que a prática não seja utilizada pelas empresas como mera substituição precarizada do empregado formal, que respeite a área de atuação na qual o estagiário esteja estudando e também o quantitativo máximo estabelecido pela lei”.

O articulista ressalta que em suas atividades profissionais tem captado diálogos empresariais, dentre algumas, que lhe intrigam, tais como, há vagas no mercado, o que falta é gente qualificada! A legislação é muito rigorosa quanto as exigências à inserção dos jovens! Eu não consigo “aproveitar” os jovens que passam por aqui, pois estão “verdes” e despreparados! Não tenho condições de fazer da minha empresa uma escola, pois fica caro fazer o jovem aprendiz, e acabo cumprindo a lei para não ser multado.

Em sua opinião, Fabrício entende que existe um distanciamento entre a formação profissional e acadêmica e o mercado de trabalho formal. O mercado carece de pessoas mais qualificadas, muitas vezes mais comportamentais e psicológicas do que técnicas, sem negligenciar o conhecimento do ofício – destaca

Um ponto que sempre o professor chama a atenção é quanto a vulnerabilidade social das famílias. “Um país como o Brasil, em desenvolvimento, ainda amarga um elevado número de famílias em condições de pobreza ou de extrema pobreza que vivem se deparando com diversas carências”…

De acordo com o IBGE, conforme cita, em 2018 o país tinha 13,5 milhões de pessoas com renda mensal per capita inferior a 145 reais, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza.

Ainda sobre o tema vulnerabilidade social, Vieira aponta dois pensadores Richard Castell e Carolina Moser. Para o primeiro, os indivíduos passam a integrar à sociedade por meio de dois processos: O mundo do trabalho e as proximidades pelas relações familiares de vizinhança. Essas relações proporcionam sensação de pertencimento (proteção e segurança). Sobre a questão do trabalho, Castell apresenta as possibilidades de inserção pelo trabalho estável, assegurando direitos, e o precário, sem contratos, sem vínculos formais e garantias e, por fim, a não inserção por compor o quadro de desempregado ou incapacidade para o exercício.

Para Moser, a vulnerabilidade teria duas origens, por ausência ou escassez de ativos; ou por uso inapropriado dos recursos que se tem por parte dos indivíduos, famílias e comunidades. Segundo ela, as estratégias de enfrentamento centram-se na disponibilização de ativos às pessoas e no apoio para a adequada utilização dos recursos de que se dispõe.

Em seu trabalho, Fabricio enfatiza que o Brasil tem uma mão-de-obra bastante jovem e que, se bem preparada, poderia dar saltos na contribuição para um país bem mais estruturado no campo social e econômico. No entanto, existe uma oscilação crescente no número de desemprego de 2012 a 2019, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

O crescimento do desemprego, segundo Fabrício, empurra o jovem para o mercado de trabalho informal de baixa qualidade, de vínculos empregatícios precários e de menor remuneração, ou infantil. Conforme o IPEA, “trabalhar na informalidade no início da carreira pode comprometer toda a sua trajetória profissional”. O consultor Fabrício vai mais além quando afirma que quando o jovem entra na informalidade sofre a real possibilidade de abandono dos estudos para ajudar a família. “Não hesita em abrir mão da escola quando vislumbra ter mais ganho mediante o aumento da carga de trabalho”.

O professor diz que a atividade remunerada na vida desses jovens representa, sobretudo, uma renda para o complemento do ganho familiar, bem como a satisfação de consumo desses próprios jovens. “Com isso, os jovens trabalhadores se sentem úteis e importantes em seu meio social. A valorização é maior quando se trata de trabalho formal, fazendo o emprego assumir mais importância na sua vida (Moura, 2009, p. 11).

Ainda sobre a evasão escolar, Vieira alerta que esse fato faz diminuir as expectativas de um futuro melhor e mais digno para o jovem e sua família e, com isso perpetua o ciclo de pobreza e vulnerabilidade social. Ainda no mesmo artigo, o professor Fabrício discorre sobre família, trabalho, escola e desenvolvimento social, destacando que famílias com vulnerabilidade social tendem a estimular os jovens ao trabalho como saída para ampliação da renda, por questão de sobrevivência.

