:: jun/2026
AS PEQUENAS E AS GRANDES
AS COISAS GRANDES FICARAM PEQUENAS E VICE-VERSA
– Parceiro, tive que cortar uma estrofe e algumas frases porque ninguém escuta mais músicas longas nos dias de atuais. Tem que ser tudo pequeno e curto. É assim que a banda toca.
No sentido contrário, isto me faz lembrar dos tempos dos grandes festivais dos anos 60 e 70 das músicas de Edu Lobo (Ponteio), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Geraldo Vandré (Disparada), Chico Buarque (A Banda), Gilberto Gil (Domingo no Parque) e tantos outros com suas longas letras de conteúdo social e político.
A grande maioria do povo não quer mais saber e nem ouvir letras musicais cumpridas. A turma dos axés, dos arrochas, pagodes e sofrência tasca uma pequena estrofe e o resto é só barulho. A galera cai dentro e não sabe nem o que o cantor está falando. A mensagem não importa mais. A cabeça ficou pequena e nela só cabe pouca coisa.
Observou que no mundo moderno e na era da tecnologia quase tudo é pequeno, a começar pelos chips onde suporta um montão de informações. Os microfones, os gravadores e outros aparelhos eletrônicos são manejados na ponta dos dedos.
A cultura ficou pequena e curta, bem como os poemas de poucas linhas. O número de leitores de livros é pequeno e até a inteligência e o QI estão apequenando. Na literatura, prevalecem os livrinhos de no máximo 150 páginas. O conhecimento e o saber moram entre poucos. A cuca está estressada e não comporta mais textos grandes.
– Seu áudio está muito longo e não tive tempo para ouvir todo. Fatia a fala – repreende o amigo. Raramente se usa o telefone e, quando acontece, tem que ser rápido no gatilho. O mesmo ocorre com as mensagens no celular. A palestra tem que ser pequena.
As pessoas andam apressadas e os papos têm que ser curtos. Hoje é só um alô e raramente um bom dia. A grandeza de prosear, jogar conversa fora e contar causos ficou para os matutos sertanejos do campo, ou para os mais idosos.
Diante de tantos problemas e na luta pela sobrevivência, seu bom humor ficou limitado e restrito. A pessoa se irrita com qualquer coisa e a paciência não é mais a mesma. “Não tenho mais paciência para aturar uma reunião”.
– Porra, aquele cara é muito chato e conversa demais. Ninguém tem saco para ouvir sua prosa e suas histórias. Parece até que não faz nada na vida.
Quando amigos se encontram nas ruas dos grandes centros urbanos, mal dá para um dedo de conversa. Ambos estão na correria. Dizem por aí que até o tempo encurtou, porém, isso é pura ilusão. Ele continua na dimensão de sempre.
Para os pobres e arremediados das classes médias baixas, o dinheiro está cada vez mais pequeno, a não ser que se faça falcatruas e malfeitos para crescer a grana. Por falar nisso, a honestidade, a ética e a seriedade reduziram de tamanho.
Da calçola, passou-se parra a calcinha curtinha. A cueca samba canção ficou cuequinha. O biquíni de antigamente virou tanga e fio dental, e até o amor ficou pequeno e passageiro. Casamentos que duravam anos, agora se acabam em poucos meses. A paz não é mais duradoura.
– É meu camarada, vivemos no mundo das coisas pequenas e reduzidas, mas outras permanecem grandes e só aumentam, como o ódio e a intolerância, as guerras para vender armas, a concentração de renda nas mãos de poucos, as imbecilidades e os besteiróis, as violências, as ambições, as ladroagens, as bandidagens, os corruptos e as corrupções.
Cresceram também o número de igrejas e fanáticos fundamentalistas, a extrema direita e esquerda caninas, o radicalismo e as metrópoles de milhões de habitantes amontoados nos arranha-céus, casebres e favelas.
Enquanto isso, as florestas, as matas, os cerrados e as caatingas estão ficando pequenos e desérticos com o aumento da depredação ao meio ambiente. Ah, isso só faz aumentar, inclusive o consumismo.
Temos hoje grandes temporais, enxurradas, ciclones, rajadas de ventos, deslizamentos de terras, incêndios, catástrofes e elevação das temperaturas com o aquecimento global, sem falar nos acidentes de trânsito e homicídios.
