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:: ‘Encontro Com os Livros’

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IX)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

A IGREJA E A ESCRAVIDÃO

Em “A Cruz e o Chicote”, ainda com relação a Igreja, o autor diz que “até o final do século XIX, com raras opiniões isoladas, a instituição nunca se pronunciou oficialmente e de forma inequívoca contra a escravidão”.

Prosseguindo, acrescentou que Ela reconhecia que os cativos tinham uma alma imortal que devia ser salva mediante a administração dos sacramentos, mas bispos, padres e ordens religiosas eram donos de escravos e participavam ativamente do comércio negreiro.

Os padres, inclusive Manuel da Nóbrega, diziam que o conforto dos missionários dependia do trabalho dos escravos. Sobre os livros e ensaios escritos por jesuítas, o historiador Ronaldo Vainfas os denominou de moral cristã da escravidão e de projeto escravista dos religiosos.

Um desses autores citado por Laurentino é o italiano Jorge Benci, que exerceu diversas funções no colégio da Ordem da Bahia. No livro “Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos”, Benci não questionava, nem condenava a prática escravista.

Para o italiano, o cativeiro era parte e consequência da natureza decaída do ser humano, um dos efeitos do pecado original de nossos primeiros pais, Adão e Eva, donde se originaram todos os nossos males. De acordo com ele, o pecado foi o que abriu as portas por onde entrou o cativeiro.

Benci afirmava que a maldição de Noé lançada sobre Canaã, primogênito do seu filho Cam, transformava todos africanos – segundo a tradição, descendentes dessa linhagem bíblica – em candidatos naturais ao cativeiro.

Em seu entender, a primeira e a mais importante obrigação do senhor de escravos era alimentar a alma de seus servos com a Doutrina Cristã. A segunda, impedir que os escravos permanecessem no ócio, conforme ele, a fonte de todos os males. O dever do senhor era, portanto, botar os escravos para trabalhar, o mais rapidamente possível, “pois os negros estariam mais inclinados ao vício do que os brancos”.

Outra obrigação do senhor, dizia Benci, era dar ao escravo o castigo, para que não se costume a errar. Isso, para ele, era uma obra de misericórdia. Segundo Laurentino, o envolvimento da Igreja com a escravidão era antigo, bem anterior ao tráfico de africanos para América.

A expulsão dos mouros da Península Ibérica, no século XV, afirmava o autor da obra “Escravidão”, inundou a região do Mediterrâneo de cativos muçulmanos capturados pelos cristãos. Cerca de 10 mil foram escravizados na queda de Málaga, em 1487.

Esses escravos eram usados nos trabalhos mais árduos e perigosos, como as venenosas minas de mercúrio de Almadém, na Espanha, e as pedreiras do sul da Itália. “Entre os séculos XV e XVI, seguidas bulas papais deram a justificativa religiosa e o respaldo político de que os portugueses precisavam para conquistar novos territórios na África e escravizar seus habitantes”.

Em 1452, o papa Nicolau V autorizava o rei de Portugal a atacar, conquistar e subjugar os mouros sarracenos, pagãos e outros inimigos de Cristo, capturar seus bens e territórios, escravizá-los e transferir suas terras para a coroa portuguesa de forma perpétua.

O LIVRO É COMO A NASCENTE DE UM RIO QUE SE TRANSFORMA EM VIDA

DIA MUNDIAL DO LIVRO (23 DE ABRIL): UMA HOMENAGEM A TODOS ESCRITORES

Para dizer a verdade, meus primeiros contatos com a leitura foram através dos gibis, mais por influência dos coleguinhas de rua pelo encantamento nas histórias de faroeste dos personagens-heróis norte-americanos de Zorro, Buffalo Bill, Billy Kid, Django e tantos outros que até me faziam esquecer os deveres escolares.

Claro que naquela época não tinha consciência formada sobre a importância do livro na vida de uma pessoa. Era também uma forma de enganar o meu pai que me colocara para estudar em Piritiba. Como ele era analfabeto, mas queria que eu frequentasse a escola, achava que eu era um estudioso aplicado quando me via grudado com os gibis.

Essa é uma outra história, mas foi a partir dali que mais tarde, no Seminário de Amargosa, peguei o gosto pela leitura do livro, na minha concepção, uma nascente de olho d´água, que em sua corredeira se transforma em riacho da vida, para depois desaguar no mar como rio. A minha singular narrativa é uma maneira simples que tenho para homenagear o Dia Mundial do Livro neste 23 de abril.

