Há uns 40 ou 50 anos, o 1º de Maio era comemorado no Brasil com grandes manifestações e protestos nas avenidas e praças, com bandeiras, faixas e cartazes onde a ordem era o grito de reivindicações por melhorias trabalhistas. Além de trabalhadores, intelectuais e artistas, os estudantes se uniam por uma mesma causa.
Com o tempo, as elites burguesas empresariais, lideradas pelos políticos, esfacelaram os movimentos, enfraqueceram os sindicatos e as centrais com suas reformas escravagistas. Nos últimos anos temos uma comemoração pálida e fora de tom, com shows musicais, comilanças de churrascos, distribuição de prêmios, corridas de maratonas e festas de lazer nos parques.
Poucos grupos ainda se reúnem para reviver aquele passado que seguia e ainda segue o mesmo ritmo dos movimentos reivindicatórios espalhados por várias partes do mundo, com ordens de justiça social e menos exploração da mão-de-obra.
É triste de se ver o 1º de Maio do Brasil de hoje, com sua cara alienada, recolhida e oprimida em seu canto, com alguns eventos desafinados em relação à data maior do trabalhador, onde é o patrão que dita as regras, e os operários, sem uma representação digna, baixam humildemente a cabeça.
Bastam ver as imagens das manifestações nos países europeus, asiáticos e outros continentes e compará-las com as do nosso país. A diferença é gritante. Até parece que aqui vai tudo bem e é um paraíso do bem-estar, da igualdade social e da valorização do trabalhador.
O ponto principal é o fim da escala 6 por um (milhões de funcionários públicos já têm a escala 5 por dois), como se o resto estivesse em mil maravilhas. Milhões vivem na informalidade, outros milhões trabalhando sem carteira assinada e ocupando várias funções, num regime forçado de escravidão.
É bem verdade que temos mais mulheres no mercado de trabalho dando duro para ganhar o pão de cada dia, mas recebendo menos que os homens que já têm um salário mínimo e trabalham mais. Quando falo de mulheres, não quero aqui entrar no mérito da cor da pele. Prefiro voltar meu olhar para a meritocracia e a capacidade.
O Ministério do Trabalho só se ocupa de divulgar estatísticas, muitas delas maquiadas. Não existem mais agentes nas cidades para fiscalizar as empresas urbanas e rurais. Os acordos são ditados pelo capital selvagem, os intermitentes ganham umas migalhas de vez em quando e o trabalhador se submete aos ditames dos senhores para não perder o emprego.
O quadro é desolador e não adianta aqui colocar pontos de vistas ideológicos marxistas, com pensamentos acadêmicos intrincados que poucos vão entender. Melhor estampar o quadro da realidade brasileira do atraso, da submissão, dos discursos arcaicos que destoam de um povo que parece ter se entregado à própria sorte, tendo como âncora a religião do Deus que assim quis.
Só para dar minhas últimas pinceladas, o Dia do Trabalho surgiu em 1886, nos Estados Unidos (hoje humilhado e vivendo sob um regime autoritário), após uma greve geral em Chicago onde milhares de trabalhadores exigiam a redução da jornada para oito diárias. Na época chegavam a 17 horas. O movimento ficou marcado pela repressão com mortes e prisões. Foi a chamada Revolta de Haymarket.
Na verdade, foi a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, em 1889, que transformou o 1º de Maio em um dia de manifestação internacional pela redução da jornada de trabalho e homenagem aos mártires de Chicago. No Brasil só foi oficializado em 1924 (sempre estamos atrasados) pelo presidente Artur Bernardes e ganhou força na Era Vargas.