VINGANÇA, GLÓRIA E ÓDIO
Produto do próprio meio, de um Nordeste sem lei, sem justiça e dominado pelos poderosos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, durante seus quase 20 anos de cangaço, teve seus momentos de glória, decepções, ódio e vingança contra seus maiores inimigos.
De certa forma, não no sentido político ideológico, poderia se dizer que Lampião foi um rebelde revolucionário diante da situação de miséria, isolamento na região e abandono dos sertanejos nordestinos. Alguns analistas fazem essa referência à sua pessoa bandida.
Sua maior expressão de vingança e ódio se deu logo no início da sua trajetória no cangaço, por volta dos 20, quando da morte de seus pais, principalmente do seu genitor José Ferreira, morto a tiros pela tropa do tenente José Lucena, em Alagoas.
Se ele já era um moço violento, a partir dali destilou toda sua raiva para vingar as injustiças praticadas contra sua família, sobrando, inclusive, para pessoas que nada tinham a ver com seu caso particular, a começar pelas desavenças com seu vizinho José Saturnino.
Foi discípulo do nobre cangaceiro “Sinhô Pereira”; criou seu próprio grupo; e saiu pelo sertão distribuindo crueldade como um temido bandoleiro das Américas. No fundo era um rebelde, não como um revolucionário com ideologia política definida.
Para sobreviver e manter seu “reinado” de “governador do sertão”, construído pela imprensa, fez alianças e prestou seus serviços aos coronéis, grandes fazendeiros e chefes políticos. Deles exigiu dinheiro e intermediação no tráfico de armamentos para sustentar seus grupos e espalhar o terror.
Sua maior glória em toda sua vida foi quando, em 4 de março de 1926, entrou triunfalmente em Juazeiro do Norte, no Ceará, com seus 49 cangaceiros e foi recebido a contragosto pelo padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, para integrar aos Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes.
Tudo foi programado pelo deputado Floro Bartolomeu, mas ele não pode receber Lampião porque logo adoeceu e veio a falecer no Rio de Janeiro. Coube ao padre Cícero a responsabilidade de recepcioná-lo. Antes se hospedou com seus homens no Hotel Centenário, em Barbalha, perto de Juazeiro, enquanto forças do exército acampavam na rua.
Em Juazeiro, o “rei do cangaço” foi recebido por uma multidão de mais de quatro mil pessoas; andou livremente pelas ruas; deu entrevistas à imprensa; e deixou ser fotografado com seus familiares por Lauro Cabral.
No encontro com o padre, foi agraciado com a patente de capitão do exército, dado por Pedro Albuquerque Uchoa, um inspetor agrícola que não tinha nenhum poder para isso. Diante da pressão, Uchoa afirmou que assinaria até a demissão do presidente da República.
Tudo não passou de um embuste, conforme relata a autora do livro “Lampião – Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim, só que Virgulino acreditou; vestiu o fardamento do Batalhão Patriótico; e se sentiu como se fosse um interventor do Nordeste.
Naquele ato, ele achava que seria integrado à sociedade e poderia fazer o que bem entendesse, tanto que partiu para lutar contra Carlos Prestes, cuja coluna já estava na Bahia. Sua ficha só caiu, que tudo não passava de uma armação, quando as forças das Volantes continuaram lhe perseguindo.
Quando percebeu a trama, Lampião sofreu sua maior decepção em toda sua vida. Sentiu-se enganado e ludibriado e, então, brotou ainda mais com força sua sede vingança. O ódio aumentou, principalmente contra os governos e os “macacos”. Passou a cometer mais barbaridades, saques contra vilas e propriedades.
Sua violência tirana se voltou contra a construção de estradas de rodagens e vias férreas no final dos anos 20 e início dos 30. Esse progresso prejudicaria suas atividades cangaceiras por causa da maior mobilidade dos soldados.
Ao se sentir encurralado, Lampião criou seus subgrupos e passou de nômade a sedentário, a partir de 1935, conforme assinala Élise. Entocou-se por dias e meses em esconderijos seguros, para depois sair praticando seus crimes e extorquir os poderosos com pedidos de dinheiro através de suas cartas intimidatórias.
ORIGEM DO SEU APELIDO
Existe uma curiosidade com relação ao apelido de Lampião. Os escritores, pesquisadores e historiadores dão várias versões. Élise descreve que “o apelido Lampião teria uma relação com a luz que emana da sua arma quando ele atirava. Para outros, porém, tratava-se muito maios do brilho irradiado por sua pessoa. Lampião, lanterna, candeeiro – é portador de luz para seus companheiros”.
Na realidade, todos que entravam para o cangaço recebiam um nome de batismo, quer seja de animais, tipo físico, árvore ou fenômenos da natureza. Muitos atribuem ao cangaceiro “Sinhô Pereira”, seu primeiro chefe, o mentor do apelido Lampião.
O apelido foi dado pelo seu chefe porque o “fogo” da sua arma, durante um combate no povoado de Nazaré, em Pernambuco, não se apagava nunca. “O rifle desse menino é que nem um lampião”.
Outra versão é que, quando ele trabalhava para Delmiro Gouveia, conduzindo comboios transportando peles de animais no sertão, um dia uma mula abalroou e derrubou um dos lampiões (candeeiros). Esse episódio teria levado um de seus companheiros a chamá-lo de Lampião.
Por último, tem a versão de Optato Gueiros, oficial combatente e depois escritor sobre o cangaço. Numa entrevista que fez a Sinhô Pereira”, Optato perguntou ao próprio Virgulino sobre a origem do seu apelido.
O próprio Lampião contou sua história de que certa vez estava no Ceará num tiroteio numa noite escura de inverso em plena escuridão. Um companheiro deixou cair um cigarro e como não o achasse, “eu lhe disse: Quando eu disparar, no clarão do tiro, procure o cigarro. E assim foi, quando eu detonava o rifle, dizia, acende lampião e, desse dia em diante, fiquei Lampião”.
QUER “SACANAGEM”?
( Chico Ribeiro Neto)
” Só tomo cerveja depois que boto um salzinho na boca”, diz uma amiga.
Bar sem tira-gosto bom não presta.
Um tira-gosto inesquecível. Minha colega, jornalista Helô Sampaio, pegou um pedaço de charque no armazém e bar do Capenga, na Avenida Vasco da Gama, e jogou em cima do velho balcão de madeira. Jogou álcool e tocou fogo. Quando a chama estava bem baixinha, quase apagando, ela jogou a farinha, que grudou na carne. Depois, haja cerveja.
Cito alguns bons tira-gostos: moela com pão, passarinha, charque frito, carne do sol, casquinha de siri, salame, amendoim cozido ou torrado, caldo de feijão, peixe piramutaba frito, agulhinha frita, acarajé e torresmo. Uma farofinha é indispensável. Antigamente havia nos botecos ovos cozidos de várias cores na prateleira do balcão. “São de hoje”, atestava o dono do bar.
Tinha um cara que frequentava o Bar do Chico, na Barra, cujo tira-gosto era uma salada de tomate, cebola e pimentão temperada com sal e azeite.
Na minha juventude toda festinha tinha “sacanagem”, sucesso nas décadas de 70 e 80. Não é o que você está pensando. Era um espetinho feito com rodelas de salsicha em lata, queijo, azeitona e outros ingredientes.
A origem do termo é explicada por Lorena K. Martins no artigo “Tá a fim de uma sacanagem? Petisco de festa dos anos 80 reina nas mesas dos bares em BH”, postado no site otempo.com.br em 4/4/2025: “A origem do termo ‘sacanagem’ ainda é incerta, mas, segundo o historiador Luiz Antônio Simas, em seu livro “Sonetos de Birosca e Poemas de Terreiro” (2022), a explicação mais provável está na forma como os insumos eram montados no palito. Como ele descreve, “o fato de um ingrediente vir trepado em cima do outro já diz tudo: é uma sacanagem generalizada, com o queijo trepando no pimentão, a salsicha por cima do presunto e por aí vai”.
Havia também o tira-gosto coletivo. Não esqueço do amigo e jornalista Raimundo Machado, que, depois que a gente fechava a edição do jornal A Tarde, por volta de meia-noite, chegava na barraca de Dona Edna, vizinha ao jornal, e pedia logo uma cerveja e um mocotó em prato fundo. Cortava tudo miudinho, fazia aquele mexidão com pimenta e farinha, traçava uma boa garfada e passava o prato para o vizinho.
Uma vez, em Caculé (BA), um visitante chegou querendo um tira-gosto de ave, uma codorna, juriti ou perdiz. Com dois amigos, rodou vários bares onde só tinha tira-gosto de carne ou de linguiça de porco. Até que chegaram no boteco de um velhinho e perguntaram se havia tira-gosto de ave e ele respondeu: “A única ave que tenho aqui é um galo velho que tá lá no terreiro e que, se eu botar pra cozinhar agora (11 da manhã) só vai tá pronto meia-noite”.
Adoro uma tripa de porco frita na hora, com farinha, numa barraca de feira do interior. Se esfriar, não presta. Fica goguenta.
Será que no céu tem tira-gosto? Ou é só vinho de missa com água?
CORTARAM O JAMELÃO
Em minhas visitas ao distrito da Tapera, no município de Encruzilhada, terrinha bucólica, agradável e pacata, dividida entre parte alta e baixa – até deveria ser construído um elevador, do tipo o “Lacerda”, em Salvador – onde nasceu minha esposa Vandilza Gonçalves, sempre apreciava a formosura da frondosa árvore na pracinha do lugarejo, chamada de Jamelão, que fornecia sua sombra a quem nela se abrigava. Estive lá no início deste mês e fiquei triste com sua derrubada pela Prefeitura Municipal, mesmo com os protestos dos moradores. Em seu lugar, o poder executivo ergueu um tipo de “coreto” aberto de madeira e telha, sob o argumento de que embeleza mais a área e beneficia mais a comunidade e a quem passa por ali. Se derrubar uma árvore já é um grande pecado contra a natureza, principalmente nos tempos atuais de aquecimento global, o monstrengo do prefeito destoou com a praça. Aquilo ali, senhor prefeito, ficou mais parecendo com um barracão para abrigar tropeiros que não mais existem! Nossas lentes estão sempre abertas para flagrar os absurdos e este foi mais um que não agradou em nada os taperenses, conforme comentários que ouvi no mercadinho de “Tonio”, inclusive do ilustre personagem folclórico “Três Quinas”. Depois ainda tem gente que diz que “a voz do povo é a voz de Deus”. Se assim fosse, o prefeito de Encruzilhada não teria ordenado a derrubada do antigo Jamelão, que deixou muitas saudades, sobretudo entre os moradores mais antigos. No lugar do Jamelão, o prefeito deveria ser obrigado a plantar mais 100 árvores na Tapera e, mesmo assim, não seria redimido do crime ecológico contra o meio ambiente.
O MAR E EU
Poema da poetisa Ana da Silva, extraído da Coletânea “Entre Palavras e Marés: Vozes Femininas”, da qual participa nossa poetisa Regina Chaves, membra do nosso “Sarau A Estrada”.
Eu amo o mar, não sei se o mar me ama.
Como vou saber?
Eu… Enigmática assim como o mar.
As ondas vêm, vão e se quebram,
Mas o mar não se abala.
Nem eu me abalo com as ondas
Que vêm me abraçar,
Eu as devolvo pro mar.
Ah… O mar…Imensuravelmente airoso.
Eu… Insignificante, pretencioso
Trazendo o mar na imensidão
Para dentro do coração.
O SÃO JOÃO SHOW BUSINESS
Prometi a mim mesmo não mais falar ou fazer algum comentário sobre o nosso saudoso São João tradicional nordestino, mas de tanto ver e ouvir absurdos, extravagancias e a morte lenta desta festa junina, não consigo controlar minha revolta contra esses embusteiros prefeitos, artífices da destruição da nossa cultural.
O nosso São João de outrora virou um show business, uma indústria de entretenimento voltada para o lucro, só que para os bolsos dos “famosos” pagodeiros, arrocheiros, sertanejeiros, axeseiros e lambadeiros que fazem suas porcarias musicais e recebem altos cachês pagos com o suado dinheiro do povo, manipulado pelos coronéis da política.
Vou começar por Vitória da Conquista. De acordo com o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público do Estado da Bahia, a Prefeitura Municipal vai pagar mais de quatro milhões de reais com a contratação de 95 atrações para o “Arraiá da Conquista 2026”. Estou achando que tem mais coisa nesse pirão.