Pegando o gancho do jornalista e escritor Laurentino Gomes sobre os vocábulos que sempre estão se evoluindo no tempo, diria que os livros são como rios caudalosos que correm para os oceanos da evolução humana. Não importa aqui se eles são impressos ou virtuais. O que interessa é que o livro é cultura e vida que alimenta a nossa alma e afasta os maus espíritos.

O contador de histórias, mesmo que ele não saiba ler, é também um livro porque ele utiliza da sua oralidade para manter a tradição e os costumes da sua ancestralidade. Nesta data, pelo menos temos alguma coisa com que nos alegrarmos nesse conturbado governo de negacionistas e terraplanistas, que censuram autores e até queimam exemplares, por considerar que não seguem suas linhas retrógradas, fanáticas e psicopatas de pensamento.

Por incrível que pareça, as vendas de livros nos últimos dois anos têm dado sinais de aumento nas livrarias, o que significa que as mentes estão se abrindo para os livros, inclusive das crianças e dos mais jovens. Se esse nível de demanda permanecer, dentro de mais alguns anos vamos ter uma nação mais culta e, consequentemente, mais conhecedora de seus deveres e direitos, bem como, defensora das liberdades. Resumindo: Mais esclarecida que a de hoje. É uma luz que surge no final do túnel.

Estava contando minha trajetória na leitura, mas tive que interromper para lembrar esta data tão especial em todo ser humano que se dedica à leitura. Bem, no Seminário fui influenciado pelos colegas e pelo bom conteúdo e qualidade do ensino da instituição que despertava em nós a necessidade de ler para aprender mais e mais. Apenas havia um detalhe, o de que existia uma “proibição” para os menores de idade ler determinados escritores, vistos pelos padres como de linguagem pornográfica. Nos diziam que eram inadequados para o tempo.

Isso fazia despertar a curiosidade e, entre amigos, liamos escondidos os livros “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, “Iracema”, de José de Alencar e outros autores como Eça de Queiroz e até alguns de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Comecei por eles e segui com outros internacionais não recomendados pela direção do Seminário.

Nessa época, ainda na década de 60, quando existia uma grande efervescência cultural, onde os escritores e autores eram discutidos em rodas de amigos e em mesa de bar (cada um tinha o seu favorito, como se fosse um time), conheci um colega que só andava com um livro debaixo do braço, e até nos arvorarmos em criticar por achar que aquilo já era exagero demais.

Hoje, com essa idade, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a leitura me deu régua e compasso. Abriu mais meus horizontes e me ensinou a empregar melhor as palavras no papel, na máquina datilográfica (maior parte quando estive na ativa jornalística) ou na tela desse computador. O pouco conhecimento que tenho, veio dos livros.

Não vou aqui citar, nesta data comemorativa ao livro, os grandes escritores da humanidade, dentre os quais centenas de brasileiros que são conhecidos até internacionalmente, embora nossa país ainda não tenha sido merecedor de um Prêmio Nobel de Literatura, como nossos vizinhos da Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e México.

No entanto, temos grandes talentos, inclusive aqui em Vitória da Conquista e na região. Apenas confesso meu pesar e tristeza de que a arte de escrever não tem recebido o devido apoio, especialmente do poder público. Passou do tempo de pelo menos realizarmos uma feira literária em Conquista. Um bom gesto de abraçar o Dia Mundial do Livro.

Ao tempo em que nos felicitamos com a volta da leitura, também nos entristecemos ao testemunhar o maltratar da nossa língua mãe, a fina flor do Lácio, com o uso de códigos e grunhidos nas redes sociais, sem falar na substituição do português por termos estrangeirados ou inglesados nas portas das lojas, em placas, panfletos, cartazes, anúncios e até em matérias jornalísticas.

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (VIII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo “Visão do Inferno”, o autor da obra descreve que as caldeiras dos engenhos daquela época ferviam em meio à escuridão da noite brasileira. “As labaredas, frequentemente comparadas ao fogo do inferno, ou à lava incandescente dos vulcões, eram alimentados por escravos – vultos que se movimentavam ao redor de gigantescos tachos de cobre onde borbulhava o caldo de cana a ser depurado para se transformar em açúcar”.

Em sua visão, Laurentino diz que açúcar é sinônimo de escravidão. Quem faz relatos mais macabros ainda é o padre André João Antonil que, em companhia do padre Antônio Vieira, o defensor da escravidão, chegou à Bahia em 1681. Seu livro “Cultura e Opulência do Brasil por suas Dragas e Minas”, foi publicado em Lisboa, em 1711.

