Esse negócio de beber muita água, bem que a ciência – naquela época não era tão evoluída assim – poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887/89, 1913/14, 1919/20, 1932/33 e tantas outras onde não caia um pingo do céu, sem contar que não havia comida, a não ser raízes dos umbuzeiros e polpas dos mandacarus.
O sertanejo do agreste catingueiro deveria ter uma barriga de pedra, adaptada para resistir a falta de água e alimento. Não tinha nem lama nas cacimbas e tanques para ingerir, mas estou aqui para falar mesmo sobre os ladrões de cavalos na região.
É que de tanto ler sobre o Nordeste, me veio esse assunto na “telha”, aquela de cerâmica feita do barro verdadeiro da terra que dá boa liga, não a de zinco e plástico. As “telhas” de hoje são mais de materiais sintéticos, substâncias que transmitem uma série de doenças, inclusive cancerígenas.
No velho Nordeste, ladrão de cavalo (jumento, burro, mula), vaca ou bode, era considerado o indivíduo mais abominável do que o assassino ou homicida, principalmente quando atuava em legítima defesa e por vingança.
Como praticamente não tinha justiça numa terra de ninguém, o ladrão de cavalo era sentenciado à morte, sem dó e compaixão e poderia ser até de forma cruel como nos tempos primitivos. Não havia perdão e era um crime intolerável no sertão.
Os cangaceiros, por exemplo, atiravam em quem os chamassem de ladrões de cavalos. Eles diziam que tomavam emprestado para depois devolver os animais. Roubar uma rês no pasto do outro era uma guerra para o fim do mundo, e muitas brigas entre famílias começaram assim.
Como no Nordeste, no Velho Oeste norte-americano, durante o século XIX, conforme relatam os filmes de faroeste, também bandido ladrão de cavalo tinha que ser imediatamente executado na forca. Era visto como elemento de baixo nível, um ser desprezível e nojento. Ladrão de cavalo era reconhecido de longe até pela sela do animal.
O cauboy entrava na cidade ou vila, amarrava o cavalo no mourão e entrava no salon para tomar um uisque ou jogar um carteado. Alguém saia de fininho e ia logo avisar ao cherife que tinha um ladrão de cavalo no bar.
Com o desenvolvimento e a evolução do Nordeste, que os tirou do isolamento profundo, essa categoria tornou-se rara, a não ser os intermediários dos frigoríficos que matam esses equinos para vender suas carnes e couros para a China.
Esses meliantes furtam na calada da noite e ficam impunes. O jumento, por exemplo, símbolo da força, da resistência e da cultura popular nordestina, é uma espécie em extinção. Os governantes fazem de conta que nada está acontecendo. Fazem vistas grossas.
– Fica você aí falando de ladrões de cavalos, coisa do passado, de gente caduca, enquanto a nação está sendo depenada pelos ladrões dos cofres públicos, não por gente “pé rapada”, mas por poderosas quadrilhas sofisticadas, protegidas por uma rede de advogados e até chefes políticos mancomunados.
– É, meu camarada, até que você tem razão e digo mais que esses sujeitos safados nem são tão execráveis como os antigos ladrões de cavalos. Ninguém importa mais com seus crimes, de tão comum que se tornaram, e milhões até votam neles nas eleições.
Só para não perder o fio da meada, imaginou se os corruptos de hoje, que deixam milhares famintos, sem educação, saúde, assistência social e um rastro profundo de desigualdade social fossem tratados como os ladrões de cavalos no antigo Nordeste? Não ficava um, meu irmão. Seriam mortos a pauladas e pedradas.
– Aí, meu amigo, se Cristo fosse vivo, poderia intervir e dizer, levanta a primeira pedra quem nunca pecou! A grande maioria dos brasileiros teria que jogar suas pedras fora e dar meia volta de cabeça baixa, envergonhados.