Até aí, tudo bem. O pior é que os artistas locais e nacionais receberão cachês que variam de cinco mil reais a seiscentos e noventa mil, uma excrescência em termos de diferenciação no que concerne aos valores. Os cachês mais altos serão abocanhados pelo cantor Pablo, seguido da cantora Joelma (R$550 mil) que viraram forrozeiros para inglês ver.
Quanto mais vou citando estes disparates e desmantelos administrativos contra a nossa secular cultura do forrobodó, vou ficando mais tiririca da vida, virado no diabo. Uma banda local fica com cinco mil reais, isto para pagar lá pelo final do ano e ainda com a obrigação de se apresentar de graça num distrito. O estrangeiro do show business recebe adiantado e vai curtir em Dubai, nas arábias.
Vamos viajar agora para o município de Quijingue, de pouco mais de 26 mil habitantes, lá no nordeste da Bahia, território do sisal, na microrregião de Euclides da Cunha. Lá é só pobreza e está atravessando uma seca, mas a prefeitura contratou uma tal de dupla mineira sertaneja dos irmãos Victor e Leo por setecentos mil reais.
De onde vem toda essa grana, de um município tão pobre? O prefeito deve ser mais um daqueles que engana os bestas e tolos, de que a festa vai movimentar a economia e tirar a população da miséria e da fome.
Além de assassinar nossa tradição cultural, é mais um que vai a Brasília todos os anos de cuia na mão para dizer ao governo federal que os municípios estão “falidos” e sem grana para manter as prefeituras em funcionamento.
Ouvi algumas reportagens jornalísticas dando conta que a Prefeitura de Irecê, antiga capital do feijão, pouco depois de Morro do Chapéu, estava com cachês previstos de vinte e um milhões de reais para pagar as atrações do show business, mas baixou para doze milhões depois de alguma intervenção do Ministério Público.
Aqui perto de nós, em Anagé catingueira, distante pouco mais de 50 quilômetros de Conquista, a notícia é de que o MP-BA recomendou a suspensão dos contratos firmados pela prefeitura para os festejos juninos.
O Ministério e os tribunais de contas do estado e dos municípios pedem esclarecimentos quanto aos contratos que estariam com indícios de irregularidades. Os órgãos estão solicitando relatórios fiscais e a comprovação da capacidade financeira do município.
É um verdadeiro derrame de dinheiro, com falcatruas, superfaturamentos e outros malfeitos, que ocorre nesse período junino, para bancar artistas do barulho, com letras chulas que nada têm a ver com as nossas raízes nordestinas.
As imagens televisivas passam megas estruturas de palcos que mais parecem com os shows do Rock Rio e Lolapalusa, tudo para receber os “artistas” da anticultura junina. Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco, já foram referências de São João autêntico pé de serra. Hoje, até o romântico Roberto Carlos foi convidado para jogar flores para o povão inculto dos shows business.
As indumentárias das quadrilhas, do tipo fazem de conta, mais parecem alegorias de escolas de samba. Trocaram o ritmo do maracatu e do forró, com a sanfona, o triangulo e a zabumbada, pelos rebolados dos arrochas, das lambadas, dos pagodes e dos sertanejos, com as guitarras, baixos e as baterias estridentes.
QUANDO SE CHEGA À VELHICE…
Falam muito da discriminação contra os negros, contra as mulheres (os misóginos), os LGBTS, os com problemas de deficiência física e mental, mas pouco quanto aos idosos. Vejo e leio muitas piadas e memes com o tom de sarcasmo e depreciação quando se chega à velhice.
Como a morte, que geralmente se esquece dela, enquanto tudo se faz e se arrisca por ambição para depois da vida nada levar, assim também ocorre com a velhice. Os jovens agem como se nunca fossem chegar a esse estágio e vê o idoso com certo menosprezo, embora nem todos.
Em meu entendimento, a maior idiotice e chacota é chamar o idoso de terceira idade, como se houvesse uma quarta, quinta, sexta e por aí vai. Uns dizem que é a “melhor idade”. Sinceramente, não me venham com essa! A melhor é a juventude quando bem aproveitada. Não vamos cair no sentimentalismo barato!