Em um trecho do livro, Antonil escreve que, junto à casa da moenda, que chamam casa do engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, cárcere de fogo e fumo perpétuo e viva imagem dos vulcões Vesúvio e Etna(…)

Prossegue relatando que nos engenhos reais, costumava haver seis fornalhas, e nelas outros tantos escravos assistentes, que chamam metedores de lenha. “O alimento do fogo é a lenha, e só no Brasil, com a imensidão dos matos que tem, podia fartar como fartou por tantos anos, e fartará nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas são as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro…”

“Nunca consideramos este tráfico ilícito, Na América, todo escrúpulo é fora de propósito” – Luis Brandão, reitor do colégio jesuíta de Luanda, mas a Igreja produziu um grande santo que foi o padre Pedro Claver, natural de Catalunha, nascido em 26 de junho de 1580. Passou mais de 40 anos de sua vida visitando os navios negreiros que atracavam no porto de Cartagena das Índias, Colômbia. Levava conforto espiritual e material aos cativos.

Os escravos sempre chegavam desidratados e desnutridos, sem condições de se manter em pé. Claver descia aos porões escuros, fétidos, sem ventilação e, durante dias, se dedicava a cuidar dos mais fracos para curar suas feridas, dar comida e agasalhos. Ele fez um voto de ser escravos dos etíopes, aethiopum semper servus. Era nome genérico usado para designar os africanos nessa época. “Pedro Claver é o santo que mais me impressionou depois da própria vida de Cristo” – declarou o papa Leão XIII, ao canonizá-lo em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea. Ele hoje é padroeiro da Colômbia.

“Durante cerca de 400 anos, padres, bispos, cardeais e ordens religiosas, não apenas apoiaram como participaram do tráfico de escravos e lucraram com ele” – destacou Laurentino, acrescentando que poucos ergueram suas vozes contra o cativeiro dos africanos.

O começo do século XIX, a Ordem dos Beneditinos tinha mais de mil cativos trabalhando em suas fazendas no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Maranhão, os frades do Carmo e das Mercês possuíram escravos até março de 1887.

   O bispo do Congo e Angola recebia um ordenado de 600 mil reis por ano da Coroa Portuguesa, que era pago com direitos de exportação de escravos. O colégio jesuíta de Luanda enviava regularmente cargas de africanos para os colégios de Salvador e Olinda que, por sua vez, os revendia para os senhores de engenhos da Bahia e da Zona da Mata de Pernambuco.

O padre Antônio Vieira atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil. Não consigo entender essas irmandades de apego a Nossa Senhora do Rosário. Falta de consciência ou conhecimento histórico?

Este é o maior e mais universal milagre de quantos faz cada dia e tem feito por seus devotos a Senhora do Rosário – dizia o padre Vieira em suas homilias para uma irmandade de escravos de um engenho na Bahia, em 1633. No mesmo sermão, afirmava que aos escravos, cabia não apenas aceitar o sofrimento do cativeiro, mas se alegrar com a inestimável oportunidade que tinham de imitar os sofrimentos de Jesus no Calvário. “Em um engenho, sóis imitadores de Cristo Crucificado”.

Até mesmo filósofos e intelectuais respeitados por suas ideias libertárias, caso do britânico John Locke, participaram do tráfico escravo. No caso da Igreja Católica, de acordo com Laurentino, havia uma contradição insolúvel entre suas práticas e os ensinamentos de Jesus Cristo que ela pregava, ou seja, a própria razão da sua existência.

CURIOSIDADES DO TRÁFEGO NEGREIRO (VII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No século XVII, o consumo de açúcar estava em franca ascensão na Europa. Na Inglaterra, as importações saltaram de 10 mil para 150 mil toneladas entre 1700 e 1800, ajudadas pela novidade que, em 1662, a princesa portuguesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV, levou para Londres ao se casar com o rei Charles II. Ela introduziu o hábito de se tomar chá açucarado todo final de tarde (o chá das cinco da tarde).

Em 1580, de acordo com o autor do livro “Escravidão”, Laurentino Gomes, Pernambuco tinha 66 engenhos operados por duas mil famílias portuguesas e já liderava a produção de açúcar no Brasil. Os primeiros engenhos eram pequenos, movidos a bois e cavalos ou rodas d´água. No Recôncavo Baiano, a prosperidade do produto fez com que a população de Salvador triplicasse num curto período de 65 anos, passando de 14 mil habitantes em 1585 para cerca de 40 mil em 1750.

A malandragem brasileira já vem desde os tempos coloniais. Nas operações de vendas para a Europa, muitas vezes, açúcar de baixa qualidade era declarado como de primeira e entregue em quantidades inferiores à declarada. Os exportadores colocavam o açúcar de boa qualidade no alto da caixa, enquanto embaixo, em volume maior, o açúcar inferior. Em casos extremos de fraude, botavam pedras no lugar do produto. Os comerciantes portugueses reclamavam da má reputação do açúcar brasileiro, embora de melhor qualidade que o do Caribe.

