As décadas de 20 e 30 do século XX foram os anos mais difíceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opressão dos coronéis fazendeiros, dos chefes políticos, a perseguição dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas à procura de melhorias para matar a fome.
Com esses flagelos da violência humana e da natureza, os sertanejos ficavam acossados e, sem muitas opções de sobrevivência, muitos partiam para ser soldados ou coiteiros dos bandos de Lampião, que se tornou conhecido até nos Estados Unidos através do jornal The New York Times, que o considerou como o mais famoso bandido da América Latina.
Entre o final dos anos 20 e até meados dos 30, a Bahia foi um dos estados nordestinos mais atingidos por esses fatores, principalmente por parte da seca e do cangaço quando Lampião aqui chegou de mansinho e falando de paz em 1928. Sem recursos do Estado para combater a truculência dos cangaceiros, os sertanejos passaram a viver numa terra de ninguém.
Esse cenário de sofrimentos é mostrado pelo autor do livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler, principalmente no capitulo “A Campanha e os Coiteiros”.
A situação tornou-se ainda mais crítica com a Revolução de 30 e prosseguiu nos anos 32/33 com a Revolução Constitucionalista de São Paulo e quando o Nordeste sofreu uma de suas piores secas da sua história. Com estas revoluções, grande parte do policiamento foi requisitada pelos comandos, deixando vilas, povoados e cidades desprotegidos.
A campanha contra o cangaço na Bahia começou em outubro de 1931, isto depois de Lampião ter praticado muitas invasões nas regiões de Jeremoabo, Queimadas, Senhor do Bonfim, Jacobina, Morro do Chapéu, arredores de Juazeiro, Curaçá e vizinhanças de Uauá.
Início de 1932 começou com um desastre, no Raso da Catarina, em Maranduba, sob o comando do tenente Liberato de Carvalho. Nesse combate, cinco soldados morreram e mais de dez ficaram feridos, muitos dos quais vieram a falecer depois.
Durante toda campanha, a questão sempre se esbarrava na falta de recursos, bem como na rede de coiteiros mantidos por Lampião, no tráfico de armas e munições que envolvia “coronéis” e oficiais da própria polícia.
DOIS TIPOS DE COITEIROS
Na classificação do escritor Billy, havia dois tipos de coiteiros. O primeiro constituído por fazendeiros, negociantes e chefes políticos ricos, caso do coronel João Sá (Jeremoabo), que ajudavam Lampião por necessidade, visando proteger suas propriedades e bens. Esse grupo gozava de imunidade na polícia e na justiça, mesmo depois da Revolução de 30.
O segundo tipo de coiteiros consistia de vaqueiros, moradores, lojistas e comerciantes dos povoados que tinham pouca influência e ficavam entre a cruz e a espada. Esse pessoal sofria extorsões, torturas e roubos nas mãos da polícia. Nessa encruzilhada, o sertanejo não tinha muita opção, ou decidia ser coiteiro ou soldado.
Esta segunda classe, composta dos mais pobres, era chamada de “coiteiros de pé no chão” e sofria mais nas mãos da polícia do que nas dos cangaceiros. Estes coiteiros tinham medo dos cangaceiros e eram obrigados a fazer seus serviços porque não contavam com a proteção policial. “Uma consequência inevitável dessa situação, era a onda de violência que muitas volantes deixavam em sua passagem” – relata o escritor.
Os abusos da polícia eram constantemente noticiados na época pelos jornais nordestinos e até do Rio de Janeiro. O sertão se transformou num quadro de horror com espancamentos e roubos de animais pela polícia. Enquanto isso, os bandos de Lampião sempre levavam a melhor e depois se recolhiam aos seus esconderijos.
“Pode acreditar que hoje, no sertão, já se tem mais alegria quando Lampião chega à porta do que a simples notícia de que as forças se aproximam” – disse um fazendeiro de Sergipe, referindo-se à polícia da Bahia. “A brutalidade das tropas era atribuída, sem dúvida, à frustração e raiva, mas é evidente que a violência, em muitos casos, era empregada deliberadamente” – enfatizou o escritor Billy Chandler.
Outro fator que contribuiu para esse quadro de terror da campanha era a própria natureza dos soldados, quase todos analfabetos e ignorantes, sem contar que seus soldos eram baixos e recebiam com atrasos de meses.
Era necessário escolher um lado ou outro. Muitos se alistavam para ter um emprego, e outros, inclusive criminosos, eram forçados para escapar da pena, caso de Zé Calu, de Água Branca, em Alagoas.
A força mais temida pelos sertanejos era os chamados “nazarenos” do povoado pernambucano do mesmo nome, uma mistura de soldados, milicianos e voluntários que sempre perseguiram Lampião enquanto vida.
Por sua vez, Lampião tinha seu lado cruel, bondoso e até justiceiro, a depender de quem era seu amigo e atendia seus pedidos, ou seu inimigo que não tinha perdão. Se é para matar, mata logo, dizia aos seus companheiros e acrescentava que cometia suas atrocidades para ser respeitado.
Grande parte da fama de Lampião foi construída pela imprensa, inclusive se tornou célebre no exterior. Como ele tinha vários bandos e amigos fazendeiros, chegou-se ao ponto que muitos sertanejos aliados seus, quando precisavam se locomover de uma região para outra, carregavam um “passe”, tipo passaporte, assinado pelo “rei do cangaço”. Quem tinha esse “passe” não era importunado.