Pois é, meus amigos camaradas, nos tempos mais antigos, os filhos e familiares próximos tinham mais respeito com os idosos; ouviam seus conselhos e orientações; davam benção; cediam seus assentos nos ônibus; e cuidavam até a morte.
Nos tempos atuais, com as mudanças de conceitos, levados pelas modernagens, onde predominam o individualismo e o egoísmo na corrida pela sobrevivência pelo dinheiro e bens materiais, muitos entregam seus pais a um cuidador ou cuidadora, quando não sãos levados para um asilo e lá ficam esquecidos como objetos imprestáveis.
Quando se chega à velhice, os filhos não querem mais escutá-lo porque acham que o pai ou a mãe estão ultrapassados e arcaicos. Infelizmente, a nossa sociedade “moderna” se tornou mais desumana e até diria, cruel. São os novos tempos, com a inversão dos valores humanos!
Quando um velho esquece de algum fato, acontecimento ou de fazer algo, é porque está caduco e colocam logo a culpa na idade. Se acontece com um jovem ou alguém de meia idade, entre os 20 até os 60 anos, é normal. “Relaxa, isso ocorre com qualquer um”.
O idoso não pode ter nenhuma falha ou erro no trânsito que é logo discriminado. “É coisa da idade”. Não pode vacilar e cometer nenhum deslize porque algum idiota passa e aos gritos manda sair da rua e ficar em casa, sem falar nos xingamentos. Se houver um acidente com um idoso ao volante, mesmo que esteja certo e com razão, ele é o culpado.
– Sai da frente, meu tio – é assim o tratamento discriminatório. Idoso não pode avançar sinal, dar uma roubadinhas, estacionar torto ou coisa semelhante, senão leva aquelas “bordoadas” de palavrões. O motorista moço e imbecil pode fazer qualquer merda e ninguém se atreve reclamar ou xingar.
Quando saio com minha esposa (ainda não idosa), para resolver algum problema particular no banco, numa casa comercial ou repartição pública, observo que o atendente fica o tempo todo dirigindo mais a palavra a ela para explicar a questão, ou andamento do processo, como se eu fosse um senil que não entendesse nada.
É, meu amigo ou amiga, quando se cai na velhice, até parece que você não é mais gente, perde a razão e se torna um inútil. Imagina quando a pessoa é rica e tem um bocado de filhos gananciosos! Eles fazem logo um complô para interditar o velho ou a velha. É assim a vida, como ela é!
AS PAUTAS DA SESSÃO DA CÂMARA
Na sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista desta quarta-feira, a partir das 9 horas, vários projetos, propostas e requerimentos de interesse da população estarão em discussão.
Entre os destaques estarão em debate a preservação ambiental, sustentabilidade, acessibilidade e inclusão social, inclusive o projeto que institui o Programa Municipal de Implantação de Corredores Ecológicos, para conservação da fauna, flora e polinizadores, promovendo a integração entre áreas verdes e a proteção da biodiversidade de Conquista.
Será ainda apresentado o projeto que cria a Política Municipal de Guardiões da Cidade, destinada à conservação e valorização dos espaços públicos do município.
Na área da saúde estarão em pauta propostas, como a criação do Banco Municipal de Equipamentos para Reabilitação, garantindo acesso gratuito a equipamentos como cadeiras de rodas, muletas e andadores para pessoas em recuperação e reabilitação, além do Programa Calçada Acessível.
A sessão também contará com apreciação de projetos voltados à educação cidadã, valorização da cultura, dos símbolos municipais e nacionais, bem como do reconhecimento das quadrilhas juninas como Patrimônio Cultural e Imaterial de Conquista.
Serão apreciadas indicações encaminhadas ao poder executivo, moções de aplausos e de pesares a serem apresentadas pelos parlamentares conquistenses.
SARAU DEBATE “CASAS DE FARINHA”
A professora e doutora Marise Oliveira Santos foi a palestrante do “Sarau A Estrada”, realizado no último sábado (dia 13/06/2026), no Espaço Cultural do mesmo nome, com o tema “Casas de Farinha”. A professora fez um relato do seu estudo e pesquisa de doutorado sobre essas unidades produtivas no Planalto de Vitória da Conquista.
Os trabalhos do Sarau foram abertos por volta das 21 horas com o novo Hino do Sarau composto por Jeremias Macário e os músicos e cantores Dorinho e Baducha, com todos cantando o refrão “Avante, Avante, oh Sarau! / Estradeiros da Cultura/ de Mensagem Universal”.