 

 

O RACISMO E A DOMINAÇÃO COLONIAL NA VISÃO DE FRANTZ FANON

No livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1951), do psiquiatra martiniquense Frantz Fanon, o racismo não é visto como algo específico de certas sociedades, como costumava analisar à época. Na obra, o autor examina o racismo dos franceses.

De acordo com o professor Muryatan Barbosa, em “Intelectuais das Áfricas”, Fanon chega à conclusão de que, na verdade, existe uma essência racista, que pode se apresentar na aparência de formas diversas. Isso ocorre, ainda conforme o autor, porque os processos de racialização são sistêmicos. “Eles prenderiam tanto negros quanto brancos em uma lógica binária e maniqueísta”.

Ao abordar a questão natural da inferioridade de uns negros em relação a outros brancos, para Fanon, o racismo nega a dialética do Eu e do Outro, que seria a base da vida ética. “A consequência disso é que todo processo de desumanização é aceitável”. Ele entende que o racismo é fruto do colonialismo.

“Se há um complexo de inferioridade, este surge após um processo duplo: econômico, inicialmente; em seguida, pela interiorização, ou melhor, epidermização dessa inferioridade” – destaca Fanon.

Na análise do professor Barbosa, em 1952, o Partido Comunista Francês ainda possuía uma posição dúbia quanto a questão colonial francesa, sem defender abertamente a necessidade das descolonizações africanas. Diante desse aspecto, muitos intelectuais negros saíram do partido, como Aimé Césaire, em 1956.

Em sua luta revolucionária na libertação da Argélia, Fanon sempre se colocou contra a exploração, a miséria e a fome. No início da guerra, o psiquiatra tratava cada vez mais pacientes colonialistas e colonizados, que tinham passado por processo de violência extrema, torturados e torturadores, dada a insanidade da insurgência francesa.

Em 1956 escreveu uma carta pública se demitindo do hospital argelino onde trabalhava. Isto foi o início de um novo ciclo revolucionário, afastando-se das relações com a maior parte da esquerda francesa, que não se posicionava contra o colonialismo.

A partir dali, Fanon buscou só manter relações pessoais com os que tinham o mesmo compromisso político que ele, ou que poderiam ser importantes para divulgar a revolução argelina no exterior. Em 1957 se entregou de vez à Frente de Libertação Nacional (FLN), como ministro da Informação e representante do Governo Provisório Argelino no Exterior.

Mesmo assim, ele e outras lideranças, entre 1958 e 1959, foram secundarizados pelo grupo hegemônico do primeiro presidente argelino Bem Bella. Nesses anos, exerceu com afinco a função de editor do jornal El Moudjahid.

No I Congresso dos Escritores e Artistas Negros, em Paris (1956), Fanou escreveu o texto Racismo e Cultura onde defendeu uma questão primordial: o racismo deve ser entendido desde uma abordagem sistêmica e histórica. “Ele é parte integrante de uma condição de hierarquização sistêmica, perseguida de maneira implacável, visando um trabalho de escravização econômica, ou mesmo biológica, de um grupo populacional sobre outro”.

Em seu entendimento, o elemento mais visível do racismo está na opressão sistematizada de um povo. “Ele é a norma desta sociedade e desta cultura que busca inferiorizar e desumanizar povos subalternizados”. Em seus ensaios, Fanon afirmou que o racismo é próprio de um processo de opressão, de desumanização e de hierarquização sistêmica num sistema determinado. O colonialismo é uma das formas dessa opressão, mas não a única.

Em um trecho de seus textos, ele chegou a dizer que a opressão militar e econômica precede, possibilita e legitima o racismo. Fanon aponta duas características de racismo, a capacidade de introjeção e naturalização, bem como, por ser funcional. Nesse caso, o racismo precisa estar sempre se remodelando. Antes justificava-se com argumentos biológicos. Nos tempos atuais são justificativas mais sofisticadas, como culturais e ou psicológicas atribuídas aos grupos inferiorizados – assinala o escritor.

