A cracolândia em frente ao Centro POP de Vitória da Conquista, na “Conquistinha”, não é coisa de hoje, existe há uns quatro anos, mas o caso só veio à tona agora quando o pessoal saiu quebrando carros e fazendo outras arruaças nas ruas.
Desde o início atende moradores de rua e andarilhos, começando com a distribuição de 30 quentinhas. O movimento foi crescendo e se transformou numa cracolândia, com a entrega de carca de 120 quentinhas. A grande maioria é viciada em drogas com sérios problemas sociais e familiares.
Onde existem drogados, existem traficantes. A violência tomou tal proporção que se ouve falar da boca de usuários que tem gente enterrada na matinha que fica nos fundos do Centro POP. Onde tem fumaça, tem fogo, e isso precisa ser investigado. Quem manda no Centro é essa gente, porque os funcionários temem ser violentados. O problema é mais grave do que se pensa.
O interessante é que essa massa de excluídos, não somente em Conquista, que até praticam delitos e são violentos, foram crias desse sistema elitizado burguês que nunca aceitou fazer distribuição de renda para a melhoria social e redução das desigualdades.
RELOCAR NÃO É A SAÍDA
No entanto, essa mesma sociedade hipócrita se levanta de “armas nas mãos” quando se sente incomodada e ameaçada. Não sei se é burrice, ou propósito intencional mesmo, os moradores e empresários das imediações sugeriram relocalizar o Centro POP.
Ora, quer dizer que a solução é tirar a unidade dali e jogar para bem longe, num bairro qualquer da periferia ou dentro do mato, como se dissessem: Os pobres que se lasquem. Não é mais o nosso problema. Eles lá que resolvam suas merdas.
Essa medida só faz transferir o problema de um lugar para o outro, livre do centro burguês que não quer ser em nada incomodado em seus negócios. A maioria está mais preocupada com as notícias ruins que vão gerar para a “Suíça Baiana”. Relocar não é a saída, nem solução.
Boa parte dos conquistenses, principalmente empresários e políticos em geral, não gosta, detesta e critica quando a mídia divulga notícias ruins, de cunho negativo, achando que mancha a imagem da cidade. Só quer elogios e que se jogue o lixo para debaixo do tapete.
Essa reação é histórica e digo isso com propriedade, pois sofri muitas hostilidades quando exerci a chefia da Sucursal A Tarde. Concordo com o empresário José Maria Caires em muitas coisas, mas, como em toda cidade grande, o pobre vive suas agruras e temos nossas mazelas também. Aqui não é o paraíso.
Tem que se buscar uma solução para o problema, mas não simplesmente relocar o Centro para as periferias. Criar casas de atendimento terapêutico sim, bem como, reforçar o efetivo policial para combater o traficante na ponta. Os empresários só estão preocupados com seus negócios? E os moradores da comunidade local, como ficam?
Será que o setor privado topa fazer uma parceria com o poder executivo no sentido de criar uma Casa de Recuperação, em Conquista, destinada a moradores de ruas e drogados? Existem as unidades religiosas do Creame e o Centro de Referência do padre Gilberto, em Barra do Choça, mas não são voltados para atender esse tipo específico de clientela.
ASSISTÊNCIA SOCIAL
Sobre toda esta questão, vamos aos fatos quanto aos serviços de assistência social prestados pelo poder público, no caso a Prefeitura Municipal, cuja prefeita é Sheila Lemos, com subvenções de recursos da parte estadual e federal.
Na área da assistência social, temos o Abrigo, infestado de percevejos, no Bairro das Filipinas, que atende uma média de 30 pessoas que jantam, dormem e tomam café da manhã. Por volta das oito horas são obrigados a sair e só retornam às 16 horas. É bom lembrar que nem todos são de Conquista. Tem muita gente da região e até de outros estados.
Muitos são drogados e até com passagens pela penitenciária. Um grupo vai para o Centro POP e outros ficam nas ruas vendendo doces e objetos nas sinaleiras, não se envolvendo em bebedeiras e confusões. Alguns praticam furtos e são viciados em bebidas e drogas.
Além do Abrigo, existe o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), também na Filipinas, com atendimento psicológico e psiquiátrico a portadores de transtornos mentais graves, inclusive para drogados. Acontece que o período de permanência para um drogado é de apenas 14 dias.