Estiveram presentes ao evento cerca de 40 pessoas entre artistas, professores, estudantes, jovens e interessados pela cultura. Após os informes e comunicados, o cantor, compositor e músico Carlos Moreno nos brindou com sua cantoria num estilo romântico em homenagem ao Dia dos Namorados, 12 de junho e o de Santo Antônio casamenteiro (13/06).
Num estilo pedagógico, esclarecedor e simples, a professora Marise discorreu sobre o assunto lembrando dos seus antepassados que viviam dessa atividade.
Em sua tese de doutorado decidiu, então, levantar esta memória, um pouco perdida ao longo dos tempos, com o avanço do progresso onde hoje essas casas são todas motorizadas com as novas tecnologias.
Durante o bate-papo, a pesquisadora contou várias histórias de pessoas entrevistadas donas de casas tradicionais de farinha que ainda eram movidas totalmente pelo braço humano. Segundo ela, essas casas foram desaparecendo em decorrência da força do capital onde a pequena atividade familiar vai sendo esmagada para dar lugar aos grandes empreendimentos.
Durante as intervenções, muitos deram seus testemunhos de pais que também viveram desse ofício com suas casas de farinha artesanais, como o jornalista e escritor Jeremias Macário que lembrou de ter nascido e se criado dentro de uma casa de farinha.
Além de viver do plantio da mandioca e ser dono de casa de farinha, seu pai também era construtor dessas unidades, cujos aviamentos principais eram constituídos de parafusos, feitos da baraúna, prensa, roda de cedro puxada a dois, ralador da mandioca, coxos e o forno que torrava a massa e a transformava em farinha.
Em sua cultura tradicional, a professora ainda citou as raspadeiras, muito importantes no processo da farinha. Enquanto elas trabalhavam, faziam suas cantorias, contavam seus causos e fofocas. Esse lado cultural se encerrava quando a farinha estava pronta e aí entravam os beijus depois de um dia de labuta.
Após essa discussão, o sarau teve mais uma noite memorável na cantoria da viola, com os cantores e músicos Manno Di Souza, Baducha, Dorinho, Fabrício e Alex Nery. A viola foi intercalada com a declamação de poemas, inclusive sobre “Casa de Farinha”.
Num clima fraternal e de amizade entre os participantes, com a troca de conhecimento e saber, a festa cultural foi acompanhada dos comes e bebes típicos do período junino e varou a madrugada, como sempre acontece.
A comissão organizadora conduziu os trabalhos com maestria, composta por Cleu Flor, Dal Farias (cicerone), Viviane Gama e Eduardo Marques. Como parte das atividades culturais, tivemos ainda a exposição da artista plástica Beth David, com seus quadros representando a indumentária dos cangaceiros.
Na ocasião, Manno Di Souza e a escritora e poetisa Regina Chaves fizeram depoimentos emocionantes sobre as origens do sarau, que está completando, agora em julho, dezesseis anos de existência, as histórias, as acirradas discussões, o convívio entre as pessoas, os temas discutidos e a aprendizagem na troca de ideias.
Na oportunidade, Regina doou seus livros publicados, “Entre Palavras e Marés: Vozes Femininas” (Coletânia), “Escritas do Pensamento- o murmúrio das ideias em voz alta”, “Suspiros Poéticos- a beleza da lira cor”, e “Brisa Ventilando a Poesia” para o acervo do Sarau.
Manno Di Souza, um dos fundadores, lembrou de casos interessantes durante esse tempo, inclusive de que o sarau nasceu do grupo “Vinho Vinil” lá atrás, numa conversa com Jeremias Macário e o fotógrafo José Carlos D´Almeida entre um vinho e um petisco. Sua filha Maria Luiza foi uma das crias do Sarau ainda criança.
De lá para cá, o “Sarau A Estrada” cresceu, aumentou sua estrutura, inclusive com mais participantes, divulgou um CD de músicas e poemas autorais, vídeos, apresentou-se no Teatro Carlos Jheovah e até já recebeu o troféu Glauber Rocha. O próximo evento já está marcado para agosto, provavelmente no dia 22.

