A maior parte (dois terços) do açúcar era transportada pelos holandeses, que também cuidavam do refino. Outra curiosidade era que quase metade das propriedades pertencia aos cristãos-novos (judeus forçados à conversão), isto entre 1587 e 1592. Por volta de 1590, a Inquisição Católica descobriu uma sinagoga escondida num engenho, em Matoim, Recôncavo Baiano. Diogo Lopes de Ulhoa, comerciante e plantador de cana foi denunciado, mas livrou-se da fogueira graças à riqueza e o poder que acumulou na Bahia.

Além dos cristãos-novos, jesuítas, padres carmelitas e beneditinos eram donos de algumas das maiores fazendas açucareiras do Nordeste, com numeroso plantel de escravos.

O corte da cana era feito em dupla de escravos, com base em cotas diárias prefixadas. No século XVII, a média era de 4.200 canas por escravo do Engenho Sergipe, situado no Recôncavo Baiano. Os mais fracos e idosos só conseguiam preencher a cota ao anoitecer e sob pressão do chicote.

Havia diferentes especialidades desde os canaviais aos engenhos. Os mais valorizados eram os purgadores, mestres de açúcar, supervisores, carpinteiros, ferreiros e ferramenteiros. Os trabalhadores do campo eram tratados com mais desprezo e os que tinham menos privilégios, bem como jornadas de trabalhos mais árduas.

Os grupos mais especializados compunham-se, majoritariamente, de mulatos ou crioulos, que trabalhavam lado a lado com pessoas livres ou alforriados. Existia uma hierarquia social entre os próprios escravos. A moagem e o processamento requeriam habilidades, em geral mulheres que introduziam as hastes das canas nas prensas.

Qualquer descuido resultaria em mutilação de uma mão ou um braço. Os engenhos movidos a água eram mais perigosos que os tracionados a bois. Segundo o padre jesuíta André João Antonil, o lugar de maior perigo era a moenda porque a escrava poderia ser mutilada.

Por esse motivo era comum manter ao lado da prensa um facão afiado, que poderia ser usado para amputar um braço, impedindo que seu corpo inteiro fosse tragado e esmagado pela máquina. Houve o caso de uma rainha do povo Cabinda, norte de Angola, que se tornou escrava e acabou tendo seus dois braços amputados enquanto tentava salvar outra escrava presa pela moenda.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (VI)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo sobre “O Brasil”, o autor faz uma relação direta entre o que representava o açúcar para a escravidão, dizendo que “o açúcar era sinônimo de escravidão”. Até um pouco depois da independência, em 1822, o produto era o principal item da pauta de exportação brasileira. Em 1760 correspondia a 50% do total, contra 46% da mineração. Somente em 1831, o café passou a ser o novo rei da exportação.

“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” – escreveu por volta de 1710 o padre jesuíta André João Antonil.

Originário do sudeste asiático, a cana de açúcar percorreu um longo caminho até chegar às terras escuras e úmidas da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano, no início da colonização. Na antiguidade, o cultivo era praticado na Pérsia e na região de Bengala, na Índia. Depois os árabes levaram para as margens do Mar Mediterrâneo. A cana tornou-se uma das fontes de renda dos cavaleiros cruzados cristãos que ocuparam a Palestina entre os séculos XII e XIII. Dali espalhou-se para outras partes do mundo, como Espanha, Portugal (Ilhas da Madeira, Canárias e Açores).

De acordo com Laurentino, com as lavouras e os engenhos, seguiam também os escravos. Para historiadores, açúcar, escravidão e ocupação da América são histórias interligadas. Da moenda numa pedra circular, os engenhos foram se evoluindo. Da Madeira, a cana saltaria para a América (Caribe) através de Cristóvão Colombo em sua viagem de 1493.

A cana se adaptou bem no Nordeste brasileiro por ter terras em abundância, solos férteis e clima quente ensolarado. Faltava apenas o quarto item: mão de obra escrava. A solução definitiva começou a ser adotada em 1559, quando Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil ordenou a redução em 40% das tarifas alfandegárias para a entrada de cativos africanos no Brasil, com objetivo de estimular a produção de açúcar.

A chegada dos primeiros escravos africanos coincide com o vertiginoso ciclo da cana, que viria a transformar a paisagem brasileira, bem como os costumes e os hábitos. Em 1664, a prosperidade gerada pelo açúcar era tão grande que D. João IV definiria o Brasil como uma “vaca de leite” de Portugal.

