junho 2026
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

:: 29/jun/2026 . 23:39

A “SUÍÇA BAIANA” E O “HAITI”

Devo ser burro mesmo! Demorei muito tempo para compreender o porquê de terem apelidado Vitória da Conquista de a “Suíça Baiana”. Havia muita coisa que não batia em minha cachola nordestina e terminei desvendando esse encantado mistério elitista e estilista.

Na verdade, deve ser em referência à Zona Leste onde a classe social é mais alta e possui melhor estrutura em termos de equipamentos nas áreas da educação, da saúde, da economia e da cultura.  As decisões políticas sempre partem de lá, a menina dos olhos dos prefeitos e políticos.

A cidade está dividida em duas pela Avenida Integração (a Presidente Dutra), ou Desintegração mesmo. A Zona Oeste, na boca do sertão catingueiro, é o “Haiti” pobre, separada da bela e desenvolvida “Suíça Baiana”.

A chamada “Integração” é como uma fronteira entre dois países, um dos primos ricos e o outro dos pobres. Poderia até colocar um Posto, ou Alfândega, no antigo prédio do Ibama (tanto que seja reformado), com a exigência de Passaporte ou Visto de entrada, com limite de permanência documentada.

– É, meu amigo, seu Visto aqui já está vencido. Precisa atualizar, mas vou deixar passar só esta vez – diz o guarda do Posto em tom de intimidação e desdém. Ainda interroga o que o moço (a) vai fazer do outro lado, se a negócio ou a turismo.

Na “Suíça” daqui é onde está localizado o maior PIB (Produto Interno Bruto) do município, com a concentração das maiores lojas e empresas de prestação de serviços, a Prefeitura Municipal e suas secretarias, duas universidades, uma estadual e outra federal, sem contar as faculdades dos ricos, o Centro Estadual de Cultura, o Parque de Exposições que agora sedia a festa do São João descaracterizado, dentre outros equipamentos de importância.

É lá também onde estão a praça mais bonita e bem cuidada, a Olívia Flores, o Candeias e adjacências, com seus bares, restaurantes e cafés mais chiques e caros, as adegas de vinhos, as livrarias, o Centro de Convenções Divaldo Franco, as rádios e os canais de televisão, os dois shoppings center, os melhores supermercados, o sistema financeiro bancário, a Biblioteca e o Arquivo Municipal, a Câmara de Vereadores, os dois museus que não são municipais, o Cristo da Serra do Periperi e os principais comitês partidários.

No “Haiti” do Oeste é bem visível a desigualdade social por metros quadrado, a começar pelos bairros mais periféricos e pobres, inclusive geradores de violência onde temos o Batalhão da Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. Os jardins são maltratados, predominando mais lixo e matagais de terrenos abandonados.

Também não é tanto assim cara pálida! Temos aqui algumas coisas de destaque, como o IFBA, o Espaço Glauber Rocha subutilizado, um hospital maternidade, a Lagoa das Bateias que há pouco tempo era só lama e esgoto, o Colégio Caic, o SESC, o Seminário dos Capuchinos, algumas avenidas como a Frei Benjamim, A Sérgio Vieira de Melo, a Paulista, a tradicional Feirinha do Bairro Brasil e a Feira do Rolo.

Como sou meio rebelde e o meu padrão não mais se adequava ao “país” dos endinheirados, fui expulso da “Suíça Baiana”, mas de ousado trouxe o Espaço Cultural e o nosso Sarau A Estrada para o “Haiti”, que continua firme e até vai realizar um evento do lado de lá. Estamos até solicitando o passaporte para nos apresentar na “Suíça” da Praça Nove de Novembro.

Agora me sinto em meu devido lugar e até realizado em ver de perto minhas origens agrestinas do Nordeste. A “Suíça” de lá tem mais uma cara sulista ou de centro-sul. Muitos até nem se consideram nordestinos. Ah, ia quase esquecendo de lembrar que a maioria dos estradeiros do sarau é da “Suíça” e atravessa a fronteira para as nossas noites culturais.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia