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:: 25/maio/2026 . 22:05

VISÕES DE UMA CASA DE FARINHA

   Quando escolheram o tema “Casa de Farinha” para o próximo debate do “Sarau A Estrada”, marcado para o dia 13/06, brotou dentro de mim as visões dos tempos de menino. Posso dizer que nasci e me criei dentro de uma casa de farinha, aquela bem tradicional e artesanal do “Caldeirãozinho” do sertão de Piritiba.

 – Cumpade, o aviamento mais difícil e complicado para se fazer dentro de uma casa de farinha é o parafuso. A madeira tem que ser de baraúna tipo rosa legítima e não é toda árvore que serve – dizia meu pai, que era lavrador, carpinteiro, marceneiro e construtor de curral e casa de farinha.

  Com seu facão, machado, espingarda e no bornal carne seca, rapadura, farinha e água, ele se embrenhava numa mata para encontrar uma baraúna de lei. Às vezes, retornava da sua “caçada” ao entardecer e voltava no outro dia. Dizia que o pau tinha que ser bem roliço.

   Era um ritual demorado e quando encontrava pedia licença ao curupira, o protetor das florestas, para derrubá-lo. Com o machado, deixava no tamanho certo para esculpir o parafuso com o formão, de maneira a encaixar bem na peça de rosca, para apertar a prensa que poderia ser de pau ferro ou pau d´arco. Na parte inferior, um furo, para realizar o aperto com um porrete resistente. O parafuso tinha que ser bem sebado.

 Os outros equipamentos também formavam um conjunto importante para fazer funcionar a casa de farinha. A casa, a mais simples possível, (nada de motor) era no estilo de um galpão com telhas de cerâmica. Os vãos ficavam abertos.

  Em dia de casa de farinha, logo cedo chegavam as raspadeiras com suas facas afiadas nas mãos para a labuta da raspa. Era a atividade mais divertida, embora cansativa, porque durante a limpeza das mandiocas rolavam cantorias e as fofocas entre as comadres.

– E aí, comade, Josefa apanhou barriga com um rapaz de São Paulo. Ficou mal falada. O velho era exigente e não gostava muito de raspadeira tagarela e dava pressa ao trabalho.

  Logo na entrada, numa parte mais elevada, como se fosse um palanque de adobe, era colocada a roda que poderia ser de cedro com uma abertura em torno dela para encaixar o reio ligado ao ralador de pequenas serras para ralar a mandioca. Com duas pequenas alavancas, a roda era puxada em parceria de dois homens, no compasso da cantoria. O arrasto tinha que ser afinado.

   O ralador, assentado numa mesa e embaixo um coxo para receber a massa da mandioca, era o mais perigoso. Qualquer descuido da mulher poderia ser fatal e ter sua mão tragada pelas serras dentadas.

  A raladeira precisava ser experiente, ligeira e atenta. Uma raiz ia empurrando a outra. Depois de toda ralada, a massa ia para o cocho da prensa com uma tampa apertada pelo parafuso até extrair toda água, a chamada manipueira.

  Sem o forno a lenha, com pedras sabão ou mó, geralmente construído de barro, com duas ou três bocas, em direção ao poente, não havia farinha. Depois de classificada a massa através das peneiras, entrava o puxador de rodo, pra lá e pra cá, até a farinha ficar torrada no ponto ideal.

  A farinha do seu Mateus era considerada a melhor de toda região, bem fina e com bastante tapioca. Ah, não podia tirar muita tapioca para fazer beijus, senão ele esbravejava! Era ranzinza nesse ponto, e ele mesmo fazia questão de cuidar desses detalhes do processo.

  Como era ainda pequeno, cinco ou seis anos de idade, minha tarefa era puxar os jumentos com os caçuás, da casa de farinha até a roça e vice-versa. As próprias mulheres descarregavam e eu não podia demorar no caminho, senão levava um tabefe.    

    O bom mesmo era quando caia o entardecer, na boca da noite, quando toda aquela trabalheira chegava ao fim com a farinha ensacada nos sacos de 50 quilos. Minha mãe que tudo fazia, aproveitava as pedras quentes do forno só em brasas para espalhar a beijuzada.

  Ai, era só alegria e todos entravam na prosa até altas horas da noite. Era só jogar conversa fora sobre causos e histórias de valentões e coronéis. Ficava assuntando e, mesmo cansado da labuta, não cochilava. Gostava de ouvir aquela gente simples da roça proseando.

  Rolavam os próprios causos das casas de farinhas. Muitos diziam que eram mal-assombradas. Como a residência era sempre próxima da casa de farinha, uns contavam que no silêncio da madrugada ouvia-se falatórios, mulher raspando mandioca e até a roda rolar sozinha.

 – Vocês não têm nada para fazer e ficam aí contando lorotas. Não existem fantasmas! São coisas dessas cabeças ocas que ficam inventando essas trabuzanas – afirmava o meu pai, dizendo que nunca tinha visto nada, mas minha mãe confirmava que ouvia.

 Adorava ouvir aquelas prosas dos adultos tabaréus ou matutos, muitas eram lendas e outras verdadeiras. Assim era a vida de um dia de uma casa de farinha. No sábado era só levar os produtos para a feira de Piritiba. No domingo era a vez do distrito de Andaraí.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





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