Fanon faz um paralelismo entre as sociedades coloniais e racista. Para ele, ambas são fruto de um mesmo processo de subjugação de alguns grupos populacionais sobre outros. Os termos usados por ele seriam parte de um mesmo processo de dominação que possuiria um mesmo caráter  estrutural, num sistema determinado, que nasce com o colonialismo, mas não morre com ele.

 

UM AUTOR ATIVISTA E ANTICOLONIALISTA

Viveu somente 36 anos, mas deixou obras marcantes de reconhecimento internacional, principalmente para a comunidade africana, por suas posições e suas lutas contra o colonialismo. Estamos falando do psiquiatra Frantz Omar Fanon, que nasceu em 1925, na Martinica, então colônia francesa.  Morreu em 1961.

O doutor e professor em História Social, Muryatan S. Barbosa é quem analisa o pensamento de Fanon, no livro “Intelectuais das Áfricas”. Segundo ele, em 1944, o martiniquense se voluntariou para lutar contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1948 chegou a Lyon, na França, para estudar medicina e psiquiatria. Desenvolveu grande interesse pela filosofia de viés existencialista. Entre 1953 e 1956 foi diretor do Departamento de Psiquiatria no Hospital de Blida-Joinville, na Argélia, onde viu o nascimento da guerra anticolonialista.

Novamente, Fanon demitiu-se do cargo para se integrar à Frente de Libertação Argelina, em 1956. Entre 1960 e 1970 ficou conhecido como um autor anticolonialista pela publicação da obra “Condenados da Terra” (1961), prefaciada pelo filósofo Jean-Paul Sartre.

O professor Muryatan disse que suas ideias continuam vivas também nos movimentos sociais e políticos nos Estados Unidos, na Itália, França, Palestina, Caribe e Brasil. Ele divide os estudos da obra de Fanon em quatro blocos. A primeira marcada pelas leituras dele como um autor ativista anticolonialista, influenciado pelo marxismo e pelo existencialismo.

O segundo bloco trata-se de uma abordagem de estudos biográficos sobre Fanon nos anos 70. O terceiro, entre os anos 80 e 90, analisa o suposto pioneirismo de Fanon como autor pós-colonial, ou de estudos culturais. A quarta vertente, após 2000, visa atualizar o pensamento do autor em suas próprias bases.

De acordo com o professor, são quatro o conjunto de ensaios que formam os livros de Fanon, tais como Pele Negra, Máscaras Brancas, O IV Ano da Revolução Argelina, Condenados da Terra e Por Uma Revolução Africana (1964), póstuma.

“Fanon foi um dos intelectuais ativistas dos anos 50 e 60 que deu maior importância à cultura no plano da luta anticolonial. Algo talvez só comparável a Amílcar Cabral na mesma época. Para ele, a cultura era a alma viva de um povo”.

Sobre o jazz, Fanon afirmava que poderia ser entendido como uma práxis de luta do negro dos Estados Unidos visando a superação do universo racista daquele país.

UM ESTRATEGISTA QUE LUTOU PARA UNIR DUAS POPULAÇÕES AFRICANAS

De formação binacional, de Cabo Verde e Guiné-Bissau, Amílcar Cabral foi um estrategista de visão nacionalista que procurou driblar os esquemas de repressão dos colonialistas portugueses, visando unir dois povos com etnicidades diferentes. Seu assassinato até hoje não ficou esclarecido, mas existe uma forte versão de ter sido a mando de autoridades de Portugal.

Quem fala sobre ele no livro “Intelectuais das Áfricas” é o professor Fábio Baqueiro Figueiredo, doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Cabral, em sua descrição, nasceu em Bafatá, leste da Guiné-Bissau, em 1924, e era filho de dois cabo-verdianos, cuja nação já estava integrada ao império, enquanto na Guiné, os portugueses lutavam para consolidar a dominação territorial.

Cabral, de acordo com o professor, deveu sua formação inicial às estruturas escolares instaladas em Cabo Verde, para onde emigrou em 1932, junto com a família. Em 1945, após terminar o sétimo ano do liceu, obteve, por concurso, uma bolsa para o Instituto Superior de Agronomia em Lisboa. Dos 220 ingressantes, Amílcar era o único negro da turma.