A cultura do açúcar nos trópicos, segundo Laurentino, caracterizava-se pelo binômio casa-grande e senzala. Os donos dos maiores engenhos exploravam o trabalho de 100 a 150 escravos. O produto era consumido em quase toda Europa, e uma das grandes entusiastas era a rainha Elizabeth I, da Inglaterra. Na próxima coluna vamos mostrar os sofrimentos dos escravos nos trabalhos degradantes e desumanos nas usinas e nas lavouras.

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (V)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Conta o historiador Laurentino que existiam algumas leis de punição para quem torturasse ou matasse um escravo, sem motivos, mas elas não funcionavam.

O autor narra que, em 1737, por ter matado dois cativos e um negro alforriado, um dos quais foi deixado pendurado pelos testículos em um gancho de ferro até expirar, Pedro Pais Machado, senhor de engenho de Capanema, na Bahia, foi preso, porém, logo libertado.

Em meados do século XVIII, Garcia D´Ávila Pereira Aragão, herdeiro da Casa da Torre, uma das maiores propriedades rurais da colônia na época, e um dos homens mais ricos da Bahia, foi denunciado à Inquisição por uma série de atos de sadismo e extravagâncias físicas e sexuais contra suas escravas. Apesar das evidências, foi absolvido pelo tribunal.

De acordo com a classificação feita em 1938 pelo historiador Artur Ramos, havia três categorias de castigo de escravos no Brasil. A primeira era a dos instrumentos de captura (correntes e colares de ferro, algemas, machos e peias). A máscara de folha de flandres era usada para impedir o escravo de comer cana, rapadura ou engolir pepitas de pedras preciosas.

A segunda categoria eram as torturas. Uma das modalidades era o “anjinho”, instrumento de suplício de origem medieval. Torniquetes introduzidos nos dedos dos escravos produziam dores atrozes. A terceira eram as surras com palmatória e o bacalhau (chicote de cabo curto com cinco pontas de couro retorcido).

Para identificar escravos fugitivos, utilizavam-se marcas gravadas a ferro quente com a letra F, além do libambo, uma argola de ferro que era presa ao pescoço do cativo. Na prática, três instrumentos eram aplicados com mais regularidade, como o chicote, o tronco e os grilhões. A punição mais comum era o açoite nas costas ou nas nádegas.

Ora, o mais hilário é que no começo do século XVII, o jesuíta italiano Jorge Benci, que viveu 17 anos na Bahia, recomendava que as chibatadas não ultrapassassem o número de 40 por dia, para não machucar o escravo. “Trinta ou quarenta hoje, e outras tantas daqui a dois dias. Daqui a outros dois dias, outros tantos”.

Apesar dessas recomendações do jesuíta, ao invés de condenar qualquer tipo de castigo, narram viajantes que havia punições absurdas de 200, 300 e até 600 açoites. Essa quantidade deixava as costas do escravo em carne viva. O risco de morte por infecção e gangrena era alto. Para evitar isso, banhava-se o escravo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta.

Outros tipos de torturas incluíam enfiar tições de brasa incandescente na boca dos cativos, e a aplicação do lacre (cera derretida sobre as feridas). Por tudo isso, existia uma elevada taxa de suicídios.

Nos manuais dos jesuítas (eles próprios donos de milhares de escravos e indígenas) sobre a administração de escravos no Brasil, havia recomendações de natureza psicológicas sobre como aplicar as punições aos infratores.

O padre Manuel Ribeiro Rocha, por exemplo, aconselhava que houvesse um certo tempo entre a suposta falta e o castigo, para serenar os ânimos. Dizia que o castigo não deveria ser ministrado com cólera e furor, e sim, com brandura e caridade. Ele orientava o uso da palmatória, cipós e prisão. O Manuel recomendava ainda que os senhores não permitissem que os feitores dessem coices na barriga das mulheres grávidas.

Destaca o autor da obra que o cativeiro separava pais e filhos, maridos e mulheres, famílias e comunidades inteiras que, na África, tinham convivido e compartilhado os mesmos costumes e crenças por muitas gerações. “A escravidão não apenas divide; ela também une o que divide” – observou o sociólogo francês Roger Bastide, um dos grandes estudiosos da cultura africana no Brasil.

Segundo Laurentino, ainda durante a viagem, vínculos se formavam entre os próprios africanos. Os sofrimentos compartilhados forjavam amizades entre cativos de diferentes regiões, etnias e linhagens, algumas das quais eram até rivais entre si na África. Esses novos companheiros de travessia do oceano eram chamados de “malungos”, do quimbundo (Angola) correntes de ferro. Sempre existiam laços de solidariedade.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IV)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que “a primeira providência consistia em retirar, com vários dias de antecedência, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que não houvesse marcas visíveis na pele. A segunda era lavá-los com esponja e sabão”.

Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com óleo de dendê, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.

O leilão era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Porém, haviam expedições previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no século XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisição de um determinado número de cativos, que eram desembarcados às escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).

Na maior parte, nos séculos anteriores, as transações eram feitas na base da oferta pública, semelhante ao das feiras agropecuárias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga.  Na chegada aos portos brasileiros, o capitão do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alfândega e submeter-se à fiscalização sanitária.

Diversas epidemias ocorridas no Brasil no início do século XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regiões da África onde havia doenças, como varíola, malária ou febre amarela. Os leilões começavam pela “primeira escolha” onde os compradores mais ricos tinham a preferência de arrematar os mais jovens, fortes e saudáveis, por preços mais elevados.

Os mais idosos, doentes e portadores de alguma deficiência física eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquidação de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Saúde e do Santo Cristo.

No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos mínimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar braços e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observação mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doenças.

As senzalas brasileiras, na definição do sociólogo Clóvis Moura, eram um conjunto habitacional de construção rústica, sem janelas, construído de taipa e coberto de palha. Num espaço curto, ficavam homens, mulheres e crianças, na maioria sem vínculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.

Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cubículos até de manhã, quando seriam libertados para o início do trabalho.  Segundo historiadores, a definição de senzala teria sido dada pelos próprios escravos, derivada do quimbundo, língua de Angola.

Torturas e atrocidades

A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na América era de torturas físicas e psicológicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesuíta Manuel Ribeiro Rocha, missionário na Bahia em meados do século XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Recôncavo Baiano tinham o hábito deliberado de surrar os escravos.

O holandês Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horríveis, como de um negro que faminto furtou dois pães de açúcar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabeça aos pés, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holandês, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.

Em 1700, a Justiça mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutilações e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar denúncias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na época, D. João de Lancastre, recusou acatar as determinações do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria à quebra da disciplina na relação entre escravos e senhores. As leis eram inúteis num país ermo.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (III)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

O padrão das viagens foi mudado ao longo dos tempos, conforme demonstra o autor em sua obra. “No caso de Portugal, de início, todos os navios saíam de Lisboa ou de Algarve, recolhiam escravos na África e retornavam aos portos portugueses, onde os cativos eram redistribuídos para diferentes destinos, na América, nas Ilhas Atlânticas (Madeira, Cabo Verde) ou mesmo na Europa”.

Aos poucos, o negócio foi se transferindo para o Brasil. A partir do século XVIII, nove em cada dez expedições negreiras eram organizadas para o Brasil. Uma série histórica de viagens de navios atracados em Luanda (Angola), entre 1736 e 1770, mostra que 41% saiam do Rio de Janeiro, 22% de Pernambuco e a mesma percentagem da Bahia. Apenas 15% de Portugal.

Nessa época, os brasileiros tinham domínio quase absoluto sobre o tráfico de escravos. O Rio de Janeiro, principal centro organizador, respondeu sozinho pelo transporte de 1,5 milhão de escravos, seguido de Salvador com 1,4 milhão, e Liverpool (Inglaterra) com 1,3 milhão.

“O domínio brasileiro era tão acentuado que o arcebispo da Bahia, criado em 1776, tinha jurisdição sobre as dioceses de Olinda, Rio de Janeiro e bispados do Congo, Angola e São Tomé, englobando a Costa da Mina (Gana).

Haviam os roubos de cargas, os chamados piratas. O capitão John Hawkins, sócio da rainha Elizabeth I, roubou uma carga de seis embarcações portuguesas que estavam prontas para zarpar rumo a Cabo Verde. Na década de 1820, os jornais do Rio de Janeiro registraram dezesseis ataques de piratas a navios negreiros, a maior parte deles praticados por corsários norte-americanos”.

Em 1660, foi criada em Londres, a Company of Royal Adventures of England Trading with Africa, renomeada depois para Royal African Company ( RAC), para ter o monopólio do tráfico negreiro por mil anos. Na lista de investidores incluía quatro membros da família real e da nobreza britânica, entre eles o próprio rei Charles II.

No capítulo sobre “os lucros do tráfico”, Laurentino fala de como eram feitos os embarques e desembarques dos cativos. Diz que, enquanto os capturados aguardavam os embarques, os africanos estavam sujeitos a ser contaminados por uma infinidade de doenças endêmicas na costa da África, como malária, febre amarela e a temida varíola, sem contar a disenteria e até o escorbuto. Por isso, o objetivo do capitão era fazer a carga e partir rapidamente.

Conta o autor do livro que entre 1827 e 1830, navios brasileiros que faziam o tráfico a partir do Rio de Janeiro, demoravam por volta de cinco meses na costa da África antes de completar a carga. No século XVII, a média para as embarcações da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais era de cem dias. Quando tinha muita espera, capitães compravam e vendiam escravos entre si.

Ao longo da costa africana, os europeus construíram fortificações, castelos e feitorias onde os escravos eram estocados nos porões à espera da chegada dos navios. Muitos desses fortes e castelos existem até hoje e se tornaram atrações turísticas em países como Senegal, Gana, Benin, Nigéria e Angola. Só em Gana são mais de sessenta dessas construções.

Ainda sobre as empresas do tráfico, Laurentino cita, além da famosa Royal African Company (RAC), as francesas Companhia do Senegal e da Guiné; a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e várias iniciativas da Coroa Portuguesa, como a Companhia Geral de Comércio do Brasil, fundada em 1649, e a Companhia de Comércio do Maranhão, de 1682.

Sobre a RAC britânica, a mando da empresa, o corsário Robert Holmes atacou as Ilhas de Cabo Verde e ocupou o Cape Coast Castle, no litoral de Gana, que se encontrava nas mãos dos holandeses. Depois cruzou o Atlântico e tomou a Ilha de Nova Amsterdã, situada na foz do rio Hudson, renomeada como Nova York, hoje a meca do comércio.

No final do século XVII, três quartos do faturamento da RAC vinham do fornecimento de cativos para as colônias inglesas no Caribe e na América do Norte. Os britânicos se consolidaram como os maiores traficantes do século seguinte, ou seja, XVIII.

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (II)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

Aos reis e chefes locais do continente africano, cabia organizar as expedições militares para captura dos escravos. Os chefes definiam os preços, controlavam a oferta, faziam alianças e fechavam negócios com diferentes interlocutores europeus, em geral, rivais entre si, de modo a evitar o monopólio de qualquer país ou grupo de compradores em seu território.

No vizinho porto de Ajudá, entre final do século XVII e o começo do século XVIII, traficantes europeus tinham de pagar o valor equivalente a 37 ou 38 escravos (cerca de 375 libras esterlinas) por navio negreiro em troca da autorização para ali comprar cativos. As despesas incluíam ainda impostos, pagamentos para altos funcionários reais e intérpretes locais.

Por fim, o próprio rei local tinha a prerrogativa de vender, em primeira mão e a preços mais elevados, um determinado número de escravos de sua propriedade. Só, então, começavam as outras negociações. De acordo com o historiador, John Russell-Wood, “os participantes africanos do tráfico incluíam os príncipes e os mercadores mais ricos e poderosos do continente. A elite africana estava profundamente envolvida com a venda de escravos”.

As dívidas assumidas em cada etapa dessa rede de suprimentos, segundo Laurentino, eram negociadas em letras de crédito (letras de câmbio) a serem quitadas na venda dos escravos. Essas letras eram tão comuns que em meados do século XVIII eram utilizadas como moeda corrente em Benguela (Angola).

A ponta mais avançada dessa rede de negócios era o próprio capitão do navio negreiro, responsável pela compra dos escravos na costa africana. Além de negociadores, os comandantes desempenhavam algumas funções extras na cadeia do negócio.

Em Portugal e no Brasil, os investidores do tráfico contratavam os capitães para cobrar e negociar dívidas, ou processar na justiça os caloteiros situados em regiões remotas. Os capitães, na verdade, eram donos de parcelas expressivas das cargas que transportavam, conforme assinalou o historiador Roquinaldo Ferreira.

Havia preferência por escravos a partir de determinadas regiões. Os angolanos, por exemplo, eram considerados dóceis e bons trabalhadores nas lavouras e no serviço doméstico. Os oriundos da chamada Costa do Ouro, ou da Mina (Gana) eram bons na mineração. Da Guiné chegavam africanos experientes nas atividades pecuárias e de pastoreio.

Segundo relato do padre jesuíta André João Antonil, alguns eram arrogantes e rebeldes. Para o Brasil vieram os congos, ardas, minas, São Tomé, Angola, Cabo Verde e poucos de Moçambique. Os ardas e minas são robustos. Os de Cabo Verde e São Tomé, mais fracos. Os de Angola e do Congo, mais capazes de aprender ofícios. Os mulatos são soberbos, viciosos e mais valentes.

