:: 25/jun/2026 . 23:43
FERIMENTOS DO MENINO
(Chico Ribeiro Neto)
Aquele menino tinha a maior vontade de quebrar o braço, mas só conseguiu quebrar a cabeça.
Achava lindo braço na tipóia, todo mundo perguntando como foi e as meninas assinando no gesso .
Quebrar o braço tinha muito mais charme, um deles era ter que escrever e comer com a mão esquerda. “Dói?” , perguntava uma garota, enquanto outra queria saber como é que é pra tomar banho. Mas eu não tive essa sorte.
Jogando “baba” nos paralelepípedos da rua Gabriel Soare,s, em Salvador, o menino arrancava a cabeça do dedão, ralava o joelho ou o cotovelo nas acirradas disputas da bola.
Uma vez, o menino deu um “banho de cuia” (o atual “chapéu”) em “Mondrongo'”, gritou “viu, puta?” e foi imprensado no muro pela raiva do adversário. Ganhou a disputa da bola e também um grande galo na testa com a porrada na quina do muro.
Aí veio um corte no pé. “Géo Beleza”, de saudosa memória, tinha uma catraia, um pequeno barco a remo, e fomos da praia do Unhão até o Forte São Marcelo. Dentro do forte, naquele tempo abandonado e com muito lixo, pisei num fundo de copo bem afiado que atravessou a sandália japonesa (atual havaiana) e me fez um bom corte na sola do pé.
Com a minha camisa, amarrei o pé que sangrava muito e voltamos a remo até o Unhão.
Minha mãe Cleonice tinha pensão, um dos hóspedes era estudante de Medicina e disse que eu não precisava tomar pontos. Fez com muito esparadrapo o que chamou de “ponto falso” e estancou o sangue. Fiquei puto, pois queria mesmo era tomar pontos pra ter mais o que contar.
Tudo se curava com Merthiolate e alguns gritos do ardor do medicamento. Aí a gente cresce e aparece o ferimento da alma, mais difícil de curar e pior do que um encontrão de “Mondrongo”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
LIXO E EDUCAÇÃO
Quando estava fazendo essas imagens degradantes de amontoados de lixo nos bairros Santa Terezinha e no Kadija, ambos às margens do Anel Viário, duas senhoras que passavam no momento desabafaram contra a falta de educação do povo que joga até animais mortos no local. “Situação ainda pior está próximo à horta comunitária do Kadija” – disse uma delas em tom de revolta. Para completar, muitos tocam fogo nas sujeiras e aí a fumaceira toma conta da pista, podendo provocar acidentes. Poucas vezes vi tanto lixo espalhado num mesmo lugar em Vitória da Conquista. São sacos plásticos cheios de restos de comida, entulhos, móveis e outros bagulhos que estão quase nas portas das casas mais próximas. Os moradores reclamam da invasão de ratos, escorpiões e todo tipo de insetos peçonhentos nas residências. A Prefeitura tem a sua parcela de culpa por deficiência na fiscalização (muitas vezes os carros de lixo deixam de passar nos dias marcados), mas a falta de educação das pessoas que despejam o lixo em terrenos vazios está em primeiro lugar. “Não adianta limpar porque no outro dia está tudo sujo novamente” – ressaltou uma moradora do Bairro Santa Terezinha que fica nas imediações dos Campinhos. Quer ver lixo, urubus comendo carniças em terrenos abandonados é só visitar as periferias da cidade onde estão os maiores focos de doenças, a começar pela dengue. No final da Avenida Sérgio Vieira de Melo, por exemplo, no Loteamento Sobradinho, o lixo e o mato alto já estão invadindo parte do asfalto.
PASSARINHO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando ainda menino,
Campestre nordestino feliz,
Queria ser um passarinho,
Voar livre por aí
Entre o colorido das araras,
Construir meu ninho,
Nas densas matas raras;
Bailar nas ondas do ar,
E cantar como o sabiá.
Depois de pássaro passarinho,
Um cawboy do faroeste,
Mais rápido gatilho do Oeste.
Hoje, no tic-tac do tempo,
Que não sou mais passarinho,
Lembranças de jovem farrista,
Vou no gemido do vento,
Nos sonhos de um idealista.
De alma dura e rústica,
Como o árido do sertão,
Levando reboadas da vida,
Não sou romântico na canção;
Tenho meu jeito de chorar,
Nas artérias do meu coração,
Em meu recanto sozinho,
Vejo só injustiças de matar,
Não mais como passarinho.
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