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:: 6/maio/2026 . 23:44

A NOSSA ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO NECESSITA SER MELHOR REGADA

  Nasceu do latim vulgar a última Flor do Lácio, ao norte da Itália, introduzido pelos soldados romanos no noroeste da Península Ibérica, a partir de 218 a.C.. Misturou-se e sofreu influencias com as línguas locais e depois com idiomas germânicos (século V) e árabes (século VIII).  

  Nos séculos IX e XIV, com a expansão dos árabes, se evolui para o galego-português, falado na Galiza e norte de Portugal.   Veio a se consolidar mesmo a partir dos séculos XII e XIII (1200 e 1300), sendo oficializado pelo rei Dom Dinis (1290) como a língua da corte.

  Como se vê, foi um longo processo, tendo como partida o latim vulgar, para se ter o português arcaico. Como sempre acontece, passou despercebido da mídia e por muitos, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a Flor do Lácio, no último dia 5 de maio, criado pela Unesco, em 2019, para valorizar a cultura dos povos que falam esse idioma.

  É bom lembrar que em 5 de novembro se comemora o Dia Nacional da Língua Portuguesa (lei 11.310 – 2026), em homenagem ao nascimento (1849 em Salvador-Bahia) do grande escritor, jurista e político Rui Barbosa. É mais um célebre nordestino conhecido mundialmente pelo seu discurso em Haia.

  Atualmente são cerca de 280 milhões de habitantes que falam o português (a maioria no Brasil – 200 milhões) em nove países, incluindo Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Timor Leste (Ásia Oceania) e ainda Macau (China), que utiliza o português.

  O português é considerado a língua mais recente das línguas neolatinas (latim vulgar) da região do Lácio, na Itália.  Essa metáfora, “a flor exalta a beleza da língua inculta e bela” foi popularizada pelo nosso grande poeta Olavo Bilac em seu soneto “Língua Portuguesa”:

  “Ultima flor do Lácio, inculta e bela,/És, a um tempo, esplendor e sepultura:/Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura./ Tuba do alto clangor, lira singela,/Que tens o trom e o silvo da procela,/E o arroio da saudade e da ternura!

 Amo o teu viço agreste e o teu aroma/De virgens selvas e de oceano largo!/Amo-te, ó rude e doloroso idioma.

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,/ E em que Camões chorou, no exílio amargo,/ O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”  

  Do Lácio, do latim vulgar, derivou o espanhol, o francês, o italiano, o romeno, o galego-português no sul da França, o sardo, na Itália, romenche, na Suíça, ladino e friulano (Itália), mirandês e aragonês (Portugal). Existe uma imensa variedade originada da evolução latina.

  A nossa, não tão conhecida e grande língua, hoje maltratada pelos brasileiros, com suas abreviações, erros ortográficos e gramaticais, com seus neologismos e estrangeirismo, possui quatro pilares, quais sejam, linguagem e sociedade, leitura e expressão escrita, funcionamento da língua e produção e compreensão oral.

  Como é rica e bela, conta ainda com dez classes de palavras, tais como adjetivo, advérbio, artigo, conjunção, interjeição, numeral, pronome, preposição, substantivo e verbo.

  É verdade que ela é muito complicada e diversificada em suas palavras, como exemplo, manga que tem vários sentidos, de fruta, manga de pasto, do verbo mangar, manga de camisa e assim por diante.  

   Tem as homófonas, mesmo som, mas com grafias e significados diferentes, caso de sessão que vem de tempo, reunião (sessão de cinema, de terapia); seção/secção, de repartição, departamento; seção de livros; e ainda cessão, de doar, transferir algo para alguém.

   A nossa língua também é intrincada e muitos batem a cabeça com os porquês. Temos o por que quando se quer fazer uma indagação no início de uma frase, substituível por qual razão; porque de resposta; por quê em fim de frase antes da pontuação; e o porquê, antecedido de artigo, significando o motivo.

  Como todas as línguas, a nossa Flor do Lácio também está sujeita às reformas. Ela sofre mudanças, como a última ortográfica, em 1990, com uso obrigatório a partir de janeiro de 2016.