Na época da ditadura salazarista e depois da II Guerra Mundial, Cabral participou do Movimento de Unidade Democrática da Juventude e, na Casa dos Estudantes do Império, chegou a ser vice-presidente da unidade, ao lado de Acácio Cruz. Essa nova direção reforçou o papel da instituição como espaço dinamizador de debates sobre a realidade colonial.

A Casa rendeu um núcleo importante de intelectuais de diversas correntes, inclusive marxista, mas houve uma separação, por vontades próprias e imposição da repressão estatal, a partir da década de 1960. No entanto, eles continuaram se correspondendo e se agruparam no Movimento Anticolonial que se transformou em movimentos nacionalistas articulados por uma organização unitária denominada de Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional.

Essa Frente foi substituída pela Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas. Nesse tempo, Cabral publicava duras críticas ao governo ditatorial português e se recusava a negociar a independência de suas colônias nos órgãos de esquerda da imprensa internacional. Ele foi nomeado diretor Adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné.

No interior, ele teve contatos com a realidade da maioria camponesa da população e com as diversas etnias balantas, fulas, manjacos, mandigas e outras que eram usadas pelos portugueses para se dividirem em torno da independência nacional. Foi aí que Cabral também usou da sua estratégia em torno de uma união nacional, sempre se expressando em nossos povos e nossas populações. Ele procurou unir as tribos em torno de um ideal nacionalista comum.

Em 1960 viajou a Tunes para a II Conferência Pan-Africana onde se uniu a antigos colegas de Lisboa, para abrir escritórios oficiais das organizações nacionalistas nos países já independentes. O primeiro ponto de apoio foi em Conari, ex-colônia francesa da Guiné. A essa altura, passou a ser o líder da organização nacionalista.

A luta armada, conduzida pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), desenvolveu-se, exclusivamente, no território da Guiné, e foi iniciada em 1963. Dez anos depois, o Partido já dominava maior parte do território guineense, declarando, unilateralmente, a independência, acelerando a queda da ditadura portuguesa. Entretanto, não viu esse dia, pois foi assassinado, em 20 de janeiro de 1973, em Conari, por guerrilheiros do seu próprio partido, em circunstâncias nunca esclarecidas.

As versões do seu assassinato apontavam para a polícia secreta de Portugal e para o governador da Guiné, o general Antônio de Spínola. Outros disseram que não passou de um acerto de contas entre guineenses e cabo-verdianos no seio do partido por pessoas que buscavam cargos em postos superiores. Existe também a versão da participação do presidente da Guiné-Conari, Ahmed Touré, que tinha a intenção de anexar a Guiné ao território do seu país.

Diz o professor Fábio, que Cabral permaneceu sendo o líder intelectual do processo político e militar guineense, e referência para o pensamento nacionalista africano. “Cabral deu uma contribuição teórica original e, na maior parte das vezes, mais coerente e estruturada que outros intelectuais africanos diretamente envolvidos na política”.

 

UM GUERRILHEIRO QUE DENUNCIOU OS ESQUEMAS DE CORRUPÇÃO EM ANGOLA

UM PAÍS AFRICANO QUE É A CARA DO BRASIL, SÓ QUE NUNCA EXPERIMENTOU O SOCIALISMO. A QUESTÃO ESTÁ NO SER HUMANO QUE É NEFASTO, DESTRUIDOR E MALÉFICO. TUDO PELO PODER.

As obras “Predadores”, “O Cão e os Caluandas”, “A Geração da Utopia” e “O Desejo de Kianda”, de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela, representam uma forte carga de críticas contra os desvios de conduta e os esquemas de corrupção do governo do Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) quando o país foi emancipado por volta de 1975, e depois a partir da transição do socialismo para o capitalismo.

Quem faz comentários sobre Pepetela no livro “Intelectuais das Áfricas” é o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sílvio de Almeida Carvalho Filho, que mapeia toda trajetória de um guerrilheiro que participou da luta pela independência e depois se desligou do poder para se dedicar à literatura da denúncia na área política e social contra os malfeitos do novo governo “socialista” que propunha dar voz aos trabalhadores e à população mais pobre.