Desde o início do tráfico, os europeus tiveram que se adaptar a um padrão monetário peculiar na África que usava conchas marinhas como moeda, em lugar de peças de metal ou papel. Uma dela era chamada de zimbo, coletada nas praias da Ilha de Luanda (Angola), sob regime de monopólio do rei do Congo. Eram tão populares que padres e bispos recebiam salários e doações em zimbos.

Essas conchas eram também encontradas nas praias da Bahia. Eram exportadas pelos portos de Salvador e Rio de Janeiro e usadas nas compras de escravos africanos. Eram tantas que provocaram uma desvalorização monetária.

Outra moeda-concha muito valorizada na África eram os cauris, espécie de búzios originários das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, mais apreciado no Golfo da Guiné do que as similares angolanas. Eram comprados na Índia por holandeses, franceses, ingleses e portugueses que exportavam para a África.

No auge do tráfico, no século XVIII, holandeses e ingleses importavam cerca de 40 milhões de búzios cauris por ano. Juntos teriam movimentado quatro bilhões de conchinhas entre 1700 a 1790. Por volta de 1650, em Aladá, se podia comprar uma galinha por cerca de dez conchas. Um século mais tarde, a galinha valia trezentas conchas.

Quase todos países europeus se envolveram no comércio de escravos, mas portugueses e brasileiros foram os maiores ao longo de quase quatro séculos.

 

 

CURIOSIDADES NO TRÁFICO DE ESCRAVOS

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Vamos aqui destacar algumas delas:

No auge do tráfico, por volta de 1780, os cativos eram capturados e comprados ao longo do litoral africano, numa extensão de quase seis mil quilômetros de cumprimento por mil de largura, da atual fronteira da Mauritânia com o Senegal até o sul de Angola. Nas décadas seguintes, essa faixa costeira se estenderia por outros quatro mil quilômetros, com a inclusão de Moçambique no roteiro do Brasil.

O banco de dados Slave Voyages registra que havia um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano. Vinte deles respondiam sozinhos por 93% de todo tráfico no Oceano Atlântico. Até início do século XIX, o tráfico era o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo.

A rede de interesses envolvia agentes comerciais e controles contábeis das transações, uma estrutura de fornecimento de água e comida, e até instituições religiosas para batizar e catequizar os escravos. Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de crédito, empresas de transportes que forneciam navios, apoio logístico, além de um complicado esquema burocrático.

Na economia escravagista, havia até um negócio paralelo tão transgressor que nunca recebeu destaque na história, que era a reprodução sistemática de cativos, com objetivo de vender as crianças, como se comercializa animais. Ocorreram experiências conduzidas em Portugal, Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas aconteceu no Palácio Ducal de Vila Viçosa, sede dos duques de Bragança a partir do fim da União Ibérica, em 1640, com a ascensão de D. João IV ao poder. Havia um centro de reprodução de escravos.

Sobre as comparações de preços, Laurentino cita que o tráfico era uma atividade altamente organizada, sistemática, complexa e tão arriscada quanto lucrativa para seus investidores. Alimentava uma vasta rede de compradores, vendedores e fornecedores de serviços, produtos e suprimentos ao redor do mundo.

Entre as mercadorias brasileiras mais valorizadas no tráfico estavam a cachaça, tabaco, couro, cavalos, farinha de mandioca, milho, açúcar, carnes e peixes secos e salgados, além de ouro e diamante contrabandeados. Um historiador calculou que a cachaça foi responsável pela aquisição de 25% de todos escravos traficados da África para o Brasil entre 1710 a 1830. Somados, a cachaça e o tabaco, serviram para adquirir 48%, quase a metade de dois milhões e 27 mil cativos que chegaram vivos ao Brasil entre 1701 e 1810, segundo Luiz Filipe de Alencastro.

Durante décadas, a coroa portuguesa proibiu o uso da cachaça na compra de escravos, para não prejudicar a concorrência dos vinhos produzidos em Portugal. Nada adiantou porque passaram a fazer negócios clandestinos, principalmente em Angola.

Uma devassa feita pelo governo português descobriu que o governador de Angola, João da Silva e Sousa, era dono de quatro navios que levavam escravos de Angola para o Brasil e, na volta, iam carregados com pipas de cachaça.

A organização do negócio negreiro chegou a tal ponto que os traficantes da Bahia tinham sua própria irmandade e seu santo de devoção, que era São José, cuja imagem podia ser vista na pequena igreja de Santo Antônio da Barra, em Salvador. Vamos ter mais curiosidades nas próximas postagens da Coluna de Livros.

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