 Entre muitas novidades podemos destacar o fim do trema; inclusão das letras K, W, e Y em nosso alfabeto (26 letras); novas regras de acentuação (paroxítonas de ditongos abertas), como adaptómetro para adaptômetro, abiogénese para abiogênese, abjecção para abjeção; acento diferencial (voo, enjoo); uso do hífen (micro-ondas, antissocial, paraquedas), dentre outras regras.    

    No entanto, o que mais nos deixa afrontado é a infestação de neologismos, anglicismos e estrangeirismos em nosso belo português nos dias atuais. Nos “shoppings”, por exemplo, temos a impressão de que estamos em Nova Iorque.

  Correntemente utilizamos as palavras shoppar, linkar, selfies, o próprio shopping, delivery, feedback, mouse, show, freelancer, hot dog, home office, design, brainstorming, pitch, outdoor (ar livre, mas placa no Brasil), fitness, pet shop, download, scaner, crush, notebook, spoiler, print screen, smoting (fumar), open mind (mente aberta), love store, one place (um lugar), true way (caminho verdadeiro), bright spot (ponto brilhante), pure spul (alma pura, infinity store e por ai vai.

   Como bem observamos, temos uma avalanche ou uma enxurrada de estrangeirismo invadindo o nosso português e muita gente acha chique citar com galhardia, e ai de quem não pronunciar corretamente a expressão inglesada. Assim, nossa língua vai ficando desprestigiada e mal falada, principalmente pelos nossos jovens que mais deveriam preservá-la das invasões estrangeiras.           

O SERTANEJO É ÚNICO

  Passou despercebido, em pleno feriadão, o dia 3 de maio (domingo), dedicado ao sertanejo, aquela figura que nos faz logo lembrar do Nordeste, da caatinga, o vivente do chão estorricado pelas secas e florido quando batem as chuvas. Nos remete também ao cabra forte e resistente às intempéries do tempo, como dizia o escritor Euclides da Cunha.

   Me sinto um deles e com muito orgulho por ter nascido em pleno sertão. Melhor ainda que a data celebra a cultura, a música sertaneja – aquela de raiz – a vida no campo e, especialmente, a força e a resiliência do povo do sertão brasileiro.

  A comemoração surgiu na década de 1960, impulsionada pela Rádio Aparecida que recebia violeiros de todo país na região. É uma homenagem ao homem e à mulher do campo, exaltando suas tradições e costumes. O dia está associado ao cantor Tinoco, da famosa dupla Tinoco & Tinoco.      

    Entre romancistas e escritores nordestinos, na minha visão, quem melhor define o sertanejo é Graciliano Ramos, o alagoano, de Palmeira dos Índios. Para ele, o sertanejo é único, com sua característica própria, que se identifica com o sertão estorricado, rachado, do mandacaru, do cacto, da catingueira, do xinque-xique, do juazeiro, da espinheira e do umbu.

 É aquele homem e mulher dos engaços e bagaços. É o retirante que foge da seca em direção ao sul em busca de sobrevivência, mas retorna quando as águas molham o seu torrão. Ele tem a cor cinzenta da caatinga, castigado pelo sol escaldante, mas de alma festiva pela esperança e pela fé, embrenhado em suas crendices e um místico-religioso.   

   Sertanejo é o canto da cauã na beira da cacimba, é o carcará e o gavião, a Asa Branca na canção de Luiz Gonzaga, o Patativa do Assaré, o pássaro preto e o sofrer. É como a terra que se renova e brota rápido em cores diversas quando batem forte os trovões nas chuvaradas do verão. Sertanejo é o profeta da chuva.

  Ser sertanejo é ser poesia, repente, trovador, gente simples e humilde na labuta do plantio da abóbora, do feijão, do milho e do andu, com fé e esperança. 

   Para mim, sertanejo lembra um ser guerreiro, penitente como Conselheiro. Ele tem sua própria cultura do caboclo boiadeiro no aboio do vaqueiro, com seu sotaque matuto e catingueiro. Além de cismado, tem seus hábitos inconfundíveis, diferentes da mata.

  O sertanejo tem um espírito único, um olhar melancólico cheio de histórias e lendas de heróis e carrascos coronéis. É sinônimo de caatinga. Foi lá onde nasci de parteira e respirei o primeiro ar diferente de outro lugar. Foi onde meus pais me criaram e me ensinaram a ganhar o mundo.

    

 





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