Não abandonou seu país

Pepetela, branco num país majoritariamente de negros, nasceu em 1941 ao sul de Angola, na cidade de Benguela, em uma família pequeno-burguesa. Depois da emancipação, não abandonou sua terra como fez a maior parte dos portugueses e descendentes.

Como assinalou o professor Sílvio, sempre repudiou o racismo em Angola, como fez no livro “O Cão e os Caluandas”, no qual ressaltava que os cachorros, ao guardar as casas dos colonos mordiam os negros, rosnavam nos mulatos, lambiam as mãos dos brancos ou portavam o vírus do ódio ao negro, da desconfiança ao mulato, do respeito ao branco.

Desde cedo, o angolano se manifestou interessado pelas questões sociais brasileiras, especialmente pelas obras de Jorge Amado. Ainda jovem encantou-se com a leitura de um livro do anarquista Proudhhon, e depois entrou em contato com o pensamento de Marx e seus seguidores.

Em Argel, no Centro de Estudos Angolanos, escreveu os diálogos da história em quadrinhos (primeira história em quadrinhos de Angola), intitulada “Contra a Escravidão: Pela Liberdade”. Publicada em 1967, a obra foi muito apreciada pelos guerrilheiros e nas escolas mantidas pelo MPLA. Em 1969, retoma sua verve literária escrevendo em Argel seu primeiro livro “Muana Puó”, lançado em 1978.

Conforme conta Sílvio de Almeida, enquanto participava da luta armada, não deixou de escrever romances, como “Mayombe”, entre 1970 e 71, em Cabinda, e “As Aventuras de Ngunga”, em 1972. Foi membro do Estado-Maior da Frente Centro das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA). Com uma grave hepatite, retornou a Luanda em novembro de 1975, no momento da independência do país. Recuperado, foi para Lubango dar aulas.

Entre os anos de 1983 a 2008 lecionou Sociologia Geral e a Urbana na Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Gradativamente tornou-se em o mais importante literato angolano em virtude da editoração de 24 livros. Além da sua luta no MPLA, participou também da repressão à Revolta Nitista, em 1977. Ele contava que, quando era criança lhe obrigavam ir à missa, e agora ir à reunião da célula do partido.

Como disse o professor Sílvio, ao longo da sua vida, passou a perceber que a maior parte da crítica na agremiação partidária, muitas vezes, quando atingia as cúpulas do poder, acomodava-se à linha oficialmente estabelecida, sem rupturas. Afastou-se do partido, e um dos motivos foi a consolidação de um novo staff no poder, ligado ao novo presidente José Eduardo dos Santos, mais afeito à sociedade de mercado.

O crítico Silvio de Almeida afirma que sua literatura confirma que o MPLA, frente às ameaças externas e internas, constituiu num regime autoritário, tornando-se um Partido-Estado, concentrando todo poder em sua mão. “Essa capacidade de crítica às práticas sociais e políticas angolanas encontrava-se presente em “O Cão e as Caluandas” (1978/84)… Com o abandono dos ideais socialistas pela cúpula governamental e com a contínua expansão da corrupção e do autoritarismo, seu juízo vai se tornando mais mordaz, como se expressa nos livros “A Geração da Utopia” (1992), “O Desejo de Kianda” (1995) e “Predadores” (2005).

Ainda um guerrilheiro, em 1969, Pepetela dizia que a rebeldia supunha realizar transformações profundas das estruturas econômicas e sociais para formar o homem novo. Supunha um governo dos trabalhadores que conduziria o Estado: “Que maravilhoso será o mundo quando os que constroem, comandarem!”.

No enredo de “Yaka”, escrito em 1983, através de um personagem contestador, asseverava que “a propriedade suja, emporcalhada, torna os homens piores que bichos. A propriedade é o roubo, afirmava Proudhon, é isso. Mas é mais. Basta a miragem da propriedade para um homem decente se tornar prepotente, um tirano. Ou ainda: O mal era a propriedade(…) mesmo pequena torna o indivíduo escravo dela”.

