Com suas vistas turvas pelo avançado do tempo em exposição à luz fumacenta do candeeiro, lembro da minha mãe tentando, por várias vezes, passar a ponta da linha pelo fundo da agulha, para remendar as velhas calças puídas do meu pai, desgastadas pelas labutas da roça.

  Lambia o fio várias vezes com as salivas da boca e ficava impaciente, bradava e, por fim, nos pedia para passar a linha. “Êta homem desleixado, esta calça já não suporta mais remendos e ele sempre insiste em tapar os buracos. Esta calça virou um molambo” – desabafava, mas terminava fazendo mais e mais remendos.

  Quando citam aquela parábola, ou metáfora de Cristo, escrita pela Bíblia, feita pelos homens (nem sei se Ele disse isso), de que era mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, sempre recordo da minha mãe com sua briga entre a agulha, seu buraco e a linha. 

  Muitos religiosos interpretam ao pé da letra. A agulha era um portão estreito das fortificações dos reinos e Ele não quis dizer que o rico ia para os quintos dos infernos. Tudo indica que se referia aos avarentos, soberbos e exploradores dos pobres.

  Desde o princípio da fundação do cristianismo, lá pelos anos 300, a cultura da Igreja Católica sempre foi de consolar o pobre, ser temente a Deus, a tudo aceitar com resignação e sofrimento, pois teria a recompensa dos céus. Era a cultura do comodismo.

  Mas, voltando ao assunto dos remendos nas roupas e da dificuldade da minha mãe, com suas vistas curtas, em ter que passar o fio no buraco da agulha, essas coisas não existem mais nos tempos de hoje. Nem o povo roceiro trabalhador do campo faz mais isso.

  Nada de remendos, com as facilidades nos tempos atuais e a onda do consumismo, até o sertanejo está sempre renovando suas vestimentas, e as esposas não precisam fazer esse trabalho de ficar passando a linha no funda da agulha para costurar os rasgões.

   Quanto ao meu velho pai, naquela época, quando a calça estava nas últimas, sem lugar para mais remendos, de tanto minha mãe reclamar, ele juntava uns trocados e comprava uma “fazenda de pano”, um brim ou uma mescla, como assim era chamado.

   Ficava alegre quando ia à feira ao sábado ou domingo e comprava um corte de calça na loja ou na banca de um mascate. Era uma satisfação danada e estava sempre mostrando o tecido. Apreciava sua textura e a cor por várias vezes.

   – Amanhã cedo vou levar ao seu “Tonho”, o alfaiate das redondezas, para fazer uma calça. Esse pano é bom e bonito – repetia até enjoar. Ficava em pé com esmero para o costureiro tirar as medidas certas e fazia mil recomendações. Procurava saber o dia que o serviço ficava pronto e contando os dias.

   Ah, quando sobrava uns trocados a mais, ele adquiria dois cortes de “fazenda”. Um mais rústico era para a labuta na roça e enfrentar os garranchos. O outro era para uma festa, uma visita aos compadres e, principalmente, para ir à missa na cidade ou nos povoados.

   Quem ficava mais contente com isso era minha pobre mãe, pois ia, pelo menos, passar um certo tempo sem ter que ficar tentando, por várias vezes, passar o fio da linha no fundo da agulha para remendar a calça, ou a camisa.

Para quem não tem uma visão boa, não é fácil enfiar a linha no fundo da agulha. Não resta dúvida que é um desafio, assim como outros na nossa vida do dia a dia.  Mesmo esbravejando, minha mãe não desistia e, às vezes, pedia ajuda. Hoje temos outros obstáculos a enfrentar e muitos desistem nas primeiras dificuldades.