Não é preciso ser especialista no assunto para entender que é impossível um viciado se recuperar em apenas 14 dias. Portanto, é um trabalho de enxuga gelo e recursos do SUS jogados fora. É o tipo faz de conta que trata.
Esse drogado, muitas vezes, sai do CAPS e entra no Abrigo que fica ao lado, com direito a 30 dias de moradia. Com apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Assistência Social, existe a Casa do Andarilho que funciona no Conveima, praticamente com as mesmas funções, mas de estadia mais rápida.
Com suas vistas turvas pelo avançado do tempo em exposição à luz fumacenta do candeeiro, lembro da minha mãe tentando, por várias vezes, passar a ponta da linha pelo fundo da agulha, para remendar as velhas calças puídas do meu pai, desgastadas pelas labutas da roça.
Lambia o fio várias vezes com as salivas da boca e ficava impaciente, bradava e, por fim, nos pedia para passar a linha. “Êta homem desleixado, esta calça já não suporta mais remendos e ele sempre insiste em tapar os buracos. Esta calça virou um molambo” – desabafava, mas terminava fazendo mais e mais remendos.
Quando citam aquela parábola, ou metáfora de Cristo, escrita pela Bíblia, feita pelos homens (nem sei se Ele disse isso), de que era mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, sempre recordo da minha mãe com sua briga entre a agulha, seu buraco e a linha.
Muitos religiosos interpretam ao pé da letra. A agulha era um portão estreito das fortificações dos reinos e Ele não quis dizer que o rico ia para os quintos dos infernos. Tudo indica que se referia aos avarentos, soberbos e exploradores dos pobres.
Desde o princípio da fundação do cristianismo, lá pelos anos 300, a cultura da Igreja Católica sempre foi de consolar o pobre, ser temente a Deus, a tudo aceitar com resignação e sofrimento, pois teria a recompensa dos céus. Era a cultura do comodismo.
Mas, voltando ao assunto dos remendos nas roupas e da dificuldade da minha mãe, com suas vistas curtas, em ter que passar o fio no buraco da agulha, essas coisas não existem mais nos tempos de hoje. Nem o povo roceiro trabalhador do campo faz mais isso.
Nada de remendos, com as facilidades nos tempos atuais e a onda do consumismo, até o sertanejo está sempre renovando suas vestimentas, e as esposas não precisam fazer esse trabalho de ficar passando a linha no funda da agulha para costurar os rasgões.
Quanto ao meu velho pai, naquela época, quando a calça estava nas últimas, sem lugar para mais remendos, de tanto minha mãe reclamar, ele juntava uns trocados e comprava uma “fazenda de pano”, um brim ou uma mescla, como assim era chamado.
Ficava alegre quando ia à feira ao sábado ou domingo e comprava um corte de calça na loja ou na banca de um mascate. Era uma satisfação danada e estava sempre mostrando o tecido. Apreciava sua textura e a cor por várias vezes.
– Amanhã cedo vou levar ao seu “Tonho”, o alfaiate das redondezas, para fazer uma calça. Esse pano é bom e bonito – repetia até enjoar. Ficava em pé com esmero para o costureiro tirar as medidas certas e fazia mil recomendações. Procurava saber o dia que o serviço ficava pronto e contando os dias.
Ah, quando sobrava uns trocados a mais, ele adquiria dois cortes de “fazenda”. Um mais rústico era para a labuta na roça e enfrentar os garranchos. O outro era para uma festa, uma visita aos compadres e, principalmente, para ir à missa na cidade ou nos povoados.
Quem ficava mais contente com isso era minha pobre mãe, pois ia, pelo menos, passar um certo tempo sem ter que ficar tentando, por várias vezes, passar o fio da linha no fundo da agulha para remendar a calça, ou a camisa.
Para quem não tem uma visão boa, não é fácil enfiar a linha no fundo da agulha. Não resta dúvida que é um desafio, assim como outros na nossa vida do dia a dia. Mesmo esbravejando, minha mãe não desistia e, às vezes, pedia ajuda. Hoje temos outros obstáculos a enfrentar e muitos desistem nas primeiras dificuldades.