No início de 1970, destacava que certos quadros do MPLA aplicavam uma série de rótulos àqueles que não tinham exatamente a mesma opinião. Esse rotulismo, segundo ele, era resultado duma preguiça intelectual… ou falta de cultura, predominante em vários guerrilheiros. Dez anos após a independência, em “O Cão e os Caluandas” escrevia em tom irônico que o Estado angolano, ao se declarar “socialista” utilizou essa qualificação de forma leviana nos discursos…

Pepetela observava em seus textos que a propaganda ideológica homogeneizava enunciados de forma superficial, não estimulando um pensamento socialista autêntico e criativo, sendo um desserviço à concretização de uma nação realmente proletária. Ele denunciava os fingimentos das falas, mais preocupadas com rótulos socializantes do que com o seu conteúdo, demonstrando o reverso do prescrito pelo ideal marxista.

O intelectual angolano criticava certos militantes que se preocupavam apenas em tirar proveito escuso das mudanças políticas quando da Retificação partidária. Em muitos locais houve jogos sujos, próprios da luta pelo poder, mesmo o mais pequeno poder. Denunciava que houve subordinados que aprovaram um chefe incapaz para não serem depois exigidos nos seus serviços. Dizia que os oportunistas conseguiram durante a Retificação obter o cartão de membro do partido para auferirem vantagens e privilégios no aparelho do Estado.

Textos literários em jornais denunciavam que muitos que compactuaram com o capitalismo, e mesmo com a repressão colonial, adotaram o discurso revolucionário, ingressando no governo com intuito de se manter no poder e angariar prestígio social. Muitos burocratas foram denunciados como revolucionários de última hora.

Em os “Predadores”, comentava que alguns estavam mais interessados em se apossar dos bens deixados pelos portugueses em fuga do país do que preocupados com a implantação do socialismo. Pepetela satirizou aqueles que, não tendo uma participação na luta pela independência, inventavam um codinome revolucionário só para ter prestígio político, caso de Vladimiro Caposso em uma de suas obras.

A crítica ferrenha à ineficiência da burocracia apareceu em “O Cão e os Caluandas”, repetida também em “O Desejo de Kianda”. Afirmava que o funcionalismo estatal não trabalhava o bastante e desperdiçava meios e mobilizava estruturas por pequenas questões do dia a dia. Confrontava os excessos de reuniões e de discursos. Era o mal da “reunite”. “O poder burocrático era invisível, porém poderoso e autoritário. As práticas burocráticas geravam uma rejeição popular não apenas aos burocratas, mas ao “socialismo” tal como se instituía”.

O escritor nunca poupou aqueles que dentro do MPLA se aburguesaram. Em 1977, o próprio Comitê Central admitiu que setores da pequena burguesia, aproveitando-se da falta de quadros dentro do Movimento, tentavam aumentar seus privilégios apoderando-se dos cargos de liderança no aparelho estatal. Existia, na verdade, uma mera troca de senhores.

Entre 1978 e 1984, Pepetela condenava a ostentação de privilégios peculiares ao colonialismo por parte de autoridades nacionais e de diretores de fábricas estatais, assim como regalias no setor habitacional, usufruídas por altos funcionários partidários. Havia uma corrupção generalizada que contaminou toda camada social.

Deplorou o patrimonialismo e o clientelismo angolano, quando a burocracia, através de pistolões, reservava para si os bens escassos numa sociedade subdesenvolvida e sofrida pelos efeitos da guerra. Denunciou a obtenção de cargos públicos, não pela competência, mas por meio de afinidades pessoais com os líderes políticos. Declarava que o Estado foi capturado por uma burocracia corrupta que não concorria para uma boa gestão pública.

Mesmo com a transição do “socialismo” para uma economia liberal de mercado, iniciada em 1985, e do abandono formal do marxismo-leninismo no Terceiro Congresso do MPLA, em 1991, toda sujeira se perpetuou no governo, conforme relata Pepetela em seus livros. Angola foi classificada por organismos internacionais com um dos países mais corruptos da África.

 

 

 

UMA INTELECTUAL NIGERIANA FEMINISTA CONTADORA DE BOAS HISTÓRIAS

A nigeriana contadora de histórias, radicada nos Estados Unidos, Chimamanda Adichie, está no livro “Intelectuais das Áfricas” no capítulo escrito pela professora Izabel de Fátima Brandão, titular da Universidade Federal de Alagoas, que analisa a literatura de autoria feminista.

