AS COISAS GRANDES FICARAM PEQUENAS E VICE-VERSA

  – Parceiro, tive que cortar uma estrofe e algumas frases porque ninguém escuta mais músicas longas nos dias de atuais. Tem que ser tudo pequeno e curto. É assim que a banda toca.

   No sentido contrário, isto me faz lembrar dos tempos dos grandes festivais dos anos 60 e 70 das músicas de Edu Lobo (Ponteio), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Geraldo Vandré (Disparada), Chico Buarque (A Banda), Gilberto Gil (Domingo no Parque) e tantos outros com suas longas letras de conteúdo social e político.

 A grande maioria do povo não quer mais saber e nem ouvir letras musicais cumpridas. A turma dos axés, dos arrochas, pagodes e sofrência tasca uma pequena estrofe e o resto é só barulho. A galera cai dentro e não sabe nem o que o cantor está falando. A mensagem não importa mais. A cabeça ficou pequena e nela só cabe pouca coisa.

  Observou que no mundo moderno e na era da tecnologia quase tudo é pequeno, a começar pelos chips onde suporta um montão de informações. Os microfones, os gravadores e outros aparelhos eletrônicos são manejados na ponta dos dedos.

  A cultura ficou pequena e curta, bem como os poemas de poucas linhas. O número de leitores de livros é pequeno e até a inteligência e o QI estão apequenando. Na literatura, prevalecem os livrinhos de no máximo 150 páginas. O conhecimento e o saber moram entre poucos. A cuca está estressada e não comporta mais textos grandes.

  – Seu áudio está muito longo e não tive tempo para ouvir todo. Fatia a fala – repreende o amigo. Raramente se usa o telefone e, quando acontece, tem que ser rápido no gatilho. O mesmo ocorre com as mensagens no celular. A palestra tem que ser pequena.

  As pessoas andam apressadas e os papos têm que ser curtos. Hoje é só um alô e raramente um bom dia. A grandeza de prosear, jogar conversa fora e contar causos ficou para os matutos sertanejos do campo, ou para os mais idosos.

  Diante de tantos problemas e na luta pela sobrevivência, seu bom humor ficou limitado e restrito. A pessoa se irrita com qualquer coisa e a paciência não é mais a mesma. “Não tenho mais paciência para aturar uma reunião”.

 – Porra, aquele cara é muito chato e conversa demais. Ninguém tem saco para ouvir sua prosa e suas histórias. Parece até que não faz nada na vida.

Quando amigos se encontram nas ruas dos grandes centros urbanos, mal dá para um dedo de conversa. Ambos estão na correria. Dizem por aí que até o tempo encurtou, porém, isso é pura ilusão. Ele continua na dimensão de sempre.

   Para os pobres e arremediados das classes médias baixas, o dinheiro está cada vez mais pequeno, a não ser que se faça falcatruas e malfeitos para crescer a grana. Por falar nisso, a honestidade, a ética e a seriedade reduziram de tamanho.

Da calçola, passou-se parra a calcinha curtinha. A cueca samba canção ficou cuequinha. O biquíni de antigamente virou tanga e fio dental, e até o amor ficou pequeno e passageiro. Casamentos que duravam anos, agora se acabam em poucos meses. A paz não é mais duradoura.

 – É meu camarada, vivemos no mundo das coisas pequenas e reduzidas, mas outras permanecem grandes e só aumentam, como o ódio e a intolerância, as guerras para vender armas, a concentração de renda nas mãos de poucos, as imbecilidades e os besteiróis, as violências, as ambições, as ladroagens, as bandidagens, os corruptos e as corrupções.

  Cresceram também o número de igrejas e fanáticos fundamentalistas, a extrema direita e esquerda caninas, o radicalismo e as metrópoles de milhões de habitantes amontoados nos arranha-céus, casebres e favelas.

  Enquanto isso, as florestas, as matas, os cerrados e as caatingas estão ficando pequenos e desérticos com o aumento da depredação ao meio ambiente. Ah, isso só faz aumentar, inclusive o consumismo.

   Temos hoje grandes temporais, enxurradas, ciclones, rajadas de ventos, deslizamentos de terras, incêndios, catástrofes e elevação das temperaturas com o aquecimento global, sem falar nos acidentes de trânsito e homicídios.