De acordo com Izabel, sua obra já foi traduzida para mais de trinta línguas, incluindo a portuguesa. No Brasil foram traduzidos seus romances Purple Hibiscus e Americanah. Adichie publicou ainda Half of a Yellow Sun, The Thing Around Your Neck entre outros, além de uma peça teatral.

A professora ressalta que seu pensamento feminista choca e atrai seu público leitor, com seu senso de humor e também pela forte identidade com suas origens africanas nigerianas, embora já esteja nos Estados Unidos desde 1996. Adichie fez mestrado em literatura africana na Universidade de Yale.

Com seus heróis e heroínas brancas, posição que a professora confessa que ainda lhe deixou atordoada, a nigeriana fala, entre outros assuntos, da relevância do cabelo para as mulheres negras. Na sua visão, trata-se de um tema de natureza política, conforme disse certa vez numa entrevista.

Adichie conta, segundo a professora Izabel, que quando se mudou para os Estados Unidos, sua colega de quarto, na Universidade da Filadélfia, não conhecia nada sobre a África, e o sentimento dela sobre a jovem nigeriana foi de “pena condescendente”, porque tudo o que se sabe sobre a África é que lá existe muita gente pobre.

Perguntada numa entrevista sobre a questão da mutilação genital das mulheres em certas etnias, e se elas têm como recusar (a sua é da Ibo e não tem esse procedimento), Adichie respondeu que a cultura muda; sua preservação não implica a exclusão das mulheres. “Essa consciência sobre a possibilidade de mudança cultural indica o seu engajamento político”- destaca a professora.

A escritora nigeriana se define como uma contadora de histórias, que ouve, absorve e reconta, à sua maneira. Diz ser acima de tudo, uma grande observadora. “Como sou escritora, sempre me senti a um passo atrás de tudo, observando”.

Em um de seus romances (Half of a Yellow) ela fala das gêmeas Olanna e Kainene, filhas da elite Ibo, onde trata dos três anos da Guerra do Biafra, na década de 60; dos massacres e violências cometidos, envolvendo forças muçulmanas do norte em conflito com os cristão ibos do sul.

A questão religiosa é outro tema abordado pela escritora. No conto “A Historiadora Impetuosa”, ela escreve sobre choques e rupturas entre as tradições seculares do país e as imposições da educação católica fomentada pelos missionários estrangeiros aos filhos de famílias nigerianas.

Por meio da sua literatura, ela defende que se respeite a cultura de seu povo, sem julgá-la primitiva ou inferior. Seu único livro de contos (The Thing Around Your Neck – 2009) aborda o universo de mulheres africanas. Uma temática recorrente em sua obra é a opressão localizada em várias frentes, como na família, na profissão, na religião, raça, etnia e na política.

As histórias deste livro tratam de homens e mulheres, jovens e adultos, novos e velhos, em situações as mais diversas, mas que, fundamentalmente, abordam questões culturais e identitárias localizadas não apenas no contexto do ambiente africano, mas também relacionadas à diáspora africana, especialmente da Nigéria para os Estados Unidos.

A TRAJETÓRIA DE UM INTELECTUAL AFRICANO QUE CRITICA E DESAFIA

“Estamos deixando de ler (legere-escolher) no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objetos de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado”. São palavras do moçambicano Antônio Emílio Leite Couto (Mia Couto), no 16º Congresso de Leitura do Brasil, em 2007 – Campinas.

Quem fala dele no livro “Intelectuais das Áfricas” é Tânia Macedo, professora de Literaturas Africanas. Ela afirma que Mia Couto foi um intelectual que viveu sob o colonialismo, acompanhou e atuou na transição e na independência de seu país e mantém uma atitude crítica em toda sua trajetória artística.

Estudou medicina, foi jornalista, político e escritor. Com o tempo, deixou a política para abraçar a literatura, sem nunca deixar de criticar os donos do poder e, através do seu trabalho, procurou avivar a consciência de seus compatriotas para seu papel de renovação.

Nascido no período colonial (1955), de ascendência portuguesa, como lembra Tânia Macedo, o intelectual moçambicano viveu a Europa dentro de casa e a África na rua com seus colegas negros na cidade de Beira, onde passou a infância.

Couto abandonou o curso de medicina para dedicar-se à ação política. Em 1974 era um jornalista estagiário num vespertino, em Maputo. Militou em grupos clandestinos de apoio à Frente de Libertação. Lutou para a extinção da situação colonial ao integrar-se à fileiras da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).

Após essa tarefa, a partir de 1979 e até 1981 foi diretor da revista semanal Tempo e, posteriormente, do jornal Notícias de Maputo (1981/85. A revista, da qual era diretor, não deixou de expressar fissuras nos discursos hegemônicos do partido Frelimo. Na seção de cartas, são mostradas as questões do cotidiano do povo se chocando contra o discurso do partido.

Em uma entrevista, quando abandonou a militância, Mia Couto apontou que aconteceram coisas que lhe traumatizaram, como amigos que foram presos, como Carlos Cardoso. “Nos tornamos vítimas do poder que defendemos. O que era traumático era a falta de lógica disso tudo”. Ao abrir uma nova etapa em sua vida, Couto escreve “Raiz de Orvalho”, seu primeiro livro publicado em 1983.

De acordo com Tània Macedo, é na prosa que Mia Couto torna-se conhecido internacionalmente. “Em seus romances e contos temos o intelectual africano engajado em questões como a nacionalidade, a devastação da guerra e a denúncia das condições do subalterno, sobretudo as mulheres, os velhos e as crianças que se transformaram em temas centrais em sua ficção”.

Em “A Varanda do Frangipani” (1996), Couto trata da tensão entre a tradição e os novos tempos. No “O Último Voo do Flamingo” (2000) escreve sobre o absurdo da presença dos capacetes azuis da ONU em territórios africanos, especialmente Moçambique. Em “A Confissão da Leoa” (2012) fala sobre a opressão feminina.

“Pode-se afirmar que a maneira poética de abordar a dolorosa realidade moçambicana é um dos traços da escrita de Mia Couto e estava presente na primeira narrativa do autor “Terra Sonâmbula” (1992)”. A obra faz um relato da guerra entre a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) e o governo da Frelimo, com críticas às autoridades do governo e a difícil relação entre as crenças ancestrais e a modernização dos costumes.

A trajetória de Mia Couto, segundo Tânia, não afasta o papel do intelectual africano participante, ou seja, daquele que reflete, discute e atua sobre as questões que percorrem a vida de seu país, como as formas de inscrição do poder. Em 2003 surpreende seu público com o volume “O País do Queixa Andar” ao reunir em livro 53 das crônicas publicadas na imprensa durante os anos de 1980 e 1990.

Nesses textos, “A Porta”, com a fórmula “era uma vez”, ele faz um relato sobre o porteiro que só deixa passar pela porta o estrangeiro com a carteira recheada de dinheiro. “Enquanto a questão das etnias, das cores e origens dos moçambicanos foram fatores de divisão sobre a nacionalidade, o país estará exposto à voracidade estrangeira”.

Em “E se Obama Fosse Africano”? Mia Couto coloca em discussão os problemas moçambicanos e africanos, como em “Os Sete Sapatos Sujos”. Ele propõe falar do futuro de Moçambique fazendo uma espécie de balanço de atitudes negativas e como a sua erradicação propiciaria a entrada para a modernidade. Esses sapatos sujos devem ser deixados na soleira da porta dos tempos novos.

Mia Couta destaca em “E se Obama Fosse Africano”? Mia Couta levanta a hipótese sobre o que ocorreria se Obama fosse candidato a presidente em um país africano. Ele diz que seria deflagrada a denúncia do autoritarismo e da truculência das elites do continente. Deixa claro que todos os entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

Se ganhasse as eleições, Obama teria que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos.

Mia Couto defende que o texto literário deve estar a serviço dos direitos humanos e da democracia. Nesse aspecto ele se aproxima do nigeriano Wole Soyinka quando em Cuba, no ano de 2001, disse que só existem duas categorias de cultura: a que lisonjeia e sustenta o poder e a cultura herege, que critica e desafia. No entanto, muitos intelectuais africanos se submergiram ao afropessimismo, ou escolheram o caminho da